terça-feira, 20 de março de 2007
de Adelaide Amorim
[ in Inscrições ]
Posso ser ilha
se as pontes ruírem.
Comungo o mundo e esqueço
invento o sangue
as veias esvazio
graduo o peso segundo o solstício.
Por mãe de renascença tive a espera
sou vegetal, minério
bicho novo.
Tenho a força do vôo e do horizonte
um sol dentro do corpo
e me improviso.
Posso ser ilha
se as pontes ruírem.
BALAIO PORRETA 1986
nº 1975
Rio, 20 de março de 2007
Poema/Processo, 40 anos
RIODEJANEIRANDO, MAIS UMA VEZ
Sim, é verdade. Sim, não é verdade. Ou melhor: é verdade. Ou nonada seria? Em verdade, em verdade, vos digo: Estou de volta: Rio, Natal e Caicó são os meus lugares. Penso no Seridó e estou de volta. Pois é. Estou de volta, já de olho na programação de cinema do Rio e de São Saruê. E talvez de São Paulo. E talvez do Internacional. E talvez do Atlético Mineiro. E talvez do Santinha, do ABC, do Fluminense. Estou de volta, entre laranjais tricolores e outubrários, riodejaneirando. Mais uma vez. Com novas leituras, novos abismos, novas esperanças: violetas, cajus e crepúsculos. E mais? E mais. Preparo-me para ouvir a música medieval que embala meus sonhos renascentistas. Ou barrocos. Tanto faz. Tanto faz. Caicó não é aqui. Natal, Olinda, Recife e João Pessoa, e Campina Grande, e Jardim do Seridó, e Currais Novos, e Acari, e Parelhas ficam longe. Aqui é o Rio de janeiro, fevereiro e março. E abril. E maio. De junho a dezembro. No mês de julho, no mês de Sant'Anna. Estou perto, estou longe, estou à esquerda da esquerda. Neste exato momento, o que andam a fazer Theo G. Alves, Iara Maria Carvalho, Jeanne Araújo, Wescley J. Gama, Ana de Sant'Anna, poetas do Seridó? Bordam nuvens douradas que antecipam o inverno azul de seus desejos mais ardentes? Não sei. Não sei. Enquanto isso, releio Nietzsche: "Aquele que se sabe profundo esforça-se por ser claro, aquele que deseja parecer profundo à plebe esforça-se por ser obscuro" (A gaia ciência. São Paulo: Hemus, 1981, p.154). Não sou claro, não sou obscuro. Sou claroescuro. Ora carioca, ora natalense; ora natalense, ora caicoense. Mas sempre seridoense.
segunda-feira, 19 de março de 2007
O macho espanta-se
com a minha mão
no seu sexo.
Velha peça teatral.
Estremeço com sua mão
na minha nuca,
com sua boca
na minha de puta.
Gozo ancestral.
(de JEANNE ARAÚJO [Acari, RN] )
BALAIO PORRETA 1986
nº 1974
Natal, 19 de março de 2007
Poema/Processo, 40 anos
HAI-KAIS sobre um Corpo de Mulher
de Lívio Oliveira (RN)
I - Olhos
Encontro de luzes,
expressa tensão dormente.
Da noite regressam.
II - Mãos
A seda e o leite,
abastecendo o encontro
em macios enlaces.
III - Lábios
Tateio-te a boca,
albergue de língua acesa,
moldura molhada.
IV - Pés
Movem-se, lúdicos.
Ai, impudicos artelhos:
razão de delitos!
V - Costas
Estende a costela,
exibindo a tatuagem:
fissura ilustrada.
VI - Seios
Opulência ilhada:
insulares e dúplices
presentes lácteos.
VII - Ancas
Bodas com a carne,
dança que envolve e esconde
o objeto intruso.
VIII - Púbis
Chegada doída,
suspiros de cansaço único,
exílio fálico.
PÓS-ATONALISMO
A platéia presente na Feira dos Sebos de Natal viveu um momento surrealista através de Helmut Cândido, personagem boêmio da cena literária potiguar, quando o "leitor honorário" do Sebo Vermelho, no sábado à tarde, depois de cinco lapadas de cana e três garrafas de cerveja, subiu ao palco armado na Praça André de Albuquerque para interpretar/recriar/redimensionar a voz e os sucessos de Nelson Gonçalves. Com seus agudos e graves fora de tom, para espanto e alegria do público, pode-se dizer que Helmut inaugurou entre nós o "pós-atonalismo cômico-etílico-serial". Um punk-anarquista presente ao evento delirava: "Sublime! Divino! Maravilhoso". De tão ruim, ficou ótimo. Como se fora um filme trash.
sábado, 17 de março de 2007
Jomard Muniz de Britto, jmb (PE)
Se vivemos “em tempo de guerra” num
“país fraturado” – reunindo em dupla
citação Bertolt Brecht e Tânia Bacelar
de Araújo – SOMOS todos anti-heróis
da “lama ao caos”. COSMO(A)GONIAS.
Nunca exageremos em celebrações.
Se o Recife nos encanta, seduz e enfeitiça,
nele tudo fulgura em CONTRADIÇÕES
da contemporaneidade. Mais antíteses.
Nunca sublimaremos omissões.
Somos parceria dos buracos do VÉIO
MANGABA entre pastoras do azul e do
encarnado. Deuses soltos no pasto.
AZUL INVISÍVEL mas superexposto na
recriação postal de Josivan Rodrigues.
VERMELHO CRUEL recorrendo celeiros,
celeumas, compromissos de Lula Queiroga
reencantando fragmentos da cidade solar.
Nunca exageremos nem sublimaremos por
amorosidade a globalização do tudonada.
Somos ainda quase cúmplices e carentes
do conservadorismo mais libertário ao
revolucionarismo mais autoritário.
Nunca escaparemos de tantas fissuras?
Deuses dançam do Pátio de São Pedro ao
Marco Zero da Rosa dos Ventos e DIAS.
O Recife quer ser muito mais, além de
sua anfíbia geografia: MARES/RIOS.
Nunca esqueceremos nossa MEGACIDADE:
tão jovialmente arcaica,
tão estranhamente contemporânea.
Barroca, maneirista, barrococó.
Indígena, portuguesa, africana, árabe,
francesa, inglesa, roliudiana, sertaneja, judia...
Faminta de estilos, estigmas e extra-
vagâncias. Cosmopolita no mais visceral
ecletismo arquitetônico e sincretismo
pan-sexual. Anatomias e alegorias do
CORPO (queer) QUERERES em fabulação
operística. ÓPERA morena de todos.
