sábado, 16 de maio de 2009

FILMES QUE MARCARAM ÉPOCA
NA CAICÓ DOS ANOS 50
Clique na imagem
para verouvir
cenas de
Fabíola
(Alessandro Blasetti, 1948)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2663
Rio, 16 de maio de 2009


Exibido na "Vila do Príncipe" seridoense por volta de 1952, Fabíola chamou a atenção da população de Caicó por um motivo bastante simples: o "marírio dos cristãos" durante o Império Romano, com suas implicações bíblicas e historicizantes, apresentava-se repleto de ingredientes comoventes - e imagens que impressionavam -, com lances de igual modo amorosos, a partir, claro, de "romanceamentos" discutíveis. Na verdade, para além do "drama bíblico" estava um "drama sentimental". Como resistir, pois, a seu impacto conteudísitico-cinematográfico, sobretudo numa cidade que respirava religiosidade e sensualidade, mesmo considerando os limites morais da época? E Caicó não era uma cidade qualquer. Caicó era (e talvez ainda seja) Caicó.


Repeteco
OS ÍCONES CINEMATOGRÁFICOS
(Moacy Cirne, em 20/10/2007)

A idéia de ícone implica emblematização. Não significa necessariamente qualidade, embora possa figurar, no caso da arte, num determinado patamar estético capaz de resistir ao tempo. Quando pensamos no cinema, por exemplo, alguns ícones são evidentes. Outros são discutíveis. Sim, também aqui, é possível estabelecer divergências. Às vezes, um certo neblinamento pode sublinhar nossas opiniões. Mas fiquemos nos ícones mais claros.

Tomemos os musicais de Hollywood. Decerto, Cantando na chuva (Kelly & Donen, 1952) será lembrado pela maioria como o ícone por excelência. Seria o melhor musical realizado até hoje? Possivelmente, sim. Contudo alguns poderão preferir A roda da fortuna (Minnelli, 1953) em termos qualitativos. Ou Sinfonia de Paris (Minnelli, 1951). Ou Amor, sublime amor (Wise & Robbins, 1961). Por que não? Afinal, são quatro grandes filmes.

E no caso do bangue-bangue? Aqui, apontaríamos nomes: John Ford como diretor e John Wayne como ator. A reunião dos dois resulta em obras-primas como No tempo das diligências (1939) e Rastros de ódio (1956). Mas não há como esquecer Howard Hawks, igualmente com John Wayne em Rio Vermelho (1948) e Rio Bravo (1959). Ultimamente, a partir de várias revisões, Sergio Leone, sobretudo com Era uma vez no oeste (1968), tem-se destacado. Acreditamos que ele é mais do que um ícone do faroestespaguete.

Na comédia, claro, há que apontar Charlie Chaplin (Em busca do ouro, 1925; Luzes da cidade, 1931; Tempos modernos, 1936). Como realizador, preferimos Buster Keaton (Sherlock Jr., 1924; Seven chances, 1925; A General, 1927). Porém não devemos confundir as coisas. Não se trata de optar por um por outro; há espaço para os dois entre os "gênios do cinema". Além do mais, há outros grandes nomes no solo fértil da comicidade cinematográfica: O Gordo e O Magro, Jacques Tati, Billy Wilder (na comédia romântica).

E se falamos em comédia romântica, falemos em drama romântico. O grande ícone será Casablanca (Curtiz, 1942). Quem ousará discordar de? Todavia, segundo a nossa leitura crítico-afetivo-libertinária (com suas implicações ora semiológicas, ora seridoenses), Desencanto (Lean, 1945) continua sendo um filme insuperável. Um dos maiores da história do cinema. Ou, pelo menos, um dos maiores dos anos 40.

Um dos maiores ícones do cinema? E o maior de todos os filmes? Seria ele o ícone dos ícones em se tratando de estética cinematográfica? Talvez sim. Embora não seja o maior título da "sétima arte" - capaz de problematizar questões produtivas e culturais -, só um filme conseguirá se impor neste quesito: Cidadão Kane (Welles, 1941). Mas, afinal, qual seria o maior filme da história do cinema? Impossível apontar um título. De nossa parte, há muito que indicamos A aventura (Antonioni, 1960) como o melhor entre os melhores. E daí? Trata-se de uma escolha bastante pessoal, carregada, em nosso caso particular, de substância estética à beira da existencialidade e de um verdadeiro desnudamento ontológico. Afinal, "cada cabeça, uma sentença". Ou melhor: cada cabeça, uma emoção.

