domingo, 21 de fevereiro de 2010

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para verouvir o trêiler de
Um condenado à morte escapou
(Robert Bresson, 1956)
Durante a 2ª guerra mundial, um combatente da resistência francesa é feito prisioneiro pelos alemães e o filme, de forma fria e exasperante, preciso nos mínimos detalhes, inclusive em sua lentidão, dirige o foco narrativo (e desdramatizado) para a sua fuga, ao lado de mais um encarcerado. Mais bressoniano do que nunca, Um condenado à morte escapou, com tema musical centrado em Mozart, é um dos filmes mais brilhantes dos anos 50, com toda a sua simplicidade narrativa: a secura formal a serviço do Cinema e do antiespetáculo. Ou como disse André Bazin: "Uma obra insólita, que não se parece com nada". Ou como disse Luiz Rosemberg Filho: "Uma obra radical, com a objetividade e a susbtância fílmica das linguagens audiovisuais". No lugar do espetáculo das emoções, das sensações impressionistas, o que se tem, em última instância, é o antiespetáculo da escrita. Para nós, e para muita gente, trata-se de uma obra-prima. Das maiores. E até mesmo o trêiler que apresentamos aqui - o melhor que já vimos até hoje, e que nos marcara desde a sua exibição no Rex, em Natal, em 1961 - tem a emblematicidade anticomercial do grande diretor francês.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2939
Natal, 21 de fevereiro de 2010


Cinema
OS FILMES FUNDAMENTAIS DOS ANOS 50

[1]

1. Hiroshima, meu amor (Resnais, 1959)
2. A marca da maldade (Welles, 1958)
3. Diário de um pároco de aldeia (Bresson, 1951)
4. Pickpocket (Bresson, 1959)
5. The searchers / Rastros de ódio (Ford, 1956)
6. Um condenado à morte escapou (Bresson, 1956)
7. A palavra (Dreyer, 1955)
8. Contos da lua vaga (Mizoguchi, 1953)
9. Rio Bravo (Hawks, 1959)
10. As férias do Sr. Hulot (Tati, 1953)
11. À bout de souffle / Acossado (Godard, 1959)
12. Morangos silvestres (Bergman, 1957)
13. O grito (Antonioni, 1957)
14. A carruagem de ouro (Renoir, 1952)
15. A princesa Yang Kwei Fei (Mizoguchi, 1955)
16. Johnny Guitar (Ray, 1954)

No próximo domingo:
o Grupo [2] dos Filmes Fundamentais dos Anos 50


Atualização às 18:59h
PARABÉNS AO BOTAFOGO
pelo título da
Taça Guanabara / 2010


ESTAÇÕES
Antonio Carlos de Brito / Cacaso
[ in Beijo na boca. Rio, 1975 ]

Do corpo de meu amor
exala um cheiro bem forte.

Será a primavera nascendo?


HAI-CAI
de Cássio Amaral
[ in Enten Katsudatsu ]

todo dia me suicido
lembrando que nunca envelheço
meu preço é ser inocente


POEMA
Tati Fadel
[ in Crânio e Gavetas ]

É com horror
e alegria
que percebo:

a menina no espelho
sou eu.


ADIVINHA
Orides Fontela
[ in Teia. São Paulo, 1996 ]

O que é impalpável
mas
pesa

o que é sem rosto
mas
fere

o que é invisível
mas
dói.


AUTO-EPITÁFIO n° 2
José Paulo Paes
[ in Socráticas. São Paulo, 2001 ]

para quem pediu sempre tão pouco
o nada é positivamente um exagero


MEMÓRIAS DE UM LEITOR NASCIDO NO SERIDÓ
Moacy Cirne

Bodas em Tipasa [Bodas, 1938, e O verão, 1954], de Albert Camus. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo : Difusão Européia do Livro, 1964, 124p. [Meu exemplar foi adquirido por volta de 1964-65, na Livraria Universitária, em Natal].

Um (duplo) livro extremamente amoroso: um hino à vida, mesmo levando em conta o seu absurdo e as suas perplexidades. Pareceu-me, então, uma obra tão apaixonante, e ao mesmo tempo tão "natalense" e luminosa, que, por ocasião de sua venda inicial entre nós, a presenteei a vários de meus amigos e amigas potiguares. Era preciso compartilhar a beleza de suas páginas com o maior número possível de pessoas. Era preciso que elas também saboreassem, com prazer, as palavras do autor franco-argelino, que nos dera O estrangeiro (1942), A peste (1947) e O homem revoltado (1951): "Compreendo aqui [seja a Argélia, seja o Rio Grande do Norte] aquilo que se chama glória: o direito de amar sem medida" (p.10); "Quando fico algum tempo longe dessa terra [para ele, a Argélia; para mim, o Seridó], sonho com seus crepúsculos como promessas de felicidade" (p.26). Ou, de igual modo, palavras como: "... a esperança, ao contrário do que se imagina, equivale à resignação. E viver não é resignar-se" (p.33); "Não há mais desertos. Não há mais ilhas. Há, entretanto, necessidade de desertos e de ilhas. Para compreender o mundo, é preciso por vezes afastar-se dele; para melhor servir os homens, mantê-los durante um momento a distância" (p.51).