Somos o ritual pagão da teatralidade.
40 anos de POEMA/PROCESSO.
41 aniversários de Chico Science.
2 vezes 40 Francisco Brennand
dispensando comemorações.
Impaciências do ímpar.
Cidades em transfiguração do Prefácio
ao Pássaro Feito de Pó, escrituras de
Paulo Fernando Craveiro, cidadão do
mundo. Desocultando mistérios.
BALAIO PORRETA 1986
n° 1973
Natal, 17 de março de 2007
Poema/Processo, 40 anos
DIÁLOGO DAS CORES,
DIÁLOGO DAS FORMAS
A contribuição estética de Falves Silva para a história do poema/processo é inestimável. (O mesmo se diga das contribuições de Jota Medeiros, Dailor Varela e Anchieta Fernandes.) A partir de uma leitura semiótica centrada nos referenciais metagráficos de Wlademir Dias Pino, o poeta potiguar construiu, com régua, talento e compasso - e também boa dose de intuição criadora -, mais uma do que obra-em-progresso. A rigor, e com rigor, soube construir, em 40 anos, uma verdadeira obra-em-processo.
Neste sentido, o seu O diálogo das cores é a resposta necessária e atualizada para o olhar crítico que, em Natal e no Brasil, remonta a 1967 e anos seguintes. E o que poderia ser mera redundância formal, através de aparentes repetições visuais, passa a ser metacriação (há que perguntar: metacriação desejante ou simplesmente significante?), considerando, aqui, os modelos práticos que redimensionam a estrutura dos quadrinhos e, por extensão, neste caso particular, as propostas estético-informacionais de Alvaro de Sá.
Mas se, em Falves Silva, existe um diálogo de cores, existe de igual modo, um diálogo de formas, o que impõe dizer: existe um diálogo de transformações. Sim, em se tratando de poema/processo, a forma implica transFORMAção, assim como um texto implica, em última instância, conTEXTO e o poema implica necessariamente POEMAção. Não existe poema/processo inerte e/ou passivo, obra acabada para ser contemplada em sua concretude "fechada" (a não ser como registro documental): todo e qualquer poema/processo resulta em "diálogo metacriativo" com o leitor, potencialmente um co-autor do poema, já que o "diálogo", assim particularizado no campo da metacriação, estabelece-se a partir de projetos que são, por definição, inaugurais.
Decerto, nesta perspectiva, todo poema/processo é um gesto político: gestualidade transformadora. Ou melhor: politicamente político. Como o cinema de Godard. Como o cinema de Straub & Huillet. Como o teatro de Brecht. Como a poesia de Maiakóvski. Como a pintura de Picasso. Como a arte de Hélio Oiticica. Como o cinema de Vertov. Como o cinema de Luiz Rosemberg Filho. Esclareçamos, esclareçamos: não se trata, aqui, de política partidária ou panfletária, ou mesmo de política entendida sociologicamente. Trata-se de outra coisa.
Trata-se de uma política construída a partir de premissas e leituras experimentárias, leituras que fazem da FORMA desencadeadoras transFORMAções. Diremos mais. E mais diremos: no poema/processo, a não ser eventualmente, e mesmo assim dependendo de alguma espécie de leitura subjetiva, não há espaço para a poesia, abstração poética; há espaço para o produto, concreção semiótica. Concreção essa que se revela capacitada para abrir caminhos e veredas em nome de uma dada (e possível) "estética da poeticidade libertinária".
Assim sendo, sendo assim, O diálogo das cores não foge ao experimentário, não foge à leitura baseada no projeto que se pretende inaugural. A dupla homenagem que é feita pelo autor (à estrutura dos quadrinhos/aos poemics de Alvaro de Sá) não é gratuita. Afinal, se no livro de Falves Silva não há lugar para a poesia (embora haja, e muito, para a emoção estética), há lugar para o poema - o poema que explora, gráfica e plasticamente, os meandros produtivos da poeticidade como linguagem não-verbal.
Nota:
Texto de apresentação do livro O diálogo das cores, a ser publicado.
sexta-feira, 16 de março de 2007
BALAIO PORRETA 1986
nº 1972
Natal, 16 de março de 2007
Poema/Processo, 40 anos
A VOZ SILENCIADA DE JUSSARA QUEIROZ
Na noite anterior, o grito da emoção. Na noite de ontem, no auditório da FIERN, o silêncio emocionante. Mas um silêncio que se fazia expressar através de imagens, sons e falas (e da música de Carlos Zens): as imagens, sons e falas do documentário O vôo silenciado do Jucurutu, de Paulo Laguardia, sobre a vida e a obra da cineasta potiguar Jussara Queiroz, atingida, no esplendor de sua febre criativa, por grave doença de fundo neurológico. E o documentário a todos emocionou: por sua força, por seu ritmo, pela desconstrução do personagem-autor(a), pelos depoimentos; enfim, pela cinematografia de Jussara. E uma pergunta - dura e crua - ficou sem resposta: por que seus filmes, uma vez enviados ao FestNatal, depois de aplaudidos no Festival de Cinema de Brasília, nunca foram exibidos aqui? Já há muito tempo afirmamos: premiada internacionalmente, Jussara Queiroz, com seus curtas inquietos e inquietantes, marcados pela alma nordestina, é pedra preciosa, é pedra rara. Defensora ferrenha do cinema brasileiro, e ao mesmo tempo admiradora da obra de Jean-Luc Godard, por exemplo, uma vez confessou-me num dos bares de Niterói: "Se pudesse, se outra fosse a minha realidade, se o meu caminho fosse ficcional, talvez fizesse filmes como Luiz Rosemberg Filho: filmes duros, agressivos, visceralmente questionadores". E Jussara, que em 1993 assinou o nosso manifesto a favor da entrada de Chico Doido de Caicó na Academia Brasileira de Letras, sabia das coisas, com o seu cinema sem concessões, com seu cinema sem hollywoodismos. A ela, cineasta de Jucurutu, em pleno Seridó norte-rio-grandense, nossas homenagens. Homenagens, aliás, que não são só minhas. São de muitos, e que se expressam através do belo média-metragem de Paulo Laguardia, resultado do programa do governo federal de Fomento à Produção e Teledifusão do Documentário Brasileiro, instituído em 2003.
