quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010


Yellow
Foto:
Andriete Le Secq
(São Paulo)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2922
Rio, 4 de fevereiro de 2010

Não me pergunte por que escrevo.
Escrevo para acalmar as horas,
Para aplacar as distâncias,
Para inundar a agonia da ausência.
Escrevo por um reles desconforto:
A minha alma quer fugir.


POEMA CONCRETO
José Lino Grunewald
1957
Versão balaiográfica

1
2 2
3 3 3
4 4 4 4
c i n c o

Metatradução:
Moacy Cirne

1
2 2
3 3 3
f o u r

55 5 55


TRADUÇÃO, TRADUTOR, TRADUZIDO
Marcos Silva
[ in Bar Papo Furado ]

Jairo [Lima]:

O tem que vc sugere para nosso diálogo é excelente: o que se lê numa tradução (o tradutor ou o traduzido)?

Minha primeira resposta é: lemos, antes de mais nada, o traduzido; mas essa leitura é feita através do tradutor; nesse sentido, lemos sempre os dois.

Tendo a pensar que quem traduz declara amor pelo original e apresenta aos outros seu entendimento daquele original. Nenhuma tradução abolirá o original - no caso de um grande escritor como Baudelaire, que traduziu outro grande escritor como Allan Poe, o resultado final deu lugar a um novo belo texto em francês, mas ninguém deixará de poder ler a primeira versão em inglês.

Traduzir poemas é dar conta de vocabulário, ritmos, rimas (quando existem), figuras de linguagem...

Costumo fazer um paralelo entre uma tradução e as versões no poema/processo: nunca chegaremos à tradução definitiva, cada uma é uma aproximação marcada pelo presente do tradutor.

Traduzo poemas que eu amo, sempre de forma humilde e convidando o leitor a ler o original, inclusive a fazer sua tradução pessoal - que findamos fazendo mentalmente quando lemos noutra língua.


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 40 / 43 )

Antologia da nova poesia americana
(Jorge Wanderley, org. & trad., 1992)
Poetas norte-americanos
(Paulo Vizioli, org. & trad., 1976)
Poetas franceses do século XIX
(José Lino Grunewald, 1991)
Gaveta de tradutor
(José Paulo Paes, org. & trad., 1996)
Panaroma do Finnegans Wake
(Augusto & Haroldo de Campos, 1962)
Transblanco
(Octavio Paz / Haroldo de Campos, 1986)
Poemas
(Maiakóvski, trad. H. Campos & outros, 1982)
Antologia do conto húngaro
(Paulo Rónai, trad. & org., 1957)
Antologia poética de tradutores norte-rio-grandenses
(Nelson Patriota, org., 2008)
Tradução intersemiótica
(Plaza, 1987)


THE SOUL SELECTS HER OWN SOCIETY
Emily Dickinson

The soul selects her own society
Then shuts the door;
On her divine majority
Obtrude no more.

Unmoved, she notes the chariot's pausing
At her low gate;
Unmoved, an emperor is kneeling
Upon her mat.

I've known her from an ample nation
Choose one;
The close the valves of her attention
Like stone.

A ALMA ESCOLHE
Tradução:
Jorge Wanderley
(1992)

A alma escolhe sua companhia
E fecha os portais.
Em sua divina soberania
Não se entra mais.

Impassível, reconhece a carruagem
Parando à entrada;
Impassível, vê um rei que se ajoelha
No seu tapete.

Sei que escolheu de uma grande nação
Um só, a dedo.
Depois fechou as valvas da atenção
Como um rochedo.

A ALMA ESCOLHE SUA PRÓPRIA SOCIEDADE
Tradução:
Paulo Vizioli
(1976)

A alma escolhe sua própria sociedade,
E fecha a porta;
Depois, com a divina maioria
Não mais se importa.

Imóvel, nota as bigas se detendo
Ao portão baixo;
Imóvel, vê um monarca de joelhos
Em seu capacho.

Elege apenas um de ampla nação:
Aquele medra;
E fecha as válvulas de sua atenção
Igual a pedra.

/ Sem título /
Tradução:
Aíla de Oliveira Gomes
(1985)

A alma escolha a sua Sociedade
E fecha a porta.
A sua sacrossanta Maioria
Nem um mais comporta.

Indiferente, vê carros parando
No seu portão;
Indiferente, se um rei se ajoelha
ali no chão.

