quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O abraço
(1917)
Egon Schiele


BALAIO PORRETA 1986
n° 2893
Rio, 7 de janeiro de 2010

Não, ela não terá os prazeres do vício e as honras da virtude [Rousseau]. Não me basta possuí-la, quero que ela se me abandone.
(Choderlos de LACLOS. As ligações perigosas, carta 110, 1782)


Repeteco / Memória 1894
INSTRUÇÕES E CONSELHOS PARA A JOVEM NOIVA
Sra. Ruth Smythers
[ Esposa do reverendo L. D. Smythers,
pastor da Igreja Metodista Arcadiana da Congregação Leste,
de Nova York ]

Trad. Walter Cardoso Franco

Texto impresso e distribuído em 1894,
parcialmente divulgado pelo Balaio, nº 232, de 8/8/1990,
a partir de sua publicação na revista gaúcha Dundum

Atenção:
Por ser um um texto relativamente longo
para os padrões do Balaio,

resolvemos destacar em vermelho
as partes que nos parecem mais interessantes.


Para a jovem e sensível moça que alcançou o privilégio de crescer e chegar ao casamento, devemos dizer que este dia é, ironicamente, o mais feliz e também o mais aterrorizante de sua vida. Do lado positivo, há o casamento propriamente dito, no qual a noiva é o centro das atenções de uma cerimônia bonita e comovente, cerimônia esta que simboliza o seu triunfo em lhe assegurar um homem que lhe proverá todas as suas necessidades pelo resto de sua vida natural. Do lado negativo, está a noite de núpcias, durante a qual a noiva deve “pagar para ver”, vulgarmente falando, ao se defrontar, pela primeira vez, com a terrível experiência do sexo.

Nesse ponto, cara leitora, deixe-me revelar uma verdade chocante. Algumas jovens, na realidade, aguardam a noite de núpcias com um misto de curiosidade e prazer! Cuidado com tal atitude! Um marido egoísta e sensual pode facilmente tirar vantagem de tal noiva. Nunca se esqueça de uma regra capital, para qualquer casamento: dê pouco, raramente, e sempre de má vontade: do contrário, o que tem tudo para ser um casamento feliz pode transformar-se numa orgia dos sentidos.

Por outro lado, o temor da noiva não deve ser extremo, porquanto o sexo, que, na melhor das hipóteses, é algo bastante doloroso, deve ser cultivado, e o tem sido pela mulher desde o início dos tempos, e é recompensado pela união monogâmica e pelos filhos. A maioria dos homens, se não lhes for negado, desejam fazer sexo quase todos os dias. A noiva sábia deverá permitir um máximo de duas rápidas relações sexuais por semana durante os primeiros meses do casamento. À medida que o tempo passar, ela deve envidar esforços para reduzir tal frequência. Doenças simuladas, insônia e dores de cabeça são os melhores aliados de uma esposa quanto a isso.

A maioria dos homens são por natureza pervertidos, e se a eles for concedida a menor chance, prontamente passarão a solicitar uma ampla variedade de práticas sexuais das mais repugnantes. Tais práticas incluem realizar o ato normal em posições aberrantes, praticar sexo oral no corpo da mulher, oferecendo os seus próprios e obscenos corpos para também serem usados com a boca da mulher.

Argumentos, apoquentações, repreensões e questionamentos também são muito eficazes, se usados tarde da noite, cerca de uma hora antes de o marido normalmente começar sua sedução.

As esposas inteligentes devem estar sempre alerta e cientes de novas e melhores maneiras de negar e desencorajar as aproximações amorosas de seus maridos. Uma boa esposa deve reduzir as relações sexuais ao mínimo. O ideal é uma só por semana ao fim do primeiro ano de casamento e uma por mês ao fim do quinto ano.

Ao redor do décimo ano de casamento, muitas mulheres já completaram a sua prole e atingiram o objetivo final de terminar todo e qualquer contato com seus maridos. Nessa época, ela deve fazer do seu amor pelos filhos e das pressões sociais elementos eficazes que mantenham o marido em casa.

Como já mencionamos anteriormente, a mulher, além de se manter alerta quanto a ter o mínimo de relações sexuais possíveis, deve também prestar muito atenção em limitar a espécie e a qualidade das relações sexuais. (..)

A mulher inteligente terá por objetivo nunca deixar que o marido a veja despida, nem que este se apresente despido. Praticar sexo, quando este não puder ser evitado, só em total escuridão. Muitas mulheres acham muito útil usar uma pesada e grossa camisola de algodão e providenciar pijamas para o marido, e não tirá-lo durante o ato sexual. Assim, um mínimo de corpo ficará exposto.

Uma vez que a noiva tenha colocado a sua camisola e apagado todas as luzes, ela deve deitar-se quieta e placidamente ao longo da cama e esperar pelo noivo. Não deve fazer qualquer ruído que possa, na escuridão, orientá-lo em sua direção; caso contrário, ele poderá interpretar isso como um sinal de encorajamento. Ela deve deixá-lo andar às apalpadelas no escuro. Existe sempre a esperança de que ele venha a tropeçar e sofrer alguma lesão, que, por mais leve que seja, possa vir a ser usada como desculpa para negar qualquer contato sexual. Quando ele a encontrar, ela deve permanecer tão imóvel quanto possível. Qualquer movimento de sua parte pode ser interpretado como excitação sexual. Se ele tentar beijá-la nos lábios, ela deve virar ligeiramente a cabeça de modo que o beijo alcance inocentemente as suas bochechas. Se ele tentar beijar-lhe as mãos, ela deve mantê-las com os punhos fechados. Se ele levantar a sua camisola e tentar beijá-la em qualquer outra parte do corpo, ela deve, imediatamente, puxar para baixo a sua camisola, pular da cama e anunciar que a mãe natureza a chama ao banheiro. Isso, geralmente, amortecerá o desejo dele de beijá-la em territórios proibidos.

