terça-feira, 12 de janeiro de 2010

OBRAS-PRIMAS DO CINEMA
Clique na imagem
para verouvir algumas cenas do prólogo de
Amor à tarde
(Eric Rohmer, 1972)
Do meu primeiro contato com a obra de Eric Rohmer, em 1972 (Minha noite com ela, 1969), no antigo Paissandu, ao último, em 2008 (Les amours d'Astrée et de Céladon, 2006), na Mostra Rio, foram vistos, até o momento, 21 filmes, de um total de 27 títulos. E a minha admiração por seu cinema - sóbrio, elegante, afetuoso, contido - só faz aumentar com o tempo. Ontem mesmo, em sua homenagem, depois que soube de sua morte, aos 89 anos, revi Amor à tarde: a história de um homem bem casado, apesar de seus devaneios extraconjugais, que é seduzido pela ex-mulher de um grande amigo. Daí o drama que o tortura, que o inibe, que o leva a mil dúvidas: Será possível amar duas mulheres ao mesmo tempo? Como sempre, um filme insinuante. Em tempo: Rohmer, amante da música erudita, é autor de um belo livro sobre o tema: Ensaio sobre a noção de profundidade na música; Mozart em Beethoven, 1997.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2898
Rio, 12 de janeiro de 2010

Eric Rohmer é o filósofo romântico da nouvelle vague francesa, o diretor cujos personagens amam com palavras e com o corpo. ... Um filme de Rohmer possui um sabor que, uma vez experimentasdo, será sempre inconfundível. Assim como Ozu, o mestre japonês com que às vezes é comparado, diz-se que Rohmer realiza sempre o mesmo filme. No entanto, assim como Ozu, seus filmes são novos e únicos e jamais parecem se repetir; ambos os diretores se concentram nas pessoas e não no enredo, sabendo que cada ser humano é original e surpreendente, ao passo que a maioria dos enredos é mais ou menos igual.
(Roger EBERT. Grandes filmes, 2005)


A releitura do momento
ENSAIO SOBRE A NOÇÃO DE PROFUNDIDADE EM MÚSICA;
Mozart em Beethoven,
de Eric Rohmer.
Rio: Imago, trad. Leda T. da Mota & Arthur Nestrovski, 1997, 240p.

"Eu não diria que Mozart, para mim, é o maior dos músicos: Bach e Beethoven ficam na mesma altura. Mas é o mais profundo" (p.21).

"[No estilo Luís XVI, ou neoclássico] Pode-se dizer que a música ganha em interioridade, de certa maneira, mas perde em espiritualidade" (p.30).

"A música barroca dá uma impressão de docilidade. Os instrumentos vão juntos. Seus caminhos, mesmo quando diferentes, acabam chegando ao mesmo objetivo" (p.38).

"A música de Mozart não é pura: é purificadora" (p.41).

"As danças europeias diferem essencialmente das dos outros continentes porque não comportam nem balanço, como as africanas, nem contorções, como as asiáticas. Elas são dignas; pudicas, até em sua exuberância" (p.59).

"A partir de Kant, principalmente, a filosofia alemã reivindica o nome de filosofia do sujeito. Mas levou certo tempo para reconhecer a música como sua irmã" (p.63).

"A visão moderna da arte é filha de Kant, mesmo se Kant não a previu" (p.64).

"Acho ... que, como a música, o cinema goza do privilégio - ou do fardo - de um classicismo constitutivo. E por razões exatamente opostas" (p.86).

"Não sei dizer se os quintetos são o que há de mais mozartiano na obra de Mozart, mas, em todo caso, eles não se comparam com o que fizeram outros músicos, ou o próprio Mozart" (p.111).

"Deixemos de lado os quintetos. Curiosamente, os Quartetos 'a Haydn', embora anteriores, vão nos permitir avançar mais em terras beethovenianas" (p.129).


QUARTETO EM DÓ MAIOR, K.465, DE MOZART
Dissonâncias
Clique aqui
para ouvir, pelo Alban Berg Quartet,
o adágio introdutório
do Quateto K.465, de Mozart,
analisado por Eric Rohmer em seu livro (p.130-31).


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"Todo grande filme é um documentário"
(Eric ROHMER, in O olho interminável, 1989, de Jacques Aumont)

13 comentários:

Mirse Maria disse...

Bom dia Moacy!

Filme e definições maravilhosas!

Sempre achei a música uma linguagem universal, e o cinema provou isto várias vezes. Os povos se comunicam mais através da música. A História da humanidade pode ser lida pelos vários momentos musicais.

A música barroca, é realmente a mais pura em conjunto.

