terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

São Jorge
litografia de
Salvador Dali
(1983)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2927
Rio, 9 de fevereiro de 2010

Pior do que um marxista ortodoxo - em geral, um sujeito chato e equivocado - é um ex-marxólogo - em geral, um sujeito que abandona a esquerda (a "sua" esquerda) para abraçar as causas da direita raivosa.
(Moacy Cirne, in Balaio n° 2298, em 28 / 4 / 2008 )


A RELEITURA DA SEMANA
Carta a D. - História de um amor,
de André Gorz.
Trad. Celso Azzan Jr.
(São Paulo : Annablume ; CosacNaify, 2008)

"Tive muitas dificuldades com o amor (ao qual Sartre dedicou umas trinta páginas de O ser e o Nada), pois é impossível explicar filosoficamente por que amamos e queremos ser amados por determinada pessoa, excluindo todas as outras" (p.25).

"É isto: a paixão amorosa é um modo de entrar em ressonância com o outro, corpo e alma, e somente com ele ou ela. Estamos aquém e além da filosofia" (p.26).

"O principal objetivo do escritor não é o que ele escreve. Sua necessidade primeira é escrever. Escrever, isto é, ausentar-se do mundo e de si mesmo para, eventualmente, fazer disso a matéria de elaborações literárias" (p.28)

"Eu necessitava de teoria para estruturar meu pensamento, e argumentava com você que um pensamento não estruturado sempre ameaça naufragar no empirismo e na insignificância. Você respondia que a teoria sempre ameaça se tornar um constrangimento que nos impede de perceber a complexidade movediça da realidade" (p.41).

"Você acabou de fazer oitenta e dois anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o seu corpo estreitado contra o meu pode preencher" (p.70).


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 45 / 50 )

Carta a D. - História de um amor (Gorz, ed. bras. 2008)
As afinidades eletivas (Goethe, 1809)
Por que ler os clássicos (Calvino, 1991)
Passagens (Benjamin, ed. bras. 2006)
Mito e realidade (Eliade, 1963)
O Estado em crise (Poulantzas, org., ed. bras. 1977)
Estado e cultura no Brasil (Sergio Miceli, org., 1984)
O cinema da crueldade (Bazin, 1987)
Écrits corsaires (Pasolini, 1975)
O cerco da memória (Sérgio de Castro Pinto, 1993)


RECADO A POUND
Sérgio de Castro Pinto
[ in O cerco da memória, 1993 ]

pound, eu não sou
nenhuma antena.

eu sou a pane
e a interferência
dos meus fantasmas

no tubo de imagens dos poemas.


Humor
AS NOTÍCIAS... MAIS OU MENOS
Sílvio Fernando
[ in Via Política ]

Com as manchetes cada vez mais escabrosas que correm aqui e no mundo, às vezes dá vontade de largar o jornal e se encerrar no mundo mágico da fantasia. Por sorte os personagens da ficção moram bem longe de nós, em Metrópolis ou Gotham City, a salvo do mundo sórdido da realidade. Ainda bem que é assim. Mas já pensou se não fosse? Talvez um dia a gente abrisse o jornal e lesse o seguinte:

Tragédia no mundo dos quadrinhos! A morte do Pato Donald!
Encontrado ontem à noite o corpo carbonizado do famoso personagem dos gibis envolto em rodelas de limão dentro do fogão da própria casa. Suspeita-se de suicídio. Huguinho, Zezinho e Luisinho permanecem inconsoláveis.

Branca de neve exibe novo bronzeado e perde o emprego!

Paz na Floresta!
Chapeuzinho vermelho e vovó respiram aliviadas. Lobo Mau adere à dieta macrobiótica e declara-se vegetariano!

Especial – Cidade de Gotham City
Coringa abandona Batman e funda dupla sertaneja com o palhaço Bozo!

[ Leia o texto na íntegra clicando aqui ]


CUBOS
Marcelo Novaes
[ in Prosas Poéticas ]

Mas que casa escura... A mãe, magérrima [de olhos da dor mais aguda], segura, com dificuldade, a criança por entre as mãos miúdas. La fora, o bloco que passa sob calor ["Imaginô?! Então amassa..."], diante das arquibancadas de areia. Tudo respira fôlego & cansaço. No céu, única nuvem: clara. Os olhos fundos da mulher e seus gemidos pintarão mundo de cinza. A não ser que ele equacione os cubos, em equações precisas: o homem do jaleco branco. Cubos mágicos com faces coloridas. A não ser que ele erija outra construção mais sólida do que a areia e os blocos que desfilam por arquibancadas. Os cálculos são rápidos: a mente e as mãos denotam destreza. Densa cortina chove. A água passa. Também os movimentos. Mas não a equação que derrota a morte, em cubos empilhados. Não há mais medo. Só lucidez, na hora do translado.


