quarta-feira, 31 de dezembro de 2008


Rio / Crepúsculo / Ipanema

Foto de
Marcus Moura


BALAIO PORRETA 1986
n° 2523
Rio, 31 de dezembro de 2008
Atualização/revisão: 13h

Que, para todos nós, o ano de 2009 seja iluminado por auroras, crepúsculos, esperanças, alegrias, seridós, travessias, amores, paixões, olindas, potengis. E que a paz se faça presente no coração da humanidade, apesar de tudo.


Brasil
FOLHA PORRETA 2008

Acontecência
Torcida tricolor (RJ), nos jogos da Libertadores
Artes

Regina Pouchain & Wlademir Dias pino (RJ)
Blogue
Improvisações (RS), de Milton Ribeiro
Cinema
Serras da desordem (SP), de André Tonacci
Disco
Banda Sinfônica (RN),
com Leo Gandelman, Dominguinhos & outros
Espaço Cultural
Sala Cecília Meireles (RJ)
Futebol
Internacional (RS), pelo título da Sul-Americana
Imprensa
Carta Capital (SP)
Jornalismo eletrônico
Via Política (RS)
Literatura
Além do nome (RN), de Marize Castro
Poesia
Thálassa (RN), de Francisco Ivan
Quadrinhos
Chibata! (CE), de Hemetério & Olinto Gadelha
Sítio
Substantivo Plural (RN)
Televisão
Pontapé inicial (SP), com José Trajano
Vídeo
Diário de uma prostituta (RJ), de Marcelo Ikeda

OS PIORES ACONTECIMENTOS DO ANO

Cultura
A edição especial da Bravo! (SP)
dedicada à música erudita

Futebol
A seleção brasileira,
sob o comando de Dunga

Política
A eleição de Micarla de Souza (RN)
para a Prefeitura de Natal

terça-feira, 30 de dezembro de 2008



Clique na primeira e/ou na segunda imagem
para verouvir
dois vídeos da festa da
torcida tricolor
no jogo final da Libertadores/2008

Fotos:
Movimento Popular Legião Tricolor



BALAIO PORRETA 1986
n° 2522
Rio, 30 de dezembro de 2008

Definitivamente, Deus não existe!
(Jovem torcedor tricolor, logo após o jogo contra a LDU)


A MAIOR EMOÇÃO DE 2008

A maior emoção do ano - e de muitos e muitos e muitos anos - não se deu na esfera cinematográfica, ou literária, ou musical, ou quadrinhográfica, ou mesmo política.
A maior emoção do ano se deu no terreno esportivo, em pleno Maracanã, nos três jogos finais do Fluminense na Libertadores 2008, a partir da vibração contagiante da torcida tricolor.
Não fomos campeões, é verdade, é verdade, mas o espetáculo da nossa brava e entusiasmada torcida, sobretudo no último jogo, ainda será lembrado por muitos e muitos e muitos séculos.


ETERNO TRICOLOR
Moacy Cirne
[ in Balaio 2361, de 06/07/08 ]

para
os tios
Silvino (in memoriam)
Walfredo, Raimundo e Waldemar
Gérson, Toinho e Josebel
e para
Castilho, Didi e Telê (in memoriam)


Aprendi com os meus tios
e os meus heróis de infância
que uma paixão
não se constrói
sem sal, suor e sol,
poesia, potengis e epopéias:
uma paixão se constrói
grená que te quero grená e garra
garra que te quero grená e granito
seja nas esperanças mais delirantes
seja na paz de guerreiros alucinantes.
Aprendi
com meus tios e heróis
que existe uma paixão
moldada como um vendaval
de alumbramentos
tecidos com engenho, arte e ambrosias.
E se
os Deuses não souberam
contemplar o tempo templo
de um Maracanã
abençoado
por
homens e mulheres
velhos e crianças
em êxtase dionisíaco,
pior para Eles,
mil vezes Malditos
mil vezes Insensíveis
diante da vibração mágica
diante da emoção trágica
que terminaria por se desenhar
na geometria das tempestades
e auroras enlouquecidas.
Mal sabem Eles,
pobres Deuses sem brilho e sem humor,
que na alma de cada tricolor
existe um eterno amor.

[][][]

No Balaio de amanhã:
FOLHA PORRETA 2008
- Os destaques do ano -

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008


Natal dos anos 50:
o Grande Ponto,
cruzamento da João Pessoa com a Rio Branco

Foto de
Jaeci Emereciano


BALAIO PORRETA 1986
n° 2521
Natal, 29 de dezembro de 2008

Se Natal não existisse, seria preciso inventá-la.
(Moacyr de GÓES, historiador, final dos anos 60)


O MELHOR DE NATAL:
ANOS 50/60

Melhor atração histórico-cultural: Fortaleza dos Reis Magos
Melhor bar:
Tenda do Cigano, na Praia do Meio,
com menção especial para a Palhoça, na Av. Deodoro,
e para o Briza del Mare, no Passo da Pátria
Melhor escondidinho alternativo: Arapuca, no Alecrim
Melhor praça: André de Albuquerque, na Cidade Alta,
com menção especial para a Pedro Velho, em Petrópolis
Melhor beco: Beco da Lama, na Cidade Alta,
com menção especial para o Beco da Quarentena, na Ribeira
Melhor alvorecer: a partir do Iara Bar, em Areia Preta
Melhor crepúsculo: a partir da Pedra do Rosário, diante do Potengi
Melhor luar: a partir do Wunder-Bar, na Ribeira,
ou a partir da Ponta do Morcego, entre Areia Preta e Praia do Meio
Melhor cinema: Nordeste,
com menção especial para o Rio Grande
Melhor teatro: Theatro Carlos Gomes
Melhor livraria: Universitária, na Cidade Alta
Melhor cabaré: Maria Boa, no Baldo,
com menção especial para o Arpège, na Ribeira,
e para Rita Loura, em Lagoa Nova
Melhor igreja: Igreja do Galo, na Cidade Alta
Melhor praia: Praia do Forte
Melhor veraneio: na Redinha
ou na distante Ponta Negra
Melhor motel ao ar livre: Praia do Forte, depois das 22h
Melhor restaurante: Pérola, anos 50, no Beco da Lama,
e Granada, anos 60, na Rio Branco
Melhor peixada: a da Comadre, no Canto do Mangue
Melhor carne de sol: a do Lira, nas Rocas,
com menção especial para a do Marinho, nas Rocas
Melhor galinha à cabidela: Galinha da Mãe do Chico, no Areal
Melhor café da manhã: a do Hotel Tirol, na Rua da Pista
Melhor meladinha: a do Nasi, no Beco da Lama
Melhor garapinhada: a da Sorveteria Oásis, na Cidade Alta
Melhor cachorro-quente: o do Bar Dia e Noite, na Cidade Alta
Melhor galeto: o de Maria Boa
Melhor caldo de cana com pão doce:
o de uma bodega na Mário Negócio, no Alecrim
Melhor clássico: ABC x América, no Juvenal Lamartine
Melhor papo: Cascudinho, nos bares da Ribeira
Melhor papo alternativo: na Praça das Cocadas, no Grande Ponto
Melhor coluna de jornal: Revista da Cidade, de BW
Melhor carnaval: o do América, para a elite,
e o do Ginásio Esportivo Djalma Maranhão, para o povão
Melhor feira: a do Alecrim
Melhor travesssia Natal-Redinha: a de bote
Melhor cigarreira: a que ficava em frente ao Rex, na Rio Branco
Melhor lugar para discussões políticas, sociais e literárias:
o Grande Ponto, na Cidade Alta,
no cruzamento da Rio Branco com a João Pessoa
& adjacências

