sexta-feira, 19 de março de 2010

Jovem da etnia Kisêdjê
(da família linguística Jê,
Parque Indígena do Xingu, Mato Grosso)
em foto de 2001 por
Camila Gauditano
Em 2006, lamentavelmente, só restavam 351 Kisêdjê.
Quantos serão hoje, quatro anos depois?


BALAIO PORRETA 1986
n° 2965
Natal, 19 de março de 2010


HOJE É DIA DE SÃO JOSÉ

Caso não chova hoje no sertão (a última esperança para um bom inverno), teremos implacável seca. Todos, homens e mulheres, vestirão nas próximas horas suas melhores roupas, esperando voltar para suas casas completamente ensopados com as águas da felicidade.


POETRIZ
Valéria Tarelho
[ in Impura Poesia ]

Dentro de mim
mora uma vadia
que trepa com rimas
a troco de poesia

dentro de mim
habita uma pueta
que de esquina em esquina
se estrepa em estrofes
(só se fode)

dentro de mim avança
essa mulher à margem

: à minha imagem
e semelhança


OS LÁBIOS CORTADOS
Samih Al Qassim
[ in Poesia palestina de combate ]

Eu poderia ter contado
a história do rouxinol assassinado.
Poderia ter contado
a história...
se não me tivessem cortado os lábios.


L-ÍRIS
Maria V
[ in Por uma Maria Só ]

para sim
para não,
eis que nossos olhos se confundiram:

abro os olhos
com os cílios que piscaram pra mim.


NATAL QUE TE QUERO NATAL
de 1957 a 1967
Moacy Cirne

1. A Fortaleza dos Reis Magos
2. O Cinema de Arte, no Rex e, depois, no Nordeste
3. O cabaré Arpège, na Ribeira
4. A Livraria Universitária, na Cidade Alta
5. A Praça das Cocadas, no Grande Ponto, à noite
6. Os cines Nordeste e Rio Grande
7. A Palhoça, ao lado do Rio Grande
8. A travessia de bote Natal-Redinha
9. O Iara Bar, em Areia Preta
10. A Redinha e a Praia do Forte, aos domingos
11. Revista da Cidade, na TN, por Berilo Wanderley
12. A Peixada da Comadre, nas Rocas,
e a Galinha da Mãe de Chico, no Areal
E mais:
As dunas de Ponta Negra
As lagoas de Genipabu
A Ponta do Morcego
A feira do Alecrim
O Granada Bar
O cinema Rex
Rita Loura
A Faculdade de Direito, na Ribeira


os sonhos
(in) possíveis
não me deixam adormecer
(ACANTHA, in La Vie Bohème)


GOZO
Carlos Pessoa Rosa
[ in Germina Literatura ]

se deixo nos lábios o poema
é para morder de leve a rigidez de seus seios
se acrescento sabores ao poema
é para agitar com mel a chama de seu gozo


DESERTO
Simone Oliveira
[ in Letras e Tempestades ]

A saudade
do teu corpo
silencia
minhas mãos
e minha boca.



CONDICIONANTES
Sheyla Azevedo
[ in Bicho Esquisito, em 19/09/07 ]

Se eu não fosse essa pessoa
cheia de pântanos,
seria nuvem

Se eu não fosse essa
coisa estranha
seria um espelho voltado para o mar

Se eu não fosse eu
assim, cheia de medos e escuros
seria uma lacuna
só para deixar você entrar


Repeteco / Diretamente do Além
A MAIS RECENTE ENTREVISTA
COM CHICO DOIDO DE CAICÓ

(dezembro 2008)

[P] Chico Véio, tá sabendo que há uma nova leva de admiradores de sua poesia, através da internet?
[R] Pois num é, seu minino, Chiquim de Assis e Cascudinho me assopraram mentalmente nas minhas oiças. Fiquei mais ancho do que pinto na merda, mesmo sem saber direito o que é essa tal de internete. No meu tempo de vivente bucetólogo num tinha disso não. É uma pena que eu esteja desmaterializado, senão faria questão de conhecer esse povo todo, sobretudo as mocinhas, que, se gostam do meu escrachamantelo verbal, devem ser cheirosas, dengosas e borogodosas.

[P] Mas Chico Véio, diga a verdade, o que você faria com elas, se vivo fosse?
[R] Vixe Maria, num quero nem saber... Bem, seriam convidadas para conhecerem Caicó comigo, viu, seu caba da peste!?! Isto é, se não forem amancebadas... Veja você: nunca embuchei ninguém, nem mesmo a rapariga que eu mais quis bem.

