sexta-feira, 14 de setembro de 2007


Foto de Gabriele Rigon


LUNAÇÃO
de Acantha
[in La Vie Bohème ]

apaguei minha lua
nova.
estou cheia.


POEMA
de Sandra Camurça
[ in O Refúgio ]

acordou sem saber
se era segunda ou domingo...
era segunda
e abandonado entre lençóis
seus sonhos adormeceram


BALAIO PORRETA 1986
nº 2122
Rio, 14 de setembro de 2007


SÚPLICA
de Fernanda Passos
[ in Poesia na Veia ]

Guia-me por entre as relvas
que
em teu corpo germinam

Meu desejo se alimenta
da
seiva que brota do tronco
de
tuas pernas
e
sacio a sede
que
me consome
em
teus pêlos
ou
sugo o néctar
das
tuas reentrâncias

Sufoca meus gemidos
com o
peso de tua carne

Arqueia meu quadril
num
espasmo de luxúria


Cordel
ALGUNS TÍTULOS MARAVILHOSOS

A beata que mordeu a outra com ciúmes do vigário
(Cuíca de Santo Amaro, 1944)
Como Antonio Silvino fez o diabo chocar
(João Martins de Athayde, 1947)
Os sofrimentos da criada da princesa seduzida
(Moisés Matias de Moura, 1935)
História da moça que virou cavalo
(Rodolfo Coelho Cavalcante, s/d)
História do burro que matou seu próprio dono de faca - e o homem que matou a vaca e a vaca matou o homem com a mesma faca
(Moisés Matias de Moura, s/d)
História em versos de um jegue que matou um homem, a porca comeu a criança e a mulher morreu de choque, no município de Santana de Ipanema, Estado de Alagoas
(José Honório Oliveira, s/d)
A menina que morreu em Caicó e depois de 20 horas enviveceu - falou contra o comunismo e o protestantismo
(José Gomes da Silva, s/d)
A moça que mordeu o travesseiro pensando que fosse
Vicente Celestino

(Cuíca de Santo Amaro, s/d)
A moça que dançou com o diabo cantando Cintura Fina
(Manoel Camilo dos Santos, 1951)
A grande batalha do reino da bicharia
(José Bernardo da Silva, 1957)


DISCOS QUE ME EMOCIONAM (3 / 120)

Troubadours & Cantigas de Santa Maria, por René Clemencic / Clemencic Consort [Harmonia Mundi CD HMX 2901524.27 ]. Canções & cantigas medievais compostas pelos deuses da sonoridade encantatória: magia pura. As canções trovadorescas de amor cortês, belíssimas, são anônimas ou trazem as assinaturas de Bernard de Ventadour e Folquet de Marseille. As Cantigas de Santa Maria, com poucas exceções, foram recolhidas por Alfonso X, o Sábio, em pleno séc. XIII. [Aqui temos uma pequeníssima parte das 427 cantigas.] Já as canções dos trovadores são do séc. XI. As gravações são dos anos 70 do século passado. Um dos dez melhores discos de todos os tempos, segundo a minha leitura de "ouvinte feliz".
Nota: a reprodução das 427 peças recolhidas por Alfonso X, o Sábio pode ser vista no livro, em três volumes, Cantigas de Santa Maria, editado por Walter Mettmann (Madrid : Clásicos Castalia, 1989).

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A única diferença entre um santo e um pecador é que o primeiro tem um passado, enquanto o segundo tem um futuro. (Oscar WILDE)

quinta-feira, 13 de setembro de 2007


Arte/Fotografia
Sonho/Surrealidade
O devaneio & O digital
por
MARIAH
[ in Olhares ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2121
Rio, 13 de setembro de 2007



POEMA de
Benno Assmann
[ in Noites Insones ]

Deus
não sei se existe
mas acredito
na verdade
do alpiste
e seu dom
de realizar
o milagre do vôo
dos pássaros.


ENCONTRO
de Lisbeth Lima
[ in Flor de Craibeira ]

Trouxe-me a chuva
e, depois dela,
céu aberto, anil.

