terça-feira, 13 de março de 2007

Amanhã, 14 de março, será um dia marcado por emoções fortes. Pela manhã, na Capitania das Artes, a cidade comemorará o Dia Nacional da Poesia, com um café festivo e a palestra do Prof. Humberto Hermenegildo sobre Jorge Fernandes; à tarde, por volta de 16 horas, na Feira dos Sebos de Natal, em plena Praça André de Albuquerque, teremos um debate sobre os 40 anos do poema/processo; à noite, no Frasqueirão, acontecerá o jogo Fluminense x América, pela Copa do Brasil. Haja coração...


BALAIO PORRETA 1986
nº 1971
Natal, 13 de março de 2007
Poema/Processo, 40 anos


64 FILMES EMBLEMÁTICOS

Animação
Velhas lendas tchecas (Trnka, 1953)
Labirinto (Lenica, 1962), curta

Aventuras estéticas
Contos da lua vaga (Mizoguchi, 1953)
Falstaff (Welles, 1966)
Crônica de Ana Madalena Bach (Straub & Huillet, 1967)
Barry Lyndon (Kubrick, 1975)

Nostalgia (Tarkóvski, 1983)
A bela intrigante (Rivette, 1991)

Bangue-bangue
No tempo das diligências (Ford, 1939)
My darling Clementine (Ford, 1946)
Matar ou morrer (Zinnemann, 1952)

Johhny Guitar (Ray, 1954)
Rastros de ódio (Ford, 1956)
O homem que matou o facínora (Ford, 1962)

Brasileiros
Rio, 40 graus (Nelson Pereira dos Santos, 1955)
Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963)
Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964)
São Paulo S/A (Luiz Sérgio Person, 1965)
Terra em transe (Glauber Rocha, 1967)
O bandido da luz vermelha (Rogério Sganzerla, 1968)
Assuntina das Amérikas (Luiz Rosemberg Filho, 1975)
Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984)

Comédias
Sherlock Jr. (Keaton, 1924)
Em busca do ouro (Chaplin, 1925)
A General (Keaton & Bruckman, 1927)
Luzes da cidade (Chaplin, 1931)
As férias do Sr. Hulot (Tati, 1953)
Quanto mais quente melhor (Wilder, 1959)

Dramas espirituais
Dia de ira (Dreyer, 1943)
Diário de um pároco de aldeia (Bresson, 1950)
A palavra (Dreyer, 1955)
O evangelho segundo São Mateus (Pasolini, 1964)

Dramas existenciais
Morangos silvestres (Bergman, 1957)
A aventura (Antonioni, 1960)
Eclipse (Antonioni, 1962)
Persona (Bergman, 1966)

Experimentais
Um cão andaluz (Buñuel, 1928), curta
O homem da câmera (Vertov, 1929)
Cidadão Kane (Welles, 1941)
Ano passado em Marienbad (Resnais, 1961)

Ficção científica
O dia em que a Terra parou (Wise, 1951)
La jetée (Marker, 1963), curta
2001: uma odisséia no espaço (Kubrick, 1968)
Blade Runner (Scott, 1982)

Guerra
A grande ilusão (Renoir, 1937)
Glória feita de sangue (Kubrick, 1957)

Musicais
Cantando na chuva (Donen & Kelly, 1952)
Amor, sublime amor (Wise & Robbins, 1961)

Policiais & similares
Laura (Preminger, 1944)
O segredo das jóias (Huston, 1950)

Janela indiscreta (Hitchcock, 1954)
A marca da maldade (Welles, 1958)

Políticos
O encouraçado Potemkin (Eisenstein, 1925)
Tempestade sobre a Ásia (Pudóvkin, 1928)
Alemanha, ano zero (Rossellini, 1947)
La terra trema (Visconti, 1948)
Nuit et brouillard (Resnais, 1955), curta
O leopardo (Visconti, 1963)
A batalha de Argel (Pontecorvo, 1965)
La hora de los hornos (Solanas, 1968)
Carta para Jane (Godard, 1972)
A revolta do Chile (Guzman, 1975-79)
Um dia muito especial (Scola, 1977)
Hitler, um filme da Alemanha (Syberberg, 1977)

segunda-feira, 12 de março de 2007

ALMANAQUE DO BALAIO EXTRA
Um disco: Nove de Frevereiro / 2 (2006), de Antônio Nóbrega
Um clássico: Quarteto de cordas nº 1 (1873), de Johannes Brahms
Um filme: Terra em transe (1967), de Glauber Rocha
Um quadrinho: Zeferino & Graúna (1972), de Henfil
Um livro: As pelejas de Ojuara (1986), de Nei Leandro de Castro
Uma livraria em Natal: Balalaika /sebo/ (Rua Vig. Bartolomeu, 565, Cidade Alta)
Uma obra política: Manifesto do Partido Comunista (1848), de Marx & Engels
Um artista: Newton Navarro (RN)
Uma poeta potiguar: Iara Maria Carvalho, de Acari
Outra poeta potiguar: Ana de Santana, de Caicó
Um poeta/processo: Falves Silva (RN)
Outro poeta/processo: Jota Medeiros (RN)

Um caba porreta: Muirakytan Macedo (RN), historiador
Outro caba porreta: Milton Cirne (RN), médico
Mais um caba porreta: Paulo Jorge Dumaresq (RN), diretor & dramaturgo
Uma mulher de fibra: Maria Boa /Maria Oliveira Barros/ (1920-1997), rapariga e dona de cabaré

Uma expressão nordestina: Lesado (= abestalhado)
Uma beleza feminina: Fátima Arruda (RN), professora da UFRN
Outra beleza feminina: Carmen Vasconcelos (RN), poeta
Mais uma beleza feminina: Analu Campos (RN), atriz de teatro, em Jesus de Natal (2005)
Um blogue: Sela de Prata (RN), sobre cinema
Uma cidade: Acari (RN)
Um lugar em Natal: Bosque dos Namorados, no final da Alexandrino de Alencar
Uma bebida: Garapinhada de manga
Outra bebida: Samanau (RN), cachaça de Caicó

Uma Folha Porreta para: Theo G. Alves (RN), com o blogue Museu de Tudo
Outra Folha Porreta para Wescley J. Gama (RN), com o blogue A Taberna
Uma recomendação: a revista Brouhaha (Natal), da Fundação Capitania das Artes
Uma citação: "O cinema deve ser um meio de explorar os problemas mais complexos do nosso tempo, tão vitais quanto aqueles que há tantos séculos vêm servindo de tema à literatura, à música e à pintura" (Andrei Tarkóvski).