Continuemos, continuemos... éramos todos camusianos naquela Natal marcada pelo tédio e pela impotência diante do golpe de abril de 64. E se viver não é resignar-se, não é se deixar dominar por leituras inertes (cf. Bachelard), "Os mitos não têm vida por si mesmos. Aguardam que os encarnemos" (p.82). E os encarnamos através de processos muitas vezes tortuosos. Como tortuosos muitas vezes são os caminhos que nos levam a se identificar emocionalmente com uma cidade, por exemplo. Ora, uma cidade - qualquer cidade: Natal, Caicó, Currais Novos, Martins, São José do Seridó, Fortaleza, São Paulo, Rio de Janeiro - mede-se pela leitura de seus poetas, de seus artistas, de seus sonhadores, de seus músicos, de seus estudiosos, de seus boêmios, de seus amantes, de suas figuras populares. E se mede também pela preservação viva de sua memória e pela paixão dionisíaca (a rigor, toda paixão é dionisíaca) que alimenta seus butecos, suas pequenas praças, seus horizontes, suas ruas, suas esquinas, seus becos, e seus clubes de futebol, dos mais simples aos mais poderosos, dos mais fuleiros aos mais aguerridos. Aliás, é bom registrar, Albert Camus era um verdadeiro entusiasta do futebol. Chegou, inclusive, a praticá-lo.

13 comentários:

Marcos disse...

Moacy:

Os anos 50 do século passado são uma perdição (ou um achamento!) para quem gosta de cinema. Uma década que viu nascerem Hiroshima meu amor e O grito vale por um século.
Abraços:

Marcos Silva

Marcos disse...

Moacy:

Os anos 50 do século passado são uma perdição (ou um achamento!) para quem gosta de cinema. Uma década que viu nascerem Hiroshima meu amor e O grito vale por um século.
Abraços:

Marcos Silva

Cássio Amaral disse...

Mestre Moa,

Meu muitíssimo obrigado!

Grande abraço de luz.

Assis Freitas disse...

Poesia muito bem representada ou apresentada, como um presente, dos filmes, a seleção, caprichada mais uma vez. Debruço-me, e encantado, nas MEMÓRIAS DE UM LEITOR NASCIDO NO SERIDÓ. Ou crônica de uma cidade singular. A minha, que também é nossa, Feira de tantos cruzamentos. Para degustar mais e mais. Abraço, mestre.

Francisco Sobreira disse...

Moacy,
Já no trailer (que não conhecia) se percebe que Bresson não dava a mínima para o espectador que vai ao cinema para se divertir. Vi O Condenado... apenas uma vez, quando já morava em Natal. Não me lembro de nada (ou quase nada), gostaria de revê-lo, embora Bresson não esteja entre os meus cineastas preferidos. E quanto a Camus, talvez até por sua morte mais ou menos recente, quando cheguei a Natal, ele era um nome sagrado para os jovens intelectuais, notadamente os associados do Cine Clube Tirol. Um abraço.

Bené Chaves disse...

Moacy: eu acho 'Um condenado à morte escapou' o melhor filme de Bresson, dentre os poucos que conheço do mesmo. Eu o assisti no dia 26 de outubro de 1963, no cine Rex.
Gostaria muito de revê-lo, evidentemente.

Um abraço...

Jens disse...

Crticas cinematográfica, literária e existencial da mais alta qualidade. É um prazer ler textos assim.

Abraço, Moacy.

Paulo Jorge Dumaresq disse...

Moacy, Moacy, o texto quase ensaio sobre Camus é perfeito. Ele figura entre meus escribas preferidos. Grande! Dos filmes fundamentais dos anos 50 elejo "O Grito" como meu preferido. O filme do Bresson ainda não vi, mas agora me interessa saboreá-lo. Os poemas também de ótimo calibre. Esse Balaio de hoje tem com cheiro de alta cultura.

BAR DO BARDO disse...

enten katsudatsu

Mme. S. disse...

Post inspirado e inspirador...

Sergio Andrade disse...

O trailer é tão genial quanto o filme!

Muitas obras-primas nos anos 50. Aguardando o grupo 2.

Um abraço.

betina moraes disse...

mestre,


tudo lindo, tudo divino, tudo maravilhoso, botafogo-ô-ô-ô-ô principalmente.

todos os textos de grande inspiração. é incrível como você sempre consegue pescar poesia e prosa da melhor qualidade,

o seu texto tem a mágica de nos fazer parecer íntimos das coisas todas que você narra. maravilha!

um beijo.

Sarau na Casinha disse...

preciso que mande pra mim Bodas em Tipasa, não encontro mais pra comprar em SP e perdi o meu exemplar lido à mesma época que vc.
elianaiglesias@terra.com.br