segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Cachoeira de Kalandula,
em Malanje - Angola
Foto:
Paulo Arroteias


BALAIO PORRETA 1986
n° 2816
Natal, 19 de outubro de 2009

As palavras se fizeram conchas secas
e adormeceram no poço do silêncio.
O espelho da tarde se partiu.
Uma rosa agoniza junto à cruz.
(Sônia BRANDÃO. Conchas secas, in Pássaro Impossível)



POEMA DA ESPERANÇA
Aires de Almeida Santos
[ in Angola: Os Poetas ]

vozes vieram dos longes do mundo;
gritos soaram nos longes da noite;
braços se ergueram aos longes do céu:
homens partiram para os longes da morte;

… e os muros caíram!

as vozes se ouviram nos longes do mundo
cessaram os gritos
baixaram-se os braços
os homens voltaram.

as faces tisnadas sorriram de novo
os olhos nublados de novo brilharam.
Nas matas, as aves voltaram aos ninhos
E ao doce calor doirado do sol.

As rosas abriram!


RECOLHIMENTO
Lisbeth Lima
[ in Flor de Craibeira ]

Quando entro numa igreja,
uma igreja entra em mim.

[Originalmente publicado in Dormência, 2002]


SAGRAÇÃO DO VERÃO
Luís Carlos Guimarães
[ in A lua no espelho. Natal, 1993 ]

De repente a mulher desabrochou nua
saindo do mar, pois a água não a vestia,
antes a desnudava, fazendo a sua
nudez mais nua à dura luz que afia
seu gume no sol da manhã que inaugura
o verão. Dezembro só luz reverbera
em seu corpo, doura-lhe as coxas, fulgura
nas ancas, no dorso ondulado de fera.
Fera que guarda no ventre uma colmeia
com a flor em brasa do sexo que ateia
fogo ao meu desejo e tanto me consome
a vulva, gruta, rosa de pêlos - que nome
tenha - que desfaleço como se em sangue
me esvaísse morrendo de amor. Exangue.


MEU CORAÇÃO ESCONDE
Carmen Vasconcelos
[ in Chuva ácida, 2000 ]

Meu coração esconde,
a palavra escapa,
a palavra que preciso cuspir.

Mas não é porque me cobre
a túnica do silêncio,
que estarei despida de poesia
ou perecerá,
sobre o branco impecável desta página,
o meu reflexo.


UMA PEQUENA NOTA POLÍTICA

Lina Vieira: inocente útil, inocente inútil
ou inocente fútil?
Veja: uma revista raivosa, uma revista mentirosa
ou uma revista direitosa?

Repeteco
UM DIÁLOGO

por GEORGES BOURDUKAN

Dois burros conversavam quando um perguntou ao outro:
- Imagina você que quando um humano quer ofender outro humano o acusa de burro. Por que será?
- Não tenho a mínima idéia.
- Quando será que isso começou?
- E quem sabe?
- Realmente é estranho isso... Humano chamar outro de burro como ofensa.
- Talvez porque chamá-lo de humano fosse ofensa maior.
- Você acha?
- Claro! Você já viu algum burro explorar outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro oprimindo outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro abandonar a cria?
- Não.
- Você já viu algum burro sem teto?
- Não.
- Você já viu algum burro sem terra?
- Não.
- Você já viu algum burro torturando outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro declarando guerra a outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro invadindo o país de outro burro?
- Não.
- Você já viu algum burro matando ou morrendo em nome de Deus?
- Não.
- Então, qual ofensa é maior, chamar de burro ou de humano?

[ in Caros Amigos. São Paulo, nº 106, janeiro 2006, p.33 ]


QUANDO ME DEITAS
Jeanne Araújo

Quando me deitas
vais abrindo meus caminhos lentamente
tocando os vãos, desvãos inacabados,
cheios de silêncios mórbidos.
Teu olhar me suga, vertiginosamente,
enquanto murmuras águas marinhas,
algas e um tanto de sal.
Pareces pequeno.
No entanto, consegues envolver-me
despojada e extrema
no teu peito vasto.

Quando me deitas
e percorres lentamente meus caminhos,
minhas flores se entregam nesse claustro
de anseios e sussurros.
E as tuas palavras, as mais doces,
vão queimando os muros,
lençóis e o pequeno quarto.
Pareces pequeno.
No entanto, abranges inocente,
todos os meus cantos e recantos.
E tudo é gozo de tanto tempo.
E tudo é cio e umidade.


