segunda-feira, 23 de março de 2009

Ponta Negra, em Natal
Foto de
Alex Uchoa
via
Ailton Medeiros


BALAIO PORRETA 1986
n° 2606
Natal, 23 de março de 2008

A vida inteligente em um planeta torna-se amadurecida quando pela primeira vez compreende a razão de sua própria existência. Se criaturas superiores provindas do espaço algum dia visitarem a Terra, a primeira pergunta que farão a fim de avaliar o nível de nossa civilização será:
"Eles já descobriram a evolução?"

(Richard DAWKINS. O gene egoísta, 1976)


O LIVRO DOS LIVROS
(15)

Texto estabelecido por Ludovico Orth Mesters das Vozes

A travessia do Rio do Chico

O Senhor das Alturas disse a Moysés Sesyom do Sertão: "Por que clamas a mim por socorro? Pensas, por ventura, que enviei uma seca braba às terras baianas apenas para que o coronel MiCarlos Agripinnius ficasse furioso com teu povo? Se eu quissese, teria enviado trovões e chuvas de pedras. Não o fiz. Terei culpa Eu se ele não gosta de Nossa Senhora de Sant'Ana?" E mais disse: "Dize aos seridoenses que se ponham de novo em marcha. Quanto a ti, amola a tua lambedeira(¹) para usá-la, se preciso for, e conduzas a tua gente para as margens do Rio do Chico, nas proximidades de Juazeiro, 10 léguas ao norte da cidade". E assim foi feito. E assim aconteceu.

E o rio São Francisco parecia um mar, com suas águas-correntezas. E o rio São Francisco parecia um mar, com suas águas-azulbelezas. E o rio São Francisco parecia um mar, com suas águas, na boca da noite(²), refletindo crepúsculos ensanguentados - um verdadeiro mar vermelho. E Moysés Sesyom do Sertão aproximou-se do rio na hora da viração. Mais de 20 embarcações de porte médio, alugadas a preço de banana pelo Senhor das Alturas, já se encontravam a postos. E a travessia se deu, sem maiores problemas, embora durasse toda a noite.

Nas primeiras horas do dia, quando os últimos seridoenses acabavam de atravessar o rio, os jagunços do coronel MiCarlos Agripinnius chegavam ao local, na margem oposta, e mais de 60 barcos foram tomados. No sufragante(³), o Senhor das Alturas valeu-se de caprichada mundrunga(4) e lançou terrível olhar sobre as tropas baianas, no meio da travessia, pondo-as em pânico. Soprou um vento forte do noroeste e o Rio do Chico virou bicho. As águas em ondas se transformaram e as embarcações naufragaram. Não escapou um só jagunço. Em verdade, em verdade, é necessário que se diga: biblica e hoolywoodianamente,um espetáculo digno de Cecil B. DeMille.

Então, em plena clara claridade da manhã, Moysés Sesyom do Sertão e os seridoenses cantaram ao Senhor das Alturas este cântico:

Cantemos ao Senhor porque estupenda foi a vitória,
Ele é nosso Catimbozeiro e bela é a sua glória.
O Senhor das Alturas é um guerreiro,
é um caba macho, é um feiticeiro.
Precipitou ao rio os barcos do coronel
e seu exército, sem farinha e sem mel.
Vagalhões os encobriram tal qual feras
e mergulharam nas profundas como pedras.
Ao sopro de tua ira elevaram-se as águas
e as ondas ergueram-se como onças e éguas.
Senhor triunfante que inunda nossos corações(ª),
Senhor fascinante que alimenta nossas paixões,
o nosso destino, agora, é a terra-canaã,
lugar sagrado da esperança e do amanhã:
de Acari Currais Novos Cruzeta São José e Caicó
a Parelhas Timbaúba São João e Jardim do Seridó.
Cantemos, pois, ao Senhor porque grande foi a vitória,
Ele é nosso Deus Supremo e magnifica é a sua glória.

E Moysés Sesyom do Sertão e sua gente atravessaram Pernambuco e a Parahyba e ao Ryo Grande chegaram a partir do Ceará, depois de se livrarem, em andanças fugidias, dos cangaceiros de Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino e Lampião. E o povo, cansado, e esquecido, queixou-se do profeta e patriarca. Eles diziam: "Por que nos fizeste sair da Bahia? Para que a gente morra de sede, fome ou morte matada". Houve novas provações. E eles diziam: "O Senhor das Alturas está do nosso lado - ou não?"

Próximo capítulo:
Os dez mandamentos

Notas:

(¹) Lambedeira : Faca de ponta.
(²) Boca da noite : Noitinha, logo após o luscofusco.
(³) No sufragante : Incontinente.
(4) Mundrunga : Feitiço; catimbó.
(ª) Verso recriado por Harold B.D. Rosemberg, com apovação metafísico-aristotélico-jardinense de Moatidatotatýne, o Escriba.

9 comentários:

Mme. S. disse...

Deus catimbozeiro foi demais! adorei esse trecho do Livro dos Livros, um cheiro grande, da sua menina, S.

Mirse disse...

Após dez minutos rindo, tentarei postar! Moacy isso dá um samba enredo da Estação Primeira da Mangueira. Tá bom demais!
Ganhei o dia!

Vocè é realmente um mestre!!!!

Beijos

mirse

líria porto disse...

acabarás por escrever a minha bíblia!!
besos

Jens disse...

Oi Moacy.
Eita, que baita travessia.
O poemeto do CDC aí embaixo me lembrou uma superprodução do Millôr nos anos 80: O último tango em Caruaru.
Um abraço e uma boa e produtiva semana. Pra cima com a viga.

adelaide amorim disse...

Eita, Moacy, essa bíblia tá cada vez mais porreta.
Beijo.

Bosco Sobreira disse...

Meu caro mestre,
Estou com a Líria Porto e com a Adelaide.
Acrescento: faz um bem danado te ler.
Abração.

Odessa Valadares disse...

Saudade de Ponta Negra, de quando não havia metade dessas luzes dessa foto. A gente resolvia dar uma volta na praia à noite, sem medo de ser assaltado ou sequestrado...

Mary disse...

Linda essa foto de Ponta Negra!

vais disse...

Saudações Moacy,
que cores estas da foto, maravilha de instante.
Esta Bíblia tá uma preciosidade.
e tudo muito de bonito na postagem de domingo
Olha só, moço, tirei o canto de circulação, então pra feira já era.
beijo carinhoso
inté mais