Outros ícones? O do cinema político (Eisenstein, Vertov, Godard, Glauber Rocha)? O do film noir (Preminger, Hawks, Wilder)? Do cinema documentário (Flaherty, Eduardo Coutinho, Vladimir Carvalho)? Há mais ícones: Mário Carneiro, símbolo da fotografia em nosso cinema. Visconti e Rossellini, emblemas do neo-realismo italiano; 2001: uma odisséia no espaço (Kubrick, 1968), o representante mais completo da ficção científica; Oscarito, símbolo da chanchada carioca. E o que dizer de um Fellini? Ícone de um cinema-bailarino (reportando-nos a Welles, em A ricota, curta de Pasolini)? E o que dizer do cinema Boca-do-Lixo - qual o seu ícone? Qual o seu nome mais legítimo?

A verdade é que sempre haverá discussões a respeito. Como assinalar, por exemplo, o ícone da beleza/sensualidade feminina nas telas do cinema mundial. Ingrid Bergman? Rita Hayworth? Maria Félix? Sophia Loren? Marilyn Monroe? Brigitte Bardot? Ava Gardner? Atrizes mais recentes? Brasileiras? Argentinas? Chilenas? De qualquer maneira, mais vale a mulher amada do nosso lado, olhando para os nossos olhos, do que duas ou três na imaginação a mais delirante. Mesmo que sejam belíssimas. Afinal, de forma concreta, e próxima, a mulher amada também será belíssima. Ou mais.

Não nos esqueçamos que, fora do campo cinematográfico, são muitos os ícones do século XX: Einstein, em ciência; Picasso, em pintura; Che Guevera, em rebeldia revolucionária; Gaudí, em arquitetura; Sartre, em existencialismo; Bachelard, em epistemologia; Fla-Flu (e/ou Pelé, e/ou o Maracanã), em futebol; Cartier-Bresson, em fotografia; Brecht, em teatro; Maiakóvski (e/ou Fernando Pessoa), em poesia; Guimarães Rosa (e/ou Joyce, e/ou Kafka), em literatura ficcional; Stravinsky, em música; Câmara Cascudo, em folclore; Freud, em psicanálise; Joãozinho XXIII, em religiosidade católica; Lênin, em política revolucionária. E há aqueles símbolos alimentados pela indústria capitalista: a Parker 51, o cadilaque, a coca-cola (essa última não nos interessa, a bem da verdade). Seriam símbolos inúteis? Não, não existem símbolos inúteis ou, mais precisamente, leituras inocentes (cf. Louis Althusser).

Há, ainda, uma pergunta final a ser formulada: o ser humano necessita de ícones? Quer nos parecer que sim. Assim como necessita de mitos religiosos que requerem a criação histórico-ficcional de um Deus judaico-cristão-muçulmano.


16 comentários:

Lívio Oliveira disse...

Moacy, em se falando de ícones, você termina sendo um deles para nós, no melhor sentido. Além disso, todos o seguimos porque você é um homem que sabe escolher...
Um forte abraço!

Mirse disse...

Bom Dia, Moacy!

Interessante, como nessa época, certamente eram poucos os recursos
cinematográficos. e as cenas eram tão chocantes!.-

Concordo com meu amigo Livio Oliveira, você é o ícone que nos indicará passo a passo outros ícones.

Beijos

Mirse

Anônimo disse...

moacy, homem de seridós-aurora, fiz uma pequena mudança, sobre teu canto-baladeira. espie

Pedrita disse...

Vc via poucos filmes brasileiros. Vi no canal Brasil filmes incríveis dessa época. Beijos, pedrita

Moacy Cirne disse...

Cara PEDRITA:
1. De fato, poucos eram os filmes nacionais exibidos em Caicó no período em pauta, incluindo, inclusive, as chanchadas com Oscarito e Grande Otelo; 2. O outro problema é que só estou colocando filmes que possam ser interligados ao youtube, para que se tenha o trêiler ou cenas do mesmo, o que nem sempre é possível (já tentei, por exemplo, captar cenas de "Cristovão Colombo", com Fredric March, que vez muito sucesso em Caicó, mas até o momento tem-se revelado impraticável; 3. Mesmo assim tenho dois ou três filmes nacionais "engatilhados" - um deles, por mim já destacado ("O ébrio").

Um beijo.

Francisco Sobreira disse...