Em tempo: O vôo silenciado do Jucurutu será exibido pela Rede Pública de Televisão (tevês educativas e universitárias) no dia 29 de julho.
terça-feira, 13 de março de 2007
BALAIO PORRETA 1986
nº 1971
Natal, 13 de março de 2007
Poema/Processo, 40 anos
64 FILMES EMBLEMÁTICOS
Animação
Velhas lendas tchecas (Trnka, 1953)
Labirinto (Lenica, 1962), curta
Aventuras estéticas
Contos da lua vaga (Mizoguchi, 1953)
Falstaff (Welles, 1966)
Crônica de Ana Madalena Bach (Straub & Huillet, 1967)
Barry Lyndon (Kubrick, 1975)
Nostalgia (Tarkóvski, 1983)
A bela intrigante (Rivette, 1991)
Bangue-bangue
No tempo das diligências (Ford, 1939)
My darling Clementine (Ford, 1946)
Matar ou morrer (Zinnemann, 1952)
Johhny Guitar (Ray, 1954)
Rastros de ódio (Ford, 1956)
O homem que matou o facínora (Ford, 1962)
Brasileiros
Rio, 40 graus (Nelson Pereira dos Santos, 1955)
Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963)
Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964)
São Paulo S/A (Luiz Sérgio Person, 1965)
Terra em transe (Glauber Rocha, 1967)
O bandido da luz vermelha (Rogério Sganzerla, 1968)
Assuntina das Amérikas (Luiz Rosemberg Filho, 1975)
Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984)
Comédias
Sherlock Jr. (Keaton, 1924)
Em busca do ouro (Chaplin, 1925)
A General (Keaton & Bruckman, 1927)
Luzes da cidade (Chaplin, 1931)
As férias do Sr. Hulot (Tati, 1953)
Quanto mais quente melhor (Wilder, 1959)
Dramas espirituais
Dia de ira (Dreyer, 1943)
Diário de um pároco de aldeia (Bresson, 1950)
A palavra (Dreyer, 1955)
O evangelho segundo São Mateus (Pasolini, 1964)
Dramas existenciais
Morangos silvestres (Bergman, 1957)
A aventura (Antonioni, 1960)
Eclipse (Antonioni, 1962)
Persona (Bergman, 1966)
Experimentais
Um cão andaluz (Buñuel, 1928), curta
O homem da câmera (Vertov, 1929)
Cidadão Kane (Welles, 1941)
Ano passado em Marienbad (Resnais, 1961)
Ficção científica
O dia em que a Terra parou (Wise, 1951)
2001: uma odisséia no espaço (Kubrick, 1968)
Guerra
A grande ilusão (Renoir, 1937)
Glória feita de sangue (Kubrick, 1957)
Musicais
Cantando na chuva (Donen & Kelly, 1952)
Amor, sublime amor (Wise & Robbins, 1961)
Policiais & similares
Laura (Preminger, 1944)
O segredo das jóias (Huston, 1950)
Janela indiscreta (Hitchcock, 1954)
A marca da maldade (Welles, 1958)
Políticos
O encouraçado Potemkin (Eisenstein, 1925)
Tempestade sobre a Ásia (Pudóvkin, 1928)
Alemanha, ano zero (Rossellini, 1947)
La terra trema (Visconti, 1948)
Nuit et brouillard (Resnais, 1955), curta
O leopardo (Visconti, 1963)
A batalha de Argel (Pontecorvo, 1965)
La hora de los hornos (Solanas, 1968)
Carta para Jane (Godard, 1972)
A revolta do Chile (Guzman, 1975-79)
Um dia muito especial (Scola, 1977)
Hitler, um filme da Alemanha (Syberberg, 1977)
segunda-feira, 12 de março de 2007
Um disco: Nove de Frevereiro / 2 (2006), de Antônio Nóbrega
Um clássico: Quarteto de cordas nº 1 (1873), de Johannes Brahms
Um filme: Terra em transe (1967), de Glauber Rocha
Um quadrinho: Zeferino & Graúna (1972), de Henfil
Um livro: As pelejas de Ojuara (1986), de Nei Leandro de Castro
Uma livraria em Natal: Balalaika /sebo/ (Rua Vig. Bartolomeu, 565, Cidade Alta)
Uma obra política: Manifesto do Partido Comunista (1848), de Marx & Engels
Um artista: Newton Navarro (RN)
Uma poeta potiguar: Iara Maria Carvalho, de Acari
Outra poeta potiguar: Ana de Santana, de Caicó
Um poeta/processo: Falves Silva (RN)
Outro poeta/processo: Jota Medeiros (RN)
Um caba porreta: Muirakytan Macedo (RN), historiador
Outro caba porreta: Milton Cirne (RN), médico
Mais um caba porreta: Paulo Jorge Dumaresq (RN), diretor & dramaturgo
Uma mulher de fibra: Maria Boa /Maria Oliveira Barros/ (1920-1997), rapariga e dona de cabaré
Uma expressão nordestina: Lesado (= abestalhado)
Uma beleza feminina: Fátima Arruda (RN), professora da UFRN
Outra beleza feminina: Carmen Vasconcelos (RN), poeta
Mais uma beleza feminina: Analu Campos (RN), atriz de teatro, em Jesus de Natal (2005)
Um blogue: Sela de Prata (RN), sobre cinema
Uma cidade: Acari (RN)
Um lugar em Natal: Bosque dos Namorados, no final da Alexandrino de Alencar
Uma bebida: Garapinhada de manga
Outra bebida: Samanau (RN), cachaça de Caicó
Uma Folha Porreta para: Theo G. Alves (RN), com o blogue Museu de Tudo
Outra Folha Porreta para Wescley J. Gama (RN), com o blogue A Taberna
Uma recomendação: a revista Brouhaha (Natal), da Fundação Capitania das Artes
Uma citação: "O cinema deve ser um meio de explorar os problemas mais complexos do nosso tempo, tão vitais quanto aqueles que há tantos séculos vêm servindo de tema à literatura, à música e à pintura" (Andrei Tarkóvski).
BALAIO PORRETA 1986
nº 1970
Natal, 12 de fevereiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
12-03-1967/12-03-2007: 40 anos de vivências cariocas
40 MOMENTOS EXCEPCIONAIS NO RIO
vividos por um nordestino do Seridó
* Geração Paissandu: 2ª fase (1967-69)
* A Cinemateca do MAM (1967-78)
* Cidadão Kane (Welles) e outros clássicos (1967)
* A fundação do poema/processo (1967)
* O rei da vela, pelo Grupo Oficina, e O & A, pelo TUCA-SP, no João Caetano (1968)
* A passeata dos 100 mil, da Cinelândia à Candelária (1968)
* 2001: uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick (1968)
* Decisão no Maraca: Fluminense 3 x 2 Flamengo (1969), campeão carioca
* Decisão no Maraca: Fluminense, campeão brasileiro (1970)
* O primeiro livro: A explosão criativa dos quadrinhos (1970)
* Fluminense, campeão carioca (1971)
* O ingresso no Departamento de Comunicação da Universidade Federal Fluminense (1971)
* Na UFF, As criações das disciplinas Introdução às Histórias em Quadrinhos (1972) e Introdução à Ficção Científica (1986), as chefias do Departamento de Comunicação (1976-78 e 1998-2000), a vice-direção, em duas ocasiões (1991-94 e 2000-02) e a direção do Instituto de Artes e Comunicação Social (2002-2003).
