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sexta-feira, 26 de março de 2010

Morreu Jim Marshall,
o fotógrafo das celebridades roqueiras dos '60

Uma imagem emblemática:
Jimi Hendrix queima a sua guitarra
no Monterey International Pop Festival, em 1967


BALAIO PORRETA 1986
n° 2972
Natal, 26 de março de 2010


40 MOMENTOS EMBLEMÁTICOS
DOS ANOS 60 DO SÉCULO PASSADO

Althusser / Teoria marxista
Antonioni / Cinema
Ballard / Literatura (FC)
Beatles / Música
Bergman / Cinema
Bossa Nova / Música
Buñuel / Cinema
Capote / Literatura
Cinema Novo / Cinema
Coltrane / Música
Contracultura / Comportamento
Crepax / Quadrinhos
Crumb / Quadrinhos
Estruturalismo / Teoria literária
Foucault / Filosofia
Garrincha / Futebol
Godard / Cinema
Grupo Oficina / Teatro
Guerra do Vietnã / Política & & Revolução
Guerras de libertação / Africanidade
Janis Joplin / Música
Jimi Hendrix / Música
João XXIII / Catolicismo
Kubrick / Cinema
Maio Francês / Política
Martin Luther King / Direitos Humanos
Panteras Negras / Política
Pasquim / Jornalismo
Poema-processo / Poesia & Poema
Pop-art / Arte
Primavera de Praga / Política
Resnais / Cinema
Revolução Cubana / Política
Revolução Cultural Chinesa / Política
Revolução sexual / Comportamento
Senhor / Jornalismo
Stan Lee / Quadrinhos
Tropicália / Arte & Música
Visconti / Cinema
Woodstock / Música & Comportamento


ARDÊNCIAS

Patrícia Gomes
[ in SensualizArte ]

põe-me no ventre
um beijo e
tua semente

que te relevo
a fúria da pegada
e a seda rasgada.


TOLICE
Lisbeth Lima
[ in Vastos, 2010 ]

Escrevo na areia o meu nome.
A água vem e apaga.

Escrevo na areia o nome do meu amor.
A água vem e apaga.

Onda teimosa,
nada entende de nomes.
Nada entende de amor.


POEMA de
CHICO DOIDO DE CAICÓ
[ in Balaio, n° 543, 13/09/1993 ]

Passei o dia todo de caneta na mão
Pelejando pra fazer um verso de amor
E a única coisa parecida com verso de amor
Que saiu da porra da minha caneta foi:
Rosinha, Rosa, Rosa de Sousa
Eu gosto mais de você do que da sua bunda.

MORADA
Adriana Monteiro de Barros
[ in Pianos invisíveis, 2008 ]

Meus urubus e demônios me visitam todos os dias.
Todos os dias meus urubus e demônios me visitam.
Me visitam os dias todos.
Entram sem bater e se instalam na sala
como se já fossem velhos conhecidos.
E, na verdade, são.
Desde pequena meus urubus e demônios me habitam.
Há tempos meus urubus e demônios moram dentro.
Meu medo não é do outro.
Meu medo tem medo de mim.
Eu sou meus urubus e demônios.
Meus urubus e demônios sou eu mesma
e muito prazer.


MÍNIMA
Nydia Bonetti
[ in Longitudes ]

Rímel. Lápis. Blush. Batom
Agenda. Aspirina. Espelho
Chaves. Talão de cheques
Carteira. Calculadora
Cartão de crédito
Lixa de unha. Desodorante
Creme hidratante

Um terço. Uma oração. Medalhas
E uma fita azul da Mãe Aparecida
(Que a casa do Senhor do Bonfim
Ficou distante)
Um canivete artesanal de estimação
Herança de meu pai
3 x 4 daqueles que amo

Lentes de contato. Óculos de sol
Lenços de papel. CIC. RG. CREA SP
Canetas. Cartão de visita. Celular
Escovas. Filtro solar
E a imprescindível folha de papel
Em branco
À espera dos versos

Deus,
Como sou pequena!
Quase tudo que sou e preciso
Cabe dentro da minha bolsa.


ERÓTICA BATALHA
Sebastião Nunes
[ in Antologia mamaluca, 1988 ]

Tua latejante buceta palpitante.
Meu amargo cacete perfilado.
Ovos batem continência à beira do saco.
Como um guerreiro de merda
o cu recua ante a dura ofensiva.
Grandes e pequenos lábios
batem palmas e riem.
Meu cacete é a bandeira nacional.
A guerra é santa e eu avanço.

Mais um POEMA de
CHICO DOIDO DE CAICÓ
[ in Balaio, n° 290, de 15/05/1991 ]

Eu vi uma pentelheira
No corpo daquela dona
Que quase caí pra trás
Era pentelho de ruma
Que não acabava mais
Era uma mata profunda
Que começava no imbigo
E terminava na bunda.
Pra descobrir o priquito
Por detrás daquela mata
Fiz um esforço tão grande
O coração quase me mata
Os pentelhos da mulher
Era uma mata de cipó
Tudo muito emaranhado
Cheio de trança e de nó.
Me fiz de bom caçador
Na frente do cipoal
E rompi aquela mata
Com a força do meu pau.


UMA HISTÓRIA NATALENSE
João Amorim Guimarães

[ in Natal do meu tempo, 1952 ]

[Zé de Quincas] Vivera ainda no tempo em que namoros eram apenas olhadelas, de longe; a moça na janela e o namorado na esquina...

Tão velados eram esses amores, que o pretendente distinguia a pretendida, de qualquer de suas irmãs, apenas por um traço qualquer mais acentuado, que a diferençasse das outras. E às vezes ignorava até que ela possuísse irmãs.