Trouxe-me a noite
e, dentro dela seu corpo chuviscado,
amanhecido junto ao meu.
Dia claro, céu aberto, abril.


GOSTO
de Maria Maria
[ in Espartilho de Eme ]

Gosto mesmo do imprevisível:
dos beijos suspensos no ar,
da voz que fala em silêncio;
do olho que diz sem falar.

Gosto mesmo do olhar,
da voz e do toque,
da língua e do choque.

Gosto...


FARSA
de Isabella Benício
[ in Brumas ]

quando a ausência
anoitece açoitando
meus dedos tentam
em vão
trabalhar como se fossem
os teus


Futebol
UM POUCO DE HISTÓRIA

Na segunda metade dos anos 20, os times mais populares do Rio eram o Vasco e o América. Como assim?, perguntarão muitos. Explica-se (cf. Mario Filho e o seu excelente O negro no futebol brasileiro): Flamengo, Fluminense e Botafogo eram clubes da zona sul, que só admitiam jogadores brancos (com raríssimas exceções) e, na quase totalidade, de "boa família". Dos três, o Flamengo era o mais popular por um motivo muito simples: como não tinha espaço para treinar, nos seus primeiros anos de existência, improvisava um campo na rua, para os lados da Praia do Russell, com os jogadores tendo contato direto com a meninada e os marmanjos das redondezas. Já com o América e o Vasco a história era outra: clubes da zona norte, admitiam jogadores brancos, pretos e morenos. Assim como, antes dos dois, o suburbano Bangu. O Flamengo só atingiria uma popularidade maior, superando os demais, a partir dos anos 30, sobretudo em função de Leônidas da Silva, o Diamante Negro, verdadeiro ídolo do povão, seja pelo futebol (cantado em prosa e verso por todos os amantes do bom futebol), seja pelo comportamento pouco usual para os padrões da época. Na mesma ocasião, jogou no Flamengo outro jogador negro fantástico: Domingos da Guia. [Em tempo: Leônidas jogou no Clube da Gávea, de 1936 a 1941 (antes jogara no Bonsucesso, Peñarol, Vasco e Botafogo); Domingos da Guia, de 1936 a 1943 (antes jogara no Bangu, Vasco, Nacional e Boca Juniors).]


UM BLOGUE PORRETA

Almanaque, de Marcos Faria.
Quase um saite. Quase uma revista.
Variedades. Literatura. Variedades.

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Em sessão fechada o Senado brasileiro pode tomar a decisão inédita de cassar o mandato de seu presidente. [Não cassou, infelizmente.] Por trás da decisão, além das questões de quebra de decoro, está o jogo não muito limpo do que fazer com o governo Lula. Dá vontade de dizer: quem for inocente nessa história, que jogue o primeiro voto! O que, é claro, não inocenta o senador Renan. (Flávio AGUIAR. Hoje é dia de Renan, in CartaMaior, 12/9/2007)

quarta-feira, 12 de setembro de 2007


A beleza e a expressão maior
de um olhar
na foto de Carlos Manuel Pereira
[ in 1000 Imagens ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2120
Rio, 12 de setembro de 2007



JOGOS FLORAIS
de Antonio Carlos de Brito (Cacaso)
[ in Grupo Escolar, 1974 ]

I

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

II

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.

Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com 2 esses
que se escreve paçarinho?)


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS (31c / 111)

Grupo Escolar, de Antonio Carlos de Brito. Rio de Janeiro : Coleção Frenesi, 1974. [Com dedicatória do Autor: "Para Moacy Cirne, sabendo que acima da revolução poética ou gráfica está a amizade. C/ um grande abraço do Cacaso, 6/74.] De um dos expoentes da "literatura alternativa" dos anos 70, este Grupo Escolar parece ser a síntese dos grilos e anseios políticos culturais de uma uma época marcada pelos vôos libertários e socialistas da juventude inquieta com a sua própria história fundada no pós-existencialismo e no pós-tropicalismo, perdida entre Marcuse, McLuhan e Althusser. Os versos de Cacaso, assim, adquiriam um tom irônico em relação ao fazer literário: "O poema anfíbio descansa/ sob meu olho educado".