* O terceiro livro: Para ler os quadrinhos (1972)
* Colaboração na Tribuna da Imprensa (1972-74)
* Colaboração no Jornal do Brasil (1972-76)
* A militância na Política Operária Marxista-Leninista (1972-82), depois de rápida passagem pelo Partido Operário Comunista (1968-69)
* ExPoesia, na PUC (1973) & PoemAção, no MAM (1973)
* O apogeu na Revista de Cultura Vozes (1974-80)
* Associação Brasileira de Semiótica / Regional Rio (1974)
* O quarto livro: Vanguarda: um projeto semiológico (1975)
* Assuntina das Amérikas, de Luiz Rosemberg Filho, na Cinemateca-MAM (1977)
* Objetos verbais, poemas/processo (1979)
* A militância no Partido dos Trabalhadores (1980-96)
* Uma introdução política aos quadrinhos (1982)
* Cinema Pax (1983), poemas
* A biblioteca de Caicó (1983), crítica & ensaios
* Decisões no Maraca: Fluminense, bicampeão carioca e campeão brasileiro pela segunda vez (1984)
* Fluminense, tricampeão carioca
* O nascimento de ANA MORENA (1986)
* Lançamento do Balaio (1986)
* A campanha presidencial de Lula (1989)
* O nascimento de ISADORA (1990)
* Mais um livro: História e crítica dos quadrinhos brasileiros (1990), premiado em Cuba
* O lançamento de Chico Doido de Caicó, no Balaio (1991)
* Chico Doido na Academia Brasileira de Letras (1993)
* Quadrinhos, sedução e paixão (2000), premiado em São Paulo
* Curadoria da Exposição de HQ na Fundação Biblioteca Nacional (2002)
* No ano do centenário: Fluminense, campeão carioca (2002)
* 50 anos de registros cinematográficos (2006), de Caicó ao Rio de Janeiro.
sábado, 10 de março de 2007
BALAIO PORRETA 1996
n° 1969
Natal, 10 de março de 2007
Poema/Processo, 40 anos
A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
666 livros indispensáveis (7/111)
Atlas histórico do Rio Grande do Rio Grande do Norte, de Marcos Silva, Raimundo Arrais & Airton José Cavenaghi. Natal: Diário de Natal / Projeto Ler, 2006, 10 fascículos. [] Entre a história e a literatura, os autores navegam por mares, praias, sertões e rios do nosso Estado, orientados por invejável saber crítico e humanístico. A documentação cartográfica, ricamente apresentada, está na base das pesquisas econômicas, sociais e culturais que fazem este Atlas Histórico.
Patativa do Assaré: Digo e não peço segredo, de Tadeu Feitosa (org.). [] Em longo depoimento, sobrfe os mais diversos temas (Inspiração, Sertão, A morte, Canto Nordestino, Participação política, A ditadura, Mitos da literatura etc.), o famoso poeta popular do Ceará diz de suas coisas e de seus poemas. Com belas fotos (de Robson Melo), um livro/álbum inspiradíssimo. "Sua obra é como uma grife, espécie de fala que existe como suporte para traduzir o universal" (Tadeu Feitosa).
A descoberta do mundo, de Clarice Lispector. Rio de Janeiro, 1999, 478p. [] Em ordem cronológica, de agosto de 1967 a dezembro de 1973, temos aqui os textos e crônicas de CL para o Jornal do Brasil. Alguns deles são pequenas jóias da literatura brasileira. implicando reflexões bastante instigantes. Por exemplo: "A obra de arte é um ato de loucura do criador. Só que germina como não-loucura e abre caminho. É, no entanto, inútil planejar essa loucura para chegar à visão do mundo" (p.305).
MAPA: Imagens da formação territorial brasileira, de Isa Adonias (Pesquisa, textos e seleção cartográfica) & Bruno Furrer (Fotografias e organização). Rio de Janeiro: Fund. Emílio Odebrecht, 1993, 396p. Criança, apaixonei-me por mapas e plantas de cidades quando o meu pai, por volta de 1952, deu-me de presente, ao retornar do Rio de Janeiro, um álbum com fotos do país, postais de Caxambu, MG, e uma planta da "Cidade Maravilhosa". Logo em seguida, não resisti: desenhei uma planta da Caicó que eu conhecia, sem qualquer sentido de escala cartográfica, é claro. Fui mais longe: criei, em lento processo que durou alguns meses, a planta de uma cidade imaginária, com seus rios, seus açudes, seu morros, suas ruas estreitas, suas largas avenidas, seus campos de futebol. Infelizmente, perdi esse material. Mas ficou a paixão pela cartografia. E o livro/álbum que ora indico para uma biblioteca dos meus sonhos inabaláveis apresenta-se duplamente rico: pelo valor documental e pela riqueza iconográfica, ao se valer de reproduções de mapas antigos e deslumbratórios, além de ilustrações que se reportam às origens do Brasil. Como não se envolver com a beleza plástica de certos mapas do séc. XVI, como os de Pierre Desceliers, em 1546 e 1550?, mesmo levando em conta que, em alguns casos, as reproduções poderiam ser mais definidas. Todas as regiões do país estão contempladas, umas mais, outras menos. Enfim, uma verdadeira aula visual de História e Geografia.
quarta-feira, 7 de março de 2007
nº 1968
Natal, 7 de março de 2007
Poema/Processo, 40 anos
MEMÓRIAS, CONTRAMEMÓRIAS
Em 2002, o médico e amigo caicoense Oberdan Damásio dos Santos - um caba da peste botafoguense da melhor qualidade - solicitou-nos um pequeno artigo sobre a cidade de nossos alumbramentos juvenis, em pleno Seridó norte-rio-grandense, para publicação na imprensa local. Ei-lo na íntegra, apesar das inevitáveis repetições, com pequenos acréscimos:
UMA VEZ CAICÓ, SEMPRE CAICÓ
Em Caicó, aprendi a amar o cinema. Em Caicó, aprendi a amar os quadrinhos. Em Caicó, aprendi a amar o Fluminense. Em Caicó, nasceu o meu interesse pela poesia e pela literatura. Em Caicó, mergulhei simbolicamente na magia do Poço de Santana. Entre suas ruas e serrotes, fiz grandes amizades: Eduardinho, Rubinho, Irandi, José Geraldo, tio Silvino... Entre suas praças e escolas, tive mestres memoráveis, que me despertaram para o saber e para o sabor da vivência a mais humanística possível: na infância, Da. Teresa Mota e Da. Lourdes; na adolescência, Pe. João Agripino, Mons. Walfredo Gurgel, Pe. Galvão, Prof. Levi. E outros. E outros.