Pois bem, Zé de Quincas achara bonitos os olhos daquela moça, filha de um alto comerciante e, como os olhares dos dois jovens se combinassem, foi logo pedi-la em casamento.

Recebido fidalgamente pelo pretendido "futuro sogo", e dita a pretensão, este manifestou-se:

- Pois não. E qual das duas "meninas" você pretende?

Zé de Quincas embatucou. Agora, sim! Estava certo de que o sujeito só tinha uma filha... e, se eram duas... como iria agora identificar a Deusa dos seus sonhos, se nem ao menos lhes sabia o nome?

- Qual das duas? Escolha - repetia o velho.

Zé de Quincas, afobado ante a dificuldade da identificação, "destampou":

- É aquela dos peitos grandes...

Nem é preciso dizer que Zé de Quincas saiu dali direto para a farmácia, curar a esquimose de um olho quase cego de um soco direto...


POEMA DE CHICO DOIDO DE CAICÓ
mais uma vez, com tesão
[ in Balaio, n° 550, de 1993 ]

Quero o crepúsculo do Potengi abismado
Quero a cachaça do boteco aloprado
Quero o escuro do céu estrelado
Quero o fi-o-fó da morena de olhar dourado
E mais não quero.
A não ser, talvez,
Um verso de Zé Limeira
Um retrato de Maria Antonieta Pons
Um cigarro da marca Astória
Uma estampa do sabonete Eucalol
Um beijo de mulher da zona
E mais não quero.
A não ser, talvez,
A bunda daquela galega do Alecrim
Com sua maciez e seus mistérios sem fim
E mais não quero.
A não ser, talvez,
Uma certa buceta com cheiro de mel e capim
Desejada por marinheiros, bispos, tenentes
E também por mim,
Mais doido do que nunca
Mais doido do que Nosso Senhor do Bonfim.

terça-feira, 23 de março de 2010

A modelo Elisabetta Canalis
via
Milton Ribeiro


BALAIO PORRETA 1986
n° 2969
Natal, 23 de março de 2010


ESCURIDÃO
Lisbeth Lima
[ in Vasto, 2010 ]

Foi a tua boca que busquei,
na noite escura, quando me senti só.

Foi o teu beijo que me iluminou
até que eu encontrasse a luz do dia,
outra vez de olhos abertos.

Atenção:
Vasto, editado pelo Sebo Vermelho,
será lançado amanhã, na
Aliança Francesa, na Praça Pedro Velho, Natal,
a partir das 19 horas.


$EM TÍTULO
Clique aqui, para verouvir, no Via Política.
um dos mais surpreendentes e poéticos
curtas de Luiz Rosemberg Filho:

a crítica política e social na
voz de uma criança.

Sua delicadeza extrapola o próprio cinema
como discurso estético: um $em título que tudo diz.
Ou como afirma o autor de Assuntina das Amérikas:
"Fluir as ideias, o olhar, as imagens e as diferenças."


UM DIA
Maykson de Sousa
[ in Café Mosaïque ]

Um dia
(que não seja em dezembro)
quero ouvir um prelúdio de Bach
e dormir.


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 63 / 66 )

O banquete (Platão, c360aC)
Fédon (Platão, c360aC)
O país de outubro (Bradbury, 1955)
Contos completos (Wilde, ed. bras. 2004)
Memórias do subterrâneo (Dostoiévski, 1864)
Estrela da tarde (Manuel Bandeira, 1960)
Toda nudez será castigada (Nelson Rodrigues, 1965)
A menina do narizinho arrebitado (Monteiro Lobato, 1920)
Jerusalém libertada (Tasso, 1574)
A arte de amar (Ovídio, c1aC)


DAS IMPERFEIÇÕES
Nydia Bonetti
[ in Longitudes ]

sempre viveu
tentando ser perfeito

sempre exigiu perfeição

se encontra agora
(enfim)

na mais perfeita solidão


O AUSENTE
Márcia Maia
[ in Tábua de Marés ]

