segunda-feira, 8 de junho de 2009

Sansão e Dalila
(1610)
Peter Paul Rubens


BALAIO PORRETA 1986
n° 2686
Rio, 8 de junho de 2009

Se lermos a narrativa bíblica como uma estória, abandonamos sua verdade histórica. Se a lermos como literatura, muitas vezes encontraremos nela a arte literária, mas esta arte nos afasta ainda mais da verdade que possa
corresponder aos fatos ...

(Robin Lane FOX. Bíblia: verdade e ficção, 1991)


O LIVRO DOS LIVROS
(34)

Texto estabelecido por Escribas anônimos

Das histórias seridoenses

Muitas são as histórias que fazem o Seridó, como aquelas que, em futuro não determinado, serão vividas pelo padre Brito Guerra, pelo jornalista Manoel Dantas, pelo político José Augusto, pelo coronel João Medeiros, pelo louco Ciço Doido. Ou como as de Jó da Silva e Silva, que já foram biblicamente relatadas. Há outras histórias, há outras estórias, há outras acontecências.

Há a história de Sansão Cabeludo, de Carnaúba dos Dantas, integrante de uma banda de roque romântico, que se apaixonou por Dalila Pecadora Sensual, de Equador, integrante de uma banda de metal pesado. Mas Dalila Pecadora Sensual preferiu chumbregar com outros homens. E Sansão Cabeludo, cego de raiva, saiu dando porrada em todo mundo. Acabou na prisão.

E há a história de David Davide, de Parelhas, que, jogando pelo Centenário, deu um drible tão desmoralizante em Golias Galalau(¹), zagueiro do Campinense paraibano, que gerou o maior cu-de-burro(²) entre os jogadores dos dois times. Reza a lenda - bíblica - que o drible ficou conhecido como "parábola do campo de ossos", de significado obscuro até os nossos dias.

E há a história de Jonas Bolo-Bolo, de Caicó, que teria sido engolido por um enorme pirarucu, no Itans, e devolvido pelo "bacalhau amazônico", são e salvo, três dias depois do acontecido. Mas há controvérsias(³) a respeito do fato: alguns teólogos o veem como uma "parábola da magia divina"; já outros o veem como uma inestimável "parábola do poder da mente".

E há a história da Rainha de Sabá - que não era de Sabá e sim de Recife Pernambucália, conhecida pelo nome de Sandrix Camurça -, que perambulava pelas principais vilas do Seridó, de Acari e Currais Novos a Cruzeta e Timbaúba dos Batistas, à procura de sabedoria, dimensão salvadora, refúgio amoroso, sonhos dourados, assim como dos originais do Cama Sutra.

E há a história de Daniel Magrão Medeiros, de São Fernando, na cova das onças em plena Serra da Formiga, e que foi devorado sem dó e sem piedade pelas temidas feras do sertão. De sua tragédia, ao amanhecer de uma quinta-feira chuvosa, resultou o folhero de cordel escrito, impresso e distribuído por Fabião das Queimadas - O romance da onça misteriosa(ª¹).

E há a história de Esther Esthelita e seus dois maridos, em Caicó. Um a comia biblicamente nos dias pares; o outro, nos dias ímpares. Uma vez por mês, no mercado público da cidade, os três se dedicavam ao assistencialismo social, oferecendo raivas(ª²), arroz, feijão, estampas Eucalol, retratos do Padim Ciço e catecismos de Carlos Zéfiro(ª³) para a população pobre.

E há a história do Livro do Profeta Isaías Malaquias,
cujos versos iniciais são:

"Ai da nação que peca,
do povo marcado pelo erro,
da raça de raparigueiros,
mentirosos e cachaceiros.
Ai da nação imperialista,
de políticos corruptos,
da raça de biriteiros,
faltosos e pedofileiros.
Ai daqueles que não permitiram
que o sublime Senhor das Alturas
conhecesse a graciosa Ava Gardner,
mil vezes bela, mil vezes donzela"(ªª¹).