Les murs ont la parole; Journal Mural Mai 68, citations recueillies par Julien Besançon. Paris : Tchou Éditeur, 1968, 180p. [] São mais de 1000 frases escritas com revolta, suor e lágrimas - e amor juvenil - nos muros da Sorbonne, do Odéon, de Nanterre, em Paris, no famoso Maio Francês de 1968. Eis aqui a história viva do momento/movimento em frases como:

| Exagerar é começar a inventar |
| Decreto o estado de felicidade permanente |
| Ser livre em 1968 é participar |
| Um homem não é estúpido ou inteligente: ele é livre ou não é |
| Todo poder abusa. O poder absoluto abusa de forma absoluta |
| Aqui, o espetáculo da contestação. Contestemos o espetáculo |
| A política se faz na rua |
| A Revolução deve se fazer nos homens
antes de se realizar nas coisas |
| Inventai novas perversões sexuais |
| É proibido proibir. A liberdade começa por uma proibição: a de prejudicar a liberdade de outra pessoa |
| A floresta precede o homem, o deserto o segue |
| A novidade é revolucionária, a verdade também |
| O álcool mata. Tome LSD |
| Contestação permanente |
| Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo |
| Deus é um escândalo, um escândalo que rende. Baudelaire |
| Criatividade Espontaneidade Vida |
| A morte é necessariamente uma contra-revolução |
| A vontade geral contra a vontade do general |
| A insolência é a nova arma revolucionária |
| A liberdade é a consciência da necessidade |
| Abaixo o orientalismo neo-exótico |
| Meus desejos são a realidade |
| Sonho ser um imbecil feliz |
| Sejam realistas, exijam o impossível |

| A imaginação no poder |
| Exagerar, eis a arma |

[ Nota: algumas dessas frases são releituras de textos
anarquistas e socialistas
]

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terça-feira, 11 de setembro de 2007


Há crepúsculos que, de tão belos,
desafiam qualquer imaginação,
mesmo a mais criadora, mesmo a mais sensível.

[Foto de Jose A. Gallego, in Photo Net ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2119
Rio, 11 de setembro de 2007



Repeteco
UM DIA TRÁGICO
[ in Balaio 1839, de 11 de setembro de 2006 ]

11 de setembro. Um dia trágico para a história da humanidade. 11 de setembro. Um dia terrível para a história das Américas. 11 de setembro... de 1973. A data que assinala uma vergonha mundial: golpistas chilenos, com o apoio estratégico dos governantes terroristas dos Estados Unidos da Morte, derrubam o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Uma data para não ser esquecida. Nunca. Anos depois, outro 11 de setembro atinge, dessa vez, o coração dos norte-americanos. Qual a grande lição do episódio de 2001: Quem com terrorismo fere com terrorismo será ferido.


Memória
EM 12 DE SETEMBRO DE 1973,
UM JORNAL SEM MANCHETE

"O socialista Salvador Allende é eleito presidente do Chile em 1970, em coalizão popular de que participam comunistas e outras forças à esquerda. Seu governo é desestabilizado e, em 11 de setembro de 1973, derrubado por um golpe militar ativamente apoiado pelo governo dos Estados Unidos. Implanta-se uma ditadura sanguinária responsável por execuções, massacres e tortura. Allende suicida-se em seguida ao golpe. No Brasil do general Médici, a Polícia Federal, através de telefonema do censor, determina que os jornais não podem tratar do caso em manchete. No Jornal do Brasil a primeira página já está arrumada. O editor-chefe [Alberto Dines, com Carlos Lemos como chefe de redação, e Ezio Speranza como diagramador] resolve desmoralizar a censura: desenha uma primeira página, sem título [em quatro colunas], como queriam as autoridades, mas com um texto dramatizado tipograficamente. O silêncio mais clamoroso já registrado na imprensa do país". (Alberto DINES, org. 100 páginas que fizeram história. São Paulo : LF&N, 1997)


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS (31b / 111)