trazia sob a pele
o sol nascente

e tiritava de frio


BELO HORIZONTE
José Bezerra Gomes

Pardais
cantam
dentro da madrugada

Amanhecendo
todos
vão de encontro à vida


Repeteco
A ESTRADA
Moacy Cirne

Sinto o primeiro impacto. De imediato, sou dominado por inesperada quentura nas costas. Mas consigo correr. E corro. Um segundo impacto me atinge. Preciso correr, mais ainda. Um rio me aguarda, à esquerda. Mergulho nele. Suas águas me envolvem com certa doçura. Mas de onde surgira aquele rio, em plena Glória, entre a Lapa e o Catete? Não importa; o que importa é que estou a salvo. O calor aumenta. Ouço os sinos da igreja mais próxima. Uma voz de rapariga me chama. Ambrósio, Ambrósio, cuidado com a ponte, não se deixe enforcar. O fogo me queima por dentro. Não sei nadar, lembro-me de repente. O que está acontecendo, então? Só sei que não existe mais qualquer sinal de rio; estou numa estrada de tijolos amarelos, familiar cena de filme antigo. Caminho com passos lentos; o calor que me domina é intenso. Pressinto que minhas roupas estão encarnadas. E encarnado é o meu cordão, em disputa contra o cordão azul. Sou uma criança apaixonada pela rainha do Encarnado na cidade da minha infância. Carlitos, o Gordo e o Magro me fazem companhia, sorrindo. Durango Kid aproxima-se: Não se preocupe, estou aqui para defendê-lo dos bandidos. Estou aqui para salvá-lo das balas perdidas. Confie em mim. Olho para o meu avô, com sua ternura sem fim. No caminhão da feira, cortando o cheiro da manhã carregada de mangas e esperanças, contamos os jumentos à beira da estrada, a mesma estrada de tijolos amarelos. À esquerda e à direita vemos jumentos tristes e honestos. São dezenas, são centenas deles. Estranho, parecem pássaros que não sabem voar. Quem ganhará a aposta? O feirante bêbado de auroras garantindo que à direita do veículo, beirando a estrada, maior seria o número daqueles pobres e inevitáveis animais? Ou vencerá o outro? O outro não sou eu; eu sou aquele que precisa mergulhar no Poço de Santana, no final da estrada. Mas o Poço está longe, muito longe. Nunca fiz um filho. Nunca plantei uma árvore. Nunca escrevi um livro. Nunca entrei num túnel tão comprido. E as coisas estão ficando cada vez mais nebulosas. Além, já noite, do alto do coreto da praça, Luiz Gonzaga acena para mim. Asa branca, assum preto, légua tirana. Baião-de-dois. Baião-de-três. Baião-de-cinco. O império submarino. Flash Gordon no Planeta Mongo. A volta do Aranha-Negra. Sansão e Dalila. Nunca houve uma mulher como Gilda. Os melhores anos de nossas vidas. Belinda. O barco das ilusões. Amar foi minha ruína. Dois palermas em Oxford. Paraíso proibido. Tarzan e as amazonas. O império das ilusões. O Aranha-Negra no Planeta Mongo. Sansão, Gilda, Belinda e Dalila. Nunca houve uma mulher como Tarzan. Estou cansado. O chão da Glória tem gosto de sangue e sertão. Preciso dormir.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Jovem libanesa
Foto de
Barbara Taurua


QUERO UM HOMEM
Cláudia Marczak
[ in Poesia Erótica ]

Quero um homem
que toque minha alma,
que entre pelos meus olhos
e invada meus sonhos.
Quero que me possua inteira,
corpo e alma,
fazendo dos meus desejos
breves segundos de êxtase
o prazer do encontro total.
Quero sentir seus braços longos
envolvendo meu abraço,
seus lábios mudos
calando o meu silêncio
sem precisar nada dizer...
apenas me olhando
com olhos negros e úmidos
e me tomando devagar,
como o mar avança na praia,
como eu sei que tem que ser
e sei que um dia será.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2943
Natal, 25 de fevereiro de 2010


ORQUÍDEAS NO JARDIM
Sheyla Azevedo
[ in Bicho Esquisito ]

- E se tivéssemos nos conhecido há 10 anos?

- Não podemos prever o que é impossível, Clara. Nos conhecemos agora, é o que temos.

- Mas é como se eu me lembrasse de você há muito tempo. Tenho a impressão de que essas coisas todas, essa música, o seu toque, sua voz, você, tudo é tão familiar. Tanta coisa abstrata e tão pouco de concreto.

- Clarinha, você parece uma menina. Você é uma menina.

[ Clique aqui para ler o conto na íntegra ]


TÉDIO
de Linaldo Guedes (PB)
[in
Intervalo lírico,
reproduzido em Zumbido escutando blues ]

na lua
criou-se
uma teia
de aranha
a culpa foi sua
que não quis esperar pelo amanhecer


SEPULTEI A BORBOLETA
de Maria Maria (RN)
[ in Espartilho de Eme ]

Sepultei a borboleta!
Meu corpo jaz em silêncio
por sete dias.

As asas em morte,
na pedra opaca do teu
tórax,
fazem rfefrão
da melodia.

Sem crisálida,
sem metamorfose,
sou um facho de luz
em agonia.


POEMA GRATUITO
Betina Moraes
[ in Versos & Ideias ]

faça oferta.

faça oferta de qualquer coisa que semeie
Grão

Broto

Semente

Ideia

Beijo

Carícia

Elogio

Entusiasmo

faça oferta, não venda, não esmola.


faça oferta.


DO DESTINO DAS CONCHAS
Nydia Bonetti
[ in Longitudes ]

a concha
que não quis ser tocada

seguiu
o destino das conchas

(que não são tocadas)

secou
sem conhecer a pérola


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 58 / 66 )

A menina sem estrelas - Memórias (Nelson Rodrigues, 1967)
Ideologia da cultura brasileira (Carlos Fuilherme Mota, 1977)
Ninguém escreve ao coronel (Márquez, 1961)
Memória de minhas putas tristes (Márquez, 2004)
Tia Júlia e o escrivinhador (Llosa, 1977)
Elogio da madrasta (Llosa, 1988)
O sobrevivente (Sérgio Sant'Anna, 1969)
As noites marcianas (Fausto Cunha, 1960)
Nascimentos: Memória do fogo, 1 (Galeano, 1986)
Figuras e tradições do Nordeste (Raimundo Nonato, 1958)


UM LIVRO É UM LIVRO É UM LIVRO

Figuras e tradições do Nordeste, de Raimundo Nonato. Rio de Janeiro: irmãos Pongetti, 1958, 170p.

Em capítulos quase sempre deliciosos, o mossoroense Raimundo Nonato refaz em tom memorialístico, qual jornalista do sertão, um mosaico de histórias, reais ou não, que moldam o homem do interior nordestino. Jagunços, professores, crônicas literárias, homens que falavam com espíritos, personagens da arte dramática em Mossoró – vasto é o painel das histórias contidas no livro. Algumas delas são hilárias, como a do cearense dono de caminhão que, “matuto habituado àquelas tramoias das estradas”, desconfiado que só a mulesta e cuidadoso extremado com o seu dinheiro, ao se hospedar em pensões pouco recomendáveis, costumava guardá-lo na própria roupa do corpo, ao dormir, envolvendo-se em lençois e mais lençois. Deu-se que, em certa ocasião, encontrando-se na cidade de Russas, devidamente hospedado, aconteceu o pior com o nosso amigo estradeiro:

“Madrugada alta, a pensão estava em polvorosa.

