sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Postal antigo
sem autoria definida


BALAIO PORRETA 1986
n° 2937
Natal, 19 de fevereiro de 2010



BARCAROLA
Nina Rizzi
[ in Ellenismos ]

é preciso me afogar de você
como se fosse morrer.


UMA PEDRA-DE-TOQUE
de
Mariana Botelho
[ in Suave Coisa ]

é difícil supor
com quantas mãos se tece
a solidão.


SEIOS
Patrícia Clemente
[ in Poesia Erótica ]

Sofia, eu no teu rosto busco o espelho,
Enquanto beijo os nós dos teus artelhos,
Enquanto tocas com teus pés meus seios.


E o corpo sabe: sou-te assemelhada,
E leva o pé à tua coxa amada,
Sou presa seduzida por teus cheiros.

E o corpo sabe o quanto é aquecido
Meu pé que sobe dentro do vestido,
Sorrindo do macio dos teus pentelhos.

E o corpo sabe: sou-te parecida,
Toco a mim mesma ao te tocar, amiga,
Se pouso, enfim, os dedos nos teus seios.

E o corpo sabe bem que sou-te gêmea
Me fazes louca, lúcida ou boêmia,
No gesto em que se unem nossos seios.

Sofia, no meu rosto tens espelho,
De quanto bem me faz amar teus seios.


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 55 / 66 )

Elegias de Duíno & Os sonetos de Orfeu (Rilke, 1923)
Quem tem medo de Virginia Woolf (Albee, 1962)
Peregrinações (Fernão Mendes Pinto, 1614)
As pupilas do senhor reitor (J. dinis, 1860)
O homem ilustrado (Bradbury, 1951)
David Copperfield (Dickens, 1850)
Contraponto (Huxley, 1928)
Jane Eyre (Bronte, 1847)
Emma (Austen, 1816)
Escritos íntimos (Baudelaire, ed. port. 1982)


PROJÉCTEIS
Charles Baudelaire
[ in Escritos íntimos, 1982 ]

Deus é o único ser que, para reinar, não precisa sequer existir.

A matéria tem sempre menos vida do que aquilo que o espírito cria.

O que é a arte? Prostituição.

O que há de atraente no mau gosto é o prazer aristocrático que sentimos em chocar os outros.

A música perfura o espaço.

Deus é um escândalo, mas um escândalo proveitoso.


METAMORFOSE DAS LINGUAGENS

Será na próxima terça-feira, dia 23, na Siciliano do xópim Midivaimal, a partir das 19h, um pouco mais, um pouco menos, o lançamento do livro Metamorfose das linguagens, organizado por Marcos Silva, Júlio Pimentel Pinto e Maurício Cardoso. Trata-se de apurada seleção de textos envolvendo diversas relações/mediações a partir de uma leitura crítica do cinema com a literatura e a historicidade. Como já foi explicitado em outros espaços virtuais, através de rilise: "São analisados filmes brasileiros, hispano-brasileiro, norte-americanos, russo, japonês, francês, ítalo-britânico e uruguaio. Esses filmes são diálogos entre seus diretores e os escritores nos quais se inspiraram: Yakov Protazanov/Aleksei Tolstoi, John Ford/John Steinbeck, Orson Welles/Franz Kafka, Nelson Pereira dos Santos/Graciliano Ramos, Glauber Rocha/Regionalismo Literário Nordestino, Hiroshi Teshigahara/Kobo Abe, Michelangelo Antonioni/Julio Cortazar, Joaquim Pedro de Andrade/Carlos Drummond de Andrade, Glauber Rocha/William Shakespeare, João Batista de Andrade/Geraldo Ferraz, Walter Lima Jr./Alfredo de Taunay, Paul Verhoeven/Robert Heinlein, Guel Arraes/Ariano Suassuna e Marcelo Piñeyro/Ricardo Piglia". Entre os autores, há que lembrar os nomes de Jair Diniz Miguel. E Francisco Fabiano de Freitas Mendes. E Gilberto Maringoni. E outros. E outros. Ou seja, vale a pena prestigiar o lançamento, vale a pena conferir o livro.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Mulher africana
Foto:
Uwe Ommer
in
Black ladies


BALAIO PORRETA 1986
n° 2936
Natal, 18 de fevereiro de 2010


FEIRA DE PROVÉRBIOS ESPORRENTOS

Ele me prometeu brincos, mas apenas furou minhas orelhas.
(Árabe)
Os homens são como tapetes: às vezes precisam ser sacudidos.
(Árabe)
Se os filhos da puta voassem, nunca veríamos o sol.
(Argentino)
Aqueles que não sonham estão perdidos.
(Australiano)
A língua suave é a árvore da vida,
a língua perversa quebra o coração.
(Bíblico)
A tinta mais fraca é melhor que a melhor memória.
(Chinês)
Falar sem pensar é atirar sem mirar.
(Espanhol)
Três espanhóis, quatro opiniões.
(Espanhol)
A partir de uma certa idade, o único afrodisíaco é a variedade.
(Francês)
Dinheiro público é como água benta: todos põem a mão.
(Italiano
)


AINDA ERA CARNAVAL
Nydia Bonetti
[ in Longitudes ]

me convidaram ontem
pro bloco dos felizes

não pude ir

não consegui achar
a minha velha fantasia


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 54 / 66 )

Dicionário de lugares imaginários (Manguel & Guadalupi, 1999)
Uma história da leitura (Manguel, 1996)
História das civilizações (Ferro, 1994)
Estética y marxismo (Vários, ed. esp. 1970)

Dialética da colonização (Alfredo Bosi, 1994)
O design brasileiro antes do design (Rafael Cardoso, 2005)

Literatura e sociedade (Antonio Candido, 1976)
Papeis colados (Flora Sussekind, 1993)
Os bruzundangas (Lima Barreto, 1922)
A arte da entrevista (Fábio Altman, 1995)


POEMA
Adília Lopes
[ in Caderno & Etc., 2007 ]

Dia
sem poesia
não é dia
é noite escura

Mas a poesia
é noite escura


DICIONÁRIO DO DIABO
/Fragmentos/
Ambrose Bierce
(1842-1913)


Advogado : Pessoa hábil em burlar a lei.