domingo, 28 de dezembro de 2008


Eis o reflexo do ataque de Israel, ontem,
na Faixa de Gaza:
225 mortos e 700 feridos
[ 315 mortos às 8h do dia 29 ]


Foto:
Times Online


BALAIO PORRETA 1986
n° 2520
Natal, 28 de dezembro de 2008

Uma criança e a dor.
Uma dor e a desesperança.
Uma desesperança e a criança.
Diante da morte. Diante do inverossímel.
E do incompreensível.



GRITAREI
Poema de SAMIH AL QASSIM

No Século Vinte

Aprendi a não odiar
durante séculos
mas me obrigaram
a brandir uma flecha permanente
diante do rosto de uma píton
a brandir uma espada de fogo
diante do rosto do Baal demente
a transformar-me no Elias do século vinte

aprendi
durante séculos
a não proferir heresias
hoje açoito os deuses
que estavam no meu coração
os deuses que venderam o meu povo
no século vinte

aprendi
durante séculos
a não fechar a porta diante dos hóspedes
mas um dia
abri os olhos
e vi minhas ovelhas roubadas
enforcada a companheira de minha vida
e nas costas de meu filho
sulcos de feridas
então reconheci a traição de meus hóspedes
semeei meu umbral com minas e punhais
e jurei em nome das cicatrizes
que nenhum hóspede ultrapassaria meu umbral
no século vinte

durante séculos
não fui mais do que poeta
assíduo freqüentador dos círculos místicos

mas me transformei
num vulcão em revolta
no século vinte!

[in Poesia palestina de combate.
/Trad. não especificada/
Rio de Janeiro: Achiamé, 2ª ed., s/d, p.59-60 ]


OS LÁBIOS CORTADOS
Samih Al Qassim
[ in Poesia palestina de combate ]

Eu poderia ter contado
a história do rouxinol assassinado
Poderia ter contado
a história...
se não me tivessem cortado os lábios.


O ESTRANGEIRO
Hayi L'Assaqilah
[ in Poesia palestina de combate ]

Não se apoderem de meus olhos
Sou o estrangeiro
em busca de uma pátria
meu coração se esmigalhou
sobre as montanhas da neve, do sangue e da geada
caminhei com as crianças
me abandonaram
na noite da fome, do sangue e da geada
levantaram sobre minhas costas
as tábuas do meu ataúde

Não me exterminem
sou o estrangeiro
em busca de uma pátria...
que erro cometeu meu povo
para que viva hoje
numa terra em ruínas
que erro cometeu o pássaro
para que o joguem de um bosque a outro
que erro cometeu meu coração
para que derramem sobre ele
a catástrofe e tanta dor.

sábado, 27 de dezembro de 2008


Clique na imagem
para verouvir
uma das seqüências de
Satantango
(Tarr, 1994)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2519
Natal, 27 de dezembro de 2008

Depois que vi Danação (1988) e o curta Prólogo (2004), que já apresentei neste Balaio, o húngaro Bela Tarr, nascido em 1955, passou a ser uma das minhas principais admirações cinematográficas da atualidade. As sete horas e meia de Satantango (1994) clamam por mim; estou disposto a admirá-las o mais rapidamente possível. Hoje, Tarr me parece ser o cineasta por excelência do plano-seqüência. E do vazio que acossa a humanidade.


Prioridades de um cinéfilo
OS FILMES QUE PRETENDO VER EM 2009
- na medida do possível -

1. Satantango (Tarr, 1994)
2. O homem de Londres (Tarr, 2007)
3. A mãe e a puta (Eutasche, 1973)
4. Je tu il elle (Akerman, 1974)
5. O diabo, provavelmente (Bresson, 1977)
6. Le gai savoir (Godard, 1968)
7. À beira do abismo (Hawks, 1946)
8. Shoah (Lanzmann, 1985)
9. O nascimento do amor (Garrel, 1993)
10. O buraco (Huo, 1998)


A FACE FEMININA DE DEUS

Pela segunda vez, em poucos dias, destaco um trecho do auto natalino A face feminina de Deus, o belo texto de Marize de Castro, encenado com sensibilidade e bom gosto por Lenilton Teixeira: um dos grandes espetáculos do ano, em Natal. Registre-se que Marize de Castro é uma poeta de expressão nacional. E a Capitania das Artes merece ser elogiada - e bastante - ao escolher os dois (Marize/Lenilton), além de vários outros nomes importantes, da coreógrafa (Giovanna Araújo) ao cenógrafo (Guaraci Gabriel), para a realização do Auto 2008.

Eis, aqui, uma das falas de José:

Uma cidade é uma casa. Necessita ser cuidada, acariciada. Ter suas paredes, seu teto e chão limpos. Sem zelo, não há cidade. Uma cidade deseja ser amada, descoberta, revelada. Ao oferecer um claro céu azul, uma cidade quer ser olhada, admirada por homens e mulheres, sejam seus moradores, sejam seus visitantes. Não se engana uma cidade sem correr o risco de enganar a si mesmo. Uma cidade é uma pérola de sal, sol, seda. Não se rouba ou se destrói uma cidade sem também ser roubado e destruído. Uma cidade é um farol, uma ponte, uma fortaleza, um rio, um porto, um morro, uma ribeira, feiras, mercados, parques, praças, praias, igrejas, teatros, escolas. Também são os seus meninos e meninas tristes - com seus destinos rasgados, com suas infâncias roubadas. Uma cidade precisa de saúde, arte, cultura, lazer, segurança, transporte - pequenas e grandes doses de felicidade. Uma cidade é uma ave, navegante, dourada, internauta, subterrânea, cósmica, luminosa. É uma brisa que refresca e promete dias certeiros. Dias em que a sabedoria anunciará: Uma cidade são os seus homens e suas mulheres - se eles forem pequenos, ela será ínfima; se eles forem grandes, ela será imensa.