O barulho acordara todo o mundo.

O homem do dinheiro, apesar de toda a sua precaução, fora roubado, durante o sono. O ratoneiro bancou o sujeito educado. Deixou ao pobre diabo um cartão de visita, cujos termos valem uma peça:

- Não o levo, também, porque não gosto de macho...”.

(p.31-32)


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Mulher africana
Foto:
Uwe Ommer
in
Black ladies


BALAIO PORRETA 1986
n° 2936
Natal, 18 de fevereiro de 2010


FEIRA DE PROVÉRBIOS ESPORRENTOS

Ele me prometeu brincos, mas apenas furou minhas orelhas.
(Árabe)
Os homens são como tapetes: às vezes precisam ser sacudidos.
(Árabe)
Se os filhos da puta voassem, nunca veríamos o sol.
(Argentino)
Aqueles que não sonham estão perdidos.
(Australiano)
A língua suave é a árvore da vida,
a língua perversa quebra o coração.
(Bíblico)
A tinta mais fraca é melhor que a melhor memória.
(Chinês)
Falar sem pensar é atirar sem mirar.
(Espanhol)
Três espanhóis, quatro opiniões.
(Espanhol)
A partir de uma certa idade, o único afrodisíaco é a variedade.
(Francês)
Dinheiro público é como água benta: todos põem a mão.
(Italiano
)


AINDA ERA CARNAVAL
Nydia Bonetti
[ in Longitudes ]

me convidaram ontem
pro bloco dos felizes

não pude ir

não consegui achar
a minha velha fantasia


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 54 / 66 )

Dicionário de lugares imaginários (Manguel & Guadalupi, 1999)
Uma história da leitura (Manguel, 1996)
História das civilizações (Ferro, 1994)
Estética y marxismo (Vários, ed. esp. 1970)

Dialética da colonização (Alfredo Bosi, 1994)
O design brasileiro antes do design (Rafael Cardoso, 2005)

Literatura e sociedade (Antonio Candido, 1976)
Papeis colados (Flora Sussekind, 1993)
Os bruzundangas (Lima Barreto, 1922)
A arte da entrevista (Fábio Altman, 1995)


POEMA
Adília Lopes
[ in Caderno & Etc., 2007 ]

Dia
sem poesia
não é dia
é noite escura

Mas a poesia
é noite escura


DICIONÁRIO DO DIABO
/Fragmentos/
Ambrose Bierce
(1842-1913)


Advogado : Pessoa hábil em burlar a lei.

Deplorável : O estado de um inimigo ou adversário após um choque imaginário conosco.

Diplomacia : A arte honrosa de mentir pela pátria.

Fidelidade : Virtude própria dos que estão prestes a ser traídos.

História : Crônica quase sempre falha, de acontecimentos quase sempre sem importância, causados por governantes quase sempre velhacos e por soldados quase sempre imbecis.

Liberdade : Um dos mais preciosos bens da imaginação.

Paciência : Forma menor de desespero, disfarçada como virtude.

Patriotismo : No famoso dicionário do Dr. Johnson, o patriotismo é definido como o último refúgio dos patifes. Com todo o respeito devido a um esclarecido mas inferior lexicógrafo, peço licença para sugerir que seja o primeiro.

Santo : Um pecador revisto e corrigido.

Virtudes : Certas abstenções.


MEMÓRIAS DE UM LEITOR NASCIDO NO SERIDÓ
Moacy Cirne

Sobre a prática & Sobre a contradição [1937], de Mao Tse-tung, in Mao Tse-tung - Política, org. Emir Sader. São Paulo : 1982, p.79-125 /Grandes Cientistas Sociais, v.30.

Sei, sei: hoje se questiona o "revolucionarismo" de Mao, mas Sobre a prática e Sobre a contradição - lidos por mim em 1967 - permanecem como textos fundamentais para a compreensão filosófica do marxismo no decorrer do século XX: "O conhecimento humano depende essencialmente da atividade do homem na produção material" (p.79), dizia Mao. E mais dizia: "Se se quer conhecer o sabor de uma pera, há que transformá-la, há que comê-la. ... Se se quer conhecer a teoria e os métodos da revolução, há que participar dela. Todo conhecimento autêntico nasce da experiência direta" (p.84). E dizia mais: "Qualquer processo, natural ou social, avança e se desenvolve em razão de suas contradições e lutas internas" (p.90), o que, aliás, faria com que eu investisse mais ainda no aprofundamento prático e teórico do poema/processo - matrizes e projetos de uma luta (anti)literária e (contra)ideológica no calor das emoções políticas vividas por todos nós. Viajante de cinematecas imaginárias e de sonhos impublicáveis, no lugar de Bense, Moles, Peirce e McLuhan, endeusados pelos poetas concretos da paulicéia tresvairada, eu investia, no campo da poética, em Macherey, Badiou, Althusser, Lênin, Marx, Engels, Gramsci e Mao. Há, ainda, para completar, um fato de ordem pessoal que me liga visceralmente a esses dois textos: em 1968, militante do POC - Partido Operário Comunista, fui incumbido de traduzi-los para distribuição clandestina no circuito universitário do Rio. Cumpri a tarefa com entusiasmo juvenil, revelo publicamente pela segunda vez (a primeira vez foi em janeiro de 2008), 40 anos depois, a partir das edições francesas da Maspero. Infelizmente, depois do AI5, fui obrigado a me desfazer da cópia (mimeografada) da tradução e de vários livros da Maspero, cujos títulos, até então, eram vendidos abertamente na Leonardo Da Vinci, ponto de encontro de intelectuais de todas as tendências políticas e culturais em terras cariocas: um espaço democrático por excelência. Até hoje. Até sempre.


