domingo, 28 de fevereiro de 2010

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Glória Feita de Sangue
(Stanley Kubrick, 1957)
Baseado em fato real ocorrido entre tropas francesas na primeira Guerra Mundial, trata-se de um dos mais inquestionáveis filmes antibélicos já produzidos, com um Kirk Douglas admirável e a direção - já bastante expressiva - do genial Stanley Kubrick: porrada pura. Em última instância, um soco no estômago do espectador. A crítica ao militarismo, aqui, é forte e desnorteante. Uma crítica anônima de 2003, publicada no Estadão, assinalava com propriedade: "O filme de Kubrick é ambientado na 1.ª Guerra Mundial quando um oficial, interpretado por Kirk Douglas, assume a defesa dos soldados que são injustamente acusados de covardia. Na verdade, eles serão condenados à morte para encobrir os erros do próprio alto comando. O filme é poderoso justamente por mostrar a barbárie de um conflito, cujas dimensões não são apenas vistas no campo de batalha, mas também (e principalmente) nas salas de reunião em que o destino dos homens é traçado sumariamente".


BALAIO PORRETA 1986
n° 2946
Natal, 28 de fevereiro de 2010



JACUMÃ
Chico Noronha
[ in Jornal de Poesia ]

antes que o orvalho lave o teu rosto
colherei
flores do campo
e com elas prenderei
a rebeldia
de teus cabelos


PILEQUE
Líria Porto
[ in Tanto Mar ]

fiquei bêbada de ti
do vinho da vida
e as pernas
bandidas
nem pareciam minhas


FUMAÇA
Dade Amorim
[ in Inscrições ]

quando o medo abre a janela
e se esconde em meu armário
pego a bolsa
fecho a porta
saio para fazer as unhas

sozinho em casa
o medo vira fumaça


LIMITE
José Bezerra Gomes
[ in Antologia poética, 1977 ]

Marido e mulher


Cinema
OS FILMES FUNDAMENTAIS DOS ANOS 50
Continuação
2a


Sunset Boulevard / Crepúsculo dos deuses (Wilder, 1950)
Rashomon (Kurosawa, 1950)
In a lonely place / No silêncio da noite (Ray, 1950)
Los olvidados (Buñuel, 1950)
Othello (Welles, 1952)
Cantando na chuva (Donen & Kelly, 1952)
Viver (Kurosawa, 1952)
High noon / Matar ou morrer (Zinnemann, 1952)
The quiet man / Depois do vendaval (Ford, 1952)
Umberto D (De Sica, 1952)
The bandwagon / A roda da fortuna (Minnelli, 1953)
Era uma vez em Tóquio (Ozu, 1953)
Noites de circo (Bergman, 1953)
Os boas vidas (Fellini, 1953)
Velhas lendas tchecas (Trnka, 1953), animação
Janela indiscreta (Hitchcock, 1954)
Os sete samurais (Kurosawa, 1954)
Amantes crucificados (Mizoguchi, 1954)
Senso / Sedução da carne (Visconti, 1954)
Romance na Itália (Rossellini, 1954)
O intendente Sansho (Mizoguchi, 1954)
East of Eden / Vidas amargas (Kazan, 1955)
Tudo o que o céu permite (Sirk, 1955)
Nuit et brouillard (Resnais, 1955), curta
Glória feita de sangue (Kubrick, 1957)
Um rosto na noite (Visconti, 1957)
O incrível homem que encolheu (Arnold, 1957)
Cinzas e diamantes (Wajda, 1958)
O salão de música ([S] Ray, 1958)
Vertigo / Um corpo que cai (Hitchcock, 1958)
Meu Tio (Tati, 1958)
Quanto mais quente melhor (Wilder, 1959)

Continua no próximo domingo: Grupo 2b
Os 16 melhores, segundo a nossa leitura,
foram divulgados no domingo passado, dia 21

sábado, 27 de fevereiro de 2010

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Requiem para um lutador
(Ralph Nelson, 1962)
Com um dos finais mais dolorosamente patéticos da história do cinema - o velho boxeador, que já fora um respeitável aspirante ao título de pesos-pesados, humilhado de forma ridícula em seu espaço de atuação profissional, vencido pela máfia do boxe -, Requiem para um lutador é uma dessas obras-primas subestimada pela crítica tradicional. Mas o fato é que se trata de uma das muitas joias preciosas do cinema americano dos anos 60, com excepcional atuação de Anthony Quinn. (Também no elenco, Mickey Rooney e Julie Harris - lembram-se dela em Vidas amargas, o ótimo filme de Elia Kazan?) A destacar, como curiosidade, a participação especial de Cassius Clay no início da sua carreira, exatamente na luta que determina o fim profissional do personagem (Mountain) vivido por Quinn, na primeira sequência do filme.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2945
Natal, 27 de fevereiro de 2010


ALGUNS DOS FILMES ESTRELADOS POR ANTHONY QUINN
( Cotações: de ° [descartável] a *** [excelente] )

Requiem para um lutador *** (Nelson, 1962)
Sangue sobre a neve ** (Ray, 1960)
Consciências mortas ** (Wellman, 1943)
Zorba, o grego ** (Cacoyannis, 1964)
Lawrence da Arábia ** (Lean, 1962)
Duelo de titãs * (Sturges, 1959)
Viva Zapata * (Kazan, 1952)
La strada * (Fellini, 1954)
Sede de viver * (Minnelli, 1956)
A visita da velha senhora * (Wicki, 1964)
O segredo de Santa Vitória * (Kramer, 1969)
As sandálias do pescador * (Anderson, 1968)
Os canhões de Navarone °/* (Thompson, 1961)
O corcunda de Notre Dame °/* (Dellanoy, 1956)


GUARDADOS
Marcelo Novaes
[ in O Lugar que Importa ]

Diga onde eu guardei
meus olhos, que eu te
digo o resto.

Aponto pra aquela
Árvore.

[O Local da Cessação do
Sofrimento].

Diga onde eu guardei
meus olhos, que te prometo:
nunca mais sonho.

