sábado, 6 de março de 2010

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para verouvir o neotrêiler de
O santo e a vedete
(Luiz Rosemberg Filho, 1981)
[ A colagem aqui editada, do próprio Rosemberg,
é de 1997 e não foi feita para o filme ]
"Maldito" entre os "malditos" do cinema brasileiro, Rosemberg construiu uma obra que, duplamente censurada (pelo governo militar e, depois, pelos barretões da indústria nacional), não é de fácil assimilação narrativa. Até porque o próprio Rosemberg não se atém a projetos convencionais. O santo e a vedete, por exemplo, inicialmente seria uma "pornôchanchada" mas, para desespero dos produtores, transformou-se numa "popchanchada política". Nos últimos anos, sem produtores e sem o aval das instituições governamentais, o cineasta carioca - marcado sobretudo pelo cinema de Godard - tem realizado apenas vídeos caseiros. Sob o signo da inquietação criadora.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2952
Natal, 6 de março de 2010


ALGUNS FILMES DE LUIZ ROSEMBERG FILHO
Cotações: de ° (descartável) a *** (excelente)

Assuntina das Amérikas *** (1975)
Imagens ** (1972)
Crônica de um industrial ** (1978)
O santo e a vedete * (1981)


Repeteco / Memória 1978
A CENSURA NA ÉPOCA DA DITADURA NO BRASIL
[ in Memória da censura no Cinema Brasileiro ]

Fragmentos do longo parecer sobre
Crônica de um industrial, de Luiz Rosemberg Filho

São Paulo, 6 de junho de 1978

É um filme perigoso capaz de atingir a dois tipos de público, portador que é de mensagens altamente destrutivas. Vejamos:

1. Para PÚBLICO COMUM ADULTO (embora maior de 18 anos).
Este filme apresenta componentes suficientes para DESENCADEAR processos NEUROTIZANTES, uma vez que todas as sequências mostram abertamente CENAS DEMORADAS de relações sexuais (com ambos os protagonistas inteiramente despidos), onde o prazer sexual só existe com a presença simultânea de SOFRIMENTO e SANGUE (escorrendo à vontade, de vários ferimentos), além de GRITOS DE DOR. Comprova a evidência de AUTO-SATISFAÇÃO sadomasoquista. Ou seja, a relação sexual deixa de ser um ato normal para transforma-se em ABERRAÇÃO/PERVERSÃO proibido a público comum e, só justificando como estudo para consultórios psiquiátricos.

2. Para PÚBLICO-ALVO (de Cinematecas) (Estudantes Universitários) (filme político de teor subversivo).
No caso presente, dirigido predominantemente à juventude universitária que frequenta CINEMATECAS. É um filme que podemos rotular sob certo alcance, de HERMÉTICO (codificado), uma vez que está recheado de SIMBOLISMOS TÉCNICOS que os estudantes SABEM como decodificar. É, por assim dizer, UMA CARTILHA SUBVERSIVA [...].
...

O filme é uma reprodução fiel de RECURSOS TÉCNICOS criados pela inteligência ímpar do cineasta que PROFETIZOU a deflagração da EXPLOSÃO ESTUDANTIL de maio de 1968 na Universidade de Nanterre (Paris, FRANÇA) quando produziu o filme "A CHINESA" (La Chinoise), em março de 1967 (JEAN-LUC GODARD).
...
Volto a confirmar: se este filme "CRÔNICA DE UM INDUSTRIAL" for apenas proibido a menores de 18 anos e exibido para PÚBLICO COMUM ADULTO (sem considerar os jovens universitários entre 19 e 30 anos, no mínimo) só irão constatar uma fita ERÓTICO-PORNOGRÁFICA, sem nada COMPREENDER (pois o simbolismo inserido só pode ser entendido por jóvens que já viram filmes de GODARD, LOUIS MALLE, PASOLINI, PETRI, ANTONIONI, JOSEPH LOSEY, BO WIBERG e outros tantos.
...
Além de recursos técnicos aqui citados (de teor cinematográfico (simbolismos identificados) o Sr. Rosemberg (Luís Rosemberg Filho) deve ter recebido a ASSESSORIA de sociólogos de esquerda, para a elaboração do roteiro. É nítida a interrelação da sociologia de esquerda com as diretrizes predominantes na temática.