Poemas escolhidos, de Gregório de Matos. Sel., int. & notas José Miguel Wisnik. São Paulo : Cultrix, 1976, 334p. [] "Na obra enorme de Gregório de Matos, desfigurada em parte pela sua má preservação, com todos os seus desvãos, suas lacunas e seus descompassos, fica certamente um saldo de problemas e de possibilidades que ultrapassa em muito os limites dos demais poetas do Brasil colonial, e que o fazem, seguramente, um dos poetas mais instigantes da nossa literatura. ... Além disso, o seu itinerário desloca efetivamente os eixos da poesia acadêmica, auto-satisfeita na sua própria retórica. ... a mobilidade insatisfeita da poesia de Gregório de Matos acaba sendo um sinal do seu melhor inconformismo" (Introdução, p.27). Há que notar: a seleção de poemas é a mais criteriosa possível.

Imagem-máquina; a era das tecnologias do virtual, de André Parente (org.). Rio de Janeiro : Ed. 34, 1993,300p. [] São muitos os ensaios, nesta seleção, que nos fazem refletir sobre as novas tecnologias do "fazer cultural", entre os quais As imagens de terceira geração, tecno-poéticas (por Julio Plaza), As imagens artísticas e a tecnociência (Frank Popper), Passagens da imagem: pintura, fotografia, cinema, arquitetura (Nelson Brissac Peixoto), Poeira nos olhos (Jean-Paul Fargier), Da produção de subjetividade (Félix Guattari), A imagem virtual mental e instrumental (Paul Virilio). Há também textos de Arlindo Machado, Rogério Luz, Jean-François Lyotard e outros. Apesar do considerável avanço das tecnologias virtuais, sob vários aspectos ainda é um livro para ser lido com a devida atenção crítica.

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Não há livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos. É tudo. (Oscar WILDE. A esfinge e seus segredos /máximas e citações/, por Marcello Rollemberg [org., trad. & apresentação]. Rio de Janeiro : Record, 2000, p.69)

segunda-feira, 10 de setembro de 2007


De São José da Bonita a São José do Seridó
no Rio Grande do Norte
são 90 anos de história
são 90 anos de emoções.
Jardinense e caicoense
caicoense e jardinense
por lembranças & afeições
sertanejo de 90 mil crepúsculos
aqui nasci
nasci aqui
nas lonjuras de 43
nas lonjuras da Caatinga Grande
quando São José ainda era um distrito de Jardim.
E no encontro dos três municípios
- Jardim, Caicó, São José
São José, Caicó, Jardim
-
eu me procuro e me acho
simbolicamente transfigurado
na Passagem das Traíras
na Geometria das Pedras
no Despertar das Águas.

(Moacy Cirne)


BALAIO PORRETA 1986
nº 2118
Rio, 10 de setembro de 2007


Memória
UMA SENTENÇA JUDICIAL DE 1833
na Villa de Porto da Folha, Sergipe
(de acordo com vocabulário, estilo e ortografia da época)

"O adjunto Promotor Público representou contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora de Sant'Anna quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto della, o supracitado cabra que estava de tocaia em moita de matto, sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem roía brocha, para coisa que não se pode traser a lume, e como ella se recusasse, o dito cabra atrofou-se a ella, deitou-se no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará, não conseguio matrimônio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreyo Correia e Clemente Barbosa, que prenderam o cujo flagrante e pediu a condenação delle como incurso nas penas de tentativa de matrimônio proibido e a pulso de sucesso porque dita mulher taja peijada e com o sucedido deu luz de menino macho que nasceu morto.

As testemunhas, duas são vista porque chegaram no flagrante e bisparam a perversidade do cabra Manoel Duda e as demais testemunhas de avaluemos. Dizem as leises que duas testemunhas que assistem a qualquer naufrágio do sucesso faz prova, e o juiz não precisa de testemunha de avaluemos e assim:

Considero - que o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento, por quem roía brocha, para coxambrar com ella coisas que só o marido della competia coxambrar, porque eram casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana.

Considero - que o cabra Manoel Duda deitou a paciente no chão e quando ia começar as suas coxambranças viu todas as encomendas della que só o marido tinha o direito de ver.

Considero - que a morte do menino trouxe prejuízo a herança que podia ter quando o pae delle ou [a] mãe falecesse.