[Aponto para um local
distinto, onde não
encontrás
assento].

Diga-me onde eu guardei
meus olhos, que eu te guardo
enquanto me
ofereço.


BOLERO DE RAVEL
Sônia Brandão
[ in Pássaro Impossível ]

O dia desliza
no tapete do tempo.

Uma vassoura varre
o pó dos homens

que arrastam na noite
as suas cicatrizes.

Um bêbado conversa
com as pedras da calçada.

Na gaiola um papagaio
dança o Bolero de Ravel.


POEMA BRUT
Luiz Roberto Guedes
[ in Poemínimos, 1981,
cf. Papel de Rascunho ]

Lucidez, cale a boca,
feche o livro, apague
a luz e vá dormir.

Antes, me dê a chave:
hoje volto muito tarde.

GRAVIDEZ DE RISCO
Carito
[ in Os Poetas Elétricos ]

se de poesia eu engravido
não sou mágico
não duvido:
sou trágico!

é certo:
a poesia é um parto
ou estou perto
ou estou farto.

minha gravidez
é de risco
e rabisco
mais de uma vez.

a poesia em gestação
até que tenta
e nem sempre
aguenta.

às vezes nasce, cresce, corre
dura
às vezes morre
prematura.

nessa aventura imaginária
não quero mais parto natural
agora eu quero uma cesária
évora!


GRANDES FIGURAS NATALENSES
( 1/6 )

Sem ordem preferencial

Djalma Maranhão
(1915-1971. Político, nasceu em Natal)
Ferreira Itajubá
(1875-1912. Poeta, nasceu em Natal)
José Bezerra Gomes
(1911-1982. Poeta, nasceu em Currais Novos)
Esmeraldo Siqueira
(1908-1987. Professor, nasceu em Pedro Velho)
Maria Boa
(1920-1997. Prostituta, nasceu em Campina Grande, PB)
Luís da Câmara Cascudo
(1898-1986. Folclorista, nasceu em Natal)

Memória 1978
OS DEZ CONTOS MAIS IMPORTANTES
DA LITERATURA MUNDIAL
segundo
Tarcísio Gurgel
(Natal/Mossoró, RN)
[ in Revista Vozes, setembro de 1978 ]

Missa do Galo (Machado de Assis)
Auto-estrada do sul (Cortázar)
Os funerais da Mamãe Grande (Márquez)
Episódio do inimigo (Borges)
A terceira margem do rio (Guimarães Rosa)
Kaschtanka (Tchecov)
Escaramuça contra Sartoris (Faulkner)
O piano (Aníbal Machado)
Torotumbo (Astúrias)
A morte de D.J. em Paris (Roberto Drummond)

Memória 1980
OS MAIS IMPORTANTES FILMES BRASILEIROS
segundo Sérgio Augusto, jornalista cultural
[ in Revista Vozes, agosto 1980 ]

Fragmentos da vida (José Medina)
Ganga bruta (Humberto Mauro)
Nem Sansão, nem Dalila (Carlos Manga)
Rio, 40 graus (Nelson Pereira dos Santos)
O grande momento (Roberto Santos)
Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos)
Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha)
São Paulo S/A (Luís Sérgio Person)
A falecida (Leon Hirszman)
Terra em transe (Glauber Rocha)
O bandido da luz vermelha (Rogério Sganzerla)
Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade)



Cordel
ALGUNS TÍTULOS MARAVILHOSOS

A beata que mordeu a outra com ciúmes do vigário
(Cuíca de Santo Amaro, 1944)
Como Antonio Silvino fez o diabo chocar
(João Martins de Athayde, 1947)
Os sofrimentos da criada da princesa seduzida
(Moisés Matias de Moura, 1935)
História da moça que virou cavalo
(Rodolfo Coelho Cavalcante, s/d)
História do burro que matou seu próprio dono de faca - e o homem que matou a vaca e a vaca matou o homem com a mesma faca
(Moisés Matias de Moura, s/d)
História em versos de um jegue que matou um homem, a porca comeu a criança e a mulher morreu de choque, no município de Santana de Ipanema, Estado de Alagoas
(José Honório Oliveira, s/d)
A menina que morreu em Caicó e depois de 20 horas enviveceu - falou contra o comunismo e o protestantismo
(José Gomes da Silva, s/d)
A moça que mordeu o travesseiro pensando que fosse
Vicente Celestino

(Cuíca de Santo Amaro, s/d)
A moça que dançou com o diabo cantando Cintura Fina
(Manoel Camilo dos Santos, 1951)
A grande batalha do reino da bicharia
(José Bernardo da Silva, 1957)

||||||||||||||||||||

A única diferença entre um santo e um pecador é que o primeiro tem um passado, enquanto o segundo tem um futuro. (Oscar WILDE)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

40° à sombra
nas proximidades de Caicó
Foto:
Henrique Faria


BALAIO PORRETA 1986
n° 2944
Natal, 26 de fevereiro de 2010


CAICÓ QUE TE QUERO SERIDÓ,
SERIDÓ QUE TE QUERO CAICÓ
Moacy Cirne

Em Caicó,
cruvianas, mulungus e auroras,
admirei
crepúsculos barrocos

e mulheres imprevisíveis.

Em Caicó,
relâmpagos, pinhas e cajaranas,
aprendi a amar
o Fluminense de todos os Castilhos
e de todos os Telês, Silvinos e Walfredos
.

Em Caicó,
espantos, baunilhas e madrugadas,
mergulhei
na magia
do Itans, do Poço de Santana
e do azul mais azul de Samanaú.


Em Caicó,
seridós, acauãs e barras novas,
perguntei-me
por seus mitos
tapuias
e por suas mangas manhosas.

Em Caicó,
luzes, filmes e sombras,
apaixonei-me por
Esther Williams, Maria Félix e Ava Gardner.

Em Caicó,
pedras, raios e serrotes,
tornei-me
Currais Novos, Jucurutu e
São José, Acari e Jardim do Seridó.

E muito mais.
Em Caicó.