Em Caicó, vivi os anos 50, ainda sem conhecer o rock e a poesia concreta (a não ser, superficialmente, através das páginas d'O Cruzeiro), mas vibrando com os seriados no Cine Pax (como esquecer O império submarino, para ficar em um só exemplo?). Vibrando igualmente com os filmes de Tarzan, Durango Kid, Hopalong Cassidy e Esther Williams, a minha primeira grande paixão cinematográfica, ao lado de Ava Gardner (quantas e quantas vezes a tive nos meus braços; talvez mais do que o próprio Frank Sinatra).
O cinema de Seu Clóvis, em particular, ocupa um lugar todo especial em meus relembramentos caicoenses (assim como ocupa um lugar especial a lembrança dos gibis vendidos semanalmente por Seu Benedito). De certa maneira, a história dos filmes exibidos pelo Pax nos anos 50 se confunde com a própria história da cidade naquele período, período que viu o surgimento de A Folha, em 1954, que viu - sempre maravilhada - as festas de Sant'Anna e do Rosário, que viu a passagem do Circo Copacabana, do Circo Teatro Show, que viu e ouviu Luiz Gonzaga na Praça da Liberdade (em 1954), que viu uma das partidas da final entre Caicó e Nova Cruz pelo Campeonato do Interior de 58 (Caicó 4x3, depois de fazer 3x0; infelizmente, na finalíssima, em Natal, deu Nova Cruz: 2x1), que viu a grande seca de 58. E que viu filmes como Sansão e Dalila (com Victor Mature e Hedy Lamarr), Tarzan e a mulher-leopardo (com Johnny Weismuller), O ébrio (com Vicente Celestino); Luzes da cidade (com Carlitos), Dois palermas em Oxford (com o Gordo & o Magro), Paraíso proibido (com Joseph Cotten), O barco das ilusões (com Ava Gardner), Joana d'Arc (com Ingrid Bergman), Cristóvão Colombo (com Fredric March), Gilda (com Rita Hayworth e Glenn Ford). E mais: Rashomon (com Toshiro Mifune), Rio Vermelho (com John Wayne e Montgmery Clift), Pandora (com James Mason e Ava Gardner), Laura (de Preminger), O segredo das jóias (de Huston), O drama do deserto (documentário com a marca Disney), A um passo da eternidade (com Burt Lancaster e Deborah Kerr), A nave da revolta (com Humphrey Bogart), Os vencidos (de Antonioni), O rastro da Bruxa Vermelha (com John Wayne), A estrada e Agulha no palheiro (nacionais; o segundo, de Alex Viany), Velhas lendas tchecas (extraordinário filme de animação).
Sansão e Dalila, por exemplo, terminou sendo um acontecimento na cidade. Para começo de conversa, foi lançado em pleno sábado, fato no mínimo incomum (o sábado era reservado para o seriado, com um bangue-bangue ou um policial classe B, mera repetição do programa da quinta-feira); depois, no domingo, inaugurou as sessões matinais. Ao todo, foram seis sessões, em cinco dias. Um recorde absoluto! Até então, um filme de apelo comercial era exibido, no máximo, duas ou três vezes. E Gilda? Para frustração da garotada, o primeiro filme a ser proibido para menores no Pax... Bem, na verdade, ele só permaneceu proibido na "sessão nobre" do domingo; na segunda - aleluia!, aleluia! - já estava liberado para todos nós. A partir daí, passou a ser uma prática mais ou menos rotineira; aos domingos, o filme - qualquer filme, mesmo o mais inocente - era proibido até 18 anos, já às segundas... O seu Clóvis tinha uma "ótima" justificativa para essa estranha censura: "Aos domingos, privilegiamos a família caicoense; nos outros dias, a gandaia". E haja gandaia no velho e querido Pax, o poeira mais amado do país! Pobre daquele que adormecesse em suas sessões... Sofria o diabo, com as piúbas e/ou os palitos de fósforo queimando entre seus dedos. E a vaia, do primeiro ao último minuto, dada ao belo Velhas lendas tchecas, em 1959? Confesso: fiquei indignado.
Depois, a partir de 1960, Caicó passou a ser simples memória, embora memória viva - uma grata memória retrabalhada pelo devaneio e pela emoção. Um novo porto me abrigava: Natal. Veio a consciência diante dos ideais socialistas, veio o aprofundamento em cinema e literatura, vieram novas paixões, novas amizades, novas sensações. Novos alumbramentos. Novos estudos. E veio o Rio de Janeiro, em 1967, depois de conhecê-lo em 1966. E no Rio, o Fluminense em pleno Maraca. E no Rio, a participação no lançamento do poema/processo, a participação na luta política. E no Rio, o primeiro livro publicado. E no Rio, o ingresso - como professor - no Departamento de Comunicação da UFF. E no Rio, duas filhas maravilhosas: Ana Morena e Isadora.
E no Rio, a lembrança de Caicó. O cheiro de Caicó. Os serrotes de Caicó. As águas de Caicó. O calor de Caicó. As mulheres de Caicó. E, como tricolor, em homenagem a alguns caros amigos rubro-negros, direi: Eu sentiria um desgosto profundo se não existisse Caicó no mundo.
terça-feira, 6 de março de 2007
BALAIO PORRETA 1986
nº 1967
Natal, 6 de março de 2007
Poema/Processo, 40 anos
A VAGABUNDA IDIOTA
por Sandra Camurça
[ in O Refúgio ]
Faltou-lhe a gula
Suculenta
Faltou-lhe o tesão
Suado
Faltou-lhe o olhar
Úmido
Faltou-lhe o cheiro
No cangote
Faltou-lhe a secreção
Leitosa
Faltou-lhe a mão
Carinhosa
Faltou-lhe a boca
Nos seios
Faltou-lhe a língua
No grelo
Faltou-lhe a mordida
Na carne
Faltou-lhe a foda
Obscena
Faltou-lhe a paixão
Desmedida...
