segunda-feira, 30 de junho de 2008



1.
Caatinga
Foto de
Hugo Macedo
2.
Caatinga
Pintura de
Sandra Bianchi


BALAIO PORRETA 1986
n° 2355
Rio, 30 de junho de 2008

Se um homem necessita variar,
sua mulher pode oferecer-lhe infinitas opções.
(Honoré de Balzac)


CAATINGA
Suely Magna Nobre
[ in Substantivo Plural ]

Uma mulher desnuda
Exposta ao sol
Fértil feito terra agreste
Uma mulher frondosa
Feito árvore bisavó
Vestida de plumagens raras
Verdejante prenúncio
De noite sem luar
Intocada no meio da mata
Vivenciando as agruras
Destinadas à aridez
De um solo infértil
Suavizada apenas
Pelo olhar do poeta
Observador astuto
De belezas raras
Soprada em versos
Filigranas de uma
Réstia selvagem
Caatinga enegrecida
Trocando de vestes
Colorindo-se de esperança
Ao gotejo do primeiro
Ensaio de ano bom
Ricas pastagens
Lavouras e aves
De arribação
Coroaram o seu reinado
Embalada pelo som
De um único canário
Anunciando um reisado divino
E à sombra da mata
Da Serra da Cajarana
A mulher desnuda
Banha-se de prazer
Exalando aroma
De terra molhada!


POR ACASO, O OCASO
Alyne Costa
[ in Bragas e Poesia ]

A tarde que cai tem, assim, uma cor de incerteza. Uma chuva de dúvidas desaba e o coração da gente fica quietinho como se houvesse um espinho ou um caquinho de vidro moendo por dentro.
Dá vontade de ouvir canto de lavadeira voltando da bica. Trouxa alva na cabeça, no bolso um pedacinho de anil e na alma uma amendoeira frondosa que faz sombra sobre suas dores.
O menino sobe as escadas e acorda a mãe do devaneio num grito:
"- Mãe! Ô, mãe, vem ver Deus!"
"- Que Deus, menino?"
"- Deus, nosso Deus..."
Os olhos da mãe espreitam para ver melhor o sol a se deitar em róseos tons. O horizonte não tem mar. Ao longe um morro que não sabe o nome. Batiza de "Morro de Nosso Deus". E o morro, o sol, o horizonte, a cor do rosa que reveste o céu são inundados dos sonhos de mãe e filho. Na caatinga é assim. Cor-de-rosa é a cor do sol se pondo. Como se jatos de esperança varressem com anjos as dores que só se sabe de ouvir falar. A caatinga não sai no jornal da capital. A flor da caatinga não sai no jornal da capital. A dor da caatinga não sai no jornal. A fibra do povo da caatinga não sai em jornal. A caatinga não sai. E uma nuvem alva rasga o ocaso como se a miragem do menino desanuviasse a melancolia da mãe que cisma sobre sabedoria e imaginação, terreno fértil em terras de coração inocente. A mãe volta a seu novelo de poesia, querendo dar-se por conta do que perdeu. Entre cética e orgulhosa pensa na cria e julga ouvir aboios alados. Deus a livre de alma penada. O menino volta pra bola e pro jogo de botão. A meninada faz volta na sala, quase obediente. E a noite chega devorando as valas do abismo entre o que podia ter sido e o que será.
A noite galopa em açoites, angústias e medos. A noite assombra o inaudito. Uma quase volúpia da madrugada, a noite palita os dentes. Exaustos do feito e do por fazer, mãe e filho adormecem... Dos sonhos, Deus, nosso Deus toma conta. E uma procissão de candeeiros invade a lua.

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No blogue do
Poema/Processo
Seridoísmos (4): Caicó

7 comentários:

sandra camurça disse...

Colosso de imagens.
Balzac tava certíssimo mas, é, bem, eu acho que, ah, deixa pra lá...
Belos, o poema da Suely e a prosa da Alyne.
Beijos.

célia musilli disse...

Belo poema e belas imagens áridas. Vi que vc passou pelo meu blog dia desses, fiquei feliz..um beijo

Cláudia Magalhães disse...

Belas poesias! O seu blog é inspirador...
Obrigada pela visita, fiquei pra lá de feliz! Obrigada, mesmo. Beijos, Moacy.

Romário Gomes disse...

Tudo muito poético hoje! O poema de Suely eu já conhecia, inclusive já havia salvo em meu computador e o texto de Alyne é beliiiiiiiiiíssimo!!! Quanto à foto de Hugo Macedo tenho a ligeiríssima impressão de já ter visualizado esse lugar, acho que em cima do Monte de Dona Vitória, do Cruzeiro de Nossa Senhora Aparecida aqui em São José.

José Correia Torres Neto disse...

Querido Moacy,
Obrigado pela visita no Potiguarando e fique à vontade para re-publicar os escritos que lá estão.
Belo Balaio, cheio de cores, e vermelho como ele só.
Abraço

marilia disse...

Apesar de ser agrestina, sou apaixonadíssima pelas paisagens de sertão...
beijos

suely disse...

Moacy,

Meu poema no seu Balaio repleto de publicações de primeira grandeza - felicidade indescritível! Obrigada pelas primeiras palavras de incentivo. Elas se transformaram em pilotis do trabalho, ainda tímido, desenvolvido no campo literário.
Abraços.
Suely Magna Nobre