CES'T LA VI-NIA
Nina Rizzi
[ in Ellenismos ]

- ô, mamaí, que engraçado:
toda hola você fica de noite.


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 59 / 66 )

A letra escarlate (Hawthorne, 1850)
Herzog (Bellow, 1964)
Tigre! Tigre! (Bester, 1956)
Mais que humano (Sturgeon, 1953)
O suicídio (Durkheim, 1897)
Vinho & guerra (Kladstrup, 2001)
Cartas a Theo (Van Gogh, 1880)
O significado nas artes visuais (Panofsky, 1957)
Prazer e poder do Amigo da Onça (Marcos Silva, 1989)
A biblioteca e seus habitantes (A. Oliveira Costa, ed. 1982)


BREVE (AUTO)ENTREVISTA,
SEM MAIORES PRETENSÕES
CRÍTICAS E/OU POLÍTICAS

[] José Agripino Maia ou o Diabo?
* O Diabo, naturalmente.

[] O carnaval da Bahia ou o de Caicó?
* O de Caicó, claro.

[] O Itans ou o Gargalheiras?
* Os dois, os dois.

[] O Bar de Ferreirinha ou os bares da ZS, no Rio?
* O Bar de Ferreirinha, sem dúvida.

[] O sonho ou a realidade?
* Os três. Ou, talvez, os cinco.

[] Micarla de Sousa ou Bibica?
* Biblica, Bibica e Bibica.

[] PV ou Demo-PSDB?
* Ué, não é tudo a mesma bosta?

[] Xópim Midivaimal ou Natal Xópim?
* Nenhum dos dois.

[] Paulo Coelho ou Jô Soares?
* Pensei que essa fosse uma (auto)entrevista séria...
(Com os devidos créditos a Orson Welles.)

[] Telenovela ou Big Bosta Brazil?
* Não perco tempo com bobagens.

[] Carnatal ou o Beco da Lama?
* O Beco da Lama, o Grande Ponto, a Redinha, o Alecrim...

[] Bundaxé music ou o Inferno?
* Mil vezes o Inferno
.
[] Cinema americano ou cinema europeu?
* Welles e Antonioni, Kubrick e Godard, Keaton e Renoir,

Cassavetes e Rossellini, Huston e Straub, Ray e Rohmer,
Lang e Visconti, Fuller e Leone, Rocha e Resnais.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Jovem libanesa
Foto de
Barbara Taurua


QUERO UM HOMEM
Cláudia Marczak
[ in Poesia Erótica ]

Quero um homem
que toque minha alma,
que entre pelos meus olhos
e invada meus sonhos.
Quero que me possua inteira,
corpo e alma,
fazendo dos meus desejos
breves segundos de êxtase
o prazer do encontro total.
Quero sentir seus braços longos
envolvendo meu abraço,
seus lábios mudos
calando o meu silêncio
sem precisar nada dizer...
apenas me olhando
com olhos negros e úmidos
e me tomando devagar,
como o mar avança na praia,
como eu sei que tem que ser
e sei que um dia será.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2943
Natal, 25 de fevereiro de 2010


ORQUÍDEAS NO JARDIM
Sheyla Azevedo
[ in Bicho Esquisito ]

- E se tivéssemos nos conhecido há 10 anos?

- Não podemos prever o que é impossível, Clara. Nos conhecemos agora, é o que temos.

- Mas é como se eu me lembrasse de você há muito tempo. Tenho a impressão de que essas coisas todas, essa música, o seu toque, sua voz, você, tudo é tão familiar. Tanta coisa abstrata e tão pouco de concreto.

- Clarinha, você parece uma menina. Você é uma menina.

[ Clique aqui para ler o conto na íntegra ]


TÉDIO
de Linaldo Guedes (PB)
[in
Intervalo lírico,
reproduzido em Zumbido escutando blues ]

na lua
criou-se
uma teia
de aranha
a culpa foi sua
que não quis esperar pelo amanhecer


SEPULTEI A BORBOLETA
de Maria Maria (RN)
[ in Espartilho de Eme ]

Sepultei a borboleta!
Meu corpo jaz em silêncio
por sete dias.

As asas em morte,
na pedra opaca do teu
tórax,
fazem rfefrão
da melodia.

Sem crisálida,
sem metamorfose,
sou um facho de luz
em agonia.


POEMA GRATUITO
Betina Moraes
[ in Versos & Ideias ]

faça oferta.

faça oferta de qualquer coisa que semeie
Grão

Broto

Semente

Ideia

Beijo

Carícia

Elogio

Entusiasmo

faça oferta, não venda, não esmola.


faça oferta.


DO DESTINO DAS CONCHAS
Nydia Bonetti
[ in Longitudes ]

a concha
que não quis ser tocada

seguiu
o destino das conchas

(que não são tocadas)

secou
sem conhecer a pérola


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 58 / 66 )

A menina sem estrelas - Memórias (Nelson Rodrigues, 1967)
Ideologia da cultura brasileira (Carlos Fuilherme Mota, 1977)
Ninguém escreve ao coronel (Márquez, 1961)
Memória de minhas putas tristes (Márquez, 2004)
Tia Júlia e o escrivinhador (Llosa, 1977)
Elogio da madrasta (Llosa, 1988)
O sobrevivente (Sérgio Sant'Anna, 1969)
As noites marcianas (Fausto Cunha, 1960)
Nascimentos: Memória do fogo, 1 (Galeano, 1986)
Figuras e tradições do Nordeste (Raimundo Nonato, 1958)


UM LIVRO É UM LIVRO É UM LIVRO

Figuras e tradições do Nordeste, de Raimundo Nonato. Rio de Janeiro: irmãos Pongetti, 1958, 170p.

