segunda-feira, 7 de setembro de 2009


a.
1822
Poema/Processo de
Nei Leandro de Castro
(1966-67)
b.
Foto de
Yuri Bonder


BALAIO PORRETA 1986
n° 2776
Rio, 7 de setembro de 2009

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquwe coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
(Mário de SÁ-CARNEIRO. Indícios de ouro, in Todos os poemas)


RITU AIS
Iara Carvalho
[ in Mulher na Janela ]

batizado com um nome secreto,
o homem que me gula
diz sabências na hora do amor.

esquisita e rubra,
faço que pertenço ao seu dorso,
desabotoo a camisa,
entre as pernas lhe coo.

neblinas de espessuras e doces
tremulam pontos de luz
sobre o corpo.

agora finge que dorme
abafando risos entre os pomos.


CANTARES VII
Jeanne Araújo

Por mais que eu te diga concha, água, âncora
Não me escutas.
Desmanchada pelos vendavais
Contemplo minha herança em sobressalto
E retraio-me ante tanta escuridão.
Depois, há o tempo
Refazendo os caminhos
Com meus próprios medos.
Cansa-me o gesto repetido
Tua canção antiga
E a solidão alheia.
Sou minha própria inquisição.


AMANTES DE AGOSTO
Bárbara Lia
[ in Germina Literatura ]

Gosto de agosto.

O algodoal menstrua

sangue branco

antes da primavera.

É preciso rasgar

por dentro

antes que chegue a primavera.

É preciso pagar o tributo,

os deuses sempre cobram.

Depois que cair gotas espessas

brancas

no chão quase-negro,

os algodoais serão apenas valsa.

Uma onda de espumas trepidantes.

Quem sabe um leito rústico,

para os amantes de agosto.

Quem sabe agosto faça o parto da

primavera com menos pranto,

sem sangue branco,

apenas vento,

valsa

e um olhar que é só encanto.


ESCONDIDA
Adriana Karnal
[ in Karnal-Poemas ]

Me escondia debaixo da tua saia,
e sabes?
Aprendi a escrever contigo,
quando o vento soprava
e o ventre se encaixava.
Desde pequena já sabia
que é de onde menos se espera
que nasce a poesia.


UIVOS SETEMBRINOS
Cássio Amaral

I

Palavras aleatórias
Riscam o chão do verbo
Nas aliterações derramadas

II

A balança dirige
Meu estado de espírito
Faiscado no equilíbrio

III

Neil Young me benze
No setembro que chega
Lótus me sorri num verso

IV

Rock can never die
Meu caminho é gaita
No uivo da lua

V

Uivo lua cheia
Na gaita crispada
da música de Neil Young e Crazy Horse

VI

Lua nua pluma
Verbo oro faísco
Arrebento cabaço gozo.


PROPAGANDA COMO JORNALISMO:
O MST E A VEJA
Marcos Silva
[ in Substantivo Plural ]

Li a matéria “Uma CPI para investigar o MST”, assinada por Sofia Krause na revista Veja (9 de setembro). Não identifiquei no texto bases elementares de escrita jornalística: levantamento demonstrado de informações, argumentação explicativa, espaço para diferentes pontos de vista. As vozes reproduzidas são de acusação – Ronaldo Caiado e Kátia Abreu, ambos do partido DEM, ambos ligados a interesses do agro-negócio. O MST é acusado de crimes não-identificados.

Considero absolutamente legítimo a Imprensa acusar ou defender qualquer ponto de vista dentro de um universo próprio de Jornalismo. Quando o texto se reduz a repetir uma ideologia qualquer, sem a mínima reflexão problematizadora, ele se reduz aos termos da dita ideologia, que tem razão de ser como militância de um grupo ou movimento social mas nunca foi Jornalismo nem pensamento crítico.

A questão, portanto, nem é ser a favor do MST ou contra o MST, a favor do agro-negócio ou contra o agro-negócio. O que está em jogo é a dignidade do pensamento, que não vigora nesse texto de Krause.

15 comentários:

Marcos disse...

Moacy:

Obrigado por divulgar meu post sobre a Veja. Parabens por nos trazer o 1822, poema tão importante de Nei Leandro de Castro. Infelizmente, a reprodução ficou difícil de ver, sugiro repetir depois um pouco ampliada.
Abraços:

Mirse Maria disse...

Bom dia, Moacy!

Belíssima imagem!

Mario de Sá Carneiro, lindíssimo!

Todos os poemaS GENIAIS, MAS DESTACO A GRACIOSIDADE DE aDRIANA kARNAL!

No mais tudo perfeito!

Beijos

Mirse

Pedrita disse...

lindo ritu ais. beijos, pedrita

Cássio Amaral disse...

Brother,

Meu mais profundo muito obrigado pelo que você já fez e faz pela poesia brasileira e universal.

Sou seu fã incondicional!

Um grande abração de luz.

Seu irmão

Cássio Amaral.
P.S.Espero te conhecer um dia e te dar um abraço e falar com você.

BAR DO BARDO disse...

muito bom saber
que mulheres amam homens
& homens amam mulheres
etc...

antologia - como sempre...

parabéns a todos!

Maria Muadiê disse...

bela seleção de poesia!
beijo

celia musilli disse...

Belos rituais e cantares!!! Um beijo.

graziela_108 disse...

Ô Moacy, vc é mestre, e sabe agradar uma mulher,a-do-rei,viu? saber que estou no balaio de hoje me deixa lisonjeada...
bom feriado pra você!!!

Adriana Karnal disse...

Moacy, vc é mestre, e sabe agradar uma mulher,a-do-rei,viu? saber que estou no balaio de hoje me deixa lisonjeada...
bom feriado pra você!!!

( o post aí de cima saiu com a conta da minha filha)

Mulher na Janela disse...

Moacy!
figurar entre poemas tão belos e num Balaio tão arretado, meu deixa felicíssima!

Beijos do Seridó!

Marcelo Novaes disse...

Moa,



Entendo o desagrado do Marcos Silva. Ouço a bênção vinda de Neil Young. Contemplo o que havia debaixo da saia e o aldodão menstruado das gentis mulheres de verbo agudo e lapidado. Todos ótimos textos. Os de Iara e Jeanne me chegam, sobretudo, como música. E eu adoro música! Como matriz da literatura, então, nem se fala...







Abraços,










Marcelo.

Jeanne Araujo disse...

bjos meu mestre. A cana de açucar está sendo queimada e um cheiro doce invade as ruas enqto o pó das queimadas caem sobre as casas...é neste cenário q estou vivendo e escrevendo. rsrsr. obrigada por estar sempre no balaio. saudades...

Meg disse...

Moacy, meu amigo,

Sempre me deliciando com a leitura do Balaio, sempre descobrindo novas leituras, alfobre de conhecimentos que não dispenso, embora o trabalho me obrigue por vezes a ausências que tento recuperar... como agora, que o pico do Verão já passou...
O meu carinho por ti é imenso.

Um cheiro

Adriana Godoy disse...

Muito boas as postagens, com destaque para o poema de Adriana Karnal. Eta, Balaio Porreta!!

Beti Timm disse...

Mestre,
muito riste o que aconteceu e mais lamentável ainda, a forma como foi descrita, pela Sofia krause. A falta de dignidade de pensamento, é algo que lastimável e que nem deveria ser publicado.

Beijos carinhosos