segunda-feira, 19 de janeiro de 2009


Palestina, Gaza

Imagem:
El Roto
via
Milton Ribeiro
a partir de
El País


BALAIO PORRETA 1986
n° 2541
Rio, 19 de janeiro de 2009

Poesia é muito difícil. Só com muita concentração, com absoluta determinação, com rigor extremo, pode-se construir um bom poema. ... Penso que a poesia está para a literatura como a matemática para as ciências
e o xadrez para os esportes.
(Sebastião NUNES, in Prosa & Verso, d'O Globo, 17/01/2009)


O LIVRO DOS LIVROS
(3)
Texto estabelecido a partir dos
Manuscritos do Mar Vivo das Arábias Orientais
com supervisão astrológica de Ludovicus Erasmus

A jangada de Mestre Cascudinho

E o Senhor das Alturas se fez impiedoso em sua fúria diabólica. Mas, entre todos os habitantes da terra, havia um que o Senhor das Alturas respeitava e considerava boníssimo: Mestre Cascudinho, morador da Cidade dos Reis, cujas andanças pelo interior do Rio Grande a todos causava admiração. Mestre Cascudinho era homem justo e íntegro. Gerou dois filhos. Ana Mariana Potyguar era o nome da donzela; Luís Fernandes Pedro Velho, o nome do mancebo. Mas a terra estava corrompida diante dos olhos do Senhor das Alturas.

Então o Senhor das Alturas disse a Mestre Cascudinho: "Chegou o fim de toda criatura mortal que existir. A terra está cheia de maldade. Vou destruir a todos com um toró tão grande que vai provocar, nos açudes da região e adjacências, a maior sangria de todos os tempos. Durante 40 dias e 40 noites choverá sem parar. Sangrará o Itans, o Boqueirão sangrará, sangrará o Gargalheiras, o Zangarelhas sangrará, sangrará a Passagem das Traíras, o Açudão de Açu sangrará".

E o Senhor das Alturas disse mais: "Construas uma jangada gigante, a maior possível, e nela abrigues tua família, os insetos do canto de muro de tua casa, o Boi Calemba, o Boi da Cara Preta, a onça Galileu Ziraldino e outros animais da fauna seridoense. E assim foi feito. E assim aconteceu. O toró que caiu, num raio de muitas e muitas léguas, inundou quase todo o Rio Grande e ainda sobrou água para outras terras e outras gentes.

Os mais antigos, os povos que, excluídos da jangada, conseguiram sobreviver, lutando contra a fúria do Senhor das Alturas, ainda se lembravam: as águas se tornaram violentas e aumentaram muito sobre a terra de modo que a grande jangada começou a flutuar na superfície das águas. As águas cresceram tanto sobre a terra que cobriram as montanhas mais altas que estão debaixo do céu.

Depois de mais 40 dias e 40 noites, quando as águas começaram a baixar, a jangada pousou sobre a Serra do Mulungu. Mestre Cascudinho e os outros, no meio de um lamaçal feladaputa, a abandonaram e, unindo-se a homens e mulheres que, aos poucos, começaram a surgir da Paraíba, de Pernambuco e do Ceará, e mesmo das Alagoas Sergipanas, esperavam pela Palavra do Senhor das Alturas.

Então o Senhor das Alturas, espantado porque o número de homens e mulheres era maior do que ele imaginara, mas momentaneamente conformado com a situação, falou a Mestre Cascudinho e aos demais: "Já que muitos sobreviveram, mesmo sem estarem na jangada, saiam, todos vocês, pelos sertões do Seridó, e forniquem bastante, sejam fecundos e se multipliquem sobre a terra". O Senhor das Alturas disse mais: "De minha parte, vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência: nenhuma vida animal será novamente exterminada pelas águas de um dilúvio, a não ser pelas bombas, pelos fuzis, pelas metralhadoras e pelas balas perdidas".

E assim Caicó se reergueu, reergue-se Acari, São José se reergueu, reergueu-se Serra Negra, Cruzeta se reergueu, reergueu-se Carnaúba dos Dantas. Currais Novos, também. Também Timbaúba dos Batistas. São Fernando, também. Também Parelhas. Ouro Branco, também. Também São João do Sabugy e Jardim de Piranhas. Só o Jardim do Seridó não fora engolido pelas águas e, com sua Biblioteca de Babel, permanecia praticamente inacessível para os pobres mortais de todas as cores e de todos os credos.

E a humanidade voltou a se espalhar por esse mundão de deus e o diabo na terra em transe, com seus vaqueiros e cantadores, e assim se formaram novos homens, novas mulheres, novas amizades, novas amigações. E a humanidade voltou a se impor: Rosembergue das Amérikas conheceu Carla Brunilda e outras mulheres e de tanto chumbregarem muitos filhos tiveram e muitos filmes fizeram. Chico Antônio do Coco Queimado conheceu Mário dos Andradas e os dois se apaixonaram por Patrícia Gavião, mulher de Oswaldo Pau-Brasil. Sindoval Rodrigo do Grajaú conheceu Rosa Hamburgo e de tanto discutirem as idéias dos livros proibidos da Biblioteca de Babel criaram a Comunidade Arretada do Mundo Novo. Dailor Galo da Madrugada conheceu Civone Completamente Nua e os dois, pássaros errantes, geraram filhos e filhas. Oswaldo Fescenino conheceu Nísia Mata Atlântica e de tanto chamegarem muitos filhos tiveram e muitos livros escreveram. Todos viviam, em média, 69 anos. E todos falavam a mesma língua-mãe: a língua tapuia.

[ Continua ]

Próximo capítulo:
A torre de Caicó

8 comentários:

romério rômulo disse...

moacy:
1.está certo o tião nunes.
2.vai sendo esclarecida a história
sobre os viventes.cascudinho é figura central.a sempre nua,presente.
um abraço.
romério

Mme. S. disse...

Moacy, perdoe-me a ignorância... mas esse texto "O livro dos livros" é de sua autoria? é uma das coisas mais incríveis que tenho lido nos últimos tempos. um cheiro, S.

Moacy Cirne disse...

Sim, cara SHEYLA, trata-se de um "metaplágio" que estou (re)criando: uma espécie de Bíblia Revisitada, tendo como base a BíBlia Sagrada editada pela Vozes no início dos anos 80.

Um beijo.

Eliene Dantas disse...

gosto demais dessas histórias doidas! rsrs

Carito disse...

moacy: que manuscroto, heim!?! tenha seridó de mim, ainda estou rindo e vindo, dando mil gargalheiras, many-festa antropótrágico, você fica só dando um tapuia nas costas, vou pagu pra ver, o próximo caicópítulo...

Mulher na Janela disse...

Querido Moacy, gostaria de agradecer por constar em sua disputadíssima Feira de Blogues e também por tão belos poemas como o da nossa amiga Maria Maria, ancorado nesse rio seridoense que é o Balaio.

Um beijo.

adrianna coelho disse...


moa, eu tô com o carito, gargalhando muito aqui... eu vou lendo e, acredita, lembro do nosso encontro e rio mais ainda! parece que estou ouvindo a sua voz! ahahahaa

como só vim agora, posso dizer "ganhei a noite!"

beijos, meu querido!

Theo G. Alves disse...

rapaz,
essa sua veia apostólica é demais! já era hora de um evangelho segundo Moacy Cirne.

um abração!