Deplorável : O estado de um inimigo ou adversário após um choque imaginário conosco.

Diplomacia : A arte honrosa de mentir pela pátria.

Fidelidade : Virtude própria dos que estão prestes a ser traídos.

História : Crônica quase sempre falha, de acontecimentos quase sempre sem importância, causados por governantes quase sempre velhacos e por soldados quase sempre imbecis.

Liberdade : Um dos mais preciosos bens da imaginação.

Paciência : Forma menor de desespero, disfarçada como virtude.

Patriotismo : No famoso dicionário do Dr. Johnson, o patriotismo é definido como o último refúgio dos patifes. Com todo o respeito devido a um esclarecido mas inferior lexicógrafo, peço licença para sugerir que seja o primeiro.

Santo : Um pecador revisto e corrigido.

Virtudes : Certas abstenções.


MEMÓRIAS DE UM LEITOR NASCIDO NO SERIDÓ
Moacy Cirne

Sobre a prática & Sobre a contradição [1937], de Mao Tse-tung, in Mao Tse-tung - Política, org. Emir Sader. São Paulo : 1982, p.79-125 /Grandes Cientistas Sociais, v.30.

Sei, sei: hoje se questiona o "revolucionarismo" de Mao, mas Sobre a prática e Sobre a contradição - lidos por mim em 1967 - permanecem como textos fundamentais para a compreensão filosófica do marxismo no decorrer do século XX: "O conhecimento humano depende essencialmente da atividade do homem na produção material" (p.79), dizia Mao. E mais dizia: "Se se quer conhecer o sabor de uma pera, há que transformá-la, há que comê-la. ... Se se quer conhecer a teoria e os métodos da revolução, há que participar dela. Todo conhecimento autêntico nasce da experiência direta" (p.84). E dizia mais: "Qualquer processo, natural ou social, avança e se desenvolve em razão de suas contradições e lutas internas" (p.90), o que, aliás, faria com que eu investisse mais ainda no aprofundamento prático e teórico do poema/processo - matrizes e projetos de uma luta (anti)literária e (contra)ideológica no calor das emoções políticas vividas por todos nós. Viajante de cinematecas imaginárias e de sonhos impublicáveis, no lugar de Bense, Moles, Peirce e McLuhan, endeusados pelos poetas concretos da paulicéia tresvairada, eu investia, no campo da poética, em Macherey, Badiou, Althusser, Lênin, Marx, Engels, Gramsci e Mao. Há, ainda, para completar, um fato de ordem pessoal que me liga visceralmente a esses dois textos: em 1968, militante do POC - Partido Operário Comunista, fui incumbido de traduzi-los para distribuição clandestina no circuito universitário do Rio. Cumpri a tarefa com entusiasmo juvenil, revelo publicamente pela segunda vez (a primeira vez foi em janeiro de 2008), 40 anos depois, a partir das edições francesas da Maspero. Infelizmente, depois do AI5, fui obrigado a me desfazer da cópia (mimeografada) da tradução e de vários livros da Maspero, cujos títulos, até então, eram vendidos abertamente na Leonardo Da Vinci, ponto de encontro de intelectuais de todas as tendências políticas e culturais em terras cariocas: um espaço democrático por excelência. Até hoje. Até sempre.


À LUTA, À LUTA
(1980)
Moacy Cirne
[ Republicado in Balaio, n° 158, em 23/05/1989 ]

à luta, à luta,
companheiro,
que a hora é de lutar e sonhar,
de sonhar e lutar.

à luta, à luta,
doce amiga,
que a hora é de lutar e amar,
de amar e lutar.

à luta, à luta,
trabalhador,
que a hora é de lutar e avançar,
de avançar e lutar.

à luta, à luta,
caro poeta,
que a hora é de
que a hora é de
que a hora é de construir
e trans/formar.

GALOPE
Artur Gomes
[ in Carne viva, 1984 ]

com espada
em riste
galopamos
pradarias
e lutamos
ferozmente
por dois segundos
e meio
tua fúria era louca
que agarrei-me
em tuas crinas
pra não cair na lama
mas o amor era tanto
e tanto era o prazer
que quando fomos pra cama
não tinha mais o que fazer.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Mulher africana
Foto de
Uwe Ommer
in
Black ladies


BALAIO PORRETA 1986
n° 2935
Natal, 17 de fevereiro de 2010


PEDRAS-DE-TOQUE

a máscara amor
tem a cor da febre
(Líria PORTO, in A máscara, cf. Tanto Mar)

Ao vento de teu fôlego termal,
Atrevo-me a teu fogo por demais.
(Henrique PIMENTA, in Às pedras do templo, cf. Bar do Bardo)

O bruxo me esperava
sentado no abismo
(Mercedes LORENZO, in Poção, cf. Cosmunicando)

A garganta dói porque ousou cantar
uma voz imensa. Porque cantou frutos
do mar em plena areia. [...]
(Marcelo NOVAES, in A garganta, cf. O Lugar que Importa)

O silêncio da pedra me ensinou
O mistério mineral do perdão
(Mirse MARIA, in Perdão mineral, cf. Meu Lampejo)