Se o marido tentar seduzi-la com conversas lascivas, a esposa inteligente repentinamente lembrar-se-á de perguntar-lhe alguma coisa trivial e não sexual. Uma vez obtida a resposta ela deve prosseguir a conversação, não importando quão frívola ela possa parecer na ocasião. (...)

Ela deverá permanecer absolutamente calada ou falar sobre seus afazeres domésticos, enquanto ele realiza as manobras que o ato sexual requer. Sobretudo, ela nunca deverá emitir grunhidos ou gemidos durante a realização do ato sexual. Tão logo o marido complete o ato sexual, a mulher inteligente deverá começar a aborrecê-lo com conversas sobre tarefas que ela quer que ele realize no dia seguinte.

Muitos homens obtêm a maior parte de sua satisfação após a pacífica exaustão que se segue ao ato. Sendo assim, a mulher inteligente deve assegurar-se de que ele não tenha paz nesse período, pois, do contrário, ele logo se achará tentado a querer um pouco mais. A mulher inteligente deve se apegar ferrenhamente para que, sem descanso, atinja o seu principal objetivo de primeiro limitar e mais tarde anular completamente o desejo sexual dos seus maridos.

Nota1:
Para ver o texto no original (em inglês), na íntegra, clique aqui.
Nota2:
Quando de sua publicação no Balaio, o texto da Sra. Smythers - uma peça de humor involuntário - recebeu o título de Crônica da moral escrota.

15 comentários:

Anônimo disse...

Moacy: nada melhor do que postar,aqui, os conselhos de um poeta anônimo:

Beba, chupe, tampe e tape,
Da garrafa tire a rolha,
A moça que casar hoje
Se tver pentelho rape.
Quando for para o manzape
Abra as pernas, não encolha,
Da garrafa tire a rolha,
Beba, chupe, tampe e tape.

Pedrita disse...

eu li ligações perigosas por um acaso. uma editora q tinha publicado livros em bancas envio um catálogo com muitos livros baratíssimos, um real e por aí vai. eu escolhi vários e esse estava entre eles. fascinante. beijos, pedrita

líria porto disse...

ai ai ai - ui ui ui!!!

um abraço!
besos

Mirse Maria disse...

Oi Moacy!

Posso preferir o que não está em vermelho?

Pronto, preferi!


Beijos

Mirse

Assis Freitas disse...

O reverendo deve ter ido diretinho pro céu, em vida já tinha o inferno.

Mirse Maria disse...

Oi Moa!

Voltei para falar da belíssima imagem!

Egon Schiele , GRAVADO NA MEMÓRIA!

BEIJOS

MIRSE

Mariana Botelho disse...

linda imagem, Moa!

e esse texto, só me faz agradecer pela época em que nasci! rsrsrs

nina rizzi disse...

Uau, que imagem. fiquei estatelada um tempão a comtemplar, sem baixar a barra de rolagem. só ali, as ondulações do lençol sobre a relva; as cores dos dois, quase mistas, de beleza onírica e única. branco no preto, preto no breu, quem te quer sou eu... o carinho no rosto; os dedos abertos no pescoço denotando o desespero do abraõ, o desespero de amar, a gratidão por ser COM amor. e eles tem um mesmo braço direito; um mesmo rosto e uma mesma perna ambidestra. os músculos dele, retesados da paixão; os dela manhosos d'um gozo afetivo... mas, ai, os cabelos, cachos de despecar poesia.

puxa, vida, Moacy, tou completamente estatelada... que coisa mais lindalinda e, porra! complementada das "ligações perigosas"... sóis, é de se abandonar em sonhos.

e como eu destesto a chatice do politicamente correto... ahn, a Sra. Smythers precisava era encontrar uma boa moça pra lhe enfiar dedos-língua: quero ver num gemer! mas talvez ela saiba, vide o final do texto... hehehe...

Um beijo, camarada. que meus olhos ainda estão lá no abraço.

Adriana Karnal disse...

Moacy,
Ja iniciei o ano rindo do seu post...a mulher inteligente deve limitar o desejo do marido????rsrsrs...Feliz 2010 pra vc!!!

Marcelo F. Carvalho disse...

É por essas e outras que digo: a igreja é sempre o pior brochante...

Marcos disse...

Marcelo:

Não é pra defender o Catolicismo mas: teve e tem padre que trepou e trepa exemplarmente (sou contra os que exploram crianças, claro; trepar com adultas ou adultos merece meu amplo apoio). As freiras aparecem menos que os sacerdotes mas... tem umas gravuras dos séculos XVIII e XIX ótimas - trepadas entre grades de conventos e por aí afora.
Mas nem todos os protestantismos eram daquele jeito: tenho certeza de que o desejo venceu e vence essas baboseiras e não sei se os sonhos daquela senhora eram exatamente pudicos.
Agora: quem gozou uma vez, pagão, cristão ou ateu,quer é mais.
Abraços:

Marcos Silva

Sônia Brandão disse...

Pobre reverendo!

Muito bonita a ilustração.

bjs

dade amorim disse...

Uau! Lido agora, o texto fica engraçado. Mas imagina naquele tempo, coisa mais cruel.

Beijo pra você.

Iara na Janela disse...

adorei o texto da moral escrota...bem educativo:)

aplausos ao poema da Marize!

e bela, bela imagem dos negros do rosário de Jardim, logo mais abaixo!

beijos e feliz 2010!

Marcelo F. Carvalho disse...

Marcos:
apoiado plenamente!
______________
Abraço forte!