BALAIO PORRETA 1986
n° 1945
Rio, 2 de fevereiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
Contato: balaio86@oi.com.br
Brinquedo
de Celso Boaventura (RN)
[ in Sub Eterno ]
Cavo no asfalto o leite aziago
Que o teu corpo implora,
Cravo no corpo os dentes quebrados,
Já passa da hora;
A canção retrocede no deck vazio,
Eu persigo o vazio,
E o frio que a cidade promete, eu não vejo onde está.
Lavo meus olhos com gestos amargos,
E o rosto envelhece,
Saio de casa, um retrato embaçado,
O calor é uma prece,
Entoada em compassos bravios,
Eu perdi o navio,
E o ardil, que à saudade apetece, eu não quero nem ver.
Ensaio escrever, mas não trago
A inaudita fumaça,
Desmaio ante o teu coração congelado,
Sou uma torpe ameaça
À esse sonho infantil que o amor desconstrói,
Eu quis ser teu herói
Mas não há comprimidos no armário que eu possa engolir.
MAIS! OU MENOS?
O suplemento Mais!, da Folha de S.Paulo, já foi muito bom. Hoje, coisa de um ou dois anos, tem variado um bocado, ora para ótimo, ora para apenas razoável. De qualquer maneira, não pode, ou não deveria, cometer algumas asneiras imperdoáveis. No último domingo (28 de janeiro), por exemplo, indicou o romance Tom Jones (Henry Fielding, 1749), uma das obras-primas indiscutíveis da literatura mundial, apontando que o destaque da edição seria a tradução de Clarice Lispector. Só que não se trata de uma tradução como a entendemos; trata-se, antes, de uma adaptação bastante resumida da obra original, voltada para o público jovem. Para que se tenha uma idéia, só o primeiro volume da edição da Globo (Porto Alegre, 1949, trad. Octavio Mendes Cajado), em corpo 9, contém 380 páginas [o segundo volume estende-se por 360 páginas], enquanto o resumo de Clarice Lispector, em corpo 11, apresenta 350 páginas. Uma brutal diferença, não? Decerto, trata-se de um bom texto e de um bom resumo. Afinal, Clarice é Clarice. Contudo, o título mais adequado da obra (o erro, na verdade, é anterior à Ediouro) poderia ser Tom Jones, de Clarice Lispector, a partir de Henry Fielding. Aliás, o título completo do romance é A história de Tom Jones, um enjeitado. De nossa parte, recomendamos o texto original, seja ou não (bem) traduzido em sua totalidade, e não apenas um "resumo", por melhor que seja. E se é verdade que a Ediouro caprichou na edição resumida do livro, nada se compara, na literatura inglesa, ao verdadeiro Tom Jones de Henry Fielding, provavelmente um dos dez maiores romances de todos os tempos.
Relendo o Balaio Vermelho
Segunda-feira, 2 de fevereiro, 2004
CAICÓ, CHUVA E ALEGRIA
Messe de Nostre Dame,
de Guillaume de Machaut (c1300-77),
por Dominique Vellard / Ensemble Gilles Binchois
[ Cantus C 9624 (1999, grav. 1990) ]