O compasso das tuas pernas
abre a geometria do teu corpo
(Paulo Jorge DUMARESQ, in Disperso - 4, cf. Nariz de Defunto)

busco o bocado de mim onde anoiteço:
o chão de carnaval e cinzas.
(Nina RIZZI, in Um blues, cf. Ellenismos)

quero antes
a matéria negra de seu
avesso
(Theo G. ALVES, in O avesso dos dias, cf. Museu de Tudo)

Nos minérios de sua parede,
há mistérios de fogo, sal e lenda.
(Iara MARIA CARVALHO, in Medieval e santa, cf. Mulher na Janela)

Desde muito que te venho
E nada sei destas vindas
Que empalidecem este ser
(Assis FREITAS, in Poema sujo de barro, cf. Mil e Um Poemas)

Ainda que o corpo clame
sinto em mim um deserto morno
(Adriana GODOY, in Quero a noite, cf. Voz)

A cidade passou
antes de mim.
E não houve adeus.
(Horácio PAIVA, in A alma das cidades, cf. Luzes da cidade)

Esse lugar
onde o poema
dorme
(Sheyla AZEVEDO. Silêncio Espera Solidão, in Bicho Esquisito)

só preciso de um poema malcriado
para dizer foda-se essa porra toda
(Cláudio SCHUSTER, in /Poema/, cf. Beba Poesia)

quero um verso de fogo
correndo em minhas veias
(Sandra CAMURÇA, in /Poema/, cf. O Refúgio)

Esta mulher aconteceu em minha vida
quase um quasar reacendendo um sol sem sol.
(Pedro GALVÃO, in Renascer, cf. Bissexto/Balaio)

Ardo em febre de silêncio e volúpia
e minha imprudência te olha despedaçado.
(Jeanne ARAÚJO, in Viagem)

Como se fosse uma geografia
quântica
o teu corpo é o porto
tempo onde floresço
(Namibiano FERREIRA, in Poema para a minha amada,
cf. Ondjira Sul)


RELAÇÕES PERIGOSAS
Marcos Silva
[ in Substantivo Plural / Carta Maior ]

1] Por que a mídia não parte do fato policial para resgatar o passado e o presente das relações políticas do demo José Roberto Arruda?

2] Por que esquece – ou esconde?- entre outras coisas, que Arruda foi nada menos que líder de FHC na Câmara Federal?

3] Por que a mesma amnésia subtrai ao leitor que Arruda era a grande – e única – ‘revelação administrativa’ dos demos [sobretudo depois do fiasco Kassab], e nome natural’ para ocupar a vice-presidência na coalizão demotucana liderada por Serra?

4] Por que, súbito, abriu-se um precipício de silencio midiático sobre as relações entre Serra e Arruda, omitindo-se, inclusive, ‘o simpático’ simbolismo da sintonia capilar entre ambos – mencionada por ninguém menos que o próprio governador tucano em evento conjunto em 2009?

5] Por que a obsequiosa Eliane Catanhede, da Folha, e os petizes da Veja, que tantas e tantas linhas destinaram a enaltecer a determinação de Arruda em ‘cortar o gasto público’ – e ainda o fazem na ressalva ao ‘bom administrador que tropeçou na ética’, segundo Catanhede – sonegam aos seus leitores a autocrítica pelo peixe podre que venderam como caviar?

6] Por que, enfim, o esfarelamento da direta nativa abrigada nos Demos não merece copiosas páginas de retrospectiva histórica, que situe para os leitores a evolução daqueles que, como Arena e PFL, foram esteio da ditadura e da tortura e hoje são os aliados carnais de José Serra?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Jardim do Seridó,
um dos três lugares mágicos da minha infância
- a cidade da minha primeira grande paixão,
aos seis ou sete anos:
a jovem rainha do Cordão Encarnado
(acredito que começou aí, por volta de 1949 ou 1950,
a minha tendência para o Vermelho).
Na foto (atual) de
Daniel Araújo
,
é possível destacar as duas igrejas,
a praça, o prédio da Prefeitura,
a antiga saída da estrada para Caicó,
o principal sobrado da cidade (por trás da igreja-matriz),
a rua Dr. José Fernandes (na parte inferior da foto,
longitudinalmente [ do centro para a esquerda ]),

onde residia o meu avô paterno José da Costa,
e até mesmo a pequena casa que serviu
de residência para os meus pais
entre 1944 e 1946-47.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2934
Natal, 16 de fevereiro de 2010


ARCHITECTURA
Soares Feitosa
[ in Agulha: Jornal de Poesia ]

Um dia, Ela
desenhará em chãos longínquos a casa só nossa,
que eu farei com estas mãos.

Os tijolos, eu os amassarei com os meus pés.

Às telhas -
hei de aprontar o barro mais macio,
e as formas serão por mim,
uma por uma, completadas;

Ela as alisará longamente -
seus dedos molhados de um profundo silêncio:
só os pássaros.


VERSÕES
Nina Rizzi
[ in Germina Literatura ]

I

Eu perdi minha vida
pela delicadeza
sim,
rimbaud
e eu
demasiados humanos

II

eu me perdi
sem delicadeza
sim,
rimbaud
e eu
exagerados


COMO ALGUNS FILMES SÃO INTITULADOS EM PORTUGAL

Por simples curtição - ou simples curiosidade -, passamos a mencionar os títulos de alguns filmes conforme são conhecidos na pátria lusitana. E se Psicose não é mais O filho que era mãe (e sim Psico, no relançamento), ainda há muitas diferenças que, eventualmente sendo gaiatas, precisam ser registradas. E assim o faremos, na seguinte ordem: TÍTULO ORIGINAL / TÍTULO BRASILEIRO / TÍTULO PORTUGUÊS. (Em tempo: no Brasil também há títulos que são verdadeiras barbaridades: um exemplo famoso é o Persona, que virou Quando duas mulheres pecam.)

