domingo, 17 de janeiro de 2010

OBRAS-PRIMAS DO CINEMA
Clique na imagem
para ver os 9 minutos iniciais do
média-metragem
Menilmontant
(Dimitri Kirsanoff, 1926)
Formalmente experimental, formalmente vanguardístico, Menilmontant - uma obra-prima quase desconhecida dos cinéfilos brasileiros, mas já disponível em dvd - é um filme radical para os padrões estéticos da época, embora seu fio temático não passe de um drama psicológico até certo ponto simplista: a história de duas irmãs seduzidas pelo mesmo homem. A primeira (Nadia Sibirskaia, na foto), com o filho fruto da equivocada relação, e depois de encarar a hipótese de um suicídio, termina como moradora de rua, nos subúrbios de Paris; a segunda (interpretada por Yolande Beaulieu), vira prostituta bem sucedida. A montagem é excepcional (em alguns momentos, quase um sonho surrealista) e foi realizada pelo próprio Kirsanoff, um músico da Estônia que se dedicou, na França dos anos 20, ao cinema de vanguarda. [Atenção: em cinco partes, Menilmontant está igualmente disponível no Youtube.]


BALAIO PORRETA 1986
n° 2903
Rio, 17 de janeiro de 2010

Eis um cinema mais maravilhoso que qualquer outro. Quem goza do dom de sonhar sabe que nenhum filme pode equivaler em imprevisto, em tragicidade, a essa vida incontestável que se passa durante o sono. Do desejo do sonho participam o gosto
e o amor pelo cinema.

(Robert DESNOS. O sonho e o cinema, 1923,
in A experiênca do cinema, org. Ismail Xavier, 1983)


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
Os livros que me marcaram e ainda me marcam
(3/43)
Moacy Cirne

Ulisses (Joyce, 1922)
Memórias sentimentais de João Miramar (O. de Andrade, 1924)
Poesia russa moderna (org. A. de Campos et al., 1968)
Poesia pois é poesia (Décio Pignatari, 1977)
Poemics (Alvaro de Sá, 1991)
Babel (Dailor Varela, 1974)
Antologia poética (José Bezerra Gomes, 1974)
Antologia mamaluca (Sebastião Nunes, 1988)
Vestido de noiva (Nelson Rodrigues, 1943)
Arzach (Moebius, 1978)
Quadrinhos em fúria (Luiz Gê, 1984)

(4/43)

Livro geral (Carlos Pena Filho, 1959)
Libertinagem (Manuel Bandeira, 1930)
Viagem a São Saruê (Manoel Camilo dos Santos, 1954)
Ficções (Jorge Luis Borges, 1944)
Cem anos de solidão (Márquez, 1967)
Rayuela (Cortázar, 1963)
Decameron (Boccaccio, 1349-53)
As cidades invisíveis (Calvino, 1972)
Cidade (Simak, 1952)
Angústia (Graciliano Ramos, 1936)


SONETO
Carlos Pena Filho
[ in Livro geral, 1959 ]

Por seres bela e azul é que te oferto
a serena lembrança desta tarde:
tudo em torno de mim vestiu um ar de
quem não te tem mas te deseja perto.

O verão que fugiu para o deserto
onde, indolente e sem motivos, arde
deixou-nos este leve e vago e incerto
silêncio que se espalha pela tarde.

Por seres bela e azul e improcedente
é que sabes que a flor o céu e os dias
são estados de espírito somente,

como o leste e o oeste, o norte e o sul.
Como a razão por que não renuncias
ao privilégio de ser bela e azul.


LÁPIS
José Bezerra Gomes
[ in Antologia poética, 1974 ]

Confesso-me
de assim
ter sido

Ainda que não fosse mais


POEMA de
CHICO DOIDO DE CAICÓ

Nunca comi Maria Antonieta Pons
Nunca comi Terezinha Morango
Nunca comi Elizabeth Taylor
Nunca comi Martha Rocha
Nunca comi Kim Novak
Mas comi todas as raparigas do Cai Pedaço


POEMA
Vielímir Khliébnikov
(1913)
Trad. Haroldo de Campos
[ in Poesia russa moderna, 1968 ]

Quando morrem, os cavalos respiram,
Quando morrem, as ervas secam,
Quando morrem, os sóis se apagam,
Quando morrem, os homens cantam.


AVE ESTRANHA
Marcelo Novaes
[ in Prosas Poéticas ]

No frisson de identificarem a canção nova, perguntaram se era Shakira, se era Cristina Aguilera. Não era nada disso. Não era nenhuma delas. Falava do escuro e de percorrer os becos. Das mão estendidas e solidão-em-grupo. Mas logo se horrorizaram e torceram o nariz porque havia uma ave estranha naquele ninho: Ave Maria. Era Beyoncé cantando. Tu é o meu Céu na Terra: Ave Maria. You are my heaven in Earth/ You are my past, my first/ And then I hear this voice inside/ Ave Maria.

11 comentários:

MINI-MAIS disse...

verdadeiro céu de poesia nesse blog

muito bom

abraços

Mirse Maria disse...

Bom dia Moacy!

Marcelo Novaes é o CARA!

Beleza de prosa!

Beijos

Mirse

líria porto disse...

bom domingo, moço! obrigada pelo balaio de todos os dias!
besos

Marcelo Novaes disse...

Moa,



A biblioteca está se espandindo. Belos poemas! Obrigado por me incluir aqui!






Abração,









Marcelo.

Francisco Sobreira disse...

Meu caro,
Nunca tinha ouvido falar desse diretor. Olhe, resolvi atualizar hoje o Luzes da Cidade. Um abraço.

Assis Freitas disse...

Esse Khliébnikov sabia das coisas, assim como Chico Doido. As coisas se constróem em meio ao caos, como uma biblioteca dos sonhos. Abraço.

Mme. S. disse...

Querido, estou lendo Ulisses há uns 15 anos... beijos, S.

Sergio Andrade disse...

O filme parece ser muito bom mesmo. Saiu em DVD no Brasil?

Nydia Bonetti disse...

Que coisa, Moacy, três dos meus livros preferidos estão na sua lista: Angústia, Libertinagem e Cem Anos de Solidão, além da poesia russa, que amo de paixão.
Lindo este poema de Khliébnikov! Boa semana, beijo.

Cristina disse...

Livros prediletos - dos que já li, de pleno acordo. Dos que não, ficam na lista (suspiro) que não só não acaba como cresce.
O filme - há muito tempo quero ver, vou procurar aqui no Rio.
Os poemas - meu deusinho, que coisa, taudo muito bom.
Obrigada pela visita e por este blog.
Beijo.

BAR DO BARDO disse...

Bueno!