E ainda levou um chute no estômago:
Faltou-lhe amor
Sobrou a dor...
COMO ALGUNS FILMES SÃO INTITULADOS EM PORTUGAL
Por simples curtição -- ou simples curiosidade --, passamos a mencionar, mais uma vez, os títulos de alguns filmes conforme são conhecidos na pátria lusitana. E se Psicose não é mais O filho que era mãe (e sim Psico, no relançamento), ainda há muitas diferenças que, eventualmente sendo gaiatas, precisam ser registradas. E assim o faremos, na seguinte ordem: TÍTULO ORIGINAL / TÍTULO BRASILEIRO / TÍTULO PORTUGUÊS.
Greed / Ouro e maldição / Aves de rapina (Stroheim, 1924)
The gold rush / Em busca do ouro / A quimera do ouro (Chaplin, 1925)
The General / A General / A glória de Pamplinas (Keaton & Bruckman, 1927)
Duck soup / O diabo a quatro / Os grandes aldrabões (com os irmãos Marx, 1934)
Bringing up baby / Levada da breca / As duas feras (Hawks, 1938)
Stagecoach / No tempo das diligências / A cavalgada heróica (Ford, 1939)
Citizen Kane / Cidadão Kane / O mundo a seus pés (Welles, 1941)
The magnificente Ambersons / Soberba / O quarto mandamento (Welles, 1942)
Les enfants du Paradis / O boulevard do crime / Os rapazes da geral (Carné, 1945)
It's a wonderful life / A felicidade não se compra / Do céu caiu uma estrela (Capra, 1946)
Kind hearts and coronets / As oito vítimas / Oito vidas por um título (Hamer, 1949)
The asphalt jungle / O segredo das jóias / Quando a cidade dorme (Huston, 1950)
Rashomon / Rashomon / Às portas do inferno (Kurosawa, 1950)
Singin' in the rain / Cantando na chuva / Serenata à chuva (Kelly & Donen, 1952)
The bad and the beautiful / Assim estava escrito / Cativos do mal (Minnelli, 1952)
High noon / Matar ou morrer / O comboio apitou três vezes (Zinnemann, 1952)
On the waterfront / Sindicato de ladrões / Há lodo no cais (Kazan, 1954)
Rebel without a cause / Juventude transviada / Fúria de viver (Ray, 1955)
The ladykillers / Quinteto da morte / O quinteto era de cordas (Mackendrick, 1955)
Bigger than life / Delírio de loucura / Atrás do espelho (Ray, 1956)
The wrong man / O homem errado / O falso culpado (Hitchcock, 1957)
Sweet smell of success / A embriaguez do sucesso / Mentira maldita (Mackendrick, 1957)
Paths of glory / Glória feita de sangue / Os caminhos da glória (Kubrick, 1957)
12 angry men / Doze homens e uma sentença / Doze homens em fúria (Lumet, 1957)
An affair to remember / Tarde demais para esquecer / O grande amor da minha vida (McCarey, 1957)
Letjat zhuravli / Quando voam as cegonhas / As garças estão a voar (Kolatozov, 1957)
Touch of evil / A marca da maldade / A sede do mal (Welles, 1958)
Vertigo / Um corpo que cai / A mulher que viveu duas vezes (Hitchcock, 1958)
West side story / Amor, sublime amor / Amor sem barreiras (Wise & Robbins, 1961)
The hustler / Desafio à corrupção / A vida é um jogo (Rossen, 1961)
Dr. Strangelove / Doutor Fantástico / Dr. Estranho Amor (Kubrick, 1964)
A hard day's night / Os reis do iê-ê-iê / Os quatro cabeleiras do após-calypso (Lester, 1964)
The sound of music / A noviça rebelde / Música no coração (Wise, 1965)
Blow-up / Depois daquele beijo / História de um fotógrafo (Antonioni, 1966)
Au hasard Balthazar / A grande testemunha / Peregrinação exemplar (Bresson, 1966)
The graduate / A primeira noite de um homem / A primeira noite (Nichols, 1967)
Il Giardino dei Finzi-Contini / O jardim dos Finzi-Contini / O jardim onde vivemos (De Sica, 1970)
Voskinger och rop / Gritos e sussurros / Lágrimas e suspiros (Bergman, 1973)
One flew over the cuckoo's nest / Um estranho no ninho / Voando sobre um ninho de cucos (Forman, 1975)
Down by law / Daunbailó / Debaixo da lei (Jarmusch, 1986)
The dead / Os vivos e os mortos / Gente de Dublin (Huston, 1987)
Drowning by numbers / Afogando em números / Maridos à água (Greenaway, 1988)
La belle noiseuse / A bela intrigante / A bela impertinente (Rivette, 1991)
Da hong deng long gao gao gua / Lanternas vermelhas / Esposas e concubinas (Yimou, 1991)
Reservoir dogs / Cães de aluguel / Cães danados (Tarantino, 1992)
[ Fonte: 1001 filmes para ver antes de morrer, de Steven Jay Schneider, coord. /ed. port./ ]
segunda-feira, 5 de março de 2007
BALAIO PORRETA 1986
nº 1966
Natal, 5 de fevereiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
Memória
PESQUISAS DO BALAIO:
Os livros fundamentais da poesia brasileira
Uma das marcas registradas do Balaio, nestes 20 anos e lá vai fumaça, tem sido a pesquisa/enquete informal realizada com leitores e/ou amigos/conhecidos. Para marcar os nossos 1000 números (estamos nos referindo ao Balaio tradicional, xerografado, naturalmente), no dia 8 de setembro de 1997, quando completávamos 11 anos de existência, publicamos o resultado de mais uma pesquisa balaiográfica: OS LIVROS FUNDAMENTAIS DA POESIA BRASILEIRA, quando consultamos 43 poetas de vários Estados do país, sobretudo Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Norte. O resultado foi o seguinte:
1. A ave (Wlademir Dias Pino, 1956) [19 citações]
2. A rosa do povo (Carlos Drummond de Andrade, 1945) [18]
3. Invenção de Orfeu (Jorge de Lima, 1952) [17]
4. Libertinagem (Manuel Bandeira, 1930) & A educação pela pedra (João Cabral de Melo Neto, 1966) [16]
6. Eu (Augusto dos Anjos, 1912) & Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade (Oswald de Andrade, 1927) [14]
8. Pau Brasil (Oswald de Andrade, 1925) [13]
9. Alguma poesia (Carlos Drummond de Andrade, 1930), A luta corporal (Ferreira Gullar, 1954) & Viva vaia (Augusto de Campos, 1986) [11]