Em capítulos quase sempre deliciosos, o mossoroense Raimundo Nonato refaz em tom memorialístico, qual jornalista do sertão, um mosaico de histórias, reais ou não, que moldam o homem do interior nordestino. Jagunços, professores, crônicas literárias, homens que falavam com espíritos, personagens da arte dramática em Mossoró – vasto é o painel das histórias contidas no livro. Algumas delas são hilárias, como a do cearense dono de caminhão que, “matuto habituado àquelas tramoias das estradas”, desconfiado que só a mulesta e cuidadoso extremado com o seu dinheiro, ao se hospedar em pensões pouco recomendáveis, costumava guardá-lo na própria roupa do corpo, ao dormir, envolvendo-se em lençois e mais lençois. Deu-se que, em certa ocasião, encontrando-se na cidade de Russas, devidamente hospedado, aconteceu o pior com o nosso amigo estradeiro:

“Madrugada alta, a pensão estava em polvorosa.

O barulho acordara todo o mundo.

O homem do dinheiro, apesar de toda a sua precaução, fora roubado, durante o sono. O ratoneiro bancou o sujeito educado. Deixou ao pobre diabo um cartão de visita, cujos termos valem uma peça:

- Não o levo, também, porque não gosto de macho...”.

(p.31-32)


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A cidade
(1919)
Fernand Léger


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 57 / 66 )

Funções da pintura (Léger, 1965)
Manifestos do surrealismo (Breton, 1924-53)
História social da literatura e da arte
(Hauser, 1951)
Conceitos fundamentais na história da arte (Wölfflin, 1915)
A arte moderna (Argan, 1970)
O século de Picasso (Cabanne, 1982)
Sociologia da arte (Francastel, 1970)
Do espiritual na arte (Kandinsky, 1912)
História da música (Vários autores, 1986)
A música no Renascimento (Reese, 1952)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2942
Natal, 24 de fevereiro de 2010


BEIJO
Virgínia Schall
[ in Poesia Erótica ]

sua boca
uva rubra
roça meus lábios
e por segundos
somos murmúrios úmidos
seiva cósmica
de línguas
púrpuras


OLHO D'ÁGUA
Líria Porto
[ in Tanto Mar ]

hora dessas
abro o açude
e inundo o mundo
de lágrima


SEM TI
Eliana Mora
[ in Germina Literatura ]

Sou chama
Aquela
que não precisou da fricção de dois gravetos
para arder


POEMAS de
Zemaria Pinto
[ in Fragmentos de silêncio. Manaus, 1995 ]

garçom, traga-me uma navalha
e um chope espumando nuvens

[][][]

o pouso silente
da borboleta de seda
celebra a manhã

[][][]

paixão

a nona sinfonia explode
tua lâmina me rompe o ventre
e faz jorrar o sangue da minha carne
plantando-me tua semente

a paixão violenta - o grito
a lágrima sufocada - ah, a alegria
língua que lambe o mundo

o beijo a dentada
contigo, eu pelo espaço:
Beethoven & boleros

sou uma égua de fogo

POEMA
de

Miguel Cirilo
(São José do Seridó)
[ in Os elementos do caos, 1964)

- faltam dois galos vermelhos
para a morte nos unir:
amor que dorme, desperta,
não é hora de dormir.

me dá arsênico e rosa:
quero morrer sem sentir.
amor, já se acende a aurora:
ajuda-me a não fugir.

- abraça-me com o desgosto
da vida que não te dei.
- pelo muito que me deste:
não foi só a ti que amei.

entregaste-me uma sombra,
talvez com medo de mim.
- amor, a morte me assombra...
- só posso te amar assim...


QUEM ERA TERRORISTA
NO BRASIL DOS ANOS 60-70?
Emir Sader
[ Clique aqui para ler o artigo na íntegra ]

Quem era terrorista? José Agripino ou Dilma? Os militares que destruíram a democracia ou os que a defendiam? Quem usava a picanha elétrica, o pau-de-arara, contra pessoas amarradas, ou quem lutava, na clandestinidade, contra as forças repressivas? Quem era terrorista: Iara Iavelberg ou Sergio Fleury? Quem estava do lado da Iara ou quem estava do lado do Fleury? Dilma ou Agripino? Quem estava na resistência democrática ou quem, por ação ou por omissão, estava do lado da ditadura do terror?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Baía Azul, em Benguela - Angola
Foto:
Matthias Offodile
(Dica visual: Angola - Os Poetas)

Benguela, ao sul de Luanda, capital da província do mesmo nome, também é conhecida como a Cidade das Acácias Rubras. Sua população atual ultrapassa os 500 mil habitantes.

PRESENÇA AFRICANA
/ fragmento /
Alda Lara
[ in Angola - Os Poetas ]

e apesar de tudo
assim sou a mesma!
livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou
mãe-África!

(...)

a do sol bom,
mordendo
o chão das ingombotas...

a das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas
longas e floridas...
sim, ainda sou a mesma

a do amor transbordando

pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11... Rua 11)

pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos

(...)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2941
Natal, 23 de fevereiro de 2010


OBSIDIANA
Renata Pagliarussi
[ in Fênix em Verso e Prosa ]

Não é perturbador que minha primeira palavra,
agora que acordo, seja a dos teus olhos?


POEMA
de
Chico Doido de Caicó

Rio de Janeiro! Rio de Janeiro!
Só de pensar no meu Botafogo
Me dá uma vontade danada
De fazer poesia.
Rio de Janeiro! Rio de Janeiro!
Só de pensar em suas mulheres
Me dá uma vontade danada
De ficar com a língua dura.


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
(56 / 66)

Rumo à Estação Finlândia (Wilson, 1940)
O Castelo de Axel (Wilson, 1931)
Fenomenolgia do Espírito (Hegel, 1806)
Curso de estética: o belo na arte (Hegel, ed. bras. 1996)
O tempo das catedrais (Duby, 1967)
A sociedade feudal (Bloch, 1940)
Dialética do esclarecimento (Adorno & Horkheimer, 1947)
Teoria estética (Adorno, 1968)
Ensaios sobre ceticismo (Russell, 1963)
Tudo que é sólido desmancha no ar (Berman, 1982)


De MARCONI LEAL
[ in 10 conceitos-chave do conservador moderno ]

Todos os problemas do universo, a começar pelas supernovas e a extinção do sol daqui a bilhões de anos, são culpa da esquerda, a quem se devem também alguns desastres naturais como o furacão Katrina.