The gold rush / Em busca do ouro / A quimera do ouro (Chaplin, 1925)
The General / A General / A glória de Pamplinas (Keaton & Bruckman, 1927)
Duck soup / O diabo a quatro / Os grandes aldrabões (com os irmãos Marx, 1934)
Bringing up baby / Levada da breca / As duas feras (Hawks, 1938)
Stagecoach / No tempo das diligências / A cavalgada heróica (Ford, 1939)
Citizen Kane / Cidadão Kane / O mundo a seus pés (Welles, 1941)
The magnificente Ambersons / Soberba / O quarto mandamento (Welles, 1942)
It's a wonderful life / A felicidade não se compra / Do céu caiu uma estrela (Capra, 1946)
Kind hearts and coronets / As oito vítimas / Oito vidas por um título (Hamer, 1949)
The asphalt jungle / O segredo das jóias / Quando a cidade dorme (Huston, 1950)
Rashomon / Rashomon / Às portas do inferno (Kurosawa, 1950)
Singin' in the rain / Cantando na chuva / Serenata à chuva (Kelly & Donen, 1952)
The bad and the beautiful / Assim estava escrito / Cativos do mal (Minnelli, 1952)
High noon / Matar ou morrer / O comboio apitou três vezes (Zinnemann, 1952)
On the waterfront / Sindicato de ladrões / Há lodo no cais (Kazan, 1954)
Rebel without a cause / Juventude transviada / Fúria de viver (Ray, 1955)
The ladykillers / Quinteto da morte / O quinteto era de cordas (Mackendrick, 1955)
Bigger than life / Delírio de loucura / Atrás do espelho (Ray, 1956)
The wrong man / O homem errado / O falso culpado (Hitchcock, 1957)
Sweet smell of success / A embriaguez do sucesso / Mentira maldita (Mackendrick, 1957)
Paths of glory / Glória feita de sangue / Os caminhos da glória (Kubrick, 1957)
12 angry men / Doze homens e uma sentença / Doze homens em fúria (Lumet, 1957)
An affair to remember / Tarde demais para esquecer / O grande amor da minha vida (McCarey, 1957)
Letjat zhuravli / Quando voam as cegonhas / As garças estão a voar (Kolatozov, 1957)
Touch of evil / A marca da maldade / A sede do mal (Welles, 1958)
Vertigo / Um corpo que cai / A mulher que viveu duas vezes (Hitchcock, 1958)
West side story / Amor, sublime amor / Amor sem barreiras (Wise & Robbins, 1961)
The hustler / Desafio à corrupção / A vida é um jogo (Rossen, 1961)
Dr. Strangelove / Doutor Fantástico / Dr. Estranho Amor (Kubrick, 1964)
A hard day's night / Os reis do iê-ê-iê / Os quatro cabeleiras do após-calypso (Lester, 1964)
The sound of music / A noviça rebelde / Música no coração (Wise, 1965)
Blow-up / Depois daquele beijo / História de um fotógrafo (Antonioni, 1966)
Au hasard Balthazar / A grande testemunha / Peregrinação exemplar (Bresson, 1966)
The graduate / A primeira noite de um homem / A primeira noite (Nichols, 1967)
Il Giardino dei Finzi-Contini / O jardim dos Finzi-Contini / O jardim onde vivemos
(De Sica, 1970)

Voskinger och rop / Gritos e sussurros / Lágrimas e suspiros (Bergman, 1973)
One flew over the cuckoo's nest / Um estranho no ninho / Voando sobre um ninho de cucos (Forman, 1975)

[ Fonte: 1001 filmes para ver antes de morrer, de Steven Jay Schneider, coord. /ed. port./ ]

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Morena brasileira:
a morenitude por excelência
Foto:
Jairo Torres


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 52 / 66 )

Natal 400 anos: uma viagem poética
(Giovanni Sérgio & Nei Leandro de Castro, 1988)
História da Fortaleza da Barra do Rio Grande
(Helio Galvão, 1970)
A modinha norte-rio-grandense
(Cláudio Galvão, 2000)
Caminhos da Arte - Rio Grande do Norte
(Jeanne Fonseca Leite Nesi & outros, 2001)
Aconteceu na Capitania do Rio Grande
(Olavo de Medeiros Filho, 1997)
Por uma vanguarda nordestina
(Anchieta Fernandes, 1976)
Viagens ao Nordeste do Brasil
(Koster, trad. & notas Luis da Câmara Cascudo, 1942)
Duas viagens ao Brasil
(Hans Staden, 1557)
História da Província Santa Cruz
(Pero de Magalhães Gandavo, 1576)
Viagem à Terra do Brasil
(Jean de Léry, 1586)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2933
Natal, 15 de fevereiro de 2010


UMA MENINA
Afonso Henriques Neto

água, tua música de pele
e cheiro fluindo de florações
impalpáveis, chuva acesa
no centro do abismo, onde flutuam
manhãs

terra, teus passos tua voz teus
ruídos de amor e um gozo
além das cordilheiras do sonho
tecendo galáxias, vertiginosa
raiz

ar, teu gesto marinho, olhos
feitos do arremesso do mar
e a centelha invisível a mover
os labirintos do vento, cósmica
serpente

fogo, teu corpo de medusas
e feridas vivas, vulcões,
planeta todo luz, talvez paixão,
pássaro tatuado nas estrelas,
coração



PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 53 / 66 )

História geral da civilização brasileira
(Sérgio Buarque de Holanda, coord., 1960-)
Frei Joaquim do Amor Divino Caneca
(Evaldo Cabral de Mello, org., 2001)
O Delfim (Cardoso Pires, 1968
Lavoura arcaica (Raduan Nassar, 1935)
A aldeia dos malditos (Wyndham, 1957)
Uma viagem sentimental (Sterne, 1768)
Pergunte ao Pó (Fante, 1939)
O evangelho segundo Jesus Cristo (Saramago, 1991)
Homem comum (Roth, 2006)
Amadis de Gaula (Montalvo, 1508)