BALAIO PORRETA 1986
nº 1970
Natal, 12 de fevereiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos



12-03-1967/12-03-2007: 40 anos de vivências cariocas
40 MOMENTOS EXCEPCIONAIS NO RIO
vividos por um nordestino do Seridó

* Geração Paissandu: 2ª fase (1967-69)
* A Cinemateca do MAM (1967-78)
* Cidadão Kane (Welles) e outros clássicos (1967)

* A fundação do poema/processo (1967)
* O rei da vela, pelo Grupo Oficina, e O & A, pelo TUCA-SP, no João Caetano (1968)
* A passeata dos 100 mil, da Cinelândia à Candelária (1968)
* 2001: uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick (1968)
* Decisão no Maraca: Fluminense 3 x 2 Flamengo (1969), campeão carioca
* Decisão no Maraca: Fluminense, campeão brasileiro (1970)
* O primeiro livro: A explosão criativa dos quadrinhos (1970)
* Fluminense, campeão carioca (1971)
* O ingresso no Departamento de Comunicação da Universidade Federal Fluminense (1971)
* Na UFF, As criações das disciplinas Introdução às Histórias em Quadrinhos (1972) e Introdução à Ficção Científica (1986), as chefias do Departamento de Comunicação (1976-78 e 1998-2000), a vice-direção, em duas ocasiões (1991-94 e 2000-02) e a direção do Instituto de Artes e Comunicação Social (2002-2003).
* O terceiro livro: Para ler os quadrinhos (1972)
* Colaboração na Tribuna da Imprensa (1972-74)
* Colaboração no Jornal do Brasil (1972-76)

* A militância na Política Operária Marxista-Leninista (1972-82), depois de rápida passagem pelo Partido Operário Comunista (1968-69)
* ExPoesia, na PUC (1973) & PoemAção, no MAM (1973)

* O apogeu na Revista de Cultura Vozes (1974-80)
* Associação Brasileira de Semiótica / Regional Rio (1974)
* O quarto livro: Vanguarda: um projeto semiológico (1975)

* Assuntina das Amérikas, de Luiz Rosemberg Filho, na Cinemateca-MAM (1977)
* Objetos verbais, poemas/processo (1979)
* A militância no Partido dos Trabalhadores (1980-96)
* Uma introdução política aos quadrinhos (1982)
* Cinema Pax (1983), poemas
* A biblioteca de Caicó (1983), crítica & ensaios

* Decisões no Maraca: Fluminense, bicampeão carioca e campeão brasileiro pela segunda vez (1984)
* Fluminense, tricampeão carioca

* O nascimento de ANA MORENA (1986)
* Lançamento do Balaio (1986)
* A campanha presidencial de Lula (1989)
* O nascimento de ISADORA (1990)
* Mais um livro: História e crítica dos quadrinhos brasileiros (1990), premiado em Cuba

* O lançamento de Chico Doido de Caicó, no Balaio (1991)
* Chico Doido na Academia Brasileira de Letras (1993)
* Quadrinhos, sedução e paixão (2000), premiado em São Paulo
* Curadoria da Exposição de HQ na Fundação Biblioteca Nacional (2002)
* No ano do centenário: Fluminense, campeão carioca (2002)
* 50 anos de registros cinematográficos (2006), de Caicó ao Rio de Janeiro.

sábado, 10 de março de 2007

RECOMENDAMOS ESPECIALMENTE: A 9ª Feira de Sebos de Natal, na Praça André de Albuquerque, a partir da próxima segunda, dia 12, durante uma semana. O Catalivros, o Balailaka e o Sebo Vermelho, entre outros, marcarão presença. Com lançamentos de livros (entre os quais, Grandes filmes, grandes momentos, de nossa autoria) , debates variados (um deles, na quarta à tarde, sobre os 40 anos do poema/processo) e exibição de filmes, incluindo Nunca te vi, sempre te amei e O boi de prata.


BALAIO PORRETA 1996
n° 1969
Natal, 10 de março de 2007
Poema/Processo, 40 anos



A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
666 livros indispensáveis (7/111)

Atlas histórico do Rio Grande do Rio Grande do Norte, de Marcos Silva, Raimundo Arrais & Airton José Cavenaghi. Natal: Diário de Natal / Projeto Ler, 2006, 10 fascículos. [] Entre a história e a literatura, os autores navegam por mares, praias, sertões e rios do nosso Estado, orientados por invejável saber crítico e humanístico. A documentação cartográfica, ricamente apresentada, está na base das pesquisas econômicas, sociais e culturais que fazem este Atlas Histórico.

Patativa do Assaré: Digo e não peço segredo, de Tadeu Feitosa (org.). [] Em longo depoimento, sobrfe os mais diversos temas (Inspiração, Sertão, A morte, Canto Nordestino, Participação política, A ditadura, Mitos da literatura etc.), o famoso poeta popular do Ceará diz de suas coisas e de seus poemas. Com belas fotos (de Robson Melo), um livro/álbum inspiradíssimo. "Sua obra é como uma grife, espécie de fala que existe como suporte para traduzir o universal" (Tadeu Feitosa).

A descoberta do mundo, de Clarice Lispector. Rio de Janeiro, 1999, 478p. [] Em ordem cronológica, de agosto de 1967 a dezembro de 1973, temos aqui os textos e crônicas de CL para o Jornal do Brasil. Alguns deles são pequenas jóias da literatura brasileira. implicando reflexões bastante instigantes. Por exemplo: "A obra de arte é um ato de loucura do criador. Só que germina como não-loucura e abre caminho. É, no entanto, inútil planejar essa loucura para chegar à visão do mundo" (p.305).

MAPA: Imagens da formação territorial brasileira, de Isa Adonias (Pesquisa, textos e seleção cartográfica) & Bruno Furrer (Fotografias e organização). Rio de Janeiro: Fund. Emílio Odebrecht, 1993, 396p. Criança, apaixonei-me por mapas e plantas de cidades quando o meu pai, por volta de 1952, deu-me de presente, ao retornar do Rio de Janeiro, um álbum com fotos do país, postais de Caxambu, MG, e uma planta da "Cidade Maravilhosa". Logo em seguida, não resisti: desenhei uma planta da Caicó que eu conhecia, sem qualquer sentido de escala cartográfica, é claro. Fui mais longe: criei, em lento processo que durou alguns meses, a planta de uma cidade imaginária, com seus rios, seus açudes, seu morros, suas ruas estreitas, suas largas avenidas, seus campos de futebol. Infelizmente, perdi esse material. Mas ficou a paixão pela cartografia. E o livro/álbum que ora indico para uma biblioteca dos meus sonhos inabaláveis apresenta-se duplamente rico: pelo valor documental e pela riqueza iconográfica, ao se valer de reproduções de mapas antigos e deslumbratórios, além de ilustrações que se reportam às origens do Brasil. Como não se envolver com a beleza plástica de certos mapas do séc. XVI, como os de Pierre Desceliers, em 1546 e 1550?, mesmo levando em conta que, em alguns casos, as reproduções poderiam ser mais definidas. Todas as regiões do país estão contempladas, umas mais, outras menos. Enfim, uma verdadeira aula visual de História e Geografia.