[ A seguir ]

Maria:
Que bela cidade é a sua, José! Alegro-me por Jesus nascer em Natal, diante do mar, diante de tanta imensidão e beleza.

José (beijando as mãos de Maria):
Sim, Maria. Esta Natal luminosa é o lugar certo para você parir o ser iluminado que está no seu ventre.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008


Foto
de
Ben Heys


BALAIO PORRETA 1986
n° 2518
Natal, 26 de dezembro de 2008

A religião continua a ser o ópio das massas. Mas não é o único. Quem observar com atenção a fúria com que o consumismo do ciclo natalino toma conta das pessoas, não tem dúvida: esse também é um ópio poderoso! E a nós, que tivemos a ventura de viver natais melhores, na nossa infância, porque motivados por valores menos traduzíveis em cifrões, não podemos encobrir nossa estranheza. Há realmente algo de podre, algo de ópio das massas, algo de baixo capitalismo nesses dias que antecedem o Natal, justo nesta cidade que deve seu nome a essa festa que já foi cristã.
(Nelson Patriota, in Tribuna do Norte)


SEMEADOR
Bosco Sobreira
[ in A Pedra e a Fala ]

Há os que plantam ventos
e colhem velas
pra ganhar os mares
e voar por seus azuis
Outros plantam sonhos
e colhem asas
pra ganhar os céus
e velejar por suas vagas
Devem existir
(imagino)
uns muito poucos
como eu:
Plantei minha última semente
colheram a única flor dela nascida
e ganhei silêncios


META-LINGUAGEM
Múcio L. Góes
[ in Traversuras ]

a meta
da língua,
metalinguagem.
o sal
e a saliva
quando agem.
pra quem saca
do tema,
isso acaba
em poema
ou
sacanagem.


ESTAMPA
Líria Porto

a chuva lambe a terra
arrepia-se e põe flor
nos seus cabelos verdes

: que moça moderna


POETRIZ
Valéria Tarelho
[ in Impura Poesia ]

Dentro de mim
mora uma vadia
que trepa com rimas
a troco de poesia

dentro de mim
habita uma pueta
que de esquina em esquina
se estrepa em estrofes
(só se fode)

dentro de mim avança
essa mulher à margem

: à minha imagem
e semelhança

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008


Cristo no Apocalipse de São João
(1958-1960),
de
Salvador Dalí


BALAIO PORRETA 1986
n° 2517
Natal, 24 de dezembro de 2008

A palavra tem muito mais força para persuadir do que a escrita.

(DESCARTES. Carta a Chanut, 21/02/1648)


NOEL
Carito
[ in Os Poetas Elétricos ]

Hoje pegaram um cara
Pra Cristo.

Ao aniversariante nossas desculpas
Pela balburdia que estão fazendo com o seu dia.
Em nome de Jesus
Carregamos a cruz
Do capitalismo que seduz e se diz feliz
Natal!

Ainda resta o tal espírito natalino.
Que os Reis Magos além de ouro
Também tragam bom senso
E menos birra.

Olho debaixo da cama
Atrás de presentes
Mas só encontro passados.

Ao futuro e a Deus
Que venham outros
Pertences.


Clique na imagem
para verouvir
quase 6 minutos de
O evangelho segundo São Mateus
(Pasolini, 1964)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2516
Natal, 24 de dezembro de 2008

Será que, na história do cinema, existirá filme mais belo e expressivo sobre a vida de Cristo do que O evangelho segundo São Mateus, realizado pelo marxista Pier Paolo Pasolini? Acreditamos que não. O filme do cineasta italiano, produzido nos anos 60, continua insuperável em sua beleza quase minimalista, com sua fotografia crua, com seus atores não-profissionais, com sua narrativa clara e límpida. Nunca um Cristo foi tão humano, religioso e verdadeiro - e tão essencialmente Cristo - quanto aqui, em seu despojamento histórico, em seu despojamento ontológico. E mais: em seu despojamento cinematográfico. Uma obra-prima, simplesmente.


O Auto de Natal 2008
[ através da Capitania das Artes ]
A FACE FEMININA DE DEUS
Marize de Castro

A fala inicial de Maria:

Digo-lhes, o humano está em mim. Jamais precisei de visões, aparições, mensagens, ver, tocar. Espero que me vejam para além do símbolo, sem eufemismos, mistificações e falsas projeções. Falei através de silêncios. São vários os meus nomes. Já fui considerada herética, mãe de filho bastardo, mãe da Luz do Mundo. "Virgem Maria", diseram alguns; "puta", disseram outros. "Mistério abissal", "abismo misterioso", proclamaram os iniciados. Sim, sou suave e áspera, frágil e forte. O Senhor me possuiu desde o início do seu caminho: quando Ele preparava o céu, eu estava presente. Venham a mim todos que me desejam com ardor. Sou todas as mulheres. Eis-me senhora das plantas, dos animais, das flores, dos frutos, das sementes. Estou situada no princípio do princípio. Teço. Gero. Alimento. Mais do que a virgindade do corpo, interessa-me a virgindade da alma. Quando respondi "faça-se", tornei-me acolhimento, entrega. Nem sempre entendi o que aconteceu e acontece com o meu Filho. Mesmo assim, eu o acolhi e o guardei, em silêncio, no profundo do meu coração. Sua transgressão é minha transgressão. Sua dor é minha dor.

OS QUATRO TEXTOS DO AUTO

2008:
A face feminina de Deus (Marize de Castro,
com direção de Lenilton Teixeira)

2007:
O Menino da Paz (Paulo de Tarso Correia de Melo,
com direção de Véscio Lisboa)

2006:
O Menino e os Reis (Nei Leandro de Castro,
com direção de Lenício Queiroga)

2005:
Jesus de Natal (Moacy Cirne,
com direção de Paulo Jorge Dumaresq)


[ in Auto do Natal. Natal: Capitania das Artes, 2008 ]

terça-feira, 23 de dezembro de 2008


Maria Bunita & Lampião
por
Fábio Eduardo,
artista natalense


BALAIO PORRETA 1986
n° 2515
Natal, 23 de dezembro de 2008


os sonhos
(in) possíveis
não me deixam adormecer
(ACANTHA, in La Vie Bohème)


poema,


arquitetura de coisas esquecidas.


