sábado, 16 de janeiro de 2010

UM FILME É UM FILME É UM FILME
Clique na imagem
para verouvir
a cena de sexo oral em
Os amantes
(Louis Malle, 1958)
Para os amantes de todas as idades, "a noite é uma mulher". Para os amantes do bom cinema, uma interpretação inesquecível de Jeanne Moreau. Para os amantes dos anos 50, um possível clássico da sétima arte. Para os amantes dos mundos proibidos, uma fortaleza de sensações alimentadas pelas distâncias oceânicas. Para os amantes dos sonhos impublicáveis, nada é impossível no campo das especulações projetadas na sala escura do cinema como espaço arquitetônico. Para os amantes da sensualidade, uma das cenas mais líricas e sensíveis de sexo oral na história das formas cinematográficas (reproduzida a partir da imagem acima). [Visto pela primeira vez, por mim, em 1963, no Rex, em Natal.]


BALAIO PORRETA 1986
n° 2902
Rio, 16 de janeiro de 2010

A carne é um peso difícil de se carregar. Mas é difícil o que nos incumbiram; quase tudo o que é grave é difícil: e tudo é grave. ... A volúpia carnal é uma experiência dos sentidos, análoga ao simples olhar ou à simples sensação com que um belo fruto enche a língua. É uma grande experiência sem fim que nos é dada; um conhecimento do mundo; a plenitude e o esplendor de todo o saber.
(Rainer Maria RILKE. Cartas a um jovem poeta)


Cinema
FILMES (RE)VISTOS DURANTE A SEMANA

Nossas cotações:
*** Excelente
**/*** Ótimo/Excelente
** Ótimo
* Especialmente bom

Nos cinemas & centros culturais:
Ervas daninhas ** (Resnais, 2009)
Decálogo, 3 ** (Kieslówski, 1988)
Decálogo, 2 ** (Kieslówski, 1988)
Decálogo, 1 * (Kieslówski, 1988)

Em casa, revisões:
Pauline na praia *** (Rohmer, 1983)
A marquesa d'O *** (Rohmer, 1976)
Amor à tarde **/*** (Rohmer, 1972)
O joelho de Claire ** (Rohmer, 1970)

Duas ou três breves consideraçãoes:

1. A revisão de Eric Rohmer (1920-2010) confirma plenamente: o seu cinema, verdadeira joia preciosa, cresce com o tempo: um cinema que faz da crônica do cotidiano - em geral, da classe média - a sua matriz temática. Cinco ou seis minutos de qualquer um de seus filmes, escolhidos aleatoriamente, valem mais do que toda a produção marcada por efeitos especiais do cinema-pipoca de origem norte-americana.

2. Mesmo sem a genialidade criativa dos anos 50 e 60, Resnais é Resnais, e um filme como Ervas daninhas consegue mostrar, com beleza e elegância, o valor de um produto sofisticado. Não é para qualquer um, claro. Há aqueles que preferem Avatar. Questão de gosto e (in)formação cultural. E, em se tratando de bens simbólicos, gosto não se discute. Mas se explica.

3. E o justamente cultuado Kieslówski? Minhas preferências continuam sendo A dupla vida de Véronique (1991) e A fraternidade é vermelha (1994). O conhecimento da Polônia pós-socialismo passa um pouco por seu cinema. Mas não nos esqueçamos de Wajda, em anos anteriores. Ou de Polanski, em A faca na água (1962).


PEDRAS-DE-TOQUE DA POESIA CEARENSE
[ Cf. Assis Brasil, 1996 ]

Que entardecer existe
na essência do mundo
além dos portos do destino?
A quem pertence o navio
que faz ondas
no mar da vida?
(Márcio CATUNDA. Enigmas,
jjin Sortilégio marítmo, 1991)

Noite. Plange, convulsa, a harpa do vento. A terra
dorme. O espaço, lá fora, é tempestuoso, escuro...
(Otacílio de AZEVEDO. Beijo na treva,
in Alma ansiosa, 1918)

as minhas vagabundas mãos
tocam a tua pele
do iluminado torso
à fenda cósmica
(Carlos d'ALGE. Aprender o corpo,
in A mulher de passagem, 1933)

Tens hálito de rosas, quando amas,
e caprichos pagãos, quando desejas
(Otacílio COLARES. Estudo em rosa,
in Os saltadores de abismos, 1967)