quarta-feira, 7 de março de 2007

BALAIO PORRETA 1986
nº 1968
Natal, 7 de março de 2007
Poema/Processo, 40 anos



MEMÓRIAS, CONTRAMEMÓRIAS

Em 2002, o médico e amigo caicoense Oberdan Damásio dos Santos - um caba da peste botafoguense da melhor qualidade - solicitou-nos um pequeno artigo sobre a cidade de nossos alumbramentos juvenis, em pleno Seridó norte-rio-grandense, para publicação na imprensa local. Ei-lo na íntegra, apesar das inevitáveis repetições, com pequenos acréscimos:

UMA VEZ CAICÓ, SEMPRE CAICÓ

Em Caicó, aprendi a amar o cinema. Em Caicó, aprendi a amar os quadrinhos. Em Caicó, aprendi a amar o Fluminense. Em Caicó, nasceu o meu interesse pela poesia e pela literatura. Em Caicó, mergulhei simbolicamente na magia do Poço de Santana. Entre suas ruas e serrotes, fiz grandes amizades: Eduardinho, Rubinho, Irandi, José Geraldo, tio Silvino... Entre suas praças e escolas, tive mestres memoráveis, que me despertaram para o saber e para o sabor da vivência a mais humanística possível: na infância, Da. Teresa Mota e Da. Lourdes; na adolescência, Pe. João Agripino, Mons. Walfredo Gurgel, Pe. Galvão, Prof. Levi. E outros. E outros.

Em Caicó, vivi os anos 50, ainda sem conhecer o rock e a poesia concreta (a não ser, superficialmente, através das páginas d'O Cruzeiro), mas vibrando com os seriados no Cine Pax (como esquecer O império submarino, para ficar em um só exemplo?). Vibrando igualmente com os filmes de Tarzan, Durango Kid, Hopalong Cassidy e Esther Williams, a minha primeira grande paixão cinematográfica, ao lado de Ava Gardner (quantas e quantas vezes a tive nos meus braços; talvez mais do que o próprio Frank Sinatra).

O cinema de Seu Clóvis, em particular, ocupa um lugar todo especial em meus relembramentos caicoenses (assim como ocupa um lugar especial a lembrança dos gibis vendidos semanalmente por Seu Benedito). De certa maneira, a história dos filmes exibidos pelo Pax nos anos 50 se confunde com a própria história da cidade naquele período, período que viu o surgimento de A Folha, em 1954, que viu - sempre maravilhada - as festas de Sant'Anna e do Rosário, que viu a passagem do Circo Copacabana, do Circo Teatro Show, que viu e ouviu Luiz Gonzaga na Praça da Liberdade (em 1954), que viu uma das partidas da final entre Caicó e Nova Cruz pelo Campeonato do Interior de 58 (Caicó 4x3, depois de fazer 3x0; infelizmente, na finalíssima, em Natal, deu Nova Cruz: 2x1), que viu a grande seca de 58. E que viu filmes como Sansão e Dalila (com Victor Mature e Hedy Lamarr), Tarzan e a mulher-leopardo (com Johnny Weismuller), O ébrio (com Vicente Celestino); Luzes da cidade (com Carlitos), Dois palermas em Oxford (com o Gordo & o Magro), Paraíso proibido (com Joseph Cotten), O barco das ilusões (com Ava Gardner), Joana d'Arc (com Ingrid Bergman), Cristóvão Colombo (com Fredric March), Gilda (com Rita Hayworth e Glenn Ford). E mais: Rashomon (com Toshiro Mifune), Rio Vermelho (com John Wayne e Montgmery Clift), Pandora (com James Mason e Ava Gardner), Laura (de Preminger), O segredo das jóias (de Huston), O drama do deserto (documentário com a marca Disney), A um passo da eternidade (com Burt Lancaster e Deborah Kerr), A nave da revolta (com Humphrey Bogart), Os vencidos (de Antonioni), O rastro da Bruxa Vermelha (com John Wayne), A estrada e Agulha no palheiro (nacionais; o segundo, de Alex Viany), Velhas lendas tchecas (extraordinário filme de animação).

Sansão e Dalila, por exemplo, terminou sendo um acontecimento na cidade. Para começo de conversa, foi lançado em pleno sábado, fato no mínimo incomum (o sábado era reservado para o seriado, com um bangue-bangue ou um policial classe B, mera repetição do programa da quinta-feira); depois, no domingo, inaugurou as sessões matinais. Ao todo, foram seis sessões, em cinco dias. Um recorde absoluto! Até então, um filme de apelo comercial era exibido, no máximo, duas ou três vezes. E Gilda? Para frustração da garotada, o primeiro filme a ser proibido para menores no Pax... Bem, na verdade, ele só permaneceu proibido na "sessão nobre" do domingo; na segunda - aleluia!, aleluia! - já estava liberado para todos nós. A partir daí, passou a ser uma prática mais ou menos rotineira; aos domingos, o filme - qualquer filme, mesmo o mais inocente - era proibido até 18 anos, já às segundas... O seu Clóvis tinha uma "ótima" justificativa para essa estranha censura: "Aos domingos, privilegiamos a família caicoense; nos outros dias, a gandaia". E haja gandaia no velho e querido Pax, o poeira mais amado do país! Pobre daquele que adormecesse em suas sessões... Sofria o diabo, com as piúbas e/ou os palitos de fósforo queimando entre seus dedos. E a vaia, do primeiro ao último minuto, dada ao belo Velhas lendas tchecas, em 1959? Confesso: fiquei indignado.

Depois, a partir de 1960, Caicó passou a ser simples memória, embora memória viva - uma grata memória retrabalhada pelo devaneio e pela emoção. Um novo porto me abrigava: Natal. Veio a consciência diante dos ideais socialistas, veio o aprofundamento em cinema e literatura, vieram novas paixões, novas amizades, novas sensações. Novos alumbramentos. Novos estudos. E veio o Rio de Janeiro, em 1967, depois de conhecê-lo em 1966. E no Rio, o Fluminense em pleno Maraca. E no Rio, a participação no lançamento do poema/processo, a participação na luta política. E no Rio, o primeiro livro publicado. E no Rio, o ingresso - como professor - no Departamento de Comunicação da UFF. E no Rio, duas filhas maravilhosas: Ana Morena e Isadora.