AVISOS PAROQUIAIS
divulgados pelo
Bar de Ferreirinha

* Prezadas senhoras, não esqueçam a próxima venda para beneficência. É uma boa ocasião para se livrar das coisas inúteis que há na sua casa. Tragam os seus maridos!

* Assunto da catequese de hoje: Jesus caminha sobre as águas. Assunto da catequese de amanhã: Em busca de Jesus.


ESPELHO DAS PEDRAS
Maria Maria
[ in Espartilho de Eme ]

Deixava-me ver
pelas pedras-mosaicos
que serviam de palco
para os pirilampos.

Ali, fiz-me ninfa:

desenhei na areia
o teu corpo,
fazendo-te perfeito e humano
como um semideus desencantado.


AFÔNICA
Adrianna Coelho
[ in Metamorfraseando ]

escrevo no ato
solidário à garganta

escrevo sobre ocasos
inflamados e pungentes
em desacato
ao grito que não veio

escrevo ao acaso
até o fim da linha
até o ponto
em que me encontro
febril


A MORTE DO PIERRÔ
Bené Chaves
[ in O Teorema da Feira ]

Na fria e molhada madrugada o Arlequim chorou. De saudades também de sua Colombina. Chorou depois na aurora de cinzas, da recordação de frevos e marchinhas de outrora. E na melancolia das ruas desertas, no encantamento e ilusão de épocas idas... Voltou a chorar. Era um choro amargo e, ao mesmo tempo, alegre. Na paradoxal vida de todos nós. Das despedidas do que jamais teria retorno. De uma fantasia que somente mostrava o invólucro do que já fora.

Lembrou os amores perdidos. Imaginou de quando na sua cidade existia ainda a salutar união e uma folia que se impregnava do que seria belo e autêntico. Hoje ele já não observava e nem mesmo poderia supor os cantos e encantos de um passado. Os clubes onde alargava sua alegria no miolo do salão. As danças com passos verdadeiros e bonitas composições. E o seu lamento foi tão enorme que ele não acreditava no que via. E por isso, o Pierrô chorou.

Das delícias e de brincadeiras inocentes, de confetes, de serpentinas, do lança-perfume. Das meninas de shortezinhos com o umbigo à mostra. Dos cabelos envoltos nos rostos pueris. De como o objeto retangular e de cor dourada servia apenas para jogar o líquido friozinho nas pernas e coxas das mesmas. Lembrou de como era a meiguice da retribuição ao gesto singular. De como as garotas ficavam felizes com um afago. Com um beijo na face. E do que dali poderia sair também um namoro ou algo similar.

O Pierrô chorou, chorou muito. Lembrou-se de sua meninice. Dançou, então, um frevo, jogou confete e atirou serpentina para uma avenida deserta. Derramou o lança-perfume na rua fria e solitária. Apenas ele ali sozinho, sem mais a sua companheira. Sem mais os seus amigos e sem mais ninguém. E ele voltou a chorar e a cantar e a sorrir e a soluçar de um lado para o outro na sua solidão. E saiu a pular entre os paradoxos de uma existência e desengano.

Na sua memória ficaram os momentos bons de uma época de ouro, de um tempo inocente e sem violência e corrupção e rancor. E a brutal transformação de um mundo e o progresso feroz que destrói o que o próprio ser que se dizia humano construiu. E entre as razões de um universo abjeto, o Arlequim não parou de chorar. Suas lágrimas inundaram um ilusório corredor da folia. E seus olhos incharam.

Na larga avenida de postes iluminados não vi mais nada. As luzes apagaram. Fiquei a lamentar a solitária figura de um pobre homem com seu disfarce a esconder o rosto de uma outrora alegria. Hoje apenas mesclada com a tristeza de um crepúsculo onde se baralhavam cinzas de uma quarta-feira de completa escuridão.

E o Pierrô tirou a máscara e a jogou fora. Desfez-se também de sua falsa indumentária e voltou a chorar. Neste exato instante os soluços aumentavam e faziam eco entre as pálidas cinzas de uma sumida esperança. Ele já na sua casa a olhar no espelho para um rosto nu e sem o sorriso e a alegria de viver.