IMPORTANTE: Este filme, se for liberado, poderá vir a constituir-se na pedra de RELANÇAMENTO DO CINEMA POLÍTICO entre nós.
...

Informação adicional:
Hoje, o cineasta GODARD continúa sua realização de filmes altamente SUBVERSIVOS (a serviço de sindicatos de esquerda) (na França) para TELEVISÃO. E neles, predominam enfoques na LUTA DE CLASSES a DISPUTAS SINDICAIS dos trabalhadores franceses.

Respeitosamente
[Rubrica (Incompreensível)]


DITOS POPULARES NORDESTINOS
[ via Grande Ponto ]

[] Acabar-se depressa como sabão em mão de lavadeira.
[] Agoniado como cobra quando perde a peçonha.
[] Andar ligeiro que só peba em areia frouxa.
[] Chorão que nem bezerro desmamado.
[] Feio como a necessidade.
[] Malcriado que só rapariga de soldado em portão de feira.
[] Perverso que só jararaca de rabo fino.
[] Resistente que só cascavel de quatro ventas.
[] Ruim que nem jerimum cheio d'água.
[] Suar mais que tampa de chaleira.


Memória
OS FILMES NO RIO EM SETEMBRO DE 1926

Na edição de núm. 404 da revista Para Todos, com mais uma bela capa de J. Carlos (reproduzida no livro O desenhista invisível, p. 65), a maior curiosidade fica por conta da seção de cinema, apontando e comentando alguns dos filmes em exibição. Ei-los:

No Odeon - Esposa leviana (The reckless lady), da First National. "Um bom film. Bôa história, bôa interpretação, bons ambientes, photographia nitida e technica impeccavel. ... Cotação: 7 pontos";

No Império - O preço de um beijo (His secretary), da Metro-Goldwyn. "Uma bôa comedia, cheia de situações muito interessantes e verosimeis. Norma Shearer está cada vez mais seductora. ... Cotação: 7 pontos";

No Glória - Em busca do ouro (The gold rush), da United Artists. "Vocês sabem perfeitamente o que é uma comedia de Carlito, portanto... Se quizerem rir, não deixem de ver esta. A scena das velas, os cuidados que elle tem com o seu cachorro para que o seu amigo (Mack Swain) não o coma, e muitas outras, são impagaveis, são scenas mesmo que só Charlie Chaplin poderia apresentar. Cotação: 7 pontos".
[Nota do Balaio: Só um 7, em 1o pontos possíveis?]

No Capitólio - A soberba (The untamed lady), da Paramount. "Não é dos melhores films de Gloria Swanson. Assumpto commum e muito explorado, além disso pareceu-nos tão diferente... Em todo caso ella continúa a mesma nas scenas de idyllio. Cotação: 6 pontos".

Outros filmes são comentados e cotados pela Para Todos.

[Nota: Não foi possível determinar o autor da seção. De qualquer modo, os diretores da revista eram Alvaro Moreyra e J. Carlos, tendo Léo Osorio como gerente. Um dos três, provavelmente, comentava os filmes em cartaz no Rio.]


POEMA SÓ PARA LÍRIA
Nei Leandro de Castro

Vem, Líria, quero te ver
embriagada, bêbada,
com o meu sopro,
dura ternura,
com o meu corpo
sobre o teu corpo.
Quero tuas pernas
docemente bandidas,
banidas, alertas
e o teu porto
totalmente aberto
às naves do meu desejo.