E no Rio, a lembrança de Caicó. O cheiro de Caicó. Os serrotes de Caicó. As águas de Caicó. O calor de Caicó. As mulheres de Caicó. E, como tricolor, em homenagem a alguns caros amigos rubro-negros, direi: Eu sentiria um desgosto profundo se não existisse Caicó no mundo.

terça-feira, 6 de março de 2007

Dos 8 aos 12 anos, em Caicó, fui apaixonado pela atriz Esther Williams. Reconheço: na mesma época, início dos 50, eu era um amante volúvel: Dorothy Lamour, Maria Félix, Hedy Lamarr e Ava Gardner também faziam parte dos meus delírios amorosos. Dos meus devaneios infanto-juvenis. Mas Esther Williams era a preferida, naquele momento. Ela e uma certa Gracinha. De carne, osso e morenidade. E por que estou me lembrando, agora, da "rainha das piscinas" hollywoodianas? Por conta de um filme que revi ontem, na tv: Numa ilha com você (Thorpe, 1948). O filme é medíocre, mas me emocionou. E aqui não vai nenhuma contradição: rever a bela nadadora (se não estou enganado, a atriz, antes, foi campeã olímpica de saltos ornamentais aquáticos) significou revisitar Caicó e o Cinema Pax. Significou revisitar a Praça da Liberdade e a Avenida Seridó. Significou revisitar, em termos memorialísticos, uma parte importante de minha infância. (MC)


BALAIO PORRETA 1986
nº 1967
Natal, 6 de março de 2007
Poema/Processo, 40 anos


A VAGABUNDA IDIOTA
por Sandra Camurça
[ in O Refúgio ]

Faltou-lhe a gula
Suculenta
Faltou-lhe o tesão
Suado
Faltou-lhe o olhar
Úmido
Faltou-lhe o cheiro
No cangote
Faltou-lhe a secreção
Leitosa
Faltou-lhe a mão
Carinhosa
Faltou-lhe a boca
Nos seios
Faltou-lhe a língua
No grelo
Faltou-lhe a mordida
Na carne
Faltou-lhe a foda
Obscena
Faltou-lhe a paixão
Desmedida...
E ainda levou um chute no estômago:
Faltou-lhe amor
Sobrou a dor...
Poema de
GILBERT DANIEL (MG)
uma poesia
fácil
uma poesia
simples
uma poesia
assim
uma poesia
aqui
[ da série A ESCOLA DO VERSO MÍNIMO, de 2005, in Narrarte ]


COMO ALGUNS FILMES SÃO INTITULADOS EM PORTUGAL

Por simples curtição -- ou simples curiosidade --, passamos a mencionar, mais uma vez, os títulos de alguns filmes conforme são conhecidos na pátria lusitana. E se Psicose não é mais O filho que era mãe (e sim Psico, no relançamento), ainda há muitas diferenças que, eventualmente sendo gaiatas, precisam ser registradas. E assim o faremos, na seguinte ordem: TÍTULO ORIGINAL / TÍTULO BRASILEIRO / TÍTULO PORTUGUÊS.

Greed / Ouro e maldição / Aves de rapina (Stroheim, 1924)
The gold rush / Em busca do ouro / A quimera do ouro (Chaplin, 1925)
The General / A General / A glória de Pamplinas (Keaton & Bruckman, 1927)
Duck soup / O diabo a quatro / Os grandes aldrabões (com os irmãos Marx, 1934)
Bringing up baby / Levada da breca / As duas feras (Hawks, 1938)
Stagecoach / No tempo das diligências / A cavalgada heróica (Ford, 1939)
Citizen Kane / Cidadão Kane / O mundo a seus pés (Welles, 1941)
The magnificente Ambersons / Soberba / O quarto mandamento (Welles, 1942)
Les enfants du Paradis / O boulevard do crime / Os rapazes da geral (Carné, 1945)
It's a wonderful life / A felicidade não se compra / Do céu caiu uma estrela (Capra, 1946)
Kind hearts and coronets / As oito vítimas / Oito vidas por um título (Hamer, 1949)
The asphalt jungle / O segredo das jóias / Quando a cidade dorme (Huston, 1950)
Rashomon / Rashomon / Às portas do inferno (Kurosawa, 1950)
Singin' in the rain / Cantando na chuva / Serenata à chuva (Kelly & Donen, 1952)
The bad and the beautiful / Assim estava escrito / Cativos do mal (Minnelli, 1952)
High noon / Matar ou morrer / O comboio apitou três vezes (Zinnemann, 1952)
On the waterfront / Sindicato de ladrões / Há lodo no cais (Kazan, 1954)
Rebel without a cause / Juventude transviada / Fúria de viver (Ray, 1955)
The ladykillers / Quinteto da morte / O quinteto era de cordas (Mackendrick, 1955)
Bigger than life / Delírio de loucura / Atrás do espelho (Ray, 1956)
The wrong man / O homem errado / O falso culpado (Hitchcock, 1957)
Sweet smell of success / A embriaguez do sucesso / Mentira maldita (Mackendrick, 1957)
Paths of glory / Glória feita de sangue / Os caminhos da glória (Kubrick, 1957)
12 angry men / Doze homens e uma sentença / Doze homens em fúria (Lumet, 1957)
An affair to remember / Tarde demais para esquecer / O grande amor da minha vida (McCarey, 1957)
Letjat zhuravli / Quando voam as cegonhas / As garças estão a voar (Kolatozov, 1957)
Touch of evil / A marca da maldade / A sede do mal (Welles, 1958)
Vertigo / Um corpo que cai / A mulher que viveu duas vezes (Hitchcock, 1958)
West side story / Amor, sublime amor / Amor sem barreiras (Wise & Robbins, 1961)
The hustler / Desafio à corrupção / A vida é um jogo (Rossen, 1961)
Dr. Strangelove / Doutor Fantástico / Dr. Estranho Amor (Kubrick, 1964)
A hard day's night / Os reis do iê-ê-iê / Os quatro cabeleiras do após-calypso (Lester, 1964)
The sound of music / A noviça rebelde / Música no coração (Wise, 1965)
Blow-up / Depois daquele beijo / História de um fotógrafo (Antonioni, 1966)
Au hasard Balthazar / A grande testemunha / Peregrinação exemplar (Bresson, 1966)
The graduate / A primeira noite de um homem / A primeira noite (Nichols, 1967)
Il Giardino dei Finzi-Contini / O jardim dos Finzi-Contini / O jardim onde vivemos (De Sica, 1970)
Voskinger och rop / Gritos e sussurros / Lágrimas e suspiros (Bergman, 1973)
One flew over the cuckoo's nest / Um estranho no ninho / Voando sobre um ninho de cucos (Forman, 1975)
Prizzi's honor / A honra do poderoso Prizzi / A honra dos Padrinhos (Huston, 1985)
Down by law / Daunbailó / Debaixo da lei (Jarmusch, 1986)
The dead / Os vivos e os mortos / Gente de Dublin (Huston, 1987)
Drowning by numbers / Afogando em números / Maridos à água (Greenaway, 1988)
La belle noiseuse / A bela intrigante / A bela impertinente (Rivette, 1991)
Da hong deng long gao gao gua / Lanternas vermelhas / Esposas e concubinas (Yimou, 1991)
Reservoir dogs / Cães de aluguel / Cães danados (Tarantino, 1992)

