quinta-feira, 1 de abril de 2010

Em plena ditadura militar, em 1968, no Brasil,
a foto de Pedro de Moraes


BALAIO PORRETA 1986
n° 2978
Natal, 1 de abril de 2010


O dia amanhecera claro, terrivelmente claro. Estávamos em Natal naquele 1° de abril de 1964. Na Faculdade de Direito, as notícias eram desencontradas. Mas logo percebemos a gravidade do momento: nuvens escuras e acinzentadas, carregadas de medo, incerteza, dor e desespero, pairavam sobre o país. Durariam 21 anos. Não há como esquecê-las.
(Moacy Cirne, in Balaio, n° 2516)


NESTA NOITE
Silvia Chueire

entro nesta noite
com a navalha atravessada
nos dentes

os olhos procuram o mais agudo
da madrugada

a adrenalina arrepia
por baixo da pele

a palavra é fatal


GALOPE
Sônia Brandão
(in Pássaro Impossível)

Meu coração
é um cavalo louco

sangrando como o sol
atrás das colinas.


MUITA POEIRA
Iara Maria Carvalho
[ in Mulher na Janela ]

a fina alegria fértil
me apavorou a rotina:

doce é a hora de acordar.


A UMA MULHER AMADA
Safo de Lesbos
[ in Clássicos do erotismo, 2,
via Poesia Erótica ]

Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.

Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem-querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.

Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo.
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro... eu tremo.


Diretamente d'A Toca do Lobo
Apagão
Jens

No último sábado de março, dia 27, encontrei meu associado Moah no Muffuletta (Muffu, para os habitués), no início da noite. Pedimos o de sempre. Para ele bourbon, o uísque de milho feito no Kentucky, o preferido de William Faulkner; para mim o néctar produzido nas destilarias do coronel Jack Daniels, no Tennessee, o predileto de Charles Bukowski. Apesar de racistas, os caipiras do Sul dos EUA não eram de todo ruins, tanto que produziram estes dois tesouros líquidos que hoje integram o patrimônio etílico da humanidade. Isto prova que anjos e demônios habitam em nós.

A conversa girava em torno do assunto habitual - as mulheres das outras mesas.

- Olha ali, discretamente, que pitéu! (o Moah, com o passar do tempo, transformou-se em um cavalheiro à antiga. Só falta usar bengala, polainas e pincenê).

- Putz, que coxoduzulda! (eu, ao contrário, continuo um bagual de estância, cada vez mais desbocado).

- Olha só, olha só, que deusa!

- Bah, acho que vou ter um troço.

Estávamos assim, conversando amenidades e olhando as pernas das moças - ultimamente é única coisa que fazemos: olhar e comentar - quando tudo ficou escuro.

Apavorado, gritei como se fora uma mulherzinha.

- Ai, fiquei cego! Socorro!

- Calma – pediu o Moah.

- Um médico, preciso de um médico, estou cego! – insisti, histérico.

Meu associado me deu um tapaço nas costelas.

- Começou A Hora do Planeta, seu bolha.

Entendi mal.

- O QUÊ? A hora final do planeta? SOCORRO!

- A hora, a HORA do planeta. Tá surdo?, seu tonto.

Os nervos abalados (sou um bagual sensível, como todos sabem) me fizeram persistir no equívoco auditivo.

- Não quero morrer! – berrei aos prantos.

Pressentindo que meu apelo não seria atendido, já que era o fim do mundo, resolvi aproveitar os meus últimos minutos de vida na Terra para purgar os pecados da carne mais graves, aqueles que poderiam me levar diretamente ao Inferno. Minha intenção era garantir uma vaga no Purgatório, considerando, pelo meu histórico existencial, o Paraíso uma improbabilidade e o Céu uma impossibilidade.

- Senhor, perdoai-me. Aquele lance com o Jorge, e também com o Paulinho e o Pedrinho, foi sem querer. Eu era uma criança. Sacumé, né Deus, a carne é fraca.

A mulherzinha coxoduzulda que vive dentro mim estava tresloucada.

Percebendo que eu estava fora de controle, o Moah radicalizou. Jogou um copo de água gelada na minha cara. O choque deu resultado, o bagual reassumiu o comando das emoções.

- Pô, qualé? Enlouqueceu?

- Te liga, hoje é o dia da Hora do Planeta.

- Não tô sabendo. Que troço é este?

- Putz, quanta alienação. E o seguinte: das oito e meia às nove e meia às luzes vão ficar apagadas, para mostrar que estamos preocupados com o aquecimento global. É uma forma de protestar e alertar ao mesmo tempo.

- Ah, entendi.

Envergonhado, olhei em volta. Todas as mesas, inclusive a nossa, estavam iluminadas por velas. As Deusas sorriam, divididas entre a indulgência e o sarcasmo. Obviamente, qualquer possibilidade romântica existente antes do episódio estava completamente soterrada. Percebi que o Moah estava tristonho. Desculpei-me.

- Pô, foi mal.

Ele me fuzilou com os olhos e respondeu com um palavrão.

Renovamos as doses e bebemos em silêncio.

O mundo não acabou. Ainda.

9 comentários:

Iara na Janela disse...

alegria fértil a de estar aqui, neste Balaio, com poeira das melhores!

beijo.

Assis Freitas disse...

Dia de lembrar sempre para que não mais se repita. A hora do planeta, sim não é mundo findando-se Jens. Muito bom. Abraço.

Jarbas Martins disse...

FACULDADE DE DIREITO DA RIBEIRA,1964

para Moacy Cirne


terribil...
nada era mentira
naquele primeiro de abril

Maria V. disse...

que habilidade... misturar o terror da ditadura a comédia dramática do nosso tempo! Me calei, ri e me calei novamente. ótimo post. Abraço!

Adriana Godoy disse...

Moacyr, 21 anos que não podemos esquecer mesmo...pra que nunca mais voltem!

Poemas de matar!

O texto do Apagão, um delírio.

Beijos.

dade amorim disse...

Nossa, quanta gente boa!
A foto da ditadura me levou de volta àqueles tempos sombrios de gente feroz querendo tirar nossa pele. Bato na madeira.

Bons feriados pra você, Moacy.

Jens disse...

Gorilas, nunca mais!
***
Valeu a gentileza, Moacy. Fiquei ruborizado.

Um abraço.

Sônia Brandão disse...

Obrigada mais uma vez pelo aconchego nesse Balaio. Gosto da companhia.

bjs

Silvia Chueire disse...

Obrigada. Muito.

Um abraço,

Silvia