À LUTA, À LUTA
(1980)
Moacy Cirne
[ Republicado in Balaio, n° 158, em 23/05/1989 ]

à luta, à luta,
companheiro,
que a hora é de lutar e sonhar,
de sonhar e lutar.

à luta, à luta,
doce amiga,
que a hora é de lutar e amar,
de amar e lutar.

à luta, à luta,
trabalhador,
que a hora é de lutar e avançar,
de avançar e lutar.

à luta, à luta,
caro poeta,
que a hora é de
que a hora é de
que a hora é de construir
e trans/formar.

GALOPE
Artur Gomes
[ in Carne viva, 1984 ]

com espada
em riste
galopamos
pradarias
e lutamos
ferozmente
por dois segundos
e meio
tua fúria era louca
que agarrei-me
em tuas crinas
pra não cair na lama
mas o amor era tanto
e tanto era o prazer
que quando fomos pra cama
não tinha mais o que fazer.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Uma Olímpia moderna
(1872-73)
Paul Cézanne


BALAIO PORRETA 1986
n° 2916
Rio, 29 de janeiro de 2010

Esse quadro [Uma Olímpia moderna] guarda ainda uma forma romântica, mas a visão impressionista se revela através do jogo de cores luminosas e vibrantes. A obra traduz uma certa intenção irônica, não para com Manet, em quem Cézanne se inspirou, mas para com o próprio romantismo, que limitou seus passos durante anos. O homem representado em frente a Olímpia é, provavelmente, o próprio autor.
(Nina RIZZI, in Ellenismos, em 9 de novembro de 2009)


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 29 / 43 )

Cartas sobre Cézanne (Rilke, 1907)
O paraíso de Cézanne (Sollers, 1995)
Uma temporada no inferno (Rimbaud, 1873)
Iluminações (Rimbaud, 1874)
Para ser caluniado (Verlaine, trad. bras. 1985)
Festas galantes (Verlaine, 1869)
Rimbaud livre (Augusto de Campos, 1992)
El problema de la legua poética (Tinianov, trad. esp. 1972)
Um lance de dados (Mallarmé, 1897)
Poesias (Mallarmé, 1899)

A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres.
(Stéphane MALLARMÉ, in Brisa marinha, cf.
Poesias, trad. A. de Campos)


IMPROVÁVEL
Nydia Bonetti
[ in Longitudes ]

outra vez estendo meus braços
e tento
tento tento tento tocar

- não posso

cada vez mais tudo se distancia

- e a vida

que sempre me pareceu
intangível
agora - me parece improvável


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 30 / 43 )

Belo Belo (Manuel Bandeira, 1948)
Vaga música (Cecília Meireles, 1942)
Jeremias sem chorar (Cassiano Ricardo, 1964)
Pauliceia desvairada (Mário de Andrade, 1922)
Paulisseia ilhada - Sonetos tópicos (Glauco Mattoso, 1999)
Antologia poética (Castro Alves, org. 1975)
Palavra (Armando Freitas Filho, 1963)
Anatomias (José Paulo Paes, 1967)
Obras em dobras (Sebastião Uchoa Leite, 1988)
O livro da agonia (Hildeberto Barbosa Filho, 1991)


TOCATA EM FUGA
Hildeberto Barbosa Filho
[ in O livro da agonia, PB, 1991 ]

Minhas mãos
não alcançam o silêncio
das manhãs.

O dia escorre,
torto,
pelos meus dedos.

O mundo,
matéria prima,
não me é dado retê-lo

e vai e se esvai
pelo meu olho adentro
como a agonia de um camelo.


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 31 / 43 )

O apanhador no campo de centeio (Salinger, 1951)
Nove histórias (Salinger, 1953)
Curso de linguística geral (Saussure, 1915)
Totem e tabu (Freud, 1913)
A função do orgasmo (Reich, 1926)
Ideologia e utopia (Mannheim, 1929)
O novo espírito científico (Bachelard, 1934)
Os princípios da psicologia das formas (Koffka, 1935)
Coleção da Revista da Antropofagia (SP, 1928)
Coleção da revista Senhor (RJ, 1959-64)


BRANCO
Dade Amorim
[ in Inscrições ]

sete palmos de silêncio
nas planícies da memória

histórias nuvens ao vento

sem nome nem endereço
começos em andamento
perdidos num chão sem rastros
no mastro sem documentos
a palma da mão sem traços

uma canção que não canta
sem letra nem partitura
dói como uma cicatriz


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 32 / 43 )

Insônia (Graciliano Ramos, 1947)
Em liberdade (Silviano Santiago, 1981)
Desabrigo (Antônio Fraga, 1945)
Pour Marx (Althusser, 1965)
A arqueologia do saber (Foucault, 1969)
Tristes trópicos (Lévi-Strauss, 1955)
Eros e civilização (Marcuse, 1955)
História do marxismo, 9 (Hobsbawn, org., ed. bras. 1987)
Índios do Açu e Seridó (Olavo de Medeiros Filho, 1984)
Antologia da alimentação no Brasil (Câmara Cascudo, 1977)


LUAS
Iara Maria Carvalho
[ in Mulher na Janela ]

põe-me no ventre
coisas miúdas
e castanhas

que te absolvo
do linho rasgado.