[ Fonte: 1001 filmes para ver antes de morrer, de Steven Jay Schneider, coord. /ed. port./ ]
O BALAIO ADVERTE:
O BIG BOSTA BRAZIL, A BUNDAXÉ MUSIC, O FORRÓ REEIRA
E UM TAL DE DIOGO MAINARDI PROVOCAM DIARRÉIA MENTAL.

segunda-feira, 5 de março de 2007

Finalmente, vimos Os infiltrados (Scorsese, 2006), ontem, no Praia Xópim, em Ponta Negra. E se não tem a mesma voltagem criadora e a mesma sustança conteudístico-narracional de Touro indomável, Taxi driver e Depois de horas, de qualquer maneira revela-se muito bom por vários motivos: estrutura narrativa - quase - impecável, temática (policial) muito bem construída, final surpreendente, fotografia e trilha sonora mobilizadoras, interpretação devidamente contextualizada. Enfim, o melhor filme de Scorsese em muitos e muitos anos. Mesmo sem ser obra-prima.


BALAIO PORRETA 1986
nº 1966
Natal, 5 de fevereiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos


Memória
PESQUISAS DO BALAIO:
Os livros fundamentais da poesia brasileira

Uma das marcas registradas do Balaio, nestes 20 anos e lá vai fumaça, tem sido a pesquisa/enquete informal realizada com leitores e/ou amigos/conhecidos. Para marcar os nossos 1000 números (estamos nos referindo ao Balaio tradicional, xerografado, naturalmente), no dia 8 de setembro de 1997, quando completávamos 11 anos de existência, publicamos o resultado de mais uma pesquisa balaiográfica: OS LIVROS FUNDAMENTAIS DA POESIA BRASILEIRA, quando consultamos 43 poetas de vários Estados do país, sobretudo Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Norte. O resultado foi o seguinte:

1. A ave (Wlademir Dias Pino, 1956) [19 citações]
2. A rosa do povo (Carlos Drummond de Andrade, 1945) [18]
3. Invenção de Orfeu (Jorge de Lima, 1952) [17]
4. Libertinagem (Manuel Bandeira, 1930) & A educação pela pedra (João Cabral de Melo Neto, 1966) [16]
6. Eu (Augusto dos Anjos, 1912) & Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade (Oswald de Andrade, 1927) [14]
8. Pau Brasil (Oswald de Andrade, 1925) [13]
9. Alguma poesia (Carlos Drummond de Andrade, 1930), A luta corporal (Ferreira Gullar, 1954) & Viva vaia (Augusto de Campos, 1986) [11]
12. Poemics (Alvaro de Sá, 1991) [10]
13. O cão sem plumas (João Cabral de Melo Neto, 1950) & Cantaria barroca (Affonso Ávila, 1975) [9]
15. Sentimento do mundo (Carlos Drummond de Andrade, 1940) & Antologia mamaluca (Sebastião Nunes, 1988) [8 citações].

Os poetas mais citados foram:
1. Carlos Drummond de Andrade [41 vezes];
2. João Cabral [33];
3. Oswald de Andrade [27];
4. Wlademir Dias Pino [25];
5. Manuel Bandeira [22];
6. Augusto de Campos [20];
7. Ferreira Gullar e Jorge de Lima [17];
9. Murilo Mendes [16];
10. Augusto dos Anjos e Affonso Ávila [14];
12. Alvaro de Sá [10];
13. Sebastião Nunes [9];
14. Castro Alves, Manoel de Barros e Paulo Leminski [7 vezes].

[][][]

ZINGU! NAS PARADAS
Mais um número da ótima revista eletrônica Zingu! nas paradas e veredas do mundo virtual. O cineasta paulista Ozualo Candeias, recentemente falecido, é o grande homenageado da vez. Voltaremos à revista, brevemente. Com mais vagar. Vale a pena conferir. Vale a pena retrabalhar seus polêmicos textos.

domingo, 4 de março de 2007

RECOMENDAMOS ESPECIALMENTE: A Fortaleza dos Reis Magos, em Natal, na foz do Rio Potengi, ao lado da Praia do Forte, cuja construção começou em janeiro de 1598, sendo concluída no séc. XVII, é o monumento histórico por excelência do Rio Grande do Norte. Por sua beleza, sua grandeza, sua história, urge conhecê-la, urge visitá-la. Aliás, nem todos os natalenses a conhecem.


BALAIO PORRETA 1986
nº 1965
Natal, 4 de fevereiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
666 livros indispensáveis (6/666)

Caicó, 100 anos atrás, de Olavo de Medeiros Filho. Natal: Sebo Vermelho, 2004, 334p. [] Uma pesquisa irretocável sobre o primeiro jornal republicano do Rio Grande do Norte, o caicoense O Povo, pesquisa essa escrita pelo maior historiador do Estado: Olavo de Medeiros Filho. Apesar de sua escrita dura, árida, sem maiores ornamentos literários, OMF é um nome indispensável da historiografia potiguar.

Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos. São Paulo: Martins, 1960, 2v. [] Clássico da memorialística nacional dos anos 50. Um dos maiores estilistas da língua portuguesa, Graciliano Ramos relata, aqui, com a preciosidade literária que sempre o caracteriozou, os contratempos e desafios de sua prisão, na época do Estado Novo, em plena ditadura de Getúlio Vargas. Um dos grandes livros da literatrura brasileira.

Soldados de Salamina, de Javier Cercas. Trad. Wagner Carelli. São Paulo: Francis, 2004, 242p. [] A história de um olhar, no final da Guerra Civil Espanhola. Entre a metaficção e a realidade, o romance que o falangista Sánchez Mazas, seu personagem principal, não poderia ter escrito, e que Javier Cercas, com inegável brilhantismo, escreveu. Com técnica ágil e envolvente, Salamina é livro para ser lido de um fôlego só.

Teoria da literatura, de René Wellek & Austin Warren. Lisboa: Europa-América, 1962, 388p. [] Obra fundamental para a minha formação de crítico literário, nos tempos de Natal. O 'novo critisco" passado a limpo: rigor formal, texto mais do que contexto, os elementos substantivos da literatura. Seria um livro datado? Uma obra superada? Por demais formalista? Talvez sim, mas - de qualquer modo - historicamente importante.

Os humanos antes da humanidade, de Robert Foley. São Paulo: EdUNESP, 2003, 294p. [] Um livro para antrópologos, biólogos, arqueólogos, teólogos e curiosos da História Humana, como é o meu caso. Em perspectiva evolucionista, seus capítulos dizem de seu projeto científico: Por que o darwinismo?, Por que nos tornamos humanos?, Por que os humanos evoluíram? Por quê? Por quê? Por quê?