Considero - que o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quiz também fazer coxambranças com a Quitéria e Clarinha, que são moças donzellas e não conseguio porque ellas repugnaram e deram aviso a polícia.

Considero - que o cabra Manoel Duda está preso em pecado mortal porque nos Mandamentos da Igreja é proibido desejar do próximo [o] que elle desejou.

Considero - que sua Magestade Imperial e o mundo inteiro, precisa ficar livre do cabra Manoel Duda, para secula, seculorum amem, arreiem dos deboxes praticados e para as fêmeas e machos não sejam mais por elle incomodados.

Considero - que o cabra Manoel Duda é um sujeito sem vergonha que não nega suas coxambranças e ainda faz isnoga das encomendas de sua víctima e por isso deve ser botado em regime por esse juízo.

Posto que:

Condeno o cabra Manoel Duda pelo malefício que fez a mulher de Xico Bento e por tentativa de mais malefícios iguais, a ser capado, capadura que deverá ser feita a macete.


A execução da pena deverá ser feita na cadeia desta villa. Nomeio carrasco o carcereiro [e] solte o cujo cabra para que vá em paz. O nosso Prior aconselha: Homine debochado debochatus mulherorum inovadabus est sentetia qibus est macete macetorim carrascus sine facto nostre negare pote.

Cumpra-se e apregue-se editaes nos lugares públicos. Apello ex-officio desta sentença para juiz de Direito desta Comarca.

Porto da Folha, 15 de outubro de 1833
Assinado:
Manuel Fernandes Santos,
Juiz Municipal suplente em exercícios."

[ Fonte : Instituto Histórico de Alagoas ]

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domingo, 9 de setembro de 2007


Grandes momentos do cinema:
Pickpocket (Robert Bresson, 1959)
"O cinema antinarrativo [apesar de sua semioticidade narracional], desdramatizado, enxuto, seco de Bresson: o anti-espetáculo por excelência. Despojado de qualquer recurso formalista, suas afinidades estéticas podem se voltar, entre poucos outros, para os cinemas de Dreyer e Straub [& Huillet], o primeiro em sendo espiritualista, o segundo em sendo materialista: a interiorização do estar-no-mundo. Mesmo que seja através de um batedor de carteiras, como aqui". (Moacy Cirne. Luzes, sombras e magias. Natal : Sebo Vermelho, 2005, p.105)


BALAIO PORRETA 1981
nº 2117
Rio, 9 de setembro de 2007



POEMA de
JOSÉ ANTONIO
[ in Verbo e Devaneio, de Giovanna ]

Vende-se sol.
Negócio de ocasião.
Aceito troca por noites sem lua.


DA FALTA DE INSPIRAÇÃO
Poema de
LINALDO GUEDES
[ in Zumbi Escutando Blues ]

às vezes
a dificuldade do poema
está
no olhar que não surge

na blusa
que a musa
teima em usar


POEMA de
MÁRIO COIVARA
[ in Faca de Fogo ]

não sei das possibilidades do beijo. só alcancei a infância.


ZINGU! ZINGU!

Mais um número nas bancas virtuais da blogosfera:
Costinha / Antonioni / O Amigo da Onça.
Mais um número polêmico.
Para ser visto, sim.
Com atenção.


UM BLOGUE PORRETA

Pickpocket, de Lucian Chaussard.
Críticas breves e inteligentes.
Um olhar penetrante voltado para o cinema.

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Nossos agradecimentos àqueles que, ontem e sempre, nos prestigiaram nestes 21 anos de Balaio: o Balaio Incomun cujo início se deu no interior da UFF, em Niterói, no já distante 8 de setembro de 1986, em sua fase xerográfica, e que, a partir de 29 de outubro de 2003, como blogue, transformou-se em Balaio Vermelho / Balaio Porreta.

sábado, 8 de setembro de 2007


Hoje é dia de festa no Maranhão: 395 anos de sua capital

De comum acordo com o blogue
Os Morcegos
apresentamos
AS SETE MARAVILHAS DE SÃO LUÍS
segundo
Dilberto Lima Rosa:

