quarta-feira, 27 de janeiro de 2010


Verão índio
(1983)
Hugo Pratt & Milo Manara


BALAIO PORRETA 1986
n° 2913
Rio, 27 de janeiro de 2010

O encontro de Pratt com Manara, dois mestres dos quadrinhos italianos, só poderia resultar numa obra-prima da arte sequencial do século XX. Foi o que aconteceu com Verão índio, em 1983, assim como aconteceria depois com O gaúcho. E se é verdade que as mulheres de Manara adquirem certas expressões repetitivas em seu maneirismo estilístico, também é verdade que são sinuosas o suficiente para darem "vida gráfica" a histórias quase sempre de alto nível erótico-temático, eventualmente de corte metalinguístico.
(Moacy Cirne, 2010)


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 25 / 43 )

Do contrato social (Rousseau, 1762)
Novum Organum (Bacon, 1620)
Sandman - Noites sem fim (Gaiman & outros, 2003)
Verão índio (Pratt & Manara, 1983)
31 poetas, 214 poemas (D. Pignatari, org., 1996)
Obras poéticas (Bocage, 1812)
Mais provençais (Augusto de Campos, trad., 1987)
Antologia de textos medievais (José Pereira Tavares, org., 1957)
Lautréamont (Bachelard, 1939)
Os cantos de Maldoror (Lautréamont, 1869)


LAUTRÉAMONT
por
Gaston Bachelard
(Trad. Maria Isabel Braga)

O ser ducassiano não digere, ele morde; para ele a alimentação é morder. O querer-viver, aqui, é um querer-atacar. Nunca adormece, nunca se encontra na defensiva, nunca fica saciado. ... Comparado a Lautréamont, como Nietzsche é lento, como é tranquilo, como se mostra familiar com a sua águia e a sua serpente. O primeiro move-se com passos de dançarino, o outro em saltos de tigre!


LAUTRÉAMONTÍSSIMO
Moacy Cirne

Provavelmente, na história da literatura ocidental não existe nada mais "subterrâneo" ou "repelente", em sua amargura existencial autodestrutiva, do que Os cantos de Maldoror, de Lautréamont, publicado em 1869: porrada pura. Um soco no estômago de tal modo violento que a sua leitura não é para qualquer um, sobretudo aqueles mais sensíveis. Não há, inclusive, sequer como classificá-lo dentro dos padrões literários conhecidos. Prosa poética? Só se for como uma prosa poética que renega a poesia, a emoção pensada de forma "tradicional", ou mesmo qualquer sentido de humanismo ou humanidade. Um livro que vai além do livro, que vai além da literatura, até por que não tem uma "história" no sentido comum do enredo. E mais ainda: que vai além do próprio desespero, com suas perversões e crueldades inimagináveis. Um livro único escrito com sangue, suor e porra. Se o Demônio existisse, diríamos que Maldoror seria de sua autoria. Ou seja, uma obra-prima.


Três fragmentos d'
OS CANTOS DE MALDOROR
(Trad. Claudio Willer)

Do Canto Primeiro
(4)
Há quem escreva em busca dos aplausos humanos, através das nobres qualidades do coração que a imaginação inventa ou que eles podem ter. Quanto a mim, faço que meu gênio sirva para pintar as delícias da crueldade!
(7)
Eu fiz um pacto com a prostituição, afim de semear a desordem entre as famílias.

Do Canto Quarto
(4)
Estou sujo. Os piolhos me roem. Os porcos, quando me olham, vomitam. As cistas e as pústulas da lepra, escamaram a minha pele, coberta de pus amarelado. Não conheço a água dos rios, nem o orvalho das nuvens. Sobre minha nuca, como sobre um monte de esterco, cresce um enorme cogumelo, com seus pedúnculos umbelíferos.


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 26 / 43 )

Era dos extremos (Hobsbawm, 1994)
Marxismo e forma (Jameson, 1971)
200 crônicas escolhidas (Rubem Braga, 1978)
Ecce homo (Nietzsche, 1908)
Diário (Kafka, 1883-1924)
Contos de Canterbury (Chaucer, 1478)
Tartufo (Molière, 1664)
Esperando Godot (Beckett, 1955)
O jardim das cerejas (Tchekov, 1999)
O rinoceronte (Ionesco, 1958)


Memória 1981
MANIFESTO ANTROPOFÁLICO
TROPICALINDO TOUCHEZUDO
Antônio Carlos Lucena / Touché
[ in Antolorgia, 1984 ]

1. Contra a arte bem comportada, pela putaria poética
2. Pelo tesão irrestrito de criar livremente
3. A impotência na arte gera mediocridasde
4. Contra a ejaculação precoce na poesia
5. Pela ereção contínua do cacete criativo
6. Pela penetração total do poemapornô no seio do povo
7. Penetrar em todos os buracos e frestas da realidade
8. Pelo uso generalizado da língua
9. Contra a poesia e a trepada sem sabor
10. Pelo orgasmo total da poesia e da vida

(São Paulo, março de 1981)

10 comentários:

Cosmunicando disse...

se por um lado eu estava meio chapada com o Maldoror, já me recuperei totalmente depois do manifesto antropofágico do Lucena... esse eu assino :)
(e aliás vou roubar pra postar no Literapura)
beijo, Moa.

Cosmunicando disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cosmunicando disse...

corrigindo: antropofálico.

BAR DO BARDO disse...

Tudo bão. E o Lucena - touché!!!

Alma Fresca disse...

putos e putas resolutas,UNIVOS

Alma Fresca

Carlos Albert Souza disse...

Falr em manifesto antropofálico, isso já aconteceu no
blogue do Tácito Hilário.Mas as coisas no Substantivo Plural pioraram. A
estrela do acadêmico Da Mata desce, enquanto que a do professor Marcusp sobe.Querem saber qual a direrença de estilo dos dois ? O
Marcuspiano silva.

Assis Freitas disse...

Maldoror preciso conhecer mais. Touché viveu intensamente a brevidade dos seus 29 anos. Dele:
Bolinha de gude n. 4

sempre brinco de Tarzan
na casa da Viviane
meu pinto é um cipó
ela é a minha Jane

Anônimo disse...

Caro colega Carlos A. Souza, obrigado pelas palavras e pela estrela que só aparentemente desce.
Tenhos os olhos para elas quando muitos se esparram na lama.
Ainda balado com as agresões do jornalista do JH ( postei uns comentários abaixo).
Triste por uma fatalidade . Meus textos foram apagados no SP. Um engano de comando do Tácito.
Com um forte abraço

damata


Ser Maldoror

Ti saúdo velho Dali, de lá, de sempre...
Continuamos masturbando e sentindo culpa
A memória escoa na mesmice de quimeras
Gala inspiradora, bruxa devoradora
Cu- tu- velo fincado na espera de um Jámon
Tetas magras e ovos crescidos do cão rastejador
A dor enlanguesce o ser Maldoror
Direi ouvir ruídos que furam o juízo final
Engole o rato que a província requenta
E dali e d´acolá busca domesticar
Esse obscuro objeto do viver
Ti saúdo velho irmão catalão
Ser supremo na noite da criação

Damata

joyce domingos disse...

oiiiii.....
pasando pra observar mais um pouco este baaio....

*adooooro bocage...

deu vontade de ler agora...
bj

nina rizzi disse...

entre o índio e a "maneirista", em favor do manifesto antropofálico, faço festa com os dois. e carrego, carrego teus teatros.

um beijo.