PAPO SOLTO NO PAPO FURADO

de Jairo Lima

Beyoncé quase cai
Durante o show em Florianópolis, a diva escorregou e quase caiu.

Tu pode? Uma merda desta ser notícia na imprensa mundial? Acho que o mundo vai acabar mesmo em 2012, mas vai ser com uma chuva de cangalhas. E não ficará um jumento vivo sobre a face da terra para assistir aos shows da "diva".

O que me lembra um edificante provérbio dos meus matos: merda é bosta, você come porque gosta.

14 comentários:

Vais disse...

Bom dia Moacy!
moço, que fartura! O Balaio tá cheio, levo de tudo um pouco
Salve Jorge do Salvador, linda a mistura de cores
É mesmo uma história belíssima de um amor o trecho da página 70, em A RELEITURA DA SEMANA de André Gorz

Abraço e tudo de bom

BAR DO BARDO disse...

Parabéns aos colaboradores. Muito, muito bom!

Assis Freitas disse...

A releitura é realmente cativante. Tanta coisa boa que não sei por onde terminar. Vou ficar relendo. Abraço.

nina rizzi disse...

veja que coisa, também estou a reler "carta a d.", mesmo nao tendo uma senhora apolínea pra sonhar. mas não chega a ser patético.

um bom dia.

Marcelo Novaes disse...

Moa,




A Maria ao quadrado é sempre uma boa escolha, com seu espartilho. A volta da Adrianna Coelho mostra que ela tem voz, sim. Bom ver Eliade e Calvino em meio às tuas clássicas escolhas.




Obrigado por acolher minha pilha de cubos.







Abração,







Marcelo.

Adriana Godoy disse...

Boa, Moacyr, de primeira essas postagens. Muito apreciei. beijo.

Bira disse...

Pois é, mundo pequeno mesmo, meu irmão casado com Gilma Cirne, e eu lendo seus livros, acompanhando seu trabalho com as HQs há tanto tempo! Quem me alertou para o seu blog foi nosso amigo Joao Antonio Buhrer! Eu sou filho de Clóvis Libanio e Lourdes Dantas, nasci em Sampa, fui criado no Rio e de volta a São Paulo, vim para Campinas em 1988, casei e fiquei!
E adaptei D.Quixote para a Escala, 90 páginas! Ganhei com ele o HQMix do ano passado de melhor adaptação em Quadrinhos.
Quanto a japonês, só falo um pouco (estudei 6 meses), mas não leio nada!
Grande abraço virtual!

Dilberto L. Rosa disse...

É, meu caro: essa moça dá certo porque é gostosa, tem bunda grande a que gringo não tá acostumado e rebola que é uma belezura! Fazer o quê: mercado de rabos sempre em alta! A voz até que é boazinha, mas as tais músicas... É o fim! Acompanhemos as manchetes: qualquer hora sai algo do mundo das HQs, como no bom texto que citaste, e a Beyoncé será estuprada por um Coringa insano!!! Abração, meu caro esquerdista de esquerda!

Jarbas Martins disse...

atenção líria porto somente hoje vi meuteu poemeto no putas resolutas

odorei

Maria Maria disse...

Oi, Moacy,

Obrigada pela postagem, mais uma vez.
Ah, o quadro de São Jorge me trouxe uma vaga lembrança de Cervantes, D. Quuixote. Não sei, mas foi uma viagem interessante!


Beijos

líria porto disse...

todo(a) ex é problema! uns mais chatos que carrapatos!

e o balaio - sempre bom!
besos

Mme. S. disse...

concordo com a prima donna que falou: está uma fartura. não dá nem para dizer que amei o recado a pound e o comentário sobre a beyoncé... tudo tá bom!
beijos, querido.

Adrianna Coelho disse...



Pegando a deixa da Sheyla: tudo está bom, tudo está ótimo.
Adorei ter "voltado" (?). Adorei cair no Balaio.
Mas, mais do que tudo, adorei (e ri muito) a definição de marxista ortodoxo e ex-marxólogo.

Vc é demais, Moa.

Beijos & cheiros.

Mirse Maria disse...

Esse Balaio está BÓTIMO!

Definições...Maria maria...Adriana coelho e Marcelo Novaes deram um show!

Jairo Lima outro com todas as razões do mundo!

Beijos

Mirse