Sabe-se que ela, de uma ampla nação
Escolheu Um -
Depois - como pedra - fechou as valvas
de Sua atenção.

Nota do Balaio:
No original inglês reproduzido entre nós,
há diferença no 4º verso
das edições organizadas por
Vizioli e Oliveira Gomes
("Present no more" no lugar de "Obtrude no more");
os travessões usados por Oliveira Gomes
constam do original por ela apresentada,
além de outros.


UM POEMA, O ORIGINAL E UMA TRADUÇÃO

ÉPIGRAMME
La Fontaine

Aimons, foutons, ce sont plaisirs
Qu'il ne faut pas que l'on sépare;
La jouissance et les désirs
Sont ce que l'âme a de plus rare.
D'un vit, d'un con, et de deux coeurs,
Naît un accord plein de douceurs,
Que les dévots blâment sans cause.
Amarillis, pensez-y bien:
Aimer sas foutre est peu de chose
Foutre sans aimer ce n'est rien.

EPIGRAMA
Trad.
José Paulo Paes

Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo.
A volúpia e os desejos são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisto, oh minha amada.
Amar sem foder é bem pouco,
Foder sem amar não é nada.

[ in Poesia erótica em tradução.
São Paulo : Companhia das Letras, 1990, p. 98-99 ]

10 comentários:

Jarbas Martins disse...

Moacy, muito engenhosas a versão
e a metatradução do poema de José Lino Grunewald.Espero que Nelson Patriota inclua essas e outras traduções suas, na segunda edição
da Antologia de Tradutores Norte-rio-grandenses que vem por aí.

Lúcido e oportuno o ensaio de Marcos Silva sobre a arte tradutória. A relação que ele faz entre tradução e o conceito de ver-
são, defendida por teóricos, como você,do poema processo é instigante.Espero que o tema volte a ser, aqui, abordado.

Abraços.

Pedrita disse...

gostei do poema do assis freitas. beijos, pedrita

Mme. S. disse...

"Minha alma quer fugir"... caramba! Certeiro, esse Assis.
Beijos caro, desculpe a demora em aparecer.
S.

Assis Freitas disse...

Tradutore, traditore. Boa a discussão. Em alguns casos é uma traição. Outras vezes uma bela recriação. A minha alma agradece por estar aqui, contida no Balaio. Abraço.

nina rizzi disse...

Good morning! yellow morning. oh, yes, I love eyes colored truques. I think I'm trying to enjoy.

ave maria, diabéisso. essa postagem me fez lembrar que se produz boas coisas pras bandas do norte.

aliás, pra recomeçar tem essa belezura do Assis. Oh, my dog, save the drag king.

massa o metaplágio. olha o mêtanometaplágio:

one licked;
two lick pussy;
three like dick;
four licking ass;
five lat riiiioooooooottttttt, forever.

bem, acho que nao me atrevo a fazer uma tradução do epigrama, não depois de José Paulo Paes, a não ser que...

aiai. um cheiro, visse.

nina rizzi disse...

AH! olha a cantiga inocente:

Na casa da dona Aurora tem festa a zero hora;
piroca dentro, piroca fora.
os meninos batem punheta, as meninas chupam buceta;
piroca dentro, piroca fora
...

o massa é que essa também permite miliuma variações... rsrsrs..

eita.

Mirse Maria disse...

Oi Moacy,

Assis Freitas ,tem uma sensibilidade incrível! Parabéns, Assis!

Sua meta tradução do poema concreto é impagável.

Quando em inglês, prefiro o texto original, antes de (na dúvida) olhar a tradução. Em idiomas que se compõem mais em dialetos, Saber quem é o bom tradutor, é difícil.


Temos excelentes autores em nosso idioma.

Beijos

Mirse

BAR DO BARDO disse...

... as questões da tradução... discussão longa...

Marcos disse...

Prezado Assis Freitas:

Gosto muito do título do livro de traduções de Luís Carlos Guimarães: Traições bem intencionadas. Preparo um volume de traduções cujo título provisório é: Fiéis traições.
Abraços:

Marcos Silva

Hercília Fernandes disse...

Excelente post, Moacy.
Os números do Balaio são sempre suntuosas edificações, nos alimenta a alma e o intelecto: parabéns!
Porém quero destacar quão belo é o poema do Assis Freitas, simplesmente poesia!

Abraços em todos e todas,
H.F.