CORTE RECORTE ATALHO RETALHO
Betina Moraes
[ in Sensytiva ]

Costura a boca
Tecido de pele
Sobre as veias
A língua agulha.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010


Negros do Rosário de Jardim do Seridó
(Rio Grande do Norte)
Foto:
Joaquim Júnior


BALAIO PORRETA 1986
n° 2892
Rio, 6 de janeiro de 2010

Efêmeros! que somos?
que não somos? O homem
é o sonho de uma sombra.
(PÍNDARO, trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos,
in Poesia grega e latina, 1964)


POEMA INÉDITO de
Chico Doido de Caicó
[ encontrado entre velhos papéis
na residência do médico caicoense Oberdan Damásio ]

Quando eu era menino em Caicó
O melhor buraco era o da fechadura.
Um dia olhei minha tia tomando banho
E tomei um susto destamanho.
Eu vi a coisa preta de tia Marieta
E fiquei com a minha coisa muito dura.


INVARIAVELMENTE
Assis Freitas
[ in Mil e Um Poemas ]

teu cheiro me chega com as marés
quando se ruflam pássaros
e eu declino da benevolência
de ondas e sargaços
para assistir o coito assustado
das libélulas


VIRAÇÃO
Nydia Bonetti
[ in Longitudes ]

brisa
que sopre leve

sobre

insuportável
peso

mormaço
antes das chuvas

silêncio escuro
antes

do primeiro sol



A JORGE GUINLE FILHO
em memória
Tanussi Cardoso
[ in Viagem em torno de, 2000 ]

O que acontecerá aos céus
quando se morre um artista?
Que silêncios, que gritos
Que deuses riscam os ventos
quando se morre um artista?
O que dizer aos filhos
Aos pássaros, ao poema
quando se morre um artista?
Que pintura tão linda
Que natureza tão vil
Que fala tão amarga
quando se morre um artista?
Noiteluzsomdiapasãoharmoniavendavalfuracão?
O que sobra da vida
quando se morre um artista?


13 POR 1
Manoel Onofre Jr., escritor
[ in Preá. Natal, dezembro 2003 ]

Romancista: Eça de Queiroz
Poeta: Fernando Pessoa
Livro: Judas, o obscuro, de Thomas Hardy
Filme: Um corpo que cai
Diretor/Cinema: Billy Wilder
Ator/Atriz: Dustin Hoffman/Rita Hayworth
Pintor: Portinari
Cantor/Cantora: Orlando Silva/Elis Regina
Compositor: George Gershwin
Música: Bachianas 2 e 8
Peça teatral: Auto da Compadecida
Intelectual: Oswaldo Lamartine
Personalidade cultural do RN: Câmara Cascudo

13 POR 1
Ailton Medeiros, jornalista
[ in Preá. Natal, março/abril 2005 ]

Romancista: Gabriel García Márquez
Poeta: Zila Mamede
Livro: Deserto dos tártaros
Filme: Sexo, mentiras e videoteipe
Diretor/cinema: Spike Lee
Ator/atriz: Juliette Binoche
Pintor: Juan Miró
Cantor/cantora: Cazuza
Compositor: Chico Buarque
Música: Todo amor que houver nessa vida
Peça teatral: Vestido de noiva
Intelectual: João Wilson de Mello
Personalidade cultural do RN: Nei Leandro de Castro

13 POR 1
Laurence Bittencourt, jornalista
[ in Preá. Natal, novembro/dezembro 2005 ]

Romancista: Eulício Faria de Lacerda
Poeta: Alex Nascimento
Livro: A banalidade do mal:
O julgamento de Eichmann em Jerusalém
Filme: O homem de Kiev
Diretor/Cinema: Charles Chaplin
Ator/atriz: Marlon Brando
Pintor: Leopoldo Nelson
Cantor/cantora: Sarah Vaughan
Compositor: Ludwig van Beethoven
Música: Pour Elise
Peça teatral: Hamlet
Intelectual: Harold Bloom
Personalidade cultural do RN: Câmara Cascudo


EM DEFESA DE NATAL
João da Mata Costa
[ in Substantivo Plural ]

“Canindés, Caicós, Pajeús, Paianazes, Pegas, Paiatis, Tororós, Janduís, Tarairus (desta derivam os Trairis)… chegando ao Cacique Jaguarari”

Como são belos os nomes das ruas da minha cidade. Não permita Deus que esses bárbaros, iletrados e mal-intencionados mudem esses nomes que fazem parte da nossa geografia sentimental. Vivi muito tempo na rua dos Caicós. Rua que trago gravada na memória e nos documentos que fazem parte da minha identidade.

No carnaval tinham as famosas tribos de índio com sede no Alecrim. Lá tomávamos cauim e brincávamos muito.

O povo diz com nome certo. Ao dar nome a uma rua ela faz parte da nossa identidade e referência.

Em Natal se perde cada vez mais os referenciais:

Que esse bárbaros saibam que as coisas têm nome. Assim como o nosso nome, os nomes das ruas não podem ser mudados.

Leiam Câmara Cascudo.

Não sejam ridículos para só outorgar títulos eleitoreiros de Cidadão Potiguar.

E ridículo. É pífia a nossa representação parlamentar nas Câmeras e Senado.

Vejam que projetos esses “cidadãos” aprovaram para o bem da cidade e do País.

Uma das piores representações políticas do Brasil.

Saibam já qual é o meu voto para vocês. Nulo. O voto em branco vocês não merecem.

E saibam que vocês não podem dinamitar a memória de uma cidade que é nossa.

Indignadamente:

[Nota do Balaio: um vereador de Natal propôs, com aprovação da digníssima dona-prefeita-aliada-de-josé-agripino-maia-o-filhote-da-ditadura, a mudança do nome de parte da tradicional Rua dos Tororós, no bairro de Lagoa Nova, para o nome de um desembargador natalense. Daí a a indignação, mais do que justa, do professor João da Mata Costa.]