[P] Depois de tanto tempo no seu Plano Astral, o 6969/69, você ainda é capaz de pensar em mulheres?
[R] Em mulheres, em rapaduras, no meu Botafogo, nos butecos da minha terra e no cheiro da terra molhada pelas chuvaraiadas de inverno. Mas, aprenda, seu abestado, aqui não existe tempo, não existe espaço, tudo é energia. Num sei explicar direito. Não mangue de mim não, viu?; o doidelo de santo Agostinho, aquele sabidão das Oropa, França e Bahia é capaz de saber. Ele e Cascudinho, claro. E mais duas ou três mulheres que me visitam aqui-acolá, derna que deixei o mundo de vocês.

[P] Tem gente que até hoje duvida de sua existência. O que tem a dizer sobre isso?
[R] São todos uns abilolados juramentados. Estou ou não estou dando essa entrevista pra você? Quer prova maior da minha pessoa, mesmo que seja imaterialmente? Afinal, já não estou mais no meio das mulheres que tanto amei e respeitei. Mas devo reconhecer: são relembranças cada vez mais neblinosas.

[P] Gostaria de acrescentar algo?
[R] O sexo dos anjos não tem a menor graça...

Glossário:
* Ancho : Contente.
* Escrachamantelo : Vocábulo criado pelo próprio CDC (escrachado/escrachamento + desmantelo).
* Borogodosa : Encantadora.
* Amancebada : Casada ; Amigada.
* Embuchar : Engravidar.
* Mangá : Zombar.
* Derna : Desde que.
Em tempo:
Chiquim de Assis e Cascudinho são
Francisco de Assis, o santo católico, e Luís da Câmara Cascudo,
o escritor potiguar.



RECOMENDAÇÕES ATEMPORAIS
DO BALAIO

Quadrinhos:
Viagem a Tulum
(Federico Fellini & Milo Manara, 1986)
O delírio é fundamental
e sonhar é preciso:
da ficção fantástica ao imaginário em transe
tudo é possível, tudo é arte, tudo é devaneio.
Além do mais, viver é aprender a amar.

11 comentários:

Jarbas Martins disse...

boa postagem de poesia.destaco: poetriz de valéria tartelho,a poesia do palestino samih al qassim, l-íris de maria v.
no mais os devaneios fellinianos de moacy por uma natal dos anos sessenta: cabaré arpége, livraria universitária, o bar a palhoça, os cines nordeste e rio grande. mas essa lista, moacy, como dói.

Assis Freitas disse...

No dia de são José, que é meu dia, uma entrevista com Chico Doido. Coisa porreta. Eu tô pedindo prá chover, mas chover de mansinho. Abraço.

Jarbas Martins disse...

além da poesia (e eu gosto muito dos seus poemas) temos algo em comum: somos josés.celebremos a poesia e o
nosso dia.
abraços.

Jarbas Martins disse...

assis freitas, meu irmão, esqueci de dizer o teu nome.

líria porto disse...

moacy
aguardo detalhes do teu romance com beja!

este balaio acrescido da entrevista com hico doido está bom por demais!

bom ler valéria tarelho por aqui!

besos

Anônimo disse...

No Balaio

No Balaio
Ponho versos
Dispersos
Procuro
Entre a vida e a morte
O nexo
O sexo
Nex
Nex
Nex

damata

Mirse Maria disse...

Oi Moa!

Sobre a foto: É lamentável que em apenas quatro anos, uma raça, etnia, dialeto, enfim as marcas de um povo se escoe. Triste isso, embora bela a fotografia.

Ontem falei no Blog "O Teorema da Feira", que já me afeiçoei à Natal. Tanta coisa boa e bonita acontece aí.

Mas daqui do Rio, curto os hábitos, as festas, o idioma e a Zila Mamede.

Todos os poemas belíssimos, e destaco Sheyla Azevedo, belo poema!

Alô Chico, do Rio de Janeiro, um beijo carioca!

Beijos, Moacy!

Mirse

Dilberto L. Rosa disse...

Enfim o amigo deixou a África de lado e colocou uma linda foto de nossos nativos... Perfeita a seleção de poemas desta vez: impecáveis todos! E que vontade de conhecer Natal... Abração, sumido!

Maria V. disse...

olá! feliz por participar dessa bela seleção de poemas! edição mais que especial pra mim, obrigada!
um abraço,

Mme. S. disse...

"viver é aprender a amar" foi uma das coisas mais bonitas que vi nesses meus anos de vida...
que eu seja uma boa aluna!
um cheiro grande, obrigada pela lembrança.

S,

Marcelo Novaes disse...

Moa,


A entrevista do Chico Doido é ótima.


Choveu?!





Abração.