Pererê, de Ziraldo. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 43núm., out/1960-abril/1964. [Coleção presenteada pelo Autor, em três volumes encadernados, no segundo semestre de 1970.] Mais do que uma série bem feita de quadrinhos para crianças, que os adultos liam com prazer, um produto cultural capaz de absorver, com sensibilidade criadora, os meandros do populismo político-social da época. HQ que resiste ao tempo.


sábado, 3 de março de 2007

BALAIO PORRETA 1986
nº 1964
Natal, 3 de março de 2004
Poema/Processo, 40 anos


Memória
BALAIO INCOMUN 1628
Uma folha porreta
Desde 1986
Rio, 28 de novembro de 2005


Humor
HISTÓRIAS DE ARMANDO NEGREIROS
[ in Viva a Verve! Natal: Sebo Vermelho, 2000 ]

Avalie temperado
Consultando uma mulher que tinha vindo do interior, ela foi logo adiantando: -- Doutor, eu tô com uma coceiras aqui nas partes e uns escorrimentos e já usei tudo que me ensinaram: alho, manjericão, coentro, folhas disso e daquilo... e relatou outras mesinhas de que havia feito uso. Dr. Carlos Mesquita, imperturbável, vira-se para o estudante e a atendente e comenta, sério: -- Isso ao natural já é bom, avalie temperado...

Maca estreita
Deusdedith Nobre, baixinho, gordinho, quando não acontece, inventa. Mas essa ele garante que aconteceu. Após colher toda a história da paciente (anamnese), só faltava o exame físico. Peremptório, determinou: -- Agora, a senhora tire a roupa e deite nessa maca... A gestante desconfiada, mãos nos quadris, indagou: -- Doutor, e essa caminha estreita pode com nós dois?

Mêrda
Participando de um encontro no Anhembi, em São Paulo, Raimundo Vicente Borba ouviu pelo serviço de som a chamada: -- Os senhores participantes do Grupo Um, dirijam-se por favor ao salão Ê. Borba, estranhando a pronúncia, indagou de uma recepcionista paulista: -- O salão Ê que o locutor falou deve ser o É, não é mesmo? -- Não, senhor, é Ê mesmo. Aqui só falamos Ê, nós não falamos É. Borba não perdeu tempo: -- É uma pena. Assim vocês não podem mandar ninguém à merda e mandando à mêrda não tem graça nenhuma.

Bis
Ivanildo Correia de Paiva, o Deus, não podia fazer feio nos estudos, filho que era do Professor Saturnino, conhecido e respeitado professor de português que ensinou a mais de uma geração. Mas, para seu azar, estudando em Recife, foi reprovado e não sabia o que dizer ao pai. Espirituoso, passou o seguinte telegrama: PROFESSORES ENTUSIASMADOS MEUS EXAMES PEDIRAM BIS.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Cartas de Iwo Jima (Eastwood, 2006), que vimos ontem, tem tudo para se transformar num clássico do cinema de guerra, como clássico é, por exemplo, Glória feita de sangue (Kubrick, 1957), e tantos outros. O tempo nos dirá se, de fato, estamos diante de um clássico ou não. De qualquer maneira, trata-se de um filme ótimo, o melhor que vimos em 2007, até o momento. Mas deixamos de ver A conquista da honra, do mesmo diretor, que aborda a mesmíssima temática (a tomada da ilha de Iwo Jima, na 2ª Grande Guerra), segundo a perspectiva americana. Decerto, valerá a pena comparar os dois. De uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, acreditamos, os dois devem se completar. (Moacy Cirne)


BALAIO PORRETA 1986
nº 1963
Natal, 2 de março de 2007
Poema/Processo, 40 anos


VERSOS DE CIRCUNSTÂNCIA
Márcia Maia (PE)
[ in
Tábua de Marés ]

às seis da tarde
sem lágrima
ou sino
a lua
guarda
em mim
a tua ausência


CARTAS DE IVO JIMA
por Ailton Monteiro (CE)
[ in Diário de um Cinéfilo ]

Em A CONQUISTA DA HONRA (2006), na cena que vemos uma frota imensa de navios de guerra se aproximando da ilha de Iwo Jima, a sensação que temos é de alívio, já que vemos a guerra pelo ponto de vista dos americanos. Já em CARTAS DE IWO JIMA (2006), a visão japonesa do conflito, ver todos aqueles navios de guerra se aproximando é como ver a própria morte montada num cavalo preto e com uma foice na mão. CARTAS DE IWO JIMA é ainda mais sombrio que o filme anterior de Clint Eastwood, já que não há trégua para os soldados, não há retorno para os seus lares; a grande maioria deles não terá a sorte de voltar para casa e ficar com complexo de culpa por ter matado gente e sobrevivido. A única saída para aqueles pobres homens é o passado. Por isso, os únicos momentos em que o filme sai do conflito é ao apresentar alguns dos personagens por meio de flashbacks, recurso bastante em voga em tempos de LOST, mas que é tão antigo quanto o próprio cinema.Clint Eastwood disse que não tentou fazer um filme japonês, já que ele não tem um conhecimento aprofundado da cultura nipônica. Ainda assim, sentimos que há uma tentativa de se fazer um produto o mais próximo possível de uma obra made in Japan. A começar pela música, no pianinho, que lembra muito as trilhas sonoras utilizadas nas obras essencialmente japonesas. O resto pôde ser conseguido através do estudo da cultura e do cinema japoneses. O ator mais conhecido do filme é Ken Watanabe, considerado o ator japonês mais famoso da atualidade. Ele esteve presente em duas conhecidas produções hollywoodianas: O ÚLTIMO SAMURAI, ao lado de Tom Cruise, BATMAN BEGINS e o horrível MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA. Ele dá ao general Tadamishi Kuribayashi uma força sem igual. Kuribayashi foi o homem que comandou a resistência japonesa em Iwo Jima. Ele não era bem adepto do costume japonês de cometer suicídio frente ao fracasso. Ele recomendava aos seus homens que lutassem até o fim. O segundo ator mais famoso do filme não é muito conhecido fora do Japão. É o jovem Kazunari Ninomyia, que interpreta o soldado Saigo. Ele é um conhecido cantor pop no Japão e o filme de Clint deve ser no mínimo extremamente curioso para os seus fãs japoneses. Fica claro em CARTAS DE IWO JIMA - ainda mais que em A CONQUISTA DA HONRA - que a intenção de Clint Eastwood foi a de mostrar a guerra como algo absurdo, principalmente quando se conhece o inimigo. Quando se luta com um inimigo sem rosto até pode-se encará-lo como o mal encarnado e ver a sua morte como uma necessidade. Mas quando se percebe que aquele que está no outro lado da trincheira é uma pessoa que também precisa sobreviver e voltar para sua família, o sentimento de compaixão aparece e a guerra se torna algo sem sentido, uma estupidez sem tamanho. Isso até pode parecer algo piegas e alguns momentos do filme cruzam essa linha, mas esse sentimento é a própria razão de ser desse projeto duplo do diretor. CARTAS DE IWO JIMA recebeu quatro indicações para o Oscar, nas categorias de filme, diretor, roteiro original e edição de som. Ganhou o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira, o que, por melhor que o filme seja, não deixou de ser uma sacanagem com os concorrentes verdadeiramente estrangeiros.