Os problemas do Brasil começaram quando, em vez de ensinar os índios a serem escravizados e torturados de acordo com as leis do mercado, Pedro Álvares Cabral, notório esquerdista, preferiu distribuir Bolsas Pau-Brasil entre eles, acabando com a vontade de trabalhar dos selvagens e transformando-os em alcoólatras, vagabundos e hippies.

A UMA AFRICANA
Eduardo Neves
(Angola, séc. XIX)

nos teus olhos pestanudos
eu vejo um mar de desejos,
nos lábios, talvez carnudos,
um labyrinto de beijos.

[ Clique aqui para ler o poema na íntegra ]


METAMORFOSE DAS LINGUAGENS

Será hoje, dia 23, na Siciliano do xópim Midivaimal, a partir das 19h, o lançamento do livro Metamorfose das linguagens, organizado por Marcos Silva, Júlio Pimentel Pinto e Maurício Cardoso. Lendo-o, sem maiores pretensões, anotamos:

"As Vinhas da Ira, de John Ford, transformou-se num dos grandes clássicos do cinema universal, na transposição para a tela o romance sofre inúmeras adaptações. A mais importante delas está no final, mais esperançoso na tela do que no papel". (Gilberto Maringoni, p.24)

"Não há novidade alguma em dizer que desde muito cedo o cinema denominado comercial e/ou industrial estabeleceu uma intensa ligação com a literatura". (Ana Paula Andrade, p.45)

"Glauber Rocha reflete em seus filmes o mito sertanejo, mas o faz como uma crítica à razão, ao racionalismo do colonizador europeu, com o objetivo de descolonizar a cultura dependente". (Irma Vianna, p.67)
"Que está em jogo [no] final de Blow-up, que também é fim de jogo?
Um grande cineasta, como Antonioni, constrói múltiplos significados em seus filmes. Ao invés de uma resposta, portanto, existe a riqueza de múltiplas perguntas". (Marcos Silva, p.96)


DIGESTÃO DA ESTRELA
Marcelo Novaes
[ in Prosas Poéticas ]

Estrelas caem, de qualquer maneira. Estando ou não alguém a vê-las. E as Luas Tripartidas sempre conviveram com elas: no Alto ou falidas. Luz Noturna como luxo não deveria ser vista: só migalha de espaço que se queda, etérea [no rastro de sombra espessa], e entra pela chaminé ou pela janela. E descansa na borda da mesa. Senta-se enfim, em cada casa nossa, em luz rarefeita. [Pedaço de Céu, Desfiada Estrela]. Senta-se na borda [da mesa] para ser comida. Come-se com os olhos a Migalha de Céu recolhida. Come-se com os ossos. Nutre-se, quando se sabe [e se soube] recolher o Presente Tripartido. [Tripartido Presente de Lua Tríplice: mutante & altiva]. Quando não se tem [ou não se junta], com a falta se contenta. Contenta-se. Porque ausência sustenta, também, buraco da fome. Buraco-da-fome [Celeste] também é Prece. Engole, mais tarde, Amor-ou-Fé-em-fragmento. Maná. Dádiva do Céu. Faz sentido? Nem Uno, nem Trino. Conceitos sagrados secretamente digeridos, rasgados [comidos] de cima abaixo. Discursos no sangue revolvidos. Gastos e digeridos [em suco gástrico] todas as Preces e Ritos. Cem Mil. Dez Mil. Duzentos. Cada qual comendo só o que lhe é possível, sem engasgo ou demasiado medo. Só isso. E isso, por si mesmo, constitui o primeiro passo para se fazer as pazes com o resto. E pagar o custo de ter olhado pro céu, sem susto, uma vez ao menos.


ROSA DE ALFENIM
Hercília Fernandes
[ in HF Diante do Espelho ]

voltou anjo, querubim
adoçou-me com flocos de
neve e aluá de gergelim
deixou-me apática, inerte
feito rosa de alfenim.


MINICONTO
Jeanne Araújo

E ela tomou o vinho... não estava nem tão frio assim, mas decidiu quebrar algumas regras na vida. Cansou de ser boazinha, aliás, ser boazinha era o que ela menos queria naquele momento. Pensou se estava bem vestida o suficiente. Achou que sim. Pensou se valeria a pena. Disse a si mesma que sim. E que parasse de pensar bobagens. Ela era bonita e pronto. Isso bastava.

Olhou-se uma vez mais no espelho e teve a idéia de abrir um dos botões da blusa. Insinuava seus belos seios. Sim, tinha belos seios. Sorriu sentindo o calor do vinho descendo pela garganta. Sim, estava pronta.

Caminhou devagar até a varanda onde a outra estava vestida de preto, os braços abertos... jogou-se neste abraço há tanto esperado e o vermelho-sangue-vinho espalhou-se pela escuridão adentro.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010


Mãe-Terra
Ilustração: Royalty Free


BALAIO PORRETA 1986
n° 2940
Natal, 22 de fevereiro de 2010


INÍCIO E FIM
Lou Vilela
[ in Nudez Poética ]

no fim, lembro-me:
inícios me [co]movem.
aí, tudo faz sentido!


ESCARLATE
Mercedes Lorenzo
[ in Cosmunicando]

Acontece que é verão.
E isso não implica.
Mas amplia.



HORÓSCOPO DA SEMANA


Áries
Na próxima chuva, plante auroras diante da Prefeitura.
Desafie os idiotas da objetividade. Com humor. E amor.
Evite todo e qualquer xópim; frequente os sebos de sua cidade.
Escute Beethoven. Leia gibis antigos. Veja um filme de Leone.


Touro
Prestigie a literatura de seu Estado. E de sua cidade.
Tome uma lapada de boa cachaça a cada novo dia.
De manhã, escute Schubert. À noite, Luiz Gonzaga.
Releia Dostoiévski, Baudelaire e José Bezerra Gomes.


Gêmeos
Colecione poemas devassos. E desejos proibidos.
Livre-se de alguma possível metafísica do afogamento.
Escreva cartas docemente impublicáveis. Seja puro(a).
Pinte seus sonhos de azul, manga, chocolate e Rilke.