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
ou
Os livros que me marcaram e ainda me marcam
(2/43)
Moacy Cirne

| Sem ordem preferencial |

Bíblia Hebraica (vários autores: criação anônima)
Poética (Aristóteles)
Os lusíadas (Camões, 1572)
O pai Goriot (Balzac, 1835)
Moby Dick (Melville, 1851)
As flores do mal (Baudelaire, 1857)
O estrangeiro (Camus, 1942)
A cidade e as estrelas (Clarke, 1956)
O arado (Zila Mamede, 1959)
Do mundo fechado ao universo infinito (Koyré, 1957)

12 comentários:

líria porto disse...

jeanne moreau - fantástica!

e fantásticos os livros da tua biblioteca! sabes das cousas!

besos!

BAR DO BARDO disse...

Festival de referências...

A Moreau nos ensina que as mãos gemem. Ai...

Valeu!

nina rizzi disse...

puxa, um dia eu li assim: "diante de tanta beleza, calo-me". olha, camarada, esse é um dos balaios mais lindos que já vi, lindo, lindo...

sim, e eu prefiro os tons graves.

um beijo :)

Assis Freitas disse...

Concordo com a Nina, balaio inspiradíssimo principalmente o texto sobre o filme do Malle, que primor. Abraço.

Francisco Sobreira disse...

Meu caro,
Linda cena, de um lindo filme, um dos melhores de Malle, se não o melhor. A cena mostra também a ousadia de Malle (para a época), um grande diretor que gostava de tratar de temas-tabus e provocadores. Desse filme, destaco ainda a sequencia em que os dois amantes caminham pela madrugada, um momento de pura poesia. Grande Malle! Um abraço.

Bené Chaves disse...

Moacy: eu vi o filme de Malle no dia 20 de abril de 1963, aqui nas minhas anotações como tendo sido no cine Nordeste.E revi já no então Natal-Shopping, naquela saudosa sessão do 'cinema-de-arte', em 8 de maio de 2000.
Como o tempo passa rápido, não?
Olha: não conheço 'Pauline na praia' e nem 'O joelho de Claire'.

Um abraço...

Pedrita disse...

eu amo a peste do camus. beijos, pedrita

Sergio Andrade disse...

Só mesmo Jeanne Moreau para interpretar essa cena, e naquela época! Sim, grande Louis Malle. Obra-prima!

Marcos disse...

Caros amigos:

Jeanne Moreau é excepcional mesmo, nessa cena e em tudo que fez e ainda faz. Assisti a uma entrevista de Luís Buñuel, ele disse que não precisou dirigir nada quando ela atuou em "Diário de uma camareira". Nem preciso lembrar da epifania em "Jules et Jim".
Abraços:

Marcos Silva

Marcos disse...

Caros amigos:

Jeanne Moreau é excepcional mesmo, nessa cena e em tudo que fez e ainda faz. Assisti a uma entrevista de Luís Buñuel, ele disse que não precisou dirigir nada quando ela atuou em "Diário de uma camareira". Nem preciso lembrar da epifania em "Jules et Jim".
Abraços:

Marcos Silva

Paulo Jorge Dumaresq disse...

O Estrangeiro, na minha ótica, está entre os cinco melhores romances do Século 20. É da minha cabeceira. Também gosto bastante de Os Lusíadas, As Flores do Mal e de O Arado, da nossa doce Zila. Os poetas cearenses também não ficam atrás. Os filmes, então, nem, se fala. Resumo da ópera: Balaio cheio... de coisas arretadas.

betina moraes disse...

não podia perder a chance de aplaudir a aparição de Jeanne Moreau!
belíssima cena, inesquecível classe e elegância sem poupar erotismo.

aí desço mais no post e vejo meu poeta amado: Rainer Maria Rilke. fico em silêncio diante da notória capacidade que ele tem de dar mais qualidade para as palavras e as emoções.

depois, a lista de filmes da semana, bastante particular e especial. ótima lista, mestre.

a poesia,

preciso destacar:

"Noite. Plange, convulsa, a harpa do vento. A terra
dorme. O espaço, lá fora, é tempestuoso, escuro..."

lindíssimo, perfeito.

vem a chave de ouro com a lista dos livros para um biblioteca porreta! faltam alguns para mim, mas não estou de todo com a estante perdida, vejo que tenho três dos dez! é um bom começo, não acha?


um beijo, querido.