12. Poemics (Alvaro de Sá, 1991) [10]
13. O cão sem plumas (João Cabral de Melo Neto, 1950) & Cantaria barroca (Affonso Ávila, 1975) [9]
15. Sentimento do mundo (Carlos Drummond de Andrade, 1940) & Antologia mamaluca (Sebastião Nunes, 1988) [8 citações].
Os poetas mais citados foram:
1. Carlos Drummond de Andrade [41 vezes];
2. João Cabral [33];
3. Oswald de Andrade [27];
4. Wlademir Dias Pino [25];
5. Manuel Bandeira [22];
6. Augusto de Campos [20];
7. Ferreira Gullar e Jorge de Lima [17];
9. Murilo Mendes [16];
10. Augusto dos Anjos e Affonso Ávila [14];
12. Alvaro de Sá [10];
13. Sebastião Nunes [9];
14. Castro Alves, Manoel de Barros e Paulo Leminski [7 vezes].
domingo, 4 de março de 2007
BALAIO PORRETA 1986
nº 1965
Natal, 4 de fevereiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
666 livros indispensáveis (6/666)
Caicó, 100 anos atrás, de Olavo de Medeiros Filho. Natal: Sebo Vermelho, 2004, 334p. [] Uma pesquisa irretocável sobre o primeiro jornal republicano do Rio Grande do Norte, o caicoense O Povo, pesquisa essa escrita pelo maior historiador do Estado: Olavo de Medeiros Filho. Apesar de sua escrita dura, árida, sem maiores ornamentos literários, OMF é um nome indispensável da historiografia potiguar.
Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos. São Paulo: Martins, 1960, 2v. [] Clássico da memorialística nacional dos anos 50. Um dos maiores estilistas da língua portuguesa, Graciliano Ramos relata, aqui, com a preciosidade literária que sempre o caracteriozou, os contratempos e desafios de sua prisão, na época do Estado Novo, em plena ditadura de Getúlio Vargas. Um dos grandes livros da literatrura brasileira.
Soldados de Salamina, de Javier Cercas. Trad. Wagner Carelli. São Paulo: Francis, 2004, 242p. [] A história de um olhar, no final da Guerra Civil Espanhola. Entre a metaficção e a realidade, o romance que o falangista Sánchez Mazas, seu personagem principal, não poderia ter escrito, e que Javier Cercas, com inegável brilhantismo, escreveu. Com técnica ágil e envolvente, Salamina é livro para ser lido de um fôlego só.
Teoria da literatura, de René Wellek & Austin Warren. Lisboa: Europa-América, 1962, 388p. [] Obra fundamental para a minha formação de crítico literário, nos tempos de Natal. O 'novo critisco" passado a limpo: rigor formal, texto mais do que contexto, os elementos substantivos da literatura. Seria um livro datado? Uma obra superada? Por demais formalista? Talvez sim, mas - de qualquer modo - historicamente importante.
Os humanos antes da humanidade, de Robert Foley. São Paulo: EdUNESP, 2003, 294p. [] Um livro para antrópologos, biólogos, arqueólogos, teólogos e curiosos da História Humana, como é o meu caso. Em perspectiva evolucionista, seus capítulos dizem de seu projeto científico: Por que o darwinismo?, Por que nos tornamos humanos?, Por que os humanos evoluíram? Por quê? Por quê? Por quê?
Pererê, de Ziraldo. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 43núm., out/1960-abril/1964. [Coleção presenteada pelo Autor, em três volumes encadernados, no segundo semestre de 1970.] Mais do que uma série bem feita de quadrinhos para crianças, que os adultos liam com prazer, um produto cultural capaz de absorver, com sensibilidade criadora, os meandros do populismo político-social da época. HQ que resiste ao tempo.
sábado, 3 de março de 2007
nº 1964
Natal, 3 de março de 2004
Poema/Processo, 40 anos
Memória
BALAIO INCOMUN 1628
Uma folha porreta
Desde 1986
Rio, 28 de novembro de 2005
Humor
HISTÓRIAS DE ARMANDO NEGREIROS
[ in Viva a Verve! Natal: Sebo Vermelho, 2000 ]
Avalie temperado
Consultando uma mulher que tinha vindo do interior, ela foi logo adiantando: -- Doutor, eu tô com uma coceiras aqui nas partes e uns escorrimentos e já usei tudo que me ensinaram: alho, manjericão, coentro, folhas disso e daquilo... e relatou outras mesinhas de que havia feito uso. Dr. Carlos Mesquita, imperturbável, vira-se para o estudante e a atendente e comenta, sério: -- Isso ao natural já é bom, avalie temperado...
Maca estreita
Deusdedith Nobre, baixinho, gordinho, quando não acontece, inventa. Mas essa ele garante que aconteceu. Após colher toda a história da paciente (anamnese), só faltava o exame físico. Peremptório, determinou: -- Agora, a senhora tire a roupa e deite nessa maca... A gestante desconfiada, mãos nos quadris, indagou: -- Doutor, e essa caminha estreita pode com nós dois?
Mêrda
Participando de um encontro no Anhembi, em São Paulo, Raimundo Vicente Borba ouviu pelo serviço de som a chamada: -- Os senhores participantes do Grupo Um, dirijam-se por favor ao salão Ê. Borba, estranhando a pronúncia, indagou de uma recepcionista paulista: -- O salão Ê que o locutor falou deve ser o É, não é mesmo? -- Não, senhor, é Ê mesmo. Aqui só falamos Ê, nós não falamos É. Borba não perdeu tempo: -- É uma pena. Assim vocês não podem mandar ninguém à merda e mandando à mêrda não tem graça nenhuma.