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para ler
LITERATURA E INTERATIVIDADE
por Alex de Souza



FEIRAS DE CITAÇÕES ESPORRENTAS

A arte é a mais bela das mentiras.
(Claude Debussy)

O importante na obra de arte é o espanto.
(Charles Baudelaire)

Eu não procuro. Eu encontro.
(Pablo Picasso)

A arte existe para perturbar. A ciência tranqüiliza.
(Georges Braque)

A música é um ruído que pensa.
(Victor Hugo)

Um quadro que não choca não vale nada.
(Marcel Duchamp)

Uma rua de Paris é um rio que vem da Grécia.
(Gilberto Amado)

A pintura é uma poesia muda
e a poesia é uma pintura cega.
(Leonardo Da Vinci)

[ Fonte: Dualibi das citações, 2000 ]

15 comentários:

Nydia Bonetti disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nydia Bonetti disse...

Que seleção de poemas,Moacy. Sônia, como sempre, poemas de pássaro "possivel". Lisbeth conheci há pouco e me encantei. Tudo hoje aqui muito bom. Apesar desta palavra "Veja" que eu não gosto :) Vou ler agora sobre a literatura interativa.

Boa semana, beijo.

líria porto disse...

tem dias que estamos como drummond - comovidos como o diabo!
vasto mundo...
besos

Alex de Souza disse...

Professor Moacy,

Grato, gratíssimo pela citação neste balaio pralá de porreta.

Aquele abraço.

Jens disse...

Sobre a Veja: todas as alternativas estão corretas.

Um abraço.

Mme. S. disse...

Isso sim que é uma segunda-feira gorda. Que post recheado de coisas boas, meu amigo!
um cheiro, S.

Mirse Maria disse...

Oi Moacy!

Imagem linda de Paolo Arroteias!

Poemas todos lindos, Jeanne Araujo, é meu destaque!

Mas o que destaco mesmo é "Um Diálogo por Georges Bourdukan"...Sabedoria e originalidade dentro das grandes verdades.

Concordo com Charles Baudelaire na Feiras de Citações.

No mais tudo perfeito, como sempre!

Beijos

Mirse

nina rizzi disse...

olá moacy,

infelizmente eu não conheci o chico doido do caicó, mas tenho uma "amiga" mui querida que cai na vida por causa desse aí... ela quem me disse essas coisas de tulipa roxa. ela é meio avessa à essas cibernirnetices, mas mandou um recado:

mote pra tulipa roxa
(mirelle brècc)

zé bebum e dotô véio
preto vremeio e bianco
tudo queriam a mim chanfrá
mas foi lá em caicó
que minha sina se mudô
de bendita entre as mulheres
encontrei um chico doido
que me ajuizô
de poesia trago prosa e goza
de um tudo a gente se provô
até mesmo que que nenhuma moça
queria fazê de espeinho toda rosa
inté a polêmica tulipa roxa".

é, é com ele moacy... rsrsrs...

bourdokan é o xico. e a veja, óia que mê(r)da.

um beijo :)

Lisbeth Lima disse...

Moacy,
preciso dizer que fico feliz quando estou dentro do Balaio?
Um abraço, obrigada, Lisbeth

Paulo Jorge Dumaresq disse...

Meu chapa, obrigação minha divulgar os bons poetas e a boa poesia ainda mais essa poesia sendo de um amigo. Mande as ordens. Felicidades.

Paulo Jorge Dumaresq disse...

Percebeu as cores do Flusão no poema?

BAR DO BARDO disse...

jeanne rebenta

Sônia Brandão disse...

Desculpe, Moacy,
pus o comentário na outra postagem.
Repito aqui:
Minhas conchas, mesmo secas, se sentem bem acolhidas no seu balaio. Um beijo.

Maria Maria disse...

Oi, querido Moacy!

Jeanne Araújo é muito boa poeta!

Olha, em breve enviarei o convite para o lançamento da minha terceira prosa: CONTOS DE UM PASSADO PERFEITO.
É um livro de contos infanto-juvenis, ilustrado por crianças da nossa terra. Beijos,

Maria Maria

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Moacy, que agradável surpresa... Kalandula e sobretudo pelo poema de Aires de Almeida Santos por quem nutro muito e especial carinho, foi o primeiro poeta angolano que li, tinha dez anos, "A Mulemba Secou" e ele foi o primeiro farol quando comecei esta cavalgada de fazer acontecer a poesia.
Kandandu