Fragmentos
BASES PARA A FORMAÇÃO DO PACTO SOCIAL
Frei Caneca
[ in Typhis Pernambucano, n° XXIV, de 1 / 7 / 1824,
conf. Obra organizada por Evaldo Cabral de Mello, p.494-95 ]


"Sendo o fim de toda a reunião dos homens em sociedade a conservação dos direitos naturais, civis e políticos, estes direitos devem ser a base do pacto social; e o seu reconhecimento e declaração devem preceder à Constituição, a qual lhes serve de fiador.
...
Art. 2°) A liberdade consiste em poder fazer tudo, contanto que não seja contrário aos direitos de outro. Assim, o exercício dos direitos naturais de cada um homem só tem limite naquilo que assegura aos outros membros o gozo destes mesmos direitos.
...
4°) A todo o homem é livre manifestar os seus sentimewntos e a sua opinião sobre qualquer objeto.
5°) A liberdade da imprensxa, ou qualquer outro meio de publicar estes sentimentos, não pode ser proibida, suspensa nem limitada.
6°) A igualdade consiste em que cada um possa gozar dos mesmos direitos.
7°) A lei deve ser igual para todos, recompensando ou punindo, protegendo ou oprimindo
...".

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Clique na imagem
[ Foto de Nicolas Tikhomiroff para a Magnum ]
para ver os 10 minutos iniciais de
Falstaff
(Orson Welles, 1966)
Para muitos cinéfilos, sobretudo os mais jovens, simplesmente o melhor filme do mago Orson Welles. Para nós, um dos três melhores (os outros dois: Cidadão Kane, 1941, e A marca da maldade, 1958). Baseada em textos diversos de William Shakespeare, trata-se de uma obra magistral, cujo neobarroquismo formal explode em (quase) todas as cenas. É possível que tenhamos aqui a mais dionisíaca interpretação de Welles em todos os tempos. Um filme que, a cada nova visão, mais e mais mobiliza esteticamente os seus admiradores. Uma das grandes obras-primas da história do cinema.


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 51 / 66 )

Magnum Cinema (Magnum & Bergala, 1994)
O Brasil de Marc Ferrez (Inst. M. Salles, 2005)
Fotografia do século XX (Museum Lud. Köln, 1995)
A fotografia no Brasil 1840-1900 (Gilberto Ferrez, 1985)
Os fotógrafos do Império (Bia & Pedro Corrêa do Lago, 2005)
Postaes do Brazil 1893-1930 (Pedro Karp Vasquez, 2002)
A concise history of posters (Barnicoat, 1972)
L'enfer des bulles (Sadoul, 1968)
Futebol-Arte (Jair de Souza & outros, 1998)
Carnaval J. Carlos (Luciano Trigo & Cássio Loredano, 1999)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2932
Rio, 14 de fevereiro de 2010


Meu carnaval acontece todos os dias
porque meus desejos experimentam
sempre uma nova fantasia.
(Maria Maria. Fantasia, in Espartilho de Eme)



BEBA-ME, E EU ANDAREI SOBRE ESTRELAS
Mário Ivo
[ in Cidade dos Reis ]

Beba-me, e engoliremos a noite.
Beba-me, e as nuvens deixarão fiapos soltos entre dentes nossos.
Beba-me, enquanto minha boca busca tua mordida. Enquanto tua boca ronda meu pescoço.
Enquanto tua mão colhe plantas e flores no calor do meu sexo. Transplantados ao teu. Haste úmida, respiro aquático.
Beba-me, enquanto dançamos à beira do abismo, princípio nosso de cada fuga que fazemos antes do amanhecer.
Beba-me, mate-me.
Beba-me enquanto me comes.
Só não me abandones.


EXIGÊNCIA
Lisbeth Lima
[ in Felice. Natal: Sebo Vermelho, 2004 ]

Quero um colo que me cale;
que me fale enquanto calo.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Clique na imagem
para verouvir
uma sequência de
Marido de mulher boa
(J.B Tanko, 1960)

O baiano Zé Trindade
(1915-1990),
no filme ao lado de Renata Fronzi,
notabilizou-se como um dos
grandes atores da chanchada.
E, em pleno sábado de carnaval,
além de ouvir frevos e/ou
marchinhas,
ou cair na própria frevança,
nada melhor do que ver
uma boa chanchada.


PRINCIPAIS FILMES DE ZÉ TRINDADE

1956 - Depois eu conto
1957 - Tem boi na linha
1957 - Rico ri à toa
1957 - Garotas e samba
1059 - Massagista de madame
1960 - Entrei de gaiato
1960 - Mulheres à vista
1960 - Marido de mulher boa
1961 - Mulheres, cheguei!
1961 - Bom mesmo é carnaval


POR FALAR EM CARNAVAL

clique aqui
para verouvir uma boa surpresa
registrada em 1940


BALAIO PORRETA 1986
n° 2931
Rio, 13 de fevereiro de 2010

O pensamento deve elevar-se; o coração, ficar na terra.
(Joaquim NABUCO. Pensamento soltos, 1906)


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 50 / 66 )

Esthétique et psychologie du cinéma (Mitry, 1963-65)
Análise semiológica do texto fílmico (Vários, 1979)
Morfologia do Macunaíma (H. Campos, 1973)
Roteiro de Macunaíma (M.C. Proença, 1950)
O princípio Esperança (Bloch, 1959)
Música clássica (Stanley, 1994)
The comics (Robinson, 1974)
Histoire d'O (Crepax, 1975)
Para não esquecer (Clarice Lispector, 1999)
Pensamentos soltos (Joaquim Nabuco, 1906)


PENSAMENTOS SOLTOS
de
Joaquim Nabuco

A felicidade é a admiração do belo em companhia daqueles com quem estamos em harmonia.