(Mário Cézar, in Coivara)


QUASE UM POEMA DE NATAL
Márcia Maia
[ in Tábua de Marés ]

eu queria um natal sem luzes
sem sinos sem coroas sem presentes
sem festas de confraternização
onde se repete quase escandindo
(e à exaustão) a palavra so-li-da-ri-e-da-de

eu queria um natal mais solstício
que natal — um natal pagão —
um natal simples sem palco
onde a gente ousasse ser apenas gente
como a gente que a gente é nos outros dias


DIARIM DE MARIA BUNITA (6 e 7)
Divulgação: Menina Arretada do Seridó

(6)

Xêro-no-Cangote, em 26/11/1924

Meu diarim quirido,
onte, pur essas banda, apareceu uma cigana arretada de boa. Leu minha sorte e qui meu Capitão num saiba, ela disse qui vai aparicê dois homi na minha vida: um tar de Lenandro e um tar de Alequici. Dois homi muito do danado. Eita bixiga, cum mais dois qui é o Capitão, meu amô verdadêro e o Diabo Lôro, tô lascada pra dá conta de tanto macho. Será qui esse Alequici é o mermo do tar Beco da Lama? Sei não diarim, tô até cum medo de aparicê pros lados do Rio Grande. E se eu me apaxoná pur essa vida cum esses minino de lá? Ói qui num é todo homi qui assumi uma muié qui nem qui eu não, cheia de facêrice. Tem qui ser muito homi, muito macho, viu seu Alequici. Num sei se ocê dá conta do recado não... Meu Capitão sim, aquele lá, é homi indo e vortando... aquele num fracatêa de jeito nenhum, e tem mais, viu, topa qualqué furdunço, infrenta qualqué intrupisso. Inté mermo no Natal do ano derradêro, dia de festa de Nosso Senhor das Alturas, o Capitão quiz me enrabá, mais num deixei não, era dia sagrado, ele ficô só carregano na imaginação. E o meu fiofó num é frôr pra qualqué ora não.

(7)

Casa-da-Mãe-Joana, em 27/01/1925


Meu quirido diarim,
tá qui chove muito pur essas bandas de meu bom Deus. O Capitão tá meio brocoió cum a estória da cigana, mais eu disfacei bem, disse qui ela tava mi ensinano umas mezinhas pra essas coisas de muié. Mais o Capitão num é nenhum mané de vazante não. Ele sente cheiro de traição de longe e ocê sabe, né diarim, o qui ele faz cum quem apronta presepada cum ele. Num sobra nem nutícia da alma do fi d'uma égua qui apronta cum ele. A cigana me disse outro dia qui esses minino do Beco são muito do convencido, mais qui parece qui só tem arranque, ocê sabe, né diarim, cachorro qui muito late, não morde... Acho qui já tô inté perdeno a vontade de ir na capitá, parece qui im Mossoró, tumbem tem uns minino arretado de bom, cheio de mungango, tudo Papangu. Ela mi disse qui cunheceu por lá, nas andanças dela, um tar de Tulho Rato, qui veve aperriano os mitido a bacana de lá. Virgulino inté qui podia tê um cabra da peste desse no bando, né não diarim, nem que fosse pra levar um mói de chifre de veiz im quando... Vixe, preciso sê menos bucho furado com meu diarim, apois a minha peceguida tá qui tá e o Capitão num pode nem sonhá com as minhas escrevinhanças. Sol que racha quengo tumbem racha quenga. E quenga eu não sô não. Sô mermo é uma cangacêra as veiz muita atrevida.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008


A angolana
Micaela Reis
via
Milton Ribeiro


BALAIO PORRETA 1986
n° 2514
Natal, 22 de dezembro de 2008

Não era uma mulher, era uma guilhotina:
cinco homens perderam a cabeça por sua causa.
(Max NUNES. Uma pulga na balança,
org. Ruy Castro, 1996)


CONDICIONANTES
Sheyla Azevedo
[ in Bicho Esquisito, em 19/09/07 ]

Se eu não fosse essa pessoa
cheia de pântanos,
seria nuvem

Se eu não fosse essa
coisa estranha
seria um espelho voltado para o mar

Se eu não fosse eu
assim, cheia de medos e escuros
seria uma lacuna
só para deixar você entrar


ÁFRICA POP
Carito
[ in Os Poetas Elétricos, em 12/01/07 ]

Abro a boca cheia de Áfricas
E o mundo vira uma bola de chiclete de sonhos
Na minha goma de Madagascar!


DIARIM DE MARIA BUNITA (4 e 5)
Divulgação: Menina Arretada do Seridó

(4)

Siridó-da-Bixiga-Lixa, em 25/07/1924

Quirido diarim:
Ôje eu tô cuma sordade bateno no peito qui so vendo... acho qui ainda é ressaca do tar frevo de Olinda, ou então daquele cigarrim isquisito qui me deram e qui me deixô afoita pur demais. O qui eu quiria mermo ôje era ficá na baladêra cum meu Capitão mi dizeno qui eu sô uma frô de mandacarú, qui num tem muié mais bunita qui eu em toda essa redondeza. Maria Bunita tem seus dia de frescura tumbem, visse diarim... Tô tão carente qui se eu pudesse inda ôje eu dava um jeito de aparecer num tar de beco da lama, lá pras banda da capitá do Rio Grande, que é frevoroso qui só a gota serena, pro mode vê se me curava desse banzo. Se o Capitão deixá... Mais aposto cuma ele num deixa qui ele num é besta não.

(5)

Soledade-do-Bom-Jesus, em 17/08/1924

Ôje fiquei toda arrupiada, quirido diarim. Pois num é qui o Capitão me garrô pur trais e sapecô um xêro tão aprumado no meu cangote qui mais um pouquim e eu me desmanchava toda. Inté me isquici qui existia o carnavá de Olinda e tumbem daquele danado de Diabo Lôro. Só não consigo isquecê mermo é do tá do beco da lama, me contaro que lá é um lugar muito ótimo e, pode inté parecê frescura, mais tô precisando de gente que endireite direitim o meu califon e as minhas calçolas, apois o Capitão pra isso é mei desajeitado. E uma fême, mesmo sendo cangacera como sô, pricisa de certas mulerices, né não diarim? O diacho é qui a capitá do Rio Grande é longe pur dimais. Vô tê que isperá qui o Capitão resolva invadi e faça istrupulia numa cidade qui tem o nome parecido com Moxotó, Mororó, Mossoró, uma coisa assim, e qui fica pertim da capitá. Enquanto o Capitão vai si diverti com as donzela de lá, peço licença a ele pra conhecer o tá beco tão famoso. Parece que a coisa é certa: Jararaca garantiu pra ele qui a tá cidade de nome isquisito mais bunito é a coisa mais fáci do mundo de conquistá, inquanto ele conquista Moxoró, eu conquisto os minino do beco, ah, conquisto sim diarim, e pode apostá, eles num vão mais nunca me isquecê, vão não. Só priciso sê tenciosa, o meu xibiu num é pra qualquer hômi não. Mais será qui o Capitão vai deixá, ele é mais sabido que o Rei Salamão e um tá de Rui Baboso.

