quinta-feira, 18 de junho de 2009

BALAIO PORRETA 1986
n° 2696
Natal, 18 de junho de 2009

A poesia é a teoria dos homens e a prática dos deuses.
(Murilo MENDES. O discípulo de Emaús, 1945)


TRÊS CONTOS
Rosa Amanda Strausz
[ in Mínimo múltiplo comum, 1990 ]

Quase erótico

Tinha dedos ásperos e mãos enormes, pacientes. Eram capazes de rastejar entre vestidos e lençóis infinitas vezes até se enroscarem em torno de um seio ou dentro de uma cavidade escorregadia. Não importava quais. Sempre encontrou o caminho. Jamais o sentido.

A pedra

É preciso remover montanhas. Digo mais: é preciso fazê-lo sem fé. Arrojar-se com o pavor maravilhado de um ocidental que morda peixes crus.
Ele fazia isto a cada dia. Só pela urgência, tão maior que uma montanha sem religiosidade alguma. Por isso eu o amava. Embora também eu não passasse de um pedaço de cordilheira, à espera da imobilidade no eterno abraço da remoção.

Conto colorido

Quando lhe perguntaram o que queria ser quando crescesse, não vacilou: televisão.


MADUREZ
de Adelaide Amorim
[ in Inscrições ]

Posso ser ilha
se as pontes ruírem.
Comungo o mundo e esqueço
invento o sangue
as veias esvazio
graduo o peso segundo o solstício.
Por mãe de renascença tive a espera
sou vegetal, minério
bicho novo.
Tenho a força do vôo e do horizonte
um sol dentro do corpo
e me improviso.
Posso ser ilha
se as pontes ruírem.


A VAGABUNDA IDIOTA
Sandra Camurça
[ in O Refúgio ]

Faltou-lhe a gula
Suculenta
Faltou-lhe o tesão
Suado
Faltou-lhe o olhar
Úmido
Faltou-lhe o cheiro
No cangote
Faltou-lhe a secreção
Leitosa
Faltou-lhe a mão
Carinhosa
Faltou-lhe a boca
Nos seios
Faltou-lhe a língua
No grelo
Faltou-lhe a mordida
Na carne
Faltou-lhe a foda
Obscena
Faltou-lhe a paixão
Desmedida...
E ainda levou um chute no estômago:
Faltou-lhe amor
Sobrou a dor...

Repeteco
ERUDIÇÃO BURRA
Moacy Cirne
[ in Balaio n° 1962, de 1/3/2007 ]

Nada mais irritante, no mundo da literatura, do que a erudição burra, a erudição pela erudição, pura e tolamente, sem qualquer relação com o saber e o fazer. E o que é um erudito burro? É o sujeito que muito lê, de forma quase compulsiva, e nada apreende, nada assimila, nada (re)cria, alimentando-se, muitas vezes, de reflexões (no melhor dos casos) e citações descontextualizadas.

É verdade que certos livros, certos textos, certos filmes, certos quadrinhos, levam inevitavelmente a conhecimentos inócuos ou mesmo a nenhuma espécie de consciência crítica e/ou criativa. São obras descartáveis, dignas, por exemplo, de um Big Bosta Brazil. Já outras, por melhores que sejam, quando atraem leitores preguiçosos, meros colecionadores de palavras vazias, implicam - sempre e sempre - simples leituras inertes (cf. Bachelard). E da leitura inerte à erudição burra o passo é muito pequeno.

Armazenar informação não significa necessariamente produzir cultura. Escrever difícil, isto é, hermeticamente, não significa escrever em profundidade. Ao contrário. Marx e Nietzsche, e outros, já nos disseram. Citar por citar também não quer dizer nada. A verdade é que, por mais que nos interessemos por filosofia, antropologia, história, política, psicanálise e/ou criação literária, honestamente ou não, a leitura de um só livro, dependendo do livro, dependendo do autor, pode ser mais importante do que o consumo (desvairado?) de 100 ou mais livros, mesmo que alguns deles sejam expressivos. Ou interessantes.

13 comentários:

anin disse...

Vim pra responder quem é Anin, mas ao ler o seu texto não pude deixar de aplaudir. Não reconheço a intelectualidade infértil. Se não é possível criar, que se recrie o saber no fazer.
*Anin é uma dama encantada com os madrigais eróticos - sejam melódicos ou carnais.

Mariana Botelho disse...

Moacy! Que lindo esse Balaio!

A foto está delicadíssima. Os contos primorosos. os poemas incríveis.

beijo!

Mme. S. disse...

Meu querido, você e Rosa Amanda Strausz melhoraram meu dia. Ela, pelos contos incríveis - sem desmerecer os demais, pelascaridades, que não quero ser grosseira. Agora, seu texto deveria ser publicado em blogs, em jornais, em notas televisivas, deveria ser jogado ao vento por um zepelin, enfim. Concordo com você em tudo o que disse, não suporto a logorreia de pseudo-intelectuais ou eruditos-burros. Um beijo, saudades.

adelaide amorim disse...

Repeteco dos mais desejáveis, Moacy.
Sempre muito bom estar aqui no Balaio.
Beijo beijo

Mirse disse...

Oi Moacy!

Estou numa lanhouse, mas passei para lhe dar um abraço.

Todos os poemas são bons, mas destaco "MADUREZ" como um dos que mais gostei.

Muito boa sua explanação sobe ler e como proceder. Nelson Rodrigues já dizia isso. Ler, gostar, apreender o estilo e algumas variedades, como "Grandes Sertôes Veredas", é uma maravilha.
Mas há livros que eu não consigo passar da 20ª página.

Muito Bom!

Parabéns, amigo!

Beijos

Mirse

Marisete Zanon disse...

Quase erótico e a vagabunda idiota são os meus escolhidos, pois fazem bem o meu gênero...hahah ( não interprete ipsis literis)!
um abração pra ti Moacy
ah! vou pegar os dois pra colocar no meu blog...Posso? Depois volto para pegar a resposta.

Marisete Zanon

Jens disse...

Oi Moacy.
Pertinentes as observações sobre a Erudição Burra. Pessoalmente, aprendi a moderar o uso de citações, um deslumbramento dos tempos juvenis, quando era bacana exibir conhecimento no Bar do João, no Bomfim. Acredite, servia até pra ganhar mulher.
***
A Sandrix, ousada e sensível, como sempre.
***
Porra, tu leu Ulisses? Eu tentei e não consegui (problema neuronal, certamente). Só li as partes mais picantes do solilóquio da Molly Blum.

Um abraço.

Moacy Cirne disse...

Tudo bem, MARISETE.

Um abraço.

Maria Maria disse...

Moacy,

você está no www.floresdoserido.blogspot.com
Passe lá, esse poema seu é muito bom!

Beijos,

Maria Maria

Lívio Oliveira disse...

Bom demais o Balaio, hoje. Boa poesia, arte da boa e o texto sobre o intelectual burro é antológico.

Cosmunicando disse...

Moa, concordo total com a Sheyla... o teu texto é essencial.

Os poemas e a foto estão de uma qualidade incrível. Madurez é lindo!
Mas sinceramente nem sei qual escolheria hoje... tudo especial, mestre.

um beijo.

sandra camurça disse...

Grata, Moacy.
Um beijo.

nina rizzi disse...

papagaios?
dá vontade de sair citando por aí... rsrsrsrs.

beijo.