O mistério não estreita o horizonte. Dilata-0.

Antigamente só existiam em literatura as cores básicas; hoje só se escreve com cores misturadas.

Querer conhecer o espírito pelo cérebro é como querer descobrir no violino o gênio do músico que o faz vibrar.

O único amor nobre é aquele que liberta.

O senso estético é uma das maiores, senão a maior, das fontes do egoísmo.

O pensamento deve elevar-se; o coração, ficar na terra.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Interior do Rio Grande do Norte
Assu? Angicos? Apodi?
Foto:
Jean Lopes


BALAIO PORRETA 1986
n° 2930
Rio, 12 de fevereiro de 2010

A literatura é sem dúvida o domínio privilegiado em que a linguagem se exerce, se precisa e se modifica.
(Julia KRISTEVA.
História da linguagem, 1969)


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 49 / 50 )


História da linguagem
(Kristeva, 1969)
Conceitos fundamentais da poética
(Staiger, ed. bras. 1975)
Design e comunicação visual (Munari, 1989)
Fragmentos de um discurso amoroso (Barthes, 1977)
A câmara clara (Barthes, 1980)
Escritos íntimos (Baudelaire, ed. port. 1982)
Escritos de Apollinaire (Paulo Hecker Filho, org., 1984)
Os mortos de sobrecasaca (Álvaro Lins, 1963)
Esculpir o tempo (Tarkovski, ed. bras. 1991)
Fragmentos de uma autobiografia (Rossellini, ed. 1992)


Uma releitura
ANOTAÇÕES DE UMA AUTOBIOGRAFIA

Roberto Rossellini
[ Fragmentos... Rio: Nova Fronteira, 1992 ]

A civilização do mundo está em crise ou não? Fazer a pergunta já equivale a dar a resposta. Se está em crise, há que mudá-la. Todavia, só há uma mudança possível, a mudança cultural, isto é, precedida de um amplo questionamento das ideias e dos modos de ação. É para isso que deveriam servir os meios
de comunicação de massa
.
(p.1)

Talvez minha paixão, e também minha loucura, seja compreender, cada dia, um pouco mais. ... Não deveria haver fronteiras para o espírito. Infelizmente, aina encontramos muitos agentezinhos alfandegários do saber.
(p.11)

As sociedades, sejam elas baseadas no modelo europeu, soviético, americano ou chinês, se tornaram tão neuróticas que não se permitem o acesso ao real.
(p.30)

A solidão é meu território.
E será assim até o final. Não será agora que vou entrar no sistema. Tenho de ser coerente comigo mesmo, com as pessoas com quem tenho obrigações.
(p.111)

Os homens são mais importantes do que as pedras.
(p.115)


RIO ANGICOS, PATAXÓ
Jarbas Martins


a Carmen Vasconcelos

rio seco desinverno
rio pataxó, rio angicos
pousa a tarde em meus cabelos
como um ramo de oiticica

como na canção do cego
- cruéis janeiros, pataxó -
em chão de guerra e sossesso
aprendi também a ser só


esperando meus invernos
murmurando inquietudes
nas vazantes do meu tédio
no sono dos meus açudes

tantas águas, pataxó
tantas mágoas represadas
rio escondido em meus olhos
um rio seco, mais nada


BACANTE
Iracema Macedo
[ in Lance de dardos, 2000 ]

Em meu ninho longínquo
inicio ventos
invento cios
canto e danço em volta do fogo
transformo meu leite em vinho
e ofereço meu corpo para os lobos


POEMA
Carito
[ in Os Poetas Elétricos ]

o sol
já experimentou
de tudo

nada mais
no ar
sombra


POEMA
Mariana
[ in Suave Coisa ]

minha boca quer silêncio
Alain Bisgodofu

Quero comer o verso
que tremula na
língua

e nunca mais falar de
poesia

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Não conheço Luanda
mas conheço a fibra
daqueles que a amam.

Não conheço Luanda
mas conheço a bravura
daqueles que a vivem.

Não conheço Luanda
mas conheço a lida
daqueles que a sonham.

Não conheço Luanda
mas conheço a garra
daqueles que a revivem.

Não conheço Luanda.
Mas conheço Luanda.

(Moacy Cirne, 2010)

[ Foto in Ondjira Sul ]


BALAIO PORRETA 1986
n° 2929
Rio, 11 de fevereiro de 2010

... a assiduidade do contato determinou n'algumas cidades angolanas, notadamente Luanda, uma fisionomia familiar aos olhos brasileiros. Uma semelhança tão flagrante que, atualmente, Luanda, transformada e moderna, ainda permite o delicioso encontro desses pormenores coincidentes. ... Luanda é a terra com os valores emocionais da evocação. ... Luanda é sempre uma projeção lírica, um apelo à Poesia recordadora, fórmula de compensação ao sofrimento, recurso à saudade viajeira, atravessando
as águas do mar.

(Luis da Câmara CASCUDO. Made in África, 1965)


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 48 / 50 )

Made in África (Luis da Câmara Cascudo, 1965)
Os africanos no Brasil (Nina Rodrigues, 1906 [1932])
O Quilombo dos Palmares (Edison Carneiro, 1947)
Antologia do negro brasileiro (Edison Carneiro, 1950)
Religiões negras (Edison Carneiro, 1963)
O escravo nos anúncios ... (Gilberto Freyre, 1961)
Claros e escuros (Muniz Sodré, 1999)
Espetáculos populares do Nordeste (Hermilo Borba Filho, 1966)
Sagrada esperança (Agostinho Neto, 1974)
Na noite grávida de punhais:
Antologia temática de poesia africana
(Andrade, org., 1976)


NOITE
Agostinho Neto
Angola, 1922-79
[ in Sagrada esperança, 1974 ]

Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.