Câncer
Em Natal/Pium, não deixe de conhecer a Ecovila Pau Brasil.
No Rio, frequente os butecos da Zona Norte. E a Folha Seca.
Em Recife, ligue-se no centro histórico da cidade.
Em Caicó, que tal uma cerveja no Bar de Ferreirinha?


Leão
Cuidado com a Veja e a FSP: provocam diarreia mental.
Leia Rimbaud. Faça amor. Leia Platão. Faça humor.
Lembre-se de Murilo Mendes: "Tocar é conhecer".
Visite a Natal dos anos 50 e a Porto Alegre dos anos 40.

Virgem
Promova um baita baião-de-cinco numa praia deserta.
Confesse, de novo: gostaria de ser um(a) grande devasso(a).
Programe-se para ver sete filmes pornôs: um por dia.
Conheça Galinhos, se possível. Derrame-se para o amor.

Libra
Comemore a vitória do seu time. Sem avacalhar o Outro.
Adormeça em Paris e amanheça em Caicó. Ou no Rio.
Que tal uma cachaça mineira? Ou um chopp alemão?
Entre Camus e Sartre, não abandone a literatura nacional.


Escorpião
Escute Os Poetas Elétricos, de Natal. E a poesia de Nina Rizzi.
Leia os blogues de Sheyla Azevedo e Mariana Botelho.
Não deixe de conhecer os textos de Jens e Milton Ribeiro.
Viaje pelos poemas de Maria Maria, Líria Porto e Assis Freitas.


Sagitário
Experimente uma garapinhada de chocolate. Ou de morango.
Sonhe com os crepúsculos de Angola. E de Cabo Verde.
Leia Dante. Veja Kubrick. Visite o Seridó. Ouça Bach.
Não se esqueça de Gilda: nunca houve uma mulher como ela.


Capricórnio
Delicie-se com as palavras califon, manga e bangalafumenga.
Aprenda javanês, com Lima Barreto. Leia Santo Agostinho.
Não se esqueça: José Agripino Maia provoca diarreia política.
A poesia é necessária; a nuvem e a música, também.


Aquário
Embriague-se de amor. Com o afrodisíaco dos deuses.
Substitua o carro por bicicleta. Sinta a cruviana do sertão.
Seja bem informado(a): não leia a Veja, nem a Folha.
Embriague-se de surrealismo. Com a pintura de Dali.


Peixes
Viva uma noite de amor sob as bênçãos de São Pixinguinha.
Invente uma máquina do tempo. Viaje para 1981-1989.
Seja uma pessoa inteligente: evite a bundaxé music.
Leia os clássicos: franceses, ingleses, brasileiros.

Serpente
Entre o inferno e a bundaxé music, escolha o inferno.
Lembre-se: o forró reeira não vale um tostão furado.
Seja homem, seja mulher, seja você: com dignidade.
"Ver com olhos livres" (Oswald de Andrade).

Glossário -

Baião-de-cinco : Sexo grupal.
Garapinhada de chocolate :
leite batido com sorvete de chocolate com vinho
e uma barra de chocolate amargo
Garapinhada de morango :
leite batido com sorvete de creme com rum
e pedaços de morango em boa quantidade
Califon : Sutiã
Bangalafumenga
: Zé Ninguém
Cruviana : Frio da madrugada

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Clique na imagem
para verouvir o trêiler de
Um condenado à morte escapou
(Robert Bresson, 1956)
Durante a 2ª guerra mundial, um combatente da resistência francesa é feito prisioneiro pelos alemães e o filme, de forma fria e exasperante, preciso nos mínimos detalhes, inclusive em sua lentidão, dirige o foco narrativo (e desdramatizado) para a sua fuga, ao lado de mais um encarcerado. Mais bressoniano do que nunca, Um condenado à morte escapou, com tema musical centrado em Mozart, é um dos filmes mais brilhantes dos anos 50, com toda a sua simplicidade narrativa: a secura formal a serviço do Cinema e do antiespetáculo. Ou como disse André Bazin: "Uma obra insólita, que não se parece com nada". Ou como disse Luiz Rosemberg Filho: "Uma obra radical, com a objetividade e a susbtância fílmica das linguagens audiovisuais". No lugar do espetáculo das emoções, das sensações impressionistas, o que se tem, em última instância, é o antiespetáculo da escrita. Para nós, e para muita gente, trata-se de uma obra-prima. Das maiores. E até mesmo o trêiler que apresentamos aqui - o melhor que já vimos até hoje, e que nos marcara desde a sua exibição no Rex, em Natal, em 1961 - tem a emblematicidade anticomercial do grande diretor francês.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2939
Natal, 21 de fevereiro de 2010


Cinema
OS FILMES FUNDAMENTAIS DOS ANOS 50

[1]

1. Hiroshima, meu amor (Resnais, 1959)
2. A marca da maldade (Welles, 1958)
3. Diário de um pároco de aldeia (Bresson, 1951)
4. Pickpocket (Bresson, 1959)
5. The searchers / Rastros de ódio (Ford, 1956)
6. Um condenado à morte escapou (Bresson, 1956)
7. A palavra (Dreyer, 1955)
8. Contos da lua vaga (Mizoguchi, 1953)
9. Rio Bravo (Hawks, 1959)
10. As férias do Sr. Hulot (Tati, 1953)
11. À bout de souffle / Acossado (Godard, 1959)
12. Morangos silvestres (Bergman, 1957)
13. O grito (Antonioni, 1957)
14. A carruagem de ouro (Renoir, 1952)
15. A princesa Yang Kwei Fei (Mizoguchi, 1955)
16. Johnny Guitar (Ray, 1954)

No próximo domingo:
o Grupo [2] dos Filmes Fundamentais dos Anos 50


Atualização às 18:59h
PARABÉNS AO BOTAFOGO
pelo título da
Taça Guanabara / 2010


ESTAÇÕES
Antonio Carlos de Brito / Cacaso
[ in Beijo na boca. Rio, 1975 ]

Do corpo de meu amor
exala um cheiro bem forte.