Memória 1997
DEZ LIVROS FUNDAMENTAIS DA POESIA BRASILEIRA
segundo
Nei Leandro de Castro
[ in Balaio Incomun, nº 987, 14 de julho de 1997 ]

1. Libertinagem (Manuel Bandeira)
2. Sentimento do mundo (Carlos Drummond de Andrade)
3. O visionário (Murilo Mendes)
4. O cristal refratário (Abgar Renault)
5. Romanceiro da Inconfidência (Cecília Meireles)
6. A educação pela pedra (João Cabral de Melo Neto)
7. O domingo azul do mar (Paulo Mendes Campos)
8. Arranjos para assobio (Manoel de Barros)
9. Navegos (Zila Mamede)
10. Hora aberta (Gilberto Mendonça Teles)

10 comentários:

Marcos disse...

Moacy:

O parecer da censura sobre o filme de Rosemberg é uma peça de humor involuntário. Ao mesmo tempo, parece uma enorme confissão de medo. Torna-se um docuemto expressivo sobre a insegurança da ditadura.
Na lista de filmes da revista carioca dos anos 20, impressionou-me o destaque à produtora - como se fosse uma fábrica, o que, no fundo, era mesmo - e para os atores e atrizes.
Abraços:

Marcos Silva

Oreny Júnior disse...

Moacy
Peço sua licença para inserir o
11º livro fundamental - GALAXIAS(Haroldo de Campos).
Abraços
Oreny Júnior

Francisco Sobreira disse...

Moacy,
Rosemberg deve ser mesmo o mais maldito dos cineastas brasileiros. Creio que nem em DVD é possível encontrar um filme dele. Conheço Assuntina das Américas porque você trouxe a Natal um vídeo do filme, a que assistimos na Capitania dos Artes, com uma meia duzia de espectadores. Quanto às curiosas opiniões sobre os filmes nos anos 20, tive a mesma impressão de Marcos. Um abraço.

líria porto disse...

mama mia - que poemerótico bonito é esse, homem de deus! vou colocá-lo lá no putas resolutas!!

obrigada, nei - ganhei o dia!!
besos

(agora vou reler o balaio, fiquei meio bêbada com esses versos - risos)

Pedrita disse...

fiquei feliz que uma coleção de livros de banca da folha trazia autores brasileiros. foi lá que li o romanceiro da inconfidência. e os preços dos livros vendidos em bancas sem bem mais razoáveis. beijos, pedrita

Assis Freitas disse...

Livros fundamentais e poetas idem. A lira da Líria em diálogo. O santo e a vedete: por onde andam os malditos? Abraço.

Adriana Godoy disse...

Então, Viva a Líria e o poeta Nei, viva os filmes e os livros, viva o balaio cada vez mais porreta. bj

Sergio Andrade disse...

Nesse site tem muitos outros exemplos do humor involuntário da censura daquela época, que nos privou de ver muita coisa importante. Nunca achei muita graça.

Do Rosenberg só vi Crônica de um Industrial, na faculdade. Infelizmente os filmes dele não circulam mesmo, Sobreira.

De mais, ótimos ditos populares, revista Para Todos, poema erótico...Grande Balaio!

Marcelo Novaes disse...

Moa,


O "longo parecer sobre
Crônica de um industrial, de Luiz Rosemberg Filho" é espinha dorsal para algum dramaturgo afeito ao teatro do Absurdo e/ ou à Patafísica. Daria um caldo trágico-patético nas mãos de um Fernando Arrabal, por exemplo ["O Arquiteto e o Imperador da Assíria", "O Triciclo", "Cemitério de Automóveis", entre outros].



No mais, gostei dos ditos pelas bandas daí, e dos livros de todas as bandas.






Abração.

Rui Luís Lima disse...

A censura em Portugal também percorreu pelos vistos os mesmos caminhos da brasileira ainda recentemente revimos "Ludwig" de Visconti que em Portugal na época da estreia em 1972 teve cortes bem profundos, alterando profundamente o significado da obra de Visconti, já para não falar no que sucedia aos filmes portugueses, muitos não chegavam a ver a luz do dia. Por aqui foi editado um livro reproduzindo as razões dos cortes da célebre censura, uma verdadeira obra de humor.
Abraço cinéfilo
Paula e Rui Lima