domingo, 6 de setembro de 2009

OBRAS-PRIMAS DO CINEMA
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cenas de
Simão do Deserto
(Luís Buñuel, 1965)
O último filme mexicano do diretor espanhol é um média-metragem provocante, ousado, feroz, com uma Sylvia Pinal fantástica no papel do Diabo, a tentação em pessoa. Por questões financeiras, Buñuel recorreu a um corte dos mais criativos: do deserto para a sequência final numa discoteca de Nova Iorque dos anos 60. Segundo a nossa leitura crítico-afetivo-seridoense-libertinária, uma das três melhores realizações do autor de Um cão andaluz (1928) e O anjo exterminador (1962).


BALAIO PORRETA 1986
n° 2775
Rio, 6 de setembro de 2009

Hoje é dia de festa no Maracanã.
A esperança é a penúltima que morre
.
(Moacy Cirne)


POEMA
Mariana Botelho
[ in Suave Coisa ]

depois da dor
o filho dorme
com doçura

tento não me
perder
na sucessão
de batalhas

se escrevo
é por medo
de compreender


PRELÚDIO
Adelaide Amorim
[ in Inscrições ]

ouviu uma fuga de Bach e
três prelúdios temperados
sem canela

quatro razões de respeito
para voltar
pra não ficar
e atender
à voz ateada ao corpo

fechou com lacre de cera
a caixa das partituras e
desceu todas as cortinas

foi encontrado na manhã seguinte
no silêncio e
na penumbra fresca de sua sala


SEMEADOR
Bosco Sobreira
[ in A Pedra e a Fala ]

Há os que plantam ventos
e colhem velas
pra ganhar os mares
e voar por seus azuis
Outros plantam sonhos
e colhem asas
pra ganhar os céus
e velejar por suas vagas
Devem existir
(imagino)
uns muito poucos
como eu:
Plantei minha última semente
colheram a única flor dela nascida
e ganhei silêncios


O MORTO
Newton Navarro
[ in Subúrbio do silêncio. Natal, 1953 ]

Despido de azul e de paisagem
O morto está.
Silenciosa semente de carne
Aguardando as raízes.

Sem pai, sem mãe,
Sem casa,
Sem sono.
Até sem mortos
O morto está.

Não lhe resta lembrança alguma,
Ignora a tarde e as flores
Que o cobrem
E a escura casaca
Com que o vestiram um dia.

Não tem pranto nos olhos.
Não tem olhos,
Nem saudade,
Nem lembrança.

Nem ele mesmo se possui
Nem mesmo alma.

Apodrecida semente
Que espera raízes,
Assim o morto está:
Incompleto, inconseqüente
E só.

Sem presença
Sem confiança de que será terra,
Infinito,
Assim o morto está.

Os sinos da cidade
Não o despertarão nunca.
Por que, então, o vosso pranto, Senhora?



OS LÁBIOS CORTADOS
Samih Al Qassim
[ in Poesia palestina de combate ]

Eu poderia ter contado
a história do rouxinol assassinado
Poderia ter contado
a história...
se não me tivessem cortado os lábios.


Mais dois fatos narrados por Marcos de Vasconcellos
HISTÓRIAS DO BRSIL: PEQUENAS VERGONHAS
[ Porto Alegre, L&PM, 1983 ]

"O avião fez um pouso técnico em Lisboa que duraria umas três horas. Dois passageiros do vôo, Millôr Fernandes e Paulinho Mendes Campos, resolveram aproveitar o tempo para dar uma volta pela cidade e para isso perguntaram a um policial qual o procedimento legal.

- Há duas maneiras - respondeu o gajo. - A primeira, os senhores entrem naquela bicha [fila], carimbem os passaportes, assinem uns papeis e na volta, mais um carimbo, mais uns papeis.

- E a segunda? - perguntaram.

- É à brasileira. Saiam e retornem por aquele portão".

[][][]

"Arthur Moreira Lima, como determina a lei, foi ao ECAD, registrar e pedir licença para seu concerto de piano no Municipal [do Rio]. ...

Entregou as partituras ao funcionário de quem ouviu o seguinte:

- Quem é esse Frederico? É o senhor?,

Não, não era.

- Porra - disse o amanuense -, começou a esculhambação! Cadê a letra dessa merda?

Tratava-se da Polonaise de um certo Frederico Chopinho, compositor popular de muito sucesso por volta de mil oitocentos e poucos".

11 comentários:

Mirse Maria disse...

Bom dia, Moacy!

Ai que filme triiiiiste! Respeito o nome Buñuel, mas não tenho mais coração para um filme assim.

Vamos ter esperança no Flu, é mais digna que no Brasil.

Mariana botelho! Belíssimo poema!

Aliás todos. Adelaide Amorim, Bosco Sobreira, Newton Navarro e Samih Al Qassim. Excelentes!


Impagáveis, as "pequenas vergonhas"
e sendo verdade, aí que fica pior.

Beijos Moa!

Excelente Domingo!

Mirse

Pedrita disse...

vixe, vai ser quase igual ao comentário debaixo. nossa, esse do buñuel eu não vi. adorei o poema semeador. beijos, pedrita

BAR DO BARDO disse...

bom dia!

puxa!...

luís buñuel, mariana botelho, adelaide amorim, bosco sobreira, newton navarro, samih al qassim, marcos de vasconcelos, isso é que eu chamo de balaio! e que balaio mais porreta!!!

excelente o meu domingo começando assim...

ah! e boa sorte lá no maraca, mestre moa! que a penúltima sobreviva, assim como a última!

namastê!

Adriana Godoy disse...

Muito bom, Moacyr, a escolha dos poemas e a indicação do filme de Buñuel. Destaque para o poema de Nilton Navarro. bj

Sergio Andrade disse...

Grande Buñuel, meu diretor de cinema preferido!

Dilberto L. Rosa disse...

Rapaz, a inguinorância é que astravanca o pogresso! E de Buñuel gosto mais de outros 3: Discreti Charme, Nazarin e Bela da Tarde... E a foto do 'post' abaixo é a mais perfeita lembrança que tenho deste filme: inusitado ângulo criado em efeito especial para mostrar a tentativa de assassinato pelos óculos caídos! Obra-prima! Tão gostoso quanto foi aquela genial paródia do danny deVitto em Jogue a mamãe do trem... Viste? Abração, Professor!

Bosco Sobreira disse...

Meu caro Moacy,
Mais uma vez honrado em participar de seu blogue em tão seleta companhia.
Obrigado. Sempre.
Forte abraço

Francisco Sobreira disse...

Moacy,
Só vi uma vez esse filme. Gostei pouco dele, prefiro outros filmes de Buñuel, como A Bela da Tarde, Os Esquecidos, entre outros. Talvez fosse o caso de revê-lo para fazer dele uma melhor avaliação. Um abraço.

Paulo Jorge Dumaresq disse...

Putz, Moacy. O poema de Navarro é de arrepiar. Bom demais. O de Bosco Sobreira não fica atrás. Ainda não tive oportunidade de ver o Buñuel citado. Enfim, o nível do Balaio continua altíssimo. Saudações paulistanas.

dade amorim disse...

Não vi esse Buñuel, que parece excelente. Mas chego lá.

Em tão boa companhia, só posso dizer obrigadíssima, Moacy.

Um beijo e uma ótima semana.

Beti Timm disse...

Mestre,

linda a poesia "Lábios cortados", triste e contundente.Poucas palavras, mas que dizem muito!

Beijão