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

TIME DE GUERREIROS
TORCIDA ILUMINADA
Fluminense, eterno amor
Fluminense, paixão eterna

"... o Fluminense, o maior herói do Brasileirão de 2009"
(Juca Kfouri, corinthiano e rubro-negro).

Homenageamos, igualmente,
o Flamengo, pelo título brasileiro,
o Botafogo, pela permanência na série A,
e o Vasco, pelo título da série B.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2862
Natal, 7 de dezembro de 2009


CITAÇÕES DE NELSON RODRIGUES
[] Meu sentimento clubístico é anterior ao sexo,
anterior à memória.

[] A morte não exime ninguém
dos seus deveres clubísticos.

[] Um time pode jogar descalço, jogar de pé no chão.
Só não pode jogar sem alma.

[] Assim é o ser humano: na hora do palpite errado,
não lhe ocorre uma vaga dúvida metafísica.

[] O vídeo-tape, por ser burro,
não tem a imaginação do olho humano.

[] O que nós procuramos no futebol é o sofrimento.
As partidas que ficam, que se tornam históricas,
são as que mais doem na carne, na alma.



PERCUSSIVA
Nydia Bonetti
[ in Longitudes ]

tudo é preto tudo é branco
tudo é não sim

onde se esconderam as verdades
que moravam em mim?

tudo pode ser nada
nada pode não ser tudo assim

nada de poder tudo ou não
pode tudo nada tudo se danar

preta branca verdade
tudo se esconde

nada branco pode preto sim
tudo não haver danado ser onde?

sonora mentira


FELINA
Maria Maria
[ in Espartilho de Eme ]

Sou gata.

Toda noite, no telhado, viro fera
em cima de uma tapera
tão faceira a te esperar.

Sou gata.

Risco um grito sem fronteira,
pois eu sei que a lua cheia
quer em mim se derramar.


HORÓSCOPO DO BALAIO PARA A PRÓXIMA SEMANA

Áries
Descanse numa praia sem badalações turísticas.
Em Natal, não deixe de caminhar no Bosque dos Namorados.
Ainda em Natal, visite o Sebo Vermelho. (Re)veja John Ford .
Apareça no Bar Papo Furado, mas não discuta sobre HQs.

Touro
Estude o criollo de Cabo Verde. Leia Hemingway e Faulkner.
Conheça a Serra de Martins, no Rio Grande do Norte.
Ouça Monteverdi. Ouça Bach. Ouça Paulinho da Viola.
Fuja da Folha de S. Paulo: provoca diarreia mental.

Gêmeos
Escute, com emoção, o Madredeus. E Jacob do Bandolim.
(Re)veja Asas do desejo. Conheça São Saruê. E Pasárgada.
Tome sorvete, de qualquer sabor. (Re)leia Cecília Meireles.
Se homem, seja Glenn Ford. Se mulher, Amélie Poulain.

Câncer
Esbalde-se com banho de chuva, na primeira ocasião.
Beba uma boa cachaça, preferencialmente no Bar de Ferreirinha.
Ligue-se na poesia do Rio Grande do Norte. E da Paraíba.
Evite as ideias de José Agripino Maia: pura diarreia politiqueira.

Leão
Ande de bicicleta azul. Sonhe com as obras de Gaudí.
Conheça as igrejas barrocas de Oropa, França e Bahia.
Ouça Beethoven. Ouça Monteverdi. Ouça Chico Buarque.
Leia a literatura francesa do século XIX. E muito mais.

Virgem
Torça por seu clube futebol. Com paixão, mas sem violência.
Penetre no imaginário em transe da ficção cientítica.
Conheça o mundo dos quadrinhos: Moebius, Eisner, o Philémon.
Fuja dos falsos intelectuais: estimulam o preconceito literário.

Libra
Seja tudo. Seja ex-tudo. Seja pós-tudo. Seja o Rio Potengi.
Em Natal, marque ponto no Sebo Vermelho. E no Catalivros.
No Rio, marque ponto na livraria Folha Seca. E na Berinjela.
Não deixe de (re)ler Guimarães Rosa. E Machado de Assis.

Escorpião
Faça amor, muito amor, ao som de Brahms.
Conheça São José da Bonita e toda a região do Seridó.
Marque presença no Substantivo Plural, de Tácito Costa.
Fuja dos "politicamente corretos": são "politicamente chatos".

Sagitário
Não deixe de ler Câmara Cascudo. E Oswaldo Lamartine.
Conheça a poesia de Marize Castro e Iracema Macedo.
Seja homem, seja mulher, seja criança: seja você.
Passe uma temporada de três meses em São Saruê.

Capricórnio
Entre Kafka e Thomas Mann, escolha os dois.
Entre Antonioni e Fellini, escolha os três.
Entre Crepax e Alex Raymond, escolha os quatro.
Entre Bach e Beethoven, escolha os cinco.

Aquário
Releia, pela milésima vez, o Dom Quixote de todos nós.
Se flamenguista, continue comemorando o título.
Se possível, conheça Tranco e Lençóis, na Bahia.
Leve a sério Lenine Pinto: o Brasil foi descoberto aqui.

Peixes
Continue nadando contra a correnteza global.
Conheça o Ecovila Pau Brasil, em Pium/Natal.
Em Caicó, não deixe de mergulhar no Itans.
Evite o PIG (O Globo & demais): aaarrrrrggghhhhhh!!!