Bis
Ivanildo Correia de Paiva, o Deus, não podia fazer feio nos estudos, filho que era do Professor Saturnino, conhecido e respeitado professor de português que ensinou a mais de uma geração. Mas, para seu azar, estudando em Recife, foi reprovado e não sabia o que dizer ao pai. Espirituoso, passou o seguinte telegrama: PROFESSORES ENTUSIASMADOS MEUS EXAMES PEDIRAM BIS.
sexta-feira, 2 de março de 2007
BALAIO PORRETA 1986
nº 1963
Natal, 2 de março de 2007
Poema/Processo, 40 anos
VERSOS DE CIRCUNSTÂNCIA
Márcia Maia (PE)
[ in Tábua de Marés ]
às seis da tarde
sem lágrima
ou sino
a lua
guarda
em mim
a tua ausência
CARTAS DE IVO JIMA
por Ailton Monteiro (CE)
[ in Diário de um Cinéfilo ]
Em A CONQUISTA DA HONRA (2006), na cena que vemos uma frota imensa de navios de guerra se aproximando da ilha de Iwo Jima, a sensação que temos é de alívio, já que vemos a guerra pelo ponto de vista dos americanos. Já em CARTAS DE IWO JIMA (2006), a visão japonesa do conflito, ver todos aqueles navios de guerra se aproximando é como ver a própria morte montada num cavalo preto e com uma foice na mão. CARTAS DE IWO JIMA é ainda mais sombrio que o filme anterior de Clint Eastwood, já que não há trégua para os soldados, não há retorno para os seus lares; a grande maioria deles não terá a sorte de voltar para casa e ficar com complexo de culpa por ter matado gente e sobrevivido. A única saída para aqueles pobres homens é o passado. Por isso, os únicos momentos em que o filme sai do conflito é ao apresentar alguns dos personagens por meio de flashbacks, recurso bastante em voga em tempos de LOST, mas que é tão antigo quanto o próprio cinema.Clint Eastwood disse que não tentou fazer um filme japonês, já que ele não tem um conhecimento aprofundado da cultura nipônica. Ainda assim, sentimos que há uma tentativa de se fazer um produto o mais próximo possível de uma obra made in Japan. A começar pela música, no pianinho, que lembra muito as trilhas sonoras utilizadas nas obras essencialmente japonesas. O resto pôde ser conseguido através do estudo da cultura e do cinema japoneses. O ator mais conhecido do filme é Ken Watanabe, considerado o ator japonês mais famoso da atualidade. Ele esteve presente em duas conhecidas produções hollywoodianas: O ÚLTIMO SAMURAI, ao lado de Tom Cruise, BATMAN BEGINS e o horrível MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA. Ele dá ao general Tadamishi Kuribayashi uma força sem igual. Kuribayashi foi o homem que comandou a resistência japonesa em Iwo Jima. Ele não era bem adepto do costume japonês de cometer suicídio frente ao fracasso. Ele recomendava aos seus homens que lutassem até o fim. O segundo ator mais famoso do filme não é muito conhecido fora do Japão. É o jovem Kazunari Ninomyia, que interpreta o soldado Saigo. Ele é um conhecido cantor pop no Japão e o filme de Clint deve ser no mínimo extremamente curioso para os seus fãs japoneses. Fica claro em CARTAS DE IWO JIMA - ainda mais que em A CONQUISTA DA HONRA - que a intenção de Clint Eastwood foi a de mostrar a guerra como algo absurdo, principalmente quando se conhece o inimigo. Quando se luta com um inimigo sem rosto até pode-se encará-lo como o mal encarnado e ver a sua morte como uma necessidade. Mas quando se percebe que aquele que está no outro lado da trincheira é uma pessoa que também precisa sobreviver e voltar para sua família, o sentimento de compaixão aparece e a guerra se torna algo sem sentido, uma estupidez sem tamanho. Isso até pode parecer algo piegas e alguns momentos do filme cruzam essa linha, mas esse sentimento é a própria razão de ser desse projeto duplo do diretor. CARTAS DE IWO JIMA recebeu quatro indicações para o Oscar, nas categorias de filme, diretor, roteiro original e edição de som. Ganhou o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira, o que, por melhor que o filme seja, não deixou de ser uma sacanagem com os concorrentes verdadeiramente estrangeiros.
Repeteco / Memória 1933
A PROPOSTA POLÍTICA DE UM CANDIDATO A PREFEITO
O fato aconteceu em Mossoró, RN, em 1933, e se encontra narrado no livro Um estado de "graça", de Celso da Silveira. O candidato a prefeito Pedro Artur da Silveira Martins se apresentou com a seguinte plataforma política: 1. Comprarei um carro fúnebre a fim de que os defuntos tenham mais conforto; 2. Mandarei construir banheiros públicos dentro do rio para acabar com o nu aquático; 3. Determinarei a construção de mictórios públicos, separando os homens das mulheres; 4. Não permitirei mais as conhecidas exibições jumentícias no meio da rua, pois mandarei recolher os animais ao curral da Prefeitura, ficando isolados dos outros bichos; 5. Por motivos óbvios, mandarei riscar o 24 do número do Jogo do Bicho.
Ao que consta, o Sr. Pedro Artur não se elegeu.
quinta-feira, 1 de março de 2007
ERUDIÇÃO BURRA
Nada mais irritante, no mundo da literatura, do que a erudição burra, a erudição pela erudição, pura e tolamente, sem qualquer relação com o saber e o fazer. E o que é um erudito burro? É o sujeito que muito lê, de forma quase compulsiva, e nada apreende, nada assimila, nada (re)cria, alimentando-se, muitas vezes, de reflexões (no melhor dos casos) e citações descontextualizadas.
É verdade que certos livros, certos textos, certos filmes, certos quadrinhos, levam inevitavelmente a conhecimentos inócuos ou mesmo a nenhuma espécie de consciência crítica e/ou criativa. São obras descartáveis, dignas, por exemplo, de um Big Bosta Brazil. Já outras, por melhores que sejam, quando atraem leitores preguiçosos, meros colecionadores de palavras vazias, implicam - sempre e sempre - simples leituras inertes (cf. Bachelard). E da leitura inerte à erudição burra o passo é muito pequeno.
Armazenar informação não significa necessariamente produzir cultura. Escrever difícil, isto é, hermeticamente, não significa escrever em profundidade. Ao contrário. Marx e Nietzsche, e outros, já nos disseram. Citar por citar também não quer dizer nada. A verdade é que, por mais que nos interessemos por filosofia, antropologia, história, política, psicanálise e/ou criação literária, honestamente ou não, a leitura de um só livro, dependendo do livro, dependendo do autor, pode ser mais importante do que o consumo (desvairado?) de 100 ou mais livros, mesmo que alguns deles sejam expressivos. Ou interessantes.
Decerto, um só livro, quando pretendemos aprofundar determinados assuntos, dificilmente será suficiente para nossas descobertas e necessidades intelectuais e/ou vivenciais. Mas uma bagagem (multi)cultural não se constrói da noite para o dia. Pode levar anos de leituras e reflexões consistentes. Só assim será produtiva. Na medida do possível. E do impossível.