Repeteco / Memória 1933

A PROPOSTA POLÍTICA DE UM CANDIDATO A PREFEITO

O fato aconteceu em Mossoró, RN, em 1933, e se encontra narrado no livro Um estado de "graça", de Celso da Silveira. O candidato a prefeito Pedro Artur da Silveira Martins se apresentou com a seguinte plataforma política: 1. Comprarei um carro fúnebre a fim de que os defuntos tenham mais conforto; 2. Mandarei construir banheiros públicos dentro do rio para acabar com o nu aquático; 3. Determinarei a construção de mictórios públicos, separando os homens das mulheres; 4. Não permitirei mais as conhecidas exibições jumentícias no meio da rua, pois mandarei recolher os animais ao curral da Prefeitura, ficando isolados dos outros bichos; 5. Por motivos óbvios, mandarei riscar o 24 do número do Jogo do Bicho.

Ao que consta, o Sr. Pedro Artur não se elegeu.

quinta-feira, 1 de março de 2007

Por incrível que pareça, ainda não vimos Cartas de Ivo Jima (Eastwood, 2006), numa das salas do Me Dei Mal. Em compensação já lemos Simplesmente humanos (Manoel Onofre Jr., 2007), lançado ontem pelo Sebo Vermelho. Trata-se de uma coletânea de perfis não-literários de alguns escritores da província. O livro é simpático, sem maiores pretensões críticas. E os escritores escolhidos são figuras conhecidas em Natal & adjacências.



BALAIO PORRETA 1986
nº 1962
Natal, 1 de março de 2007
Poema/Processo, 40 anos


ERUDIÇÃO BURRA

Nada mais irritante, no mundo da literatura, do que a erudição burra, a erudição pela erudição, pura e tolamente, sem qualquer relação com o saber e o fazer. E o que é um erudito burro? É o sujeito que muito lê, de forma quase compulsiva, e nada apreende, nada assimila, nada (re)cria, alimentando-se, muitas vezes, de reflexões (no melhor dos casos) e citações descontextualizadas.

É verdade que certos livros, certos textos, certos filmes, certos quadrinhos, levam inevitavelmente a conhecimentos inócuos ou mesmo a nenhuma espécie de consciência crítica e/ou criativa. São obras descartáveis, dignas, por exemplo, de um Big Bosta Brazil. Já outras, por melhores que sejam, quando atraem leitores preguiçosos, meros colecionadores de palavras vazias, implicam - sempre e sempre - simples leituras inertes (cf. Bachelard). E da leitura inerte à erudição burra o passo é muito pequeno.

Armazenar informação não significa necessariamente produzir cultura. Escrever difícil, isto é, hermeticamente, não significa escrever em profundidade. Ao contrário. Marx e Nietzsche, e outros, já nos disseram. Citar por citar também não quer dizer nada. A verdade é que, por mais que nos interessemos por filosofia, antropologia, história, política, psicanálise e/ou criação literária, honestamente ou não, a leitura de um só livro, dependendo do livro, dependendo do autor, pode ser mais importante do que o consumo (desvairado?) de 100 ou mais livros, mesmo que alguns deles sejam expressivos. Ou interessantes.

Decerto, um só livro, quando pretendemos aprofundar determinados assuntos, dificilmente será suficiente para nossas descobertas e necessidades intelectuais e/ou vivenciais. Mas uma bagagem (multi)cultural não se constrói da noite para o dia. Pode levar anos de leituras e reflexões consistentes. Só assim será produtiva. Na medida do possível. E do impossível.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

RASGADA NO CAPIBARIBE
por Sandra CAMURÇA
[ in O Refúgio ]
O rio freveu a noiteira e vi ouvi borbulhas doiradas dos metais sonoros - timbres frevendo em jazzeanas canções. Da ponte saltei e mergulhei fundo no fundo das águas do rio que corre na cidade estuário onde deságua nobreza de ritmos, tons, batuques e metais penetrando meus orifícios possíveis impossíveis...Voltei à tona feliz e desnuda de preconceitos: rasgaram-me as vestes de pudores musicais.


BALAIO PORRETA 1986
nº 1961
Natal, 27 de fevereiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos


PAGAR O QUÊ?
por Hugo MACEDO
[ in Beco Estreito. Natal, 2006, p.29 ]

Mané Bonitim [de Parelhas, RN] estava "doido" pra tomar uma de cana na festa de Acari [cidade vizinha, em pleno Seridó]. Mas, como não tinha um tostão no bolso, não contou conversa: com sua astúcia, chegou no bar central da cidade, e pediu ao balconista:

- Bota aí um café, cabra!

O inocente homem atendeu de prontidão, mas, antes mesmo do primeiro gole, Bonitim falou:

- Amigo, você poderia trocar o café por uma chamada de cana? Parece que a festa tá boa, né?

- É, posso. Disse o acariense.

Aproveitando a distração do atendente, Mané Bonitim engoliu a cachaça de uma só vez e foi saindo de fininho sem pagar, quando o dono do bar o abordou já na calçada:

- Ei! Pague a cachaça, rapaz!

- Que cachaça? Eu não troquei pelo café?

- Então, pague o café!

- E eu bebi café?

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

ELEGIA DA RIBEIRA - Fragmento inicial da crônica publicada na Tribuna do Norte, de Natal, em 29 de maio de 2005, por SANDERSON NEGREIROS ( Poeta e escritor ): Se as Quintas são profundas, o Alecrim festivo, o Tirol dionisíaco, as Rocas misteriosas, Petrópolis principesco, a velha Ribeira se torna cada vez mais solitária. Sumindo, equilibra-se no espaço com seu empobrecimento diário, ao definhar em velhice surda e muda; com sua fome boêmia, sua sede de beleza perdida; e desfile de centenas de personagens que, impossibilitados de aceitarem a cidade diurna e moderna, refugiam-se no silêncio pesado que o bairro sustém e sustenta. Tornam-se, porque são, seres invisíveis.