domingo, 21 de dezembro de 2008


Newton Navarro
(1928-1992),
poeta, contista e artista plástico natalense


BALAIO PORRETA 1986
n° 2513
Natal, 21 de dezembro de 2008

Como colorir um dia cinza?
(Ada LIMA. Blues, in Menina Gauche)


O MORTO
Newton Navarro
[ in Subúrbio do silêncio. Natal, 1953 ]

Despido de azul e de paisagem
O morto está.
Silenciosa semente de carne
Aguardando as raízes.

Sem pai, sem mãe,
Sem casa,
Sem sono.
Até sem mortos
O morto está.

Não lhe resta lembrança alguma,
Ignora a tarde e as flores
Que o cobrem
E a escura casaca
Com que o vestiram um dia.

Não tem pranto nos olhos.
Não tem olhos,
Nem saudade,
Nem lembrança.

Nem ele mesmo se possui
Nem mesmo alma.

Apodrecida semente
Que espera raízes,
Assim o morto está:
Incompleto, inconseqüente
E só.

Sem presença
Sem confiança de que será terra,
Infinito,
Assim o morto está.

Os sinos da cidade
Não o despertarão nunca.
Por que, então, o vosso pranto, Senhora?


Repeteco
DIARIM DE MARIA BUNITA (1, 2 e 3)
Divulgação: Menina Arretada do Seridó

Depois de anos e anos de pesquisas antropológicas, epistemológicas, metafísicas, becolamistas e seridológicas, finalmente (re)publicamos, revisados, os três primeiros capítulos do famoso Diarim de Maria Bunita, até recentemente inédito, e cuja autenticidade foi comprovada pelo Tribunal das Causas Delirantes e Jupiterianas, situado na Casa Forte do Cuó, nas proximidades do Poço de Santana, em Caicó, devidamente presidido pelo historiador Muirakytan Macedo e pela professora e
poeta Ana de Santana.
Depois do Diarim de Lampião, divulgado pelo Papa-Figo (Recífilis) e pelo próprio Balaio, nada melhor do que o Diarim de Maria Bunita.


(1)

Cafundós-do-Judas, 23/03/1924

Meu diarim, cumeçando a conversá
de Maria Bunita pra Maria Bunita:
hoje eu tô aperriada qui nem a mulesta.
E além do mais tô de boi. Já viu cuma é tá de boi
dentro dessas brenha? Num gosto de usar calçola,
mais é o jeito. Virgulino inté parece qui adivinha
e fica me azucrinano o dia todo. Só dá vontade de
ficar espichada na baladêra, vendo os cabra alimpá
as arma e contar os causos.
Onte, Virgulino aproveitô qui eu tô assim nesses dia e
se mandô pra zona de uma tar de Maria Lôra.
Voltô só de menhazinha. Mais deste tá qui eu ainda
furo os óio dela, é só passá essa marmota qui eu tô.
Tumbém, num sei pra quê muié tê chilique todo meis.
Tenho inté TPM. Se arrete não, diarim, eu isplico. TPM
é toda porquêra do meis.
Tem mais é qui butá pra fora, né não?
Qui mundão de Deus mais chei de noves-dentro!

(2)
Cafundós-do-Judas, 31/03/24 
Meu diarim quirido, tô igual a lagatixa derna onte,
pois num eh qui o danado do Curismo, aquele safado
de cabelo lôro, anda cubano eu quando tô de cóca?
Ele pensa qui eu num tô vendo cum o canto dos ói?
Imagine se Virgulino pega ele cum aquele zói de
fogo pra cima deu? Inté parece qui o danado tá
querendo isprimentar as quintura do meu
xibiuzinho... Num sabe ele qui eu sô muié de um
hômi só?, e esse hômi se chama Capitão Virgulino,
sim sinhô. Vixe Maria, meu Padim Ciço, se Virgulino
discunfia, ele perde a macheza dele num piscá de ôio,
o qui é uma pena, inté qui o danado é bunitim qui só.
Fico inté arripiada só de pensá na safadeza qui nóis
ia fazer junto, arre égua!

(3)

Lá-pra-bandas-de-Acari, 12/06/24

Quando a gente pernambucava sem êra nem bêra,
o Capitão arresolveu me mandá passá uns dias
com umas tias arengueras em Olinda,
ao lado de um marzão mais besta
do que a besta-fera. Apois num é que, veja sim sinhô,
vi o danado do carnavá, era um tar de frevê pra cá,
de frevê pracolá, vixe Maria. E ainda me ofereceram
um cigarrim de paia diferente, com um xêro istranho,
fiquei rindo atoa, alegre pra xuxu, vôtes!, inté apareceu
um engraçadim com um miolo-de-quartinha isquisito,
sapequei cinco dedo nas fuça dele, deve tá rodopiando
qui nem pião inté agora. O Capitão pode ficá sartisfeito
com a bichinha dele, num vacilei, viu Diarim?,
queimei nas apragatas
e tô aqui isperando pelo meu hômi.
E tumbém, se Deus quizé e o Diabo ajudá,
posso isperá por um certo danadim lôro,
mais aí o Capitão num pode sabê
nem que a vaca tussa mil vêis.
Vixe, num sei cuma vai acabá essa istória.
Derna qui me intendo de gente, nunca tive tão
lutrida de quereres.

sábado, 20 de dezembro de 2008


Clique na imagem
para verouvir
uma seqüência do filme
Danação
(Bela Tarr, 1988),
uma das obras-primas do
cinema húngaro


BALAIO PORRETA 1986
n° 2512
Natal, 20 de dezembro de 2008

Em 1956, em Caicó, comecei a registrar os filmes que vejo. A partir de 1960, já em Natal, iniciando um novo ciclo pessoal, comecei a apontar as melhores realizações vistas a cada 12 meses. Aliás, 1960 foi um grande ano para mim: A marca da maldade (Welles), A grande ilusão (Renoir), As férias do Sr. Hulot (Tati), Vertigo (Hitchcock), Em busca do ouro (Chaplin), Sorrisos de uma noite de amor (Bergman), Mon oncle (Tati), Um rosto na noite (Visconti), Tempos modernos (Chaplin), Matar ou morrer (Zinnemann). E muitos outros. Quase sempre no Rio Grande. No Rex. No Nordeste. Ou no São Luiz.


CINEMA 2008
Os melhores filmes vistos

Nos cinemas & centros culturais:

1. Danação *** (Tarr, 1988)
2. A cidade de Sylvia *** (Guerin, 2007)
3. Tropical malady *** (Weerasethakul, 2004)
4. Moolaadé *** (Sembene, 2004)
5. A viagem do balão vermelho *** (Hou, 2007)
6. Guerra sem cortes *** (De Palma, 2007)
7. Três momentos *** (Hou, 2005)
8. Katyn *** (Wajda, 2007)
9, Les amours d'Astrée et de Céladon ** (Rohmer, 2006)
10. Serra da Desordem ** (André Tonacci, 2007)
11. Tilai ** (Ouedrago, 1990)
12. O vento ** (Sisé, 1982)
13. Vermelho sangue ** (Ripstein, 1996)
14. Sangue negro ** (Anderson, 2007)
15. A banda * (Kolirin, 2008)
16. Onde os fracos não têm vez * (Cohen, 2007)
17. Quatro noites com Anna * (Skolimowski, 2008)
18. Noite e dia * (Seng-soo, 2008)
19. Estômago * (Marcos Jorge, 2007)
20. Antes que o diabo saiba que você está morto *
(Lumet, 2007)


Em casa:

1. Jeanne Dielman ... *** (Akerman, 1975)
2. Mãe e filho *** (Sokurov, 1997)
3. Lições de história *** (Straub & Huillet, 1972)
4. Vinyl *** (Wahrol, 1965)
5. Dans le noir du temps *** (Godard, 2002), curta
6. Walden ** (Mekas, 1969)
7. Sarabanda ** (Bergman, 2003)
8. Velvet Underground & Nico ** (Warhol, 1967)

Cotações:
*** Excelente
** Ótimo
* Especialmente bom

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008


O açude Itans, em Caicó,
na plenitude do inverno de 2008

Foto de
Thaís Moreira


BALAIO PORRETA 1986
n° 2511
Rio, 19 de dezembro de 2008


Ah, o Itans. Sofro, como todo caicoense, quando vejo que a sua lâmina d'água está abaixo do normal. E transbordo de alegria quando suas águas transbordam. Itans são águas que beijam e embalam o sertão, Itans são as primeiras águas que vi na vida, Itans é uma referência de emoção, Itans é uma ternura líquida e certa.
(Nei Leandro de CASTRO. Saudação a Caicó, 12/12/08)


A POESIA POPULAR DO RIO GRANDE DO NORTE
[ in Glosa glosarum, org. Celso da Silveira]

De ANTÔNIO DE OLIVEIRA SOUTO (Açu, 1937-)

Mote:
Quero carne de priquito
Não me fale em feijoada!


Glosa:
Não sou de criar conflito
por isso sem mais favor
na festa do servidor
quero carne de priquito.
Sem ter esse requisito
que é a carne mijada
só vou lá fazer zoada
e tomar minha Pitu;
aceito carne de cu,
não me fale em feijoada!


De LUÍS XAVIER (Santana do Matos, 1935-)

Mote:
Na próxima geração
Eu prefiro ser mulher


Glosa:
Quero mais depravação,
ser livre de pensamento,
dar figa pra casamento
na próxima geração.
Vou viver de amigação,
ser dono de cabaré,
vou foder como eu quiser,
eis a minha pretensão:
não quero ser fresco, não,
eu prefiro ser mulher.


De EDISON TORRES PÉRES (Angicos, 1931)

Mote:
Eu vi a bunda da Lua
Na passarela do mar
.

Glosa:
A mentira nem flutua
tendo de frente a verdade,
falo com sinceridade,
eu vi a bunda da Lua.
Passeava eu pela rua,
frajola a cantarolar,
quando num lance de olhar,
pasmado vi com surpresa,
a Deusa da Natureza
na passarela do mar.


De MOYSÉS SESYOM (Caicó, 1883 - Açu, 1932)

Mote:
Sua mãe é feme minha


Glosa
Sua raça é safada
desde a quinta geração;
seu avô foi um cabrão,
sua avó, puta de estrada,
sua filha amasiada,
prostituta sua netinha,
uma irmã que você tinha,
essa pariu de um soldado,
seu pai é corno chapado,
sua mãe é feme minha.


Repeteco/Humor via internet
PARA DESESTRESSAR!!!

Sexóloga responde dúvidas sobre sexo (Com respostas adequadas)

1) Tenho 20 anos e não transei ainda porque gostaria que a 1ª vez fosse com um namorado fixo. O que você acha?
R: Minha primeira vez também foi com um namorado fixo. Eu o amarrei na cama.

2) O que fazer para surpreender um namorado tímido na primeira noite?
R: Apareça com um amante.

3) Tenho um amigo que quer fazer sexo comigo... mas ele tem um pênis de 26cm. Acho que vai ser doloroso, o que fazer?
R: Manda pra cá que eu testo pra você.

4) Como faço para seduzir o rapaz que eu amo?
R: Tire a roupa.

5) Terminei com meu ex porque ele é muito galinha e agora estou com outro. Mas ainda gosto do ex e às vezes fico com ele, e com um irmão do dito cujo! Ah, também fico, mas só uma ou duas vezes por semana, com um vizinho da esquina.O que devo fazer?
R: Quem era mesmo galinha nesta história?

6) Como enlouqueço meu parceiro em uma transa no banheiro?
R: Já usou desentupidor de pia?

7) Saí com um gatinho e foi ótimo. Só que agora fico com o maior medo de ligar pra ele. Será que devo?
R: Depende. O gatinho sabe cagar na caixa de areia?

8) Eu tenho 18 anos mas adoro brincar de bonecas com a minha irmã de 2 anos. Tambem entro na net e não canso de ver cenas de sexo. O que eu faço?
R: Passe numa sex shop e compre um boneco inflável de boas proporções.

9) Sou feia, pobre e chata. O que devo fazer para alguém gostar de mim?
R: Ficar bonita, rica e ser legal. Obviamente.

10) O cara com quem estou saindo é muito legal, mas está dando sinais de ser alcoólatra. O que eu faço?
R: Não deixe ele dirigir.

11) Sou virgem e rolou, pela primeira vez, de fazer sexo oral. Terminei engolindo o negócio e quero saber se corro o risco de ficar grávida. Estou desesperada!
R: Claro que corre o risco de ficar grávida. E a criança vai sair pela orelha.

12) A primeira vez dói? Qual a melhor posição para a menina na primeira transa? Tenho 26 anos e ainda não transei porque tenho medo de doer e não agüentar.
R: Dói tanto que você vai ficar em coma e NUNCA mais vai levantar. Vê se deixa de ser fresca, ô Cinderela.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008


O Potengi e o Canto do Mangue,
em Natal

Foto de
Hugo Macedo



BALAIO PORRETA 1986
n° 2510
Natal, 18 de dezembro de 2008


nos olhamos!
é meio carinho andado.
(Carito, in Os Poetas Elétricos)


TRÊS POEMAS de
Lisbeth Lima
[ in Romã. Natal: Sebo Vermelho, 2008 ]

Cantadeira

Se ela canta,
canta lindo, mas eu me espanto.
Porque ela não canta de felicidade!
Quando ela canta,
disfarça com doçura o que sente:
foi com com seu canto que ela aprendeu a acalentar
a alma que chora.

Pastor

De dia, tangia bois.
À noite, insone, tangia estrelas.

The end

Fui ser feliz.


Repeteco
DE COMO SE FAZ UM CLASIFICADO
[ in Balaio Vermelho, 16 maio 2004,
originalmente publicado em jornais do Rio ]

SHEILA
Lindíssima, irresistível, seios
fantásticos, bumbum de ouro,
corpo escultural, nível universitário,
poliglota, educadíssima, supercarinhosa.
Tenho tantas qualidades que nem sei
porque fui virar puta. Fone: 9xxx-xxxx.



Repeteco / Futebol
ACONTECEU EM JARDIM DO SERIDÓ, RN

O fato narrado a seguir teria acontecido no início dos anos 50 na cidade de Jardim do Seridó, interior do Rio Grande Norte, então com 1,5 ou 2 mil habitantes. O seu time de futebol, muito respeitado nas vizinhanças, tinha como goleiro um funcionário dos Correios, o seu Garcia, ligeiramente gorducho, mas muito ágil, segundo testemunhas da época. Num jogo em Jardim contra uma das cidades vizinhas (Caicó? Parelhas? Acari? Ouro Branco? Currais Novos?), o juiz tivera a coragem de marcar um pênalti (aparentemente duvidoso) contra as cores jardinenses. O atacante adversário, conhecido por seu potente chute, preparava-se para bater a penalidade quando Garcia, em jogada bem pensada para mexer com os brios do temido goleador, resolveu ficar de costas para o sujeito. Espanto geral. Apreensão entre os torcedores. Um sol de rachar o quengo. O centro-avante, mostrando-se nervoso, reclamou perante o juiz da partida pela insólita situação provocada por nosso goleiro. Mas o juiz, na dúvida, já que desconhecia qualquer regra que impedisse que o goleiro ficasse de costas para o atacante, mandou bater o pênalti assim mesmo. E Garcia continuava de costas, no centro da meta, movimentando as pernas e os braços. Parecia um arremedo de bailarino, mal saindo do lugar. Suspense geral. Silêncio paralisante. Até as andorinhas abismaram-se no ar, acima do campo. Ao apito do juiz, Garcia virou-se de repente: o tempo necessário para encaixar a bola, chutada sem a menor força pelo atacante, que ficara desnorteado diante da inesperada situação. Pior: chutara no meio do gol. Entre gritos de puro alívio embriagador, a multidão delirava com o arqueiro da nossa pequena cidade. 50 anos depois, a dúvida permanece: terá mesmo ocorrido tão inusitada acontecença? Não sabemos, mas entre a realidade e a ficção, publique-se a ficção. Ou a lenda. Como em John Ford.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008


Caicó (RN),
a terra de Chico Doido,
em foto atual de
F. Soares de Lima


BALAIO PORRETA 1986
n° 2509
Natal, 17 de dezembro de 2008

Para ser louco na Paraíba é preciso ter muito juízo.
(De um conhecido louco paraibano)


FRUGAL
Romério Rômulo

me cabe mostrar
a densa face do meu rosto,
a tênue dança do meu lábio,
o rastro duro de uma ânsia selvagem.


SEM MEDIDA
Padmaya
[ in Cosmunicando ]

desbotado
o tempo se acomoda sobre a pele
vestindo de acasos
a nudez da escolha


VÃO
Mariana
[ in Suave Coisa ]

eu queria guardar teu
sorriso o tom
de tua voz teu
cheiro

mas só cabe ausências
nesses potes cheios
de
solidão


GESTOS
Pavitra
[ in Metamorfraseando ]

os poemas que ficaram
nos meus olhos
ainda ardem

esfrego a poesia

com a palavra
choro


POEMA de
CHICO DOIDO DE CAICÓ

Sou doido por mulher
Sou doido por cachaça
Sou doido pra gastar dinheiro
Sou doido por uma bunda
Sou doido por Caicó
Sou doido pelo mar
Sou doido por violão e lua cheia
Sou doido por uma conversa de bar
Sou doido por arribaçã
E sou doido propriamente dito


Diretamente do Além
A MAIS RECENTE ENTREVISTA
COM CHICO DOIDO DE CAICÓ


[P] Chico Véio, tá sabendo que há uma nova leva de admiradores de sua poesia, através da internet?
[R] Pois num é, seu minino, Chiquim de Assis e Cascudinho me assopraram mentalmente nas minhas oiças. Fiquei mais ancho do que pinto na merda, mesmo sem saber direito o que é essa tal de internete. No meu tempo de vivente bucetólogo num tinha disso não. É uma pena que eu esteja desmaterializado, senão faria questão de conhecer esse povo todo, sobretudo as mocinhas, que, se gostam do meu escrachamantelo verbal, devem ser cheirosas, dengosas e borogodosas.

[P] Mas Chico Véio, diga a verdade, o que você faria com elas, se vivo fosse?
[R] Vixe Maria, num quero nem saber... Bem, seriam convidadas para conhecerem Caicó comigo, viu, seu caba da peste!?! Isto é, se não forem amancebadas... Veja você: nunca embuchei ninguém, nem mesmo a rapariga que eu mais quis bem.

[P] Depois de tanto tempo no seu Plano Astral, o 6969/69, você ainda é capaz de pensar em mulheres?
[R] Em mulheres, em rapaduras, no meu Botafogo, nos butecos da minha terra e no cheiro da terra molhada pelas chuvaraiadas de inverno. Mas, aprenda, seu abestado, aqui não existe tempo, não existe espaço, tudo é energia. Num sei explicar direito. Não mangue de mim não, viu?; o doidelo de santo Agostinho, aquele sabidão das Oropa, França e Bahia é capaz de saber. Ele e Cascudinho, claro. E mais duas ou três mulheres que me visitam aqui-acolá, derna que deixei o mundo de vocês.

[P] Tem gente que até hoje duvida de sua existência. O que tem a dizer sobre isso?
[R] São todos uns abilolados juramentados. Estou ou não estou dando essa entrevista pra você? Quer prova maior da minha pessoa, mesmo que seja imaterialmente? Afinal, já não estou mais no meio das mulheres que tanto amei e respeitei. Mas devo reconhecer: são relembranças cada vez mais neblinosas.

[P] Gostaria de acrescentar algo?
[R] O sexo dos anjos não tem a menor graça...

Glossário:
* Ancho : Contente.
* Escrachamantelo : Vocábulo criado pelo próprio CDC (escrachado/escrachamento + desmantelo).
* Borogodosa : Encantadora.
* Amancebada : Casada ; Amigada.
* Embuchar : Engravidar.
* Mangá : Zombar.
* Derna : Desde que.
Em tempo:
Chiquim de Assis e Cascudinho são
Francisco de Assis, o santo católico, e Luís da Câmara Cascudo,
o escritor potiguar.


terça-feira, 16 de dezembro de 2008


O Seridoísmo
de
Jardim do Seridó,
poema/processo
de
Moacy Cirne
a partir de foto de
DSG Araújo


BALAIO PORRETA 1986
n° 2508
Natal, 16 de dezembro de 2008


A meu ver, a lenda é mais verdadeira do que a história.
(ALAIN. Les arts et les dieux, 1936)


Cinema / Memória
OS MELHORES FILMES
segundo Ingmar Bergman
[ in Variety, 1995 ]

1. Anos de chumbo (von Trotta)
2. O maestro (Wajda)
3. Andrei Rublev (Tarkóvski)
4. Kvarteret korpen (Widerberg)
5. Na estrada da vida (Fellini)
6. Rashomon (Kurosawa)
7. Crepúsculo dos deuses (Wilder)
8. Cais das sombras (Carné)
9. A paixão de Joana d'Arc (Dreyer)
10. O circo (Chaplin)


HUMOR PERNAMBUCANO ANOS 80
CRONISTA PAPAFIGAL LANÇA LIVRO DE VIAGENS


De Joca Aberto, em seu Itinerário de um viadante:
[] Na Inglaterra tem um relógio enorme chamado Big Ben. Ninguém sabe porque o nome, mas este repórter pesquisou e descobriu a razão. Big quer dizer grande em língua britânica e Ben é a badalada que ele faz, Ben, Ben, Ben. Daí Big Ben querer dizer grande badalada. Aliás, falando nisto, aconselho todo mundo a aprender mais de um idioma. Eu, por exemplo, já posso me considerar um pederasta, pois falo fluentemente três línguas.
[] Na Índia tive uma grande decepção, pois não vi nenhum índio lá. O país é cheio de uma gentinha parecida com a que vive no Nordeste, embora bem mais amundiçada. Um lixo!
[] Na França foi que vi quanto estamos por fora. No Brasil proliferam os cursos de inglês e em Paris, capital da moda, só vi gente falando francês. Ao que parece, francês é a última moda na França. E falando em moda propriamente dita, eu procurei a valer calças Pierre Encardido e descobri, com meu faro de repórter, que as tais calças só se fabricam na Paraíba, e na França não servem nem para tomar banho em lama medicinal.
[] Portugal é um país interessantíssimo. Não sei que idioma eles falam lá, mas dá pra gente entender tudo.

[ in Papa-Figo, núm, 26. Recífilis, 20 a 26 de março de 1985 ]


FRAGMENTOS DE UM DICIONÁRIO DE BOLSO
de Leon Eliachar

[] Biquini : é um pedaço de pano cercado de mulher por todos os lados.
[] Desastre : encontro pontual de dois veículos.
[] Imbecil : sujeito que nunca concorda conosco ou então concorda sempre.
[] Namoro : passatempo a quatro mãos.
[] Sexo : coisa que antes de Freud era indecência; depois, psicanálise.
[] Segredo : isso que vai rolando de ouvido em ouvido e volta sempre com mais detalhes.
[] Stripe-tease : uma mulher vestida de olhos.
[] Técnico : sujeito que se se especializa em não entender nada de apenas uma matéria.

( Fonte: O homem ao quadrado. Rio, 1960 )


POEMA DE BERILO WANDERLEY (RN)

A máscara

A máscara que uso, uso
por causa do meu vizinho,
que me viu nu;
que me viu arder na tarde
brava,
caos e ordem, rei azul.

Esta máscara em desuso
que hoje uso,
me fere o rosto.
Meu vizinho quis assim.
Mas, ontem, vi o rio e a ilha
e fui rei posto.

Juventude, eixo e todo
do meu corpo
que meu vizinho cortou.
Passa o alento, passa lento o vento,
já não sou.

[ in Telhado do sonho. Natal, 1956 ]


Repeteco
AUTOBIOGRAFIA COM FARINHA E RAPADURA
Moacy Cirne

Segundo o horóscopo chinês, sou caba da peste, parente de Lampião e Maria Bonita: nasci em São José da Jardinense Bonita, ao lado de Caicó, Campina Grande, Olinda, Currais Novos, Galinhos e Martins, antes do descobrimento da Terra de Santa Cruz, pelo poeta Bocage, companheiro de Manuel Bandeira nos cabarés da velha Ribeira, em Natal, capital potengíaca. Compadre de vários gentios tapuias, lutei contra os bandeirantes do Sul Maravilha que nos invadiram em 1600 e lá vai fumaça. Mergulhei no Poço de Santana [em Caicó] e fui sair no Rio Amazonas, entre uma talagada e outra de Malhada Vermelha, a cachaça preferida de Celso Japiassu, Nei Leandro e Luís da Câmara Cascudo. Conheci Marte, Júpiter e São Saruê nos anos 10 do século passado. Escrevi Os lusíadas, falsamente atribuído a um tal de Luiz Vaz de Camões, em apenas 10 dias e 10 noites. Depois, tornei-me pescador de auroras azuis e palavras seridolentes. Hoje, pai de duas filhas e casado com uma natalense, não sou amigo do rei, mas sou amigo de muita gente boa.

[ in Balaio Vermelho, 17 de julho de 2004 ]