1. Praia de São Marcos
(a começar pela Pedra da Memória, com dois canhões, assinalando onde um dia foi o Forte de São Marcos: início da Avenida Litorânea);
2. Teatro Artur Azevedo
(na Rua do Sol, um bom exemplo das ladeiras de São Luís,
no Centro);
3. Avenida e Praça Dom Pedro II
(com os prédios Palácio dos Leões, Tribunal de Justiça, Palácio La Ravardière e Catedral da Sé);
4. Rua Portugal
(de paralelepípedos, com os sobradões de azulejos e os telhados históricos, como em toda a área conservada do Projeto reviver, e seus museus e casas de artesanato);
5. Rua da Estrela
(cheia de casarões seculares, que desemboca no Convento das Mercês; lindo, mas de propriedade de José Sarney, que tomou de assalto para ser sua "Fundação Republicana" só com coisas dele, quando no poder no Maranhão! Bela vista do fim do Rio Bacanga ao encontro da baía de São Marcos);
6. Largo dos Amores
(Igreja de Nossa Senhora dos Remédios e Praça Gonçalves Dias, com vista para a Beira-Mar e o fim do Rio Anil);
7. Fonte do Ribeirão
(donde se vê, por pequenas aberturas, parte das Galerias Subterrâneas, túneis escuros ainda não totalmente descobertos, que ligam igrejas seculares e onde estaria a Serpenste que, se acordada, afundaria a ilha: lenda local).


BALAIO PORRETA 1986
Desde 8/9/1986
nº 2116
Rio, 8 de setembro de 2007



21 anos de Balaio
21 MOMENTOS MÁGICOS
PARA UMA TEMPORADA DE 21 MESES EM SÃO SARUÊ
- não necessariamente os melhores, nem os mais importantes -
(sem ordem preferencial)

[] Vésperas da Virgem, de Monteverdi, por Jordi Savall
[] Suítes para violoncelo, de Bach, por Anner Bylsma, grav. 1979
[] Troubadours & Cantigas de Santa Maria, por René Clemencic
[] Quartetos opus 64, nºs 2, 4 & 5, de Haydn,
por Quatuor Mosaïques
[] Dom Quixote, de Cervantes
[] Hamlet, de Shakespeare
[] Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa
[] Poesia completa e prosa, de Murilo Mendes
[] Blow-up, de Antonioni
[] As férias do Sr. Hulot, de Tati
[] Cantando na chuva, de Kelly & Donen
[] Era uma vez no Oeste, de Leone
[] The Spirit, de Eisner
[] Krazy Kat, de Herriman
[] Corto Maltese, de Pratt
[] Arzach, de Moebius
[] A love supreme, de Coltrane
[] Kind of blue, de Davis
[] Vibrações, de Jacob do Bandolim
[] Da Palestina ao Seridó, de Ubaldo, Totó & Urbano Medeiros
[] A ave, de Wlademir Dias Pino, ou O Brasil de Marc Ferrez (fotos)

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O vento liberta-se ventando.
(Murilo MENDES. Textos sem rumo [1964-66], in Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar, 1995, p.1459)

sexta-feira, 7 de setembro de 2007


Arte digital através da fotografia
de
Mariah [ in Olhares ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2115
Rio, 7 de setembro de 1822

CHEGANÇA
de Sílvia Câmara (BA)
[ in Brisa Poética
]

A poesia vem
invade
inverte
preenche.
Ah! Deus
a poesia subverte.
Amém!


TRÊS POEMAS
de Moacy Cirne (RN/RJ)
[ in Cinema Pax, 1983 ]

FORDIANA

banguebanguelafumenglória
de mocinhos e bandidos
no sertão marciano

longelonge do meu seridó

EISENSTEINIANA

a revolução
(sangue, suor e carne)
é violenta como o vermelho
dos crepúsculos de
outubro
e doce como o cheiro de
terra molhada

GLAUBERIANA

o cantador tece a trama
com os olhos fixos
no sertão
o poeta desenha a epopéia
com os pés fixos
no chão


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS (31a / 111)

Nosferatu, de Philippe Druillet. Paris : Dargaud, 1978, 64p. [] Do expressionismo cinematográfico de Murnau ao expressionismo quadrinhográfico de Druillet, com referências existenciais e futuristas que atestam a qualidade estética de um preto&branco marcante. Uma obra-prima dos quadrinhos franceses dos anos 70.