BALAIO PORRETA 1986
nº 1960
Natal, 26 de fevereiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos


Repeteco
A ESTRADA
Moacy Cirne

Sinto o primeiro impacto. De imediato, sou dominado por inesperada quentura nas costas. Mas consigo correr. E corro. Um segundo impacto me atinge. Preciso correr, mais ainda. Um rio me aguarda, à esquerda. Mergulho nele. Suas águas me envolvem com certa doçura. Mas de onde surgira aquele rio, em plena Glória, entre a Lapa e o Catete? Não importa; o que importa é que estou a salvo. O calor aumenta. Ouço os sinos da igreja mais próxima. Uma voz de rapariga me chama. Ambrósio, Ambrósio, cuidado com a ponte, não se deixe enforcar. O fogo me queima por dentro. Não sei nadar, lembro-me de repente. O que está acontecendo, então? Só sei que não existe mais qualquer sinal de rio; estou numa estrada de tijolos amarelos, familiar cena de filme antigo. Caminho com passos lentos; o calor que me domina é intenso. Pressinto que minhas roupas estão encarnadas. E encarnado é o meu cordão, em disputa contra o cordão azul. Sou uma criança apaixonada pela rainha do Encarnado na cidade da minha infância. Carlitos, o Gordo e o Magro me fazem companhia, sorrindo. Durango Kid aproxima-se: Não se preocupe, estou aqui para defendê-lo dos bandidos. Estou aqui para salvá-lo das balas perdidas. Confie em mim. Olho para o meu avô, com sua ternura sem fim. No caminhão da feira, cortando o cheiro da manhã carregada de mangas e esperanças, contamos os jumentos à beira da estrada, a mesma estrada de tijolos amarelos. À esquerda e à direita vemos jumentos tristes e honestos. São dezenas, são centenas deles. Estranho, parecem pássaros que não sabem voar. Quem ganhará a aposta? O feirante bêbado de auroras garantindo que à direita do veículo, beirando a estrada, maior seria o número daqueles pobres e inevitáveis animais? Ou vencerá o outro? O outro não sou eu; eu sou aquele que precisa mergulhar no Poço de Santana, no final da estrada. Mas o Poço está longe, muito longe. Nunca fiz um filho. Nunca plantei uma árvore. Nunca escrevi um livro. Nunca entrei num túnel tão comprido. E as coisas estão ficando cada vez mais nebulosas. Além, já noite, do alto do coreto da praça, Luiz Gonzaga acena para mim. Asa branca, assum preto, légua tirana. Baião-de-dois. Baião-de-três. Baião-de-cinco. O império submarino. Flash Gordon no Planeta Mongo. A volta do Aranha-Negra. Sansão e Dalila. Nunca houve uma mulher como Gilda. Os melhores anos de nossas vidas. Belinda. O barco das ilusões. Amar foi minha ruína. Dois palermas em Oxford. Paraíso proibido. Tarzan e as amazonas. O império das ilusões. O Aranha-Negra no Planeta Mongo. Sansão, Gilda, Belinda e Dalila. Nunca houve uma mulher como Tarzan. Estou cansado. O chão da Glória tem gosto de sangue e sertão. Preciso dormir.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Entre o Oscar e Oscarito, prefiro o segundo. (Moacy Cirne)


BALAIO PORRETA 1986
nº 1959
Natal, 25 de fevereiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos


Entre Oscarito e o Oscar, prefiro o primeiro. (Moacy Cirne)

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Em se tratando de carnaval, nada melhor do que o frevo, o maracatu, a ciranda, a marchinha, o samba, o coco-de-roda. Eis aí o glorioso reinado momesco de Recife, que não nos deixa mentir. Ousamos dizer: de longe, ou de perto, o mais emocionante e criativo carnaval do Brasil.


BALAIO PORRETA 1986
nº 1958
Natal, 22 de fevereiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos


UM SONHO DANADO DE BOM

Sonhei um sonho arrochado, beleza pura. Sonhei que, nesta última terça, às 22:10h, em viagem decidida de última hora, encontrava-me no Marco Zero, do Recife Velho, com minha companheira e uma de suas irmãs, no meio de entusiasmada multidão, ansiosa pelo excelente (e mais do que) centenário frevo. Sonhei com um show de Alceu Valença, arrebatador. Já passava de meia-noite, ou mesmo de uma da madrugada, quando, depois do espetáculo alceuvalenciano, os bonecos gigantes de Olinda "invadiram" o largo do Marco Zero. E o sonho continuava. Veio uma chuva fina, quando a Orquestra Multicultural de Pernambuco, regida pelo Maestro Spok, afinava os instrumentos. Depois, sem chuva, começava a apoteose da frevançafrevolente (mais do que centenária); uma Fantasia especialmente composta para a ocasião, "emoldurada" por embriagadora queima de fogos. E se a numerosa Orquestra Multicultural brilhava com intensidade, enquanto, ao lado, passistas mágicos encantavam a todos com seu bailado danado de bom, no palco figuras lendárias do frevo, e alguns de seus novos talentos, revezavam-se de forma emocionante com vários nomes consagrados da música brasileira: o próprio Alceu, já citado, Claudionor Germano, Lenine, Moraes Moreira, Leo Galdeman, Gal Costa, Antônio Nóbrega. Às 4:50h, debaixo de torrencial chuva - que voltara para saudar os foliões -, 60 mil pessoas, completamente realizadas, ao som de Vassourinhas, sem empurra-empurra e sem confusão, despediam-se do carnaval recifense de 2007. E o sonho parecia tão real, tão vivo, que acordei, algumas poucas horas depois, num hotel de Boa Viagem. Para, logo a seguir, voltar a Natal. Depois de passar pelo charmoso Paço Alfândega.


PIRANGI PIRANGI

A rigor, já na segunda, à noite, sonhávamos com o carnaval. Em Pirangi do Norte, ao sul de Natal. Acompanhando a Banda do Cajueiro, mandando brasa em frevos e marchinhas. E vendo passar, com alegria, o Bloco das Virgens (o nome mais apropriado seria Bloco das Virgens Enlouquecidas) e o Bloco Xibiu com Açúcar. Um carnaval bastante animado, pra falar a verdade.


ALGUNS FREVOS INESQUECÍVEIS

Vassourinhas (Matias da Rocha & Joana Batista, 1909)
É de amargar (Capiba, 1934)
Gostosão (Nelson Ferreira, 1950)
Frevo da meia-noite (Felinto Carnera, 1950)
Sonhei que estava em Pernambuco (Clóvis Mamede, 1950)
Último dia (Levino Ferreira, 1951)
Relembrando o Norte (Severino Araújo, 1952)
Vão me levando (Dosinho, 1955)
Evocação nº 1 (Nelson Ferreira, 1957)
Voltei, Recife (Luiz Bandeira, 1959)
Madeira que cupim não rói (Capiba, 1963)
Frevo e ciranda (Capiba, 1974)

Nota:
Esta é uma primeira e provisória seleção de grandes frevos.
Aceitamos sugestões para ampliá-la. O frevo, não esqueçamos,
é patrimônio cultural da humanidade. Convém lembrá-lo. Sempre.