Próximo capítulos:
Das lamentações caicoenses

Notas:

(¹) Galalau : Grande, gigante [pessoa alta].
(2) Cu-de-burro : Confusão.
(³) Até então O Livro dos Livros não destacava as suas possíveis controvérsias; essas ficavam por conta dos estudos de teólogos, físicos e astronautas que o enfocavam, o que não deixa de ser uma novidade surpreendente em sua redação canônica.
(ª¹) É possível que um famoso bar dos anos 40 e 50 do séc. XX da Era Comum, no bairro da Ribeira (na cultuada Cidades dos Reys), tenha tido o seu nome - Cova da Onça - em homenagem ao episódio bíblico.
(ª²) Raiva : Biscoito típico da região.
(ª³) "Catecismos de Carlos Zéfiro": Trata-se, evidentemente, de um erro de tradução do original aramaico-tapuia-seridoense. Na verdade, a autoria divina do texto quis expressar o seguinte: "folhinhas do Sagrado Coração do Senhor das Alturas".
(ªª¹) Segundo o teólogo Romário Romário, de São José, os quatro últimos versos seriam apócrifos, acrescentados no séc. XIII da Era Comum por Janjão do Pau Torto, monge e escriba que detestava coalhada com rapadura.

10 comentários:

Adrianna Coelho disse...


E há a história de Jonas Bolo-Bolo, de Caicó, que teria sido engolido por um enorme pirarucu, no Itans, e devolvido pelo "bacalhau amazônico", são e salvo, três dias depois do acontecido. Mas há controvérsias

Moa, em dia d'O Livro dos Livros, virei aqui de manhã cedo, pq assim fico rindo o dia inteiro. Tô pra ver cabra mais criativo do que vc, viu.
Adorei os versos iniciais de Isaías Malaquias (me lembrou de um outro Doido qualquer... rs)
As notas são sempre divertidas.
Outra coisa que tenho gostado muito são os trechos do livros que vc anda lendo. Era disso que eu tentava falar outro dia.

beijos & cheiros & bom dia!

líria porto disse...

esse teu amor por ava gardner é tão lindo quanto a bela!!
besos

Em cativeiro disse...

Sempre fico com dificuldades em comentar aqui, gostaria de comentar sobre todas as coisas mas acabo caindo numa confusão que só me salva o reler... e ao reler sinto que não há o que comentar, já é completo.

O balaio porreta é o melhor "web fanzine" da internet.

abs

Mirse disse...

Ai Moacy! Desta vez estrapolastes!

Dalila Pecadora Sensual, a história de Jonas Bolo-Bolo,
da Rainha de Sabá de Recife Pernambucália e o melhor de tudo foi o teólogo Romário Romério esplicar e assinar embaixo.

Demais! Muito Bom!


Beijos

Mirse

Eliene Dantas disse...

Olá garoto! Foi muito bom esses dias em Ponta Negra, mas deu uma saudade danada desse seu balaio!

bj carinhoso Moacy

BAR DO BARDO disse...

Moa, a bíblia e sua Ava Maria...

Bom!

adelaide amorim disse...

Imaginário bem digerido, esse seu, mestre Moacy.
Beijo!

Lívio Oliveira disse...

Moacy, meu profeta!

HILTON RAFAEL disse...

Primeira vez a visitar seu blog sobre poemas e estou convencido de que encontrei uma fonte onde poderei me saciar de poesias, belo blog, já está adicionado.
Att;
Hilton RAFAEL
www.direitorafael.blogspot.com

sandra camurça disse...

Eu acho que essa Sandrix Camurça foi ao Seridó atrás do Rei Salomão que não era de Israel mas...Hiii, acho melhor ficar por aqui, se não vou começar a inventar...
Adorei, adorei, Moacy!
Gosto muito de estar incluída entre suas invenções ;-)
Beijos