São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.

Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.

Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.

Também a noite é escura.


SAUDADES DE ANGOLA
Lobitino Almeida N'gola
[ in Malambas ]

Duas palavras existem
que de tão fortes
quanto poderosas
definição não têm.

E quando cá longe andamos
e as duas desabusadas se associam,
tão penosas se trasladam
em alma expatriada menstrua.

Uma, etérea,
de Saudade se apelida;
outra, qual sublime arte terrena
por Angola assim se clama!

Tudo se define,
e quase tudo se compreende;
se a Saudade é algo que se sente,
Angola é fogo presente sempre ardente!


PEDRAS-DE-TOQUE DA POESIA ANGOLANA
[ cf. Na noite grávida de punhais, 1976 ]

Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações.
[ António Jacinto, in Monangamba ]

homens de peito
ao relento,
quissanges dispersos
nas insónias do mar.
[ Manuel Lima, in Escravos ]

Espero a tua carta e a minha vida
[ Mário António, in Sob as acácias floridas ]

o vento irado nas frestas chora
e ramos xuaxalham de altas mulembas
[ Viriato da Cruz, in Serão de menino ]

Não há luz
não há estrelas no céu escuro
Tudo na terra é sombra

Não há luz
não há norte na alma da mulher
[ Agostinho Neto, in Partida para o contrato ]

A pergunta no ar
no mar
na boca de todos nós:
- Luanda onde está?

Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos

- Xê
mana rosa peixeira
responde?
[ Luandino Vieira, in Canção para Luanda ]

Glossário:
Mulemba : Árvore de fruto comestível
Quissange : Instrumento musical, para dedilhar
Xuaxalhar : Ruído onomatopaico provocado pelos folhas
das árvores ao vento

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A luxúria
litografia de
Jean-Baptiste Valadié


BALAIO PORRETA 1986
nº 2928
Rio, 10 de fevereiro de 2010

A luxúria é o pecado da carne e do espírito da carne. O Demônio da Luxúria é bem diverso do Demônio da Fornicação, embora muitas vezes ambos se fundem num só. ... O homem para pecar através da fornicação necessita, na pior das hipóteses, de um parceiro. Para pecar pela Luxúria, o homem se basta, não precisa de nada.
(Ieronimus Mosis, provincial na Toscana do séc. XII,
citado por Carlos Heitor CONY,
in Grandeza e decadência de um caçador de rolinhas,
cf. Os sete pecados capitais: Luxúria, 1964)


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 46 / 50 )

Os sete pecados capitais (C.H. Cony & outros, 1964)
Abaixo as verdades sagradas (Bloom, 1987)
Código nacional de trânsito (Affonso Ávila, 1972)
Violão de rua: Caminhos para a liberdade (Vários, 1962)
Teoria da literatura (Todorov, 1965)
Chaves para o cinema (Amengual, 1971)
O prazer do texto (Barthes, 1973)
O écran demoníaco (Eisner, 1952)
Cinema e história (Ferro, 1977)
Linguagem e cinema (Metz, 1971)

Nota:
Os sete pecados capitais,
editados pela Civilização Brasileira,
foram escritos por
Guimarães Rosa (Soberba),
Otto Lara Resende (Avareza),
Carlos Heitor Cony (Luxúria),
Mário Donato (Ira),
Guilherme Figueiredo (Gula),
José Condé (Inveja) e
Lygia Fagundes Telles (Inveja).

( 47 / 50 )

A cidade e as serras (Eça de Queiroz, 1901)
Krazy Kat (Herriman, 1911)
A terra desolada (Eliot, 1922)
História do olho (Bataille, 1928)
Tarzan (Foster, 1929)
Crítica impura (Astrojildo Pereira, 1963)
Contos: Os norte-americanos (Vinicius de Morais, org., 1945)
Contos: Os ingleses (Rubem Braga, org., 1944)
Contos da velha e da nova Rússia (Vários, 1954)
Antologia cósmica (Fausto Cunha, org., 1981)


O CARNAVAL DA MINHA DOR
Cefas Carvalho

O carnaval da minha dor começou em uma sexta-feira ensolarada como têm início os carnavais - sejam dolorosos ou não - em um ano qualquer e em uma cidade igualmente qualquer (o carnaval é igual em qualquer cidade quando o objetivo é sofrer, e não se alegrar. Parafraseando Tolstói, todos os carnavais infelizes se parecem, os carnavais alegres é que são diferentes...).

Mas voltemos à minha dor... toda ela gerada pela Colombina, posto que eu era, novamente, o Pierrô. Há quantos carnavais vivíamos esta história insana, excitante, mal contada?... Havia uma década, suponho. Eu não sabia nada sobre ela, apenas seu nome - Miriam -, que ela revelou por um deslize enquanto fazíamos amor embaixo do palco das autoridades que assistiam ao desfile das escolas de samba na cidade de... deixemos para lá. E chamemos minha amada de Colombina, que é como sempre a chamei e como ela gosta de ser chamada (isso a excita, presumo).

O fato era que o que havia começado como uma fantasia (em todos os sentidos) passara a ser – pelo menos para mim – uma obsessão. Primeiro nos conhecemos, entre o confete, a serpentina, o álcool e o loló, como todos se conhecem durante a folia, entre a superficialidade e o desejo... depois o beijo, o desencontro e por fim o reencontro na noite de terça-feira e terminar a noite – e aquele carnaval – entre lençóis no meu quarto de hotel. Trocamos telefone, mas para quê?