Serpente
Consulte o horóscopo asteca. E o de Pasárgada.
Faça campanha para Bibica para o governo do Rio Grande.
Aprofunde-se na Bíblia Hebraica. E em obras zenbudistas.
Divirta-se com a poesia absurda de Zé Limeira.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Foto:
Rafal Limburski


BALAIO PORRETA 1986
n° 2845
Natal, 17 de novembro de 2009


ensina-me, agora, a fertilidade da alegria.
(Mariana Botelho, in Suave Coisa)


CANÇÃO
Cecília Meireles
[ in Viagem, 1939 ]

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
— depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...


Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
POEMA
Nydia Bonetti
[ in Longitudes ]

chuva e escuridão
o mesmo céu da infância

... sem lamparinas



Recomendamos a leitura do artigo
PV NO PODER?
QUE NADA, O PODER É DO PTV
- PARTIDO DA TV PONGA NEGRA
de Cefas Carvalho
[ in Noticiando ]


DAS ELEGIAS: DIDÁTICA
João Filho
[ in Hiperghetto ]

O áspero poema? Não mais quero.
O inviável abismo? Já descri.
Foi com inabalável esmero
que duramente me persegui.

Se tudo é insuficiente, espero.
O instante vence o tédio, senti.
Se a valsa mudou-se em bolero
o ritmo pouco importa, vivi.

Pelo tropeço suavizei o passo.
Seu corpo é o sentido que devasso
devagar, como quem respira.

Gota que se equilibra suspensa –
a vida. Mínima que é imensa,
quando pensa que é real, delira.


INFLEXÍVEL
Mariza Lourenço

[ in Blocos ]

às vezes meu corpo despenca
no imaginário de teus versos.

de resto continuo cumprindo a mesma rotina
de cerrar portas e janelas
à aproximação de qualquer rima.



Memória 1993
BALAIO INCOMUN
Folha Porreta
VII / n° 493
Rio, 1 jun 93


O DIÁRIO SECRETO DE LAMPIÃO
(Fonte inicial: Papa-Figo, de Recífilis)

Baixa-da-Égua (24/6/24)
Querido diarim. Hoje tô tão arretado que capei cinco e arranquei as pregas de mais oito cabras que soltaram uma indecência para Maria Bunita. A culpa também foi dela, pra que eu fui deixar a danada passar o carnaval em Olinda? A criatura voltou cheia de idéias, capaz inté de ter fumado maconha por lá. Ainda por cima agora tá achando que tá prenha. Se o minino sair galego eu sangro Corisco. Ou será que ele pensa que num tô notando o jeito que ele vive cubando as entrecoxas de Maria Bunita quando ela tá de cócas. Também ela precisa acabar com essa mania besta de não usar calçolas, parece inté que a sua priquita num tem dono. Tem, sim senhor.

Oiti-da-Mãe-Joana (24/8/24)
Querido diarim. Esse negócio de eu só escrevinhá no dia 24 é coincidência, viu, que eu sou muito do macho. Hoje tô de novo arretado, com vontade de arengar com o primeiro fidaputa que aparecer na minha frente. Corisco tá com jeito de quem tá querendo enfeitar minha testa, mas antes disso eu como os ovos dele com queijo e cuscuz. Aquele galego da pustema num tira o olho da minha nega. Só porque a mulher dele é Dadá ele pensa que toda mulher é só olhar que ela dá dá. Derna que disseram que ele vai aparecer num filme de um tal de Glauber Rocha que Corisco só tá querendo ser o coisa e tal, também com aquele cabelão de frango que ele usa tinha que terminar dando pra artista, viado ou professor da UFF. Vai acabar metido em grevença.

Pau-dos-Ferros-da-Gota-Serena (23/2/25)
Querido diarim. Andando por esse mundão de Deus e do meu Padim Ciço, dá pra perceber, o Brazil tá fudido. Tanta riqueza, tanta miséria e tanto cabra safado sem macheza nenhuma. Será que foi tudo capado? Não sô profeta, mas um dia, lá pelas horizontanças de 89, 91, 93, sei lá quando, machos e fêmeas que ensinam o abecê da filosomia e que trabalham pru guverno federal ainda vão pegar nas armas do saber e abalar o paiz. Maria Bunita e o cabra Leontino concordam comigo. Então, o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão.

Arre-Égua-do-Norte (25/3/25)
Querido Diarim. Hoje dei um trompaço num cabra que se meteu a besta com Maria Bunita. Depois mandei Jararaca arrombar o fi-o-fó lá dele e cortar a macheza do dito cujo. Eu num danço conforme a musga, danço conforme o contravento. Não sô homem pra perder tempo com miolo de quartinha. Por isso mesmo Corisco nunca mais olhou pras pernas da minha bichinha. Quem pode carrega e sai, quem num pode carrega e cai. Quem tem Maria Bunita, tem cheiro e cafuné.

Canapi-da-Bosta-de-Jumento (13/7/25)
Querido diarim. Bem que ocê poderia ser um Diadorim, se bem que Maria Bunita já é a neblina dos meus encantalamentos. Mas um dia um escrevinhador retado de luas e marés ainda vai diadorinhá a vida do grande sertão pra que os outros e muitos outros possam ler e aprender. Num sei se estarei vivo pra ver tudo isso escrito e bem escrito. Mas, num é nada, num é nada, esteja onde estiver, aqui, acolá, além, darei meu sorriso de sartisfação. Afinal, bangalafumenga nenhum, mesmo no Inferno, vai me impedir de continuar macho. A macacada que se cuide. Sei que desgraça pouca é bobagem, mas nos futuros um tal de Fernandim das Alagoas vai querer desgraçar a vida do paiz. É uma pena, já estarei morto, senão cozinhava em azeite de dendê as partes roxas lá dele. Os cabras iam adorar.

[ Texto estabelecido pelo Prof. Jomard Martins Marconi ]