Le petit cirque, de Fred. Paris : Dargaud, 1973, 64p. [] Entre a fantasia e a poesia, com toques metalingüísticos que beiram o surrealismo, mesmo que ingênuo, eis um quadrinho cujos traços e cores (em tom pastel) surpreendem pela qualidade e pela sensibilidade gráfica. Fred, para quem não sabe, é o criador do extraordinário Philémon.


UM CERTIFICADO PARA O BALAIO

O blogueiro, cronista e autor teatral Marco, do ótimo Antigas Ternuras, concedeu um Certificado Blog para o Balaio. E agora é preciso indicar cinco blogues que o mereçam. Não é tarefa fácil já que, por exemplo, mais de 30 já receberam o nosso Blogue Porreta e mais uns 20 ou 25 ainda deverão recebê-lo nos próximos meses. Mesmo assim, sem desmerecer os demais, claro, apontamos cinco que, de acordo com o estabelecido, nomearão mais cinco. E assim por diante. E assim por diante. E assim por diante.

Eis os cinco, portanto, entre aqueles
que já foram contemplados com o Blogue Porreta:
Marconi Leal, do próprio
O Refúgio, de Sandra Camurça
Toca do Jens, de Jens
Isso é Bossa Nova, de Sandra Leite
Poesia na Veia, de Fernanda Passos

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Nunca estamos em nós; estamos sempre além. O temor, o desejo, a esperança jogam-nos sempre para o futuro, sonegando-nos o sentimento e o exame do que é, para distrair-nos com o que será, embora então já não sejamos mais. (Michel de MONTAIGNE. Ensaios [1580]. Trad. Sérgio Milliet. Porto Alegre : Gobo, 1961, p.105/v.1)


quinta-feira, 6 de setembro de 2007


O sol deixa na queda
Um céu de panos roxos
O chão que imita pedra.

Manhã na alma.
A tarde arde
A noite acalma.
...
(Diógenes da Cunha Lima,
in Os pássaros da memória, 1994)

[ Foto de Carlos Carvalho, in Photo Net ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2114
Rio, 6 de setembro de 2007



ENTÃO TÁ
de Ademir Antonio Bacca (RS)
[in Germina Literatura ]

Que tua boca
Diga não
Mesmo que teus olhos
Digam sim.

Que teu corpo
Diga não
Mesmo quando tua boca
Disser sim.

Que teus olhos digam não
Quando tudo em ti
Disser sim.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS (30c / 111)

Cien años de soledad [1967], de Gabriel García Márquez. [Madrid :] Real Academia Española ; Asociación de Academias de la Lengua Española, 2007, 610p. [] Edição comemorativa dos 40 anos da obra máxima de García Márquez, reconhecidamente uma das mais vibrantes de toda a América Latina. Com textos de Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa, entre outros, além de oportuno glossário. A edição brasileira, traduzida por Eliane Zagury, traz o selo d'O Globo.

Os frutos da terra [1917], de André Gide. Trad. Sérgio Milliet. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1982, 200p. [] Poeticamente: "Que a importância esteja em teu olhar, não na coisa olhada" (p.18). E mais: "Todo ser é capaz de nudez; toda emoção, de plenitude" (p.20); "O sábio é quem com tudo se espanta" (p.26); "Surdem da terra mais nascentes do que as sedes que temos de beber" (p.99). Completa a edição Os novos frutos, de 1935.

Prosa do observatório, texto & fotos de Julio Cortazar. Trad. Davi Arrigucci Júnior. São Paulo : Perspectiva, 1974, 82p. [] "Cortázar revém, reinventado, reinventando: sinuoso, elástico, irônico, erótico, revolucionário: enguias, estrelas, estrias nos açudes celestes em que a perseguição persiste com a proposição de um novo perscrutar: metáforico, metafísico, féerico, fálico, telescópico: abarcante desejo cósmico de abraçar num só ato