Jamais nos telefonamos. A não ser na véspera do carnaval do ano seguinte, quando ela avisou que novamente se fantasiaria de Colombina e que queria me ver outra vez de Pierrô. Passamos o carnaval entre encontros e desencontros, ela com Arlequins, eu com Odaliscas... tentei brigar, mas ela só queria se divertir. Jurei que no carnaval seguinte não passaria mais por aquilo. Tolice. Uma semana antes da festa momesca, a Colombina me ligou dizendo em que cidade passaria o carnaval e lá fui eu atrás dela, rumo a prazeres carnais rápidos e uma dose considerável de sofrimento. Identifiquei-me com a música... "Um Pierrô apaixonado, que vivia só chorando, por causa de uma Colombina acabou chorando, acabou chorando...” (Pierrô Apaixonado, de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres).

Lá pelo quatro ou quinto carnaval que passávamos da mesma maneira, encontrando e desencontrando entre ladeiras, becos e multidões, tomei coragem e a pedi em casamento. Ela riu, argumentando que eu sequer a conhecia e continuou sua caminhada de Colombina desvairada, à procura de outras bocas, outros braços, outros pierrôs... Mas, na quarta-feira de cinzas lá estava ela em meus braços... E eu tentando fazer com que nos víssemos em outro período que não no carnaval. Inútil. “Eu gosto das coisas assim...”, enfatizou, despindo suas roupas de Colombina. Enquanto ela pegava um táxi rumo ao aeroporto (já morávamos em cidades diferentes) "O Pierrô apaixonado chora pelo amor da Colombina..." (Pierrot, de Marcelo Camelo, da banda Los Hermanos).

Passam os meses e fevereiro se aproximou, como sempre, trazendo consigo o Carnaval. Não telefonei para a Colombina e tampouco ela me ligou. Fiquei em minha cidade, e vesti-me de Pierrô – pela última vez – para pular sozinho meu carnaval. Eis que então, entre lágrimas e cervejas, vi a Colombina – sim, só podia ser ela, era seu andar, seu jeito de mover os braços, de balançar os cabelos, de rir ao vento... - aos beijos com um Arlequim. Olhei fixamente para ela. Ela me viu e não esboçou qualquer reação. Era uma Colombina, mas, seria a minha Colombina? Que importava? Que mais havia a fazer? Comprei outra latinha de Skol e me entreguei à multidão que entoava uma marchinha qualquer, que aos meus ouvidos soava como a marcha fúnebre: eu estava condenado a ficar apaixonado pela imagem (literal e simbólica) da Colombina até o fim dos carnavais, ainda que toda Colombina que cruzasse meu infeliz caminho não fosse a minha... “Quanto riso, ó, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão... O Pierrô está chorando pelo amor da Colombina no meio da multidão...”.


BODEGA DO CHICO DOIDO DE CAICÓ

Bebes & comes:

* Guaraná Doidão:
Guaraná em pó batido durante 83 segundos com 200ml de cachaça (Topázio ou Samanaú, preferencialmente), uma barra de chocolate amargo, uma colher de sopa de gengibre, dois cálices de licor de amendoim e o leite da mulher amada, à vontade.
Parede: Ovo de codorna. Cru. Com casca e tudo o mais.

* Manga manhosa:
Suco de manga batido durante 69 segundos com dois cálices de licor da pessoa amada e uma bola de sorvete de creme afrodisíaco, além de uma taça de vinho espumante.
Parede: Auroras e crepúsculos ao som de Vivaldi.

* Açaí Porreta:
Suco de açaí batido durante 55 segundos com três cálices de licor de chocolate, um pouco de mel e uma colher de sopa de proteinato, temperado com o sorriso do ser amado.
Parede: Queijo de coalho. Assado.

* Goiaba Escandalosa:
Uma taça de vinho do porto, sorvete de chocolate (duas bolas caprichadas) e uma goiaba. Mistura para ser batida durante 43 segundos. Sob o olhar do/a amado/a.
Parede: Queijo do sertão. Derretido.

* Caju Diabólico.
300ml de cachaça. Da boa. Topázio, Seleta, Samanaú, Rainha, Ferreira, Germana, tanto faz. Não precisa bater. Pode-se beber aos poucos, em três ou quatro talagadas.
Parede
: Caju. Bastante caju.

E na entrada principal da Bodega,
um poema de Chico Doido de Caicó:

Reconheço: sou mentiroso dos bons
Mas uma coisa é tiro e queda
Queda e tiro sem talvez
Mulher comigo sempre terá vez.


DESERTO
Bosco Sobreira
[ in A Pedra e a Fala ]

afora o cheiro desta
voz
o corpo desta
voz
o transe desta
voz
tudo tão antigo
tudo tão eterno
tudo tão igual
(nada)
nada novo
há de nascer
sob o sol
afora esse deserto
(nada)
tudo
tão
nada

UMA FORMIGUINHA
Henrique Pimenta
[ in Poivre ]

Uma formiga que se encontra à cama
Passeia nervosinha no xadrez,
Concentra-se ao lençol e é pela trama
Da mancha bem de pouco que se fez.

Distingue que há nas gotas uma gama
De mel e de salsuge e de acidez,
Que gosto!, delicia-se e se inflama
Com os restos de quem mama de uma vez,

À fome dos sentidos em ascenso,
À sede do sem senso muito tenso,
Que o leite foi batido pela enferma

No leito doidivanas, tão materna...
Sorvendo-o dissolvente se prosterna,
Formiga se vicia com esperma.

DO TEU CHEIRO
Ademir Antonio Bacca
[ in Poesia Erótica ]

O gosto da tua pele
sal impregnado em meus lábios
que me mata de sede
à beira da fonte dos teus prazeres.

O teu gosto na minha boca
mel que sacia meus desejos
na hora derradeira
do medo de te perder
em meio aos lençóis.

O teu cheiro impregnado
no meu corpo
perfume raro que nem a chuva
leva de mim...