Será a primavera nascendo?


HAI-CAI
de Cássio Amaral
[ in Enten Katsudatsu ]

todo dia me suicido
lembrando que nunca envelheço
meu preço é ser inocente


POEMA
Tati Fadel
[ in Crânio e Gavetas ]

É com horror
e alegria
que percebo:

a menina no espelho
sou eu.


ADIVINHA
Orides Fontela
[ in Teia. São Paulo, 1996 ]

O que é impalpável
mas
pesa

o que é sem rosto
mas
fere

o que é invisível
mas
dói.


AUTO-EPITÁFIO n° 2
José Paulo Paes
[ in Socráticas. São Paulo, 2001 ]

para quem pediu sempre tão pouco
o nada é positivamente um exagero


MEMÓRIAS DE UM LEITOR NASCIDO NO SERIDÓ
Moacy Cirne

Bodas em Tipasa [Bodas, 1938, e O verão, 1954], de Albert Camus. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo : Difusão Européia do Livro, 1964, 124p. [Meu exemplar foi adquirido por volta de 1964-65, na Livraria Universitária, em Natal].

Um (duplo) livro extremamente amoroso: um hino à vida, mesmo levando em conta o seu absurdo e as suas perplexidades. Pareceu-me, então, uma obra tão apaixonante, e ao mesmo tempo tão "natalense" e luminosa, que, por ocasião de sua venda inicial entre nós, a presenteei a vários de meus amigos e amigas potiguares. Era preciso compartilhar a beleza de suas páginas com o maior número possível de pessoas. Era preciso que elas também saboreassem, com prazer, as palavras do autor franco-argelino, que nos dera O estrangeiro (1942), A peste (1947) e O homem revoltado (1951): "Compreendo aqui [seja a Argélia, seja o Rio Grande do Norte] aquilo que se chama glória: o direito de amar sem medida" (p.10); "Quando fico algum tempo longe dessa terra [para ele, a Argélia; para mim, o Seridó], sonho com seus crepúsculos como promessas de felicidade" (p.26). Ou, de igual modo, palavras como: "... a esperança, ao contrário do que se imagina, equivale à resignação. E viver não é resignar-se" (p.33); "Não há mais desertos. Não há mais ilhas. Há, entretanto, necessidade de desertos e de ilhas. Para compreender o mundo, é preciso por vezes afastar-se dele; para melhor servir os homens, mantê-los durante um momento a distância" (p.51).

Continuemos, continuemos... éramos todos camusianos naquela Natal marcada pelo tédio e pela impotência diante do golpe de abril de 64. E se viver não é resignar-se, não é se deixar dominar por leituras inertes (cf. Bachelard), "Os mitos não têm vida por si mesmos. Aguardam que os encarnemos" (p.82). E os encarnamos através de processos muitas vezes tortuosos. Como tortuosos muitas vezes são os caminhos que nos levam a se identificar emocionalmente com uma cidade, por exemplo. Ora, uma cidade - qualquer cidade: Natal, Caicó, Currais Novos, Martins, São José do Seridó, Fortaleza, São Paulo, Rio de Janeiro - mede-se pela leitura de seus poetas, de seus artistas, de seus sonhadores, de seus músicos, de seus estudiosos, de seus boêmios, de seus amantes, de suas figuras populares. E se mede também pela preservação viva de sua memória e pela paixão dionisíaca (a rigor, toda paixão é dionisíaca) que alimenta seus butecos, suas pequenas praças, seus horizontes, suas ruas, suas esquinas, seus becos, e seus clubes de futebol, dos mais simples aos mais poderosos, dos mais fuleiros aos mais aguerridos. Aliás, é bom registrar, Albert Camus era um verdadeiro entusiasta do futebol. Chegou, inclusive, a praticá-lo.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Clique na imagem
para verouvir os 9 minutos iniciais de
Divórcio à italiana
(Pietro Germi, 1961)
Um dos maiores sucessos do cinema italiano na primeira metade dos anos 60, cujos ingredientes temáticos são típicos da comédia latina então pensada com inteligência e criatividade: amor, humor, traição, vingança. Um marido (Marcello Mastroianni), insatisfeito com o casamento burguês que mantém com a esposa pegajosa (Daniela Rocca), e ao mesmo tempo apaixonado pela belíssima prima (Stefania Sandrelli), articula um plano diabólico: "jogar" a mulher nos braços de um antigo admirador, igualmente casado. Há situações cômico-trágicas, ou apenas cômicas, que são primorosas. Marcello Mastroianni está ótimo (como sempre) no papel de um marido "corneado" que, aos olhos da sociedade machista, precisa lavar a "honra" de qualquer maneira. Só que o final não é exatamente o que ele previra...


BALAIO PORRETA 1986
n° 2938
Natal, 20 de fevereiro de 2010


ALGUNS FILMES DE PIETRO GERMI
( Cotações: de ° [descartável] a *** [excelente] )

Divórcio à italiana *** (1961)
O ferroviário ** (1956)
Seduzida e abandonada * (1964)
Aquele caso maldito * (1959)
Caminho da esperança * (1950)
Confusões à italiana * (1966)
Em nome da lei * (1949)
Alfredo, Alfredo ° (1972)


DE MIM
Bosco Sobreira

[ in
A Pedra e a Fala ]

No mais das vezes
resisto
como um mandacaru
sem raiz
No mais das vezes
sorrio
quase feliz
ou
feliz por um triz

ODE SINGULAR (Outra variação)
Assis Freitas
[ in Mil e um Poemas ]

Incrédulo eu bebo a vertigem do teu sexo
Que paralisa o veneno do meu tédio diário


ERÓTICA. SÓ MINTO UM POUCO...
Sandra Camurça
[ in O Refúgio ]

basta-me um olhar que me deixe nua
entre o último e o primeiro gole

basta-me uma palavra obscena
que embriague a carne úmida

basta-me uma falange e um anel
corrompendo-me entre as coxas

basta-me uma foda macia
e seu cheiro de macho pra levar na calcinha


A RAZÃO NÃO É DONA DO DESTINO
Carito
[ in Os Poetas Elétricos ]