Caro Moacy,
Não conheço "Fabíola". Achei a sequência impressionante, pena que, nela, não tenha aparecido Michele Morgan, uma das mais belas atrizes. Acho "Cantando na Chuva" o musical dos musicais. "Sinfonia de Paris" e "Amor, Sublime Amor" formam com ele , na minha opinião, os 3 maiores musicais de todos os tempos. Gosto um pouco menos de "A Roda da Fortuna". Um abraço.

Pedrita disse...

eu sempre morei aqui em sampa e lembro q minha mãe foi ver outros posteriores como cortiço e dona flor. ela dizia q lotava e ficava gente pra fora. aqui tb alguns filmes brasileiros passam muito rapidamente, tem q correr pra ver, então na primeira semana, na da estreia vou ver. foi assim com canta maria, bella donna, cheiro do ralo, feliz natal, entre tantos outros e todos tem no youtube.
dos brasileiros da década e 50 e 60 q tem no youtube sao: do oscarito são vários - http://www.youtube.com/watch?v=U0gH5n7Mx34
Mazzaropi - jeca tatu http://www.youtube.com/watch?v=0p3VbfT6qOk
orfeu negro - 59 - http://www.youtube.com/watch?v=SVQ_9CuaDTc
o cangaceiro - 53 - http://www.youtube.com/watch?v=SBDw5KiOQ5o
floradas na serra - 54 - não tem no youtube
da década de 60: os cafajestes de 62 http://www.youtube.com/watch?v=cAf9F1b9nHg
noite vazia do walter hugo khouri - 64 - http://www.youtube.com/watch?v=QHCbEIjNTAY
todas as mulheres do mundo - 66 - http://www.youtube.com/watch?v=PQVCDCBDYuI
ainda não consegui ver, embora passe de vez em quando no canal brasil o cangaceiro, floradas na serra e orfeu negro.

Moacy Cirne disse...

Minha cara:
Nenhum dos filmes citados foi exibido em Caicó nos anos 50
(período em pauta).
Conheço todos eles; alguns vistos em Natal; outros, no Rio. "Orfeu do carnaval" (título de "Orfeu negro", nos cinemas) foi visto por mim pela primeira vez em... São Paulo (janeiro de 1960).
Mas dois filmes, pelo menos, já estão selecionados: "O ébrio" (ainda não foi postado porque não faz muito tempo que o destaquei em "outra matéria" aqui mesmo no Balaio) e "Uma pulga na balança". Continuo a pesquisa e agradeço as suas sugestões. Mas não se esqueça: Caicó não era (e não é) São Paulo.

Beijos.

Ines Motta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ines Motta disse...

Bom dia, querido Moacy.
Belo Balaio.
Tenho visto que no momento andas participando de palestras e sendo homenagenado (aqui em Natal, inclusive) em oficinas de quadrinhos.
Justo! Justíssimo, para esse expoente máximo das HQs.
Parabéns!
Beijos.

Sergio Andrade disse...

Fabíola é excelente! E o maior musical do cinema é "O Pirata", do mestre Minnelli.

Também estou enfrentando muita dificuldade em encontrar vídeos no Youtube de filmes brasileiros para a minha série sobre as musas da década de 60. O Brasil é, definitivamente, um país sem memória cinematográfica :(

romério rômulo disse...

moacy:
te encaminho, por e-mail,alguns inéditos publicados no cronópios.
estou atento ao senhor das alturas.
um abraço.
romério

BAR DO BARDO disse...

Moacy, sinceramente, você existe?

BOTINHAS disse...

Moacy, amigão
Gostei de ver você aqui na minha casota (de cão).
Obrigado pelo seu voto.

Abraço fraterno
Botinhas

Oliver Pickwick disse...

Olá, Moacy! Há tempos que não passava por estas bandas.
Provavelmente há registros da passagem de Judas por Caicó, e imagino que por pouco ele não perdeu as botas por lá.
Também nasci e me criei em uma cidade do interior, e a exibição de filmes nacionais era tão rara quanto um alinhamento de planetas.
Foram-se as décadas de 60, de 70, mas a patrulha ainda continua: como pode um ícone como Moacy não ter assistido os filmes da Atlântida lá em Caicó? Sugiro arranjar um certidão negativa de exibição filmes brasileiro do cinema desta cidade. :)
Um abraço!

Cosmunicando disse...

fabuloso esse texto, Moacy.
uma riqueza mesmo.
beijo