Quarteto em Dó Menor, em seu adágio introdutório, leva qualquer sr humano que se entregue ouvindo á um estado de espírito superior.

Belo Balaio, como sempre, mas esse...EXTRAORDINÁRIO!

Beijos

Mirse

P.S. E sobre os abalos sísmicos que ocorreram desde domingo, é sério isso?

Mirse

Fatima disse...

Ei querido!
Passei pra te deixar um beijo.

Pedrita disse...

grande eric rohmer, fiquei triste. amor à tarde não vi. beijos, pedrita

líria porto disse...

mozart foi grande desde pequeno!
besos

Assis Freitas disse...

O mestre Eric Rohmer era um poeta, seus filmes são uma celebração à estética visual e a beleza da palavra. Neste filme Amor à tarde, na sequencia inicial, o protagonista retira do bolso o livro de Louis Antoine de Bougainville, viagem ao redor do mundo, a narrativa é sobre o Taiti terra celebrada como um paraíso, onde homens e mulheres viviam felizes sem culpa nem pecado, sem a opressão da civilização. Especula-se que esta narrativa de viagem de Bougainville serviu de inspiração a Rosseau para personificar o conceito do bom selvagem. Abraço.

Francisco Sobreira disse...

Meu caro,
Bela e merecida homenagem a Rohmer. Vi menos da metade dos filmes que você conhece dele,mas gosto de quase todos. Foi, sem dúvida, um grande diretor, mas não o coloco entre os meus preferidos, ao contrário de Ozu. (Aliás, não me parece que exista uma "consaguinidade" entre os dois, como quer Ebert, ainda mais no aspecto formal.) Um abraço.

* Você estranha eu não ter escrito sobre Rohmer. Acontece que o texto que publico hoje já devia ter sido publicado desde a postagem da semana passada. Postergá-la por mais uma semana não me pareceu o certo, depois de obter a autorização do sr Leandro Fortes há vários dias. Ademais, com 5 ou 6 filmes apenas que conheço de Rohmer, não me vejo com elementos suficientes para falar da sua obra de quase trinta títulos.

Marcelo Novaes disse...

Moa,


Mozart: gênio um tanto lépido. Pela precocidade, acaba por assombrar. Na música clássica, há muito para se ouvir, em todas as faixas do espectro estilístico, com variados graus de exuberância, além do trio supra-citado: o derramamento romântico de Liszt ou Chopin, a "música marítima" de Debussy, concertos de César Franck e Gabriel Fauré [com todas as sutilezas antes das retomadas dos motes], o lirismo de Sonatas de Schumann e Schubert, a "pessoalidade genial" de Brahms [chamado de gênio por Schumann; se Bach é "geometria ascencional" em música, Brahms é "assinatura romântica plena de auto-identidade"], A síntese de Dvorák de Romantismo e folclore eslavo, a exuberância orquestral de Gustav Mahler, os arroubos [e a tentativa de controle da turbulência] de Tchaikovsky e Rachmaninoff...




A música ganha em interioridade mais no Romantismo do que no Neo-Clássico. Bach é superior a Mozart, no meu modo de ouvir ambos. A questão, é que as construções matemático-musicais de Bach podem parecer "impessoais" (e espirituais) como uma "catedral gótica" [e são muitos os que não gostam de catedrais, nem mesmo de construções barrocas; assim como confundem "espiritualidade" com "impessoalidade"]. Bach era um solitário e inspirado arquiteto-de-sons, sons esses imbuídos de sua solitude e espírito contemplativo. Mozart, um inspirado one-man-show.







Abração,







Marcelo.

Sergio Andrade disse...

Belíssima homenagem!

Amor à tarde é um dos poucos dele que não me entusiasmou muito da primeira vez. Preciso rever. Aliás, estou me preparando para rever toda sua obra, em ordem cronológica.

Um abraço!

nina rizzi disse...

eu só posso mesmo levar as mãos aos olhos, meu caro:
obrigada pelo filme, por mozart. uma manhã muito mais bela.

um beijo.

Bené Chaves disse...

Moacy: acho o cinema de Rohmer de uma regularidade incrível. Conheço uns 11 títulos do mesmo e gosto de todos, uns mais e outros menos. E preciso rever alguns. Bela homenagem!

Um abraço...

Mme. S. disse...

Passando para beber o defunto e para deixar um beijo, S.

Paulo Jorge Dumaresq disse...

Excelente homenagem, mestre. O mundo está mais pobre e podre com o encantamento de Rohmer. Forte abraço.

Dilberto L. Rosa disse...

sabias que quando soube da morte do Mestre Rohmer a primeira pessoa de que me lembrei foi você?! Salve, fã maior do cineasta francês: bela foto e ótimas lembranças!!! Abração!