Li em algum lugar uma associação entre o filme Os incompreendidos de Truffaut e o livro O apanhador no campo de centeio de Salinger. O filme completou 50 anos em 2009. O autor do livro morreu esse ano. Ambos falam da perda da inocência da infância, da revolta da adolescência, da inquietação da juventude... Eu acho que ainda não perdi essa inocência, essa inquietação... O que me faz falar sobre um livro que nem li. Quase todo mundo leu, menos eu. O que me dá um tempo de sobrevida, pelo menos meta-euforicamente falando, já que ainda posso sentir essa emoção adolescente ao despertar sensações de descoberta. Já o filme eu assisti nesse carnaval. Sempre é tempo de Nouvelle Vague... Lembrei dos meus 20 anos, descobrindo as coisas... As coisas dos outros - Leminski, Chacal, Arrigo Barnabé, Makaloba, Morangos mofados, Porcos com asas, Feliz Ano Velho, Tanto faz... E descobrindo as minhas coisas - meu sexo... minha droga, meu rock and roll... Talvez eu seja um adulto ridículo insistindo nisso. Mas tomando conhecimento do nome original do filme, "Os Quatrocentos Golpes" (que é uma expressão idiomática francesa que quer dizer algo como 'viver aprontando' ou 'pintar o sete)', lembrei da música de Beto Guedes A balada dos quatrocentos golpes (composição de Márcio Borges, Thomas Roth e Luiz Guedes): "Dentro de mim uma estrela arde no peito e derrama / Calma, coração, a razão não é dona do destino"...


Política
A ENTREVISTA DE LULA

"É uma peça de sabedoria política surpreendente, uma aula de Brasil inédita. Não se trata mais apenas do grande intuitivo. A intuição se manifesta no momento de tomar decisões centrais. Mas, sem visão de conjunto, não há intuição que resolva".

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Postal antigo
sem autoria definida


BALAIO PORRETA 1986
n° 2937
Natal, 19 de fevereiro de 2010



BARCAROLA
Nina Rizzi
[ in Ellenismos ]

é preciso me afogar de você
como se fosse morrer.


UMA PEDRA-DE-TOQUE
de
Mariana Botelho
[ in Suave Coisa ]

é difícil supor
com quantas mãos se tece
a solidão.


SEIOS
Patrícia Clemente
[ in Poesia Erótica ]

Sofia, eu no teu rosto busco o espelho,
Enquanto beijo os nós dos teus artelhos,
Enquanto tocas com teus pés meus seios.


E o corpo sabe: sou-te assemelhada,
E leva o pé à tua coxa amada,
Sou presa seduzida por teus cheiros.

E o corpo sabe o quanto é aquecido
Meu pé que sobe dentro do vestido,
Sorrindo do macio dos teus pentelhos.

E o corpo sabe: sou-te parecida,
Toco a mim mesma ao te tocar, amiga,
Se pouso, enfim, os dedos nos teus seios.

E o corpo sabe bem que sou-te gêmea
Me fazes louca, lúcida ou boêmia,
No gesto em que se unem nossos seios.

Sofia, no meu rosto tens espelho,
De quanto bem me faz amar teus seios.


PARA UMA BIBLIOTECA PORRETA
( 55 / 66 )

Elegias de Duíno & Os sonetos de Orfeu (Rilke, 1923)
Quem tem medo de Virginia Woolf (Albee, 1962)
Peregrinações (Fernão Mendes Pinto, 1614)
As pupilas do senhor reitor (J. dinis, 1860)
O homem ilustrado (Bradbury, 1951)
David Copperfield (Dickens, 1850)
Contraponto (Huxley, 1928)
Jane Eyre (Bronte, 1847)
Emma (Austen, 1816)
Escritos íntimos (Baudelaire, ed. port. 1982)


PROJÉCTEIS
Charles Baudelaire
[ in Escritos íntimos, 1982 ]

Deus é o único ser que, para reinar, não precisa sequer existir.

A matéria tem sempre menos vida do que aquilo que o espírito cria.

O que é a arte? Prostituição.

O que há de atraente no mau gosto é o prazer aristocrático que sentimos em chocar os outros.

A música perfura o espaço.

Deus é um escândalo, mas um escândalo proveitoso.


METAMORFOSE DAS LINGUAGENS

Será na próxima terça-feira, dia 23, na Siciliano do xópim Midivaimal, a partir das 19h, um pouco mais, um pouco menos, o lançamento do livro Metamorfose das linguagens, organizado por Marcos Silva, Júlio Pimentel Pinto e Maurício Cardoso. Trata-se de apurada seleção de textos envolvendo diversas relações/mediações a partir de uma leitura crítica do cinema com a literatura e a historicidade. Como já foi explicitado em outros espaços virtuais, através de rilise: "São analisados filmes brasileiros, hispano-brasileiro, norte-americanos, russo, japonês, francês, ítalo-britânico e uruguaio. Esses filmes são diálogos entre seus diretores e os escritores nos quais se inspiraram: Yakov Protazanov/Aleksei Tolstoi, John Ford/John Steinbeck, Orson Welles/Franz Kafka, Nelson Pereira dos Santos/Graciliano Ramos, Glauber Rocha/Regionalismo Literário Nordestino, Hiroshi Teshigahara/Kobo Abe, Michelangelo Antonioni/Julio Cortazar, Joaquim Pedro de Andrade/Carlos Drummond de Andrade, Glauber Rocha/William Shakespeare, João Batista de Andrade/Geraldo Ferraz, Walter Lima Jr./Alfredo de Taunay, Paul Verhoeven/Robert Heinlein, Guel Arraes/Ariano Suassuna e Marcelo Piñeyro/Ricardo Piglia". Entre os autores, há que lembrar os nomes de Jair Diniz Miguel. E Francisco Fabiano de Freitas Mendes. E Gilberto Maringoni. E outros. E outros. Ou seja, vale a pena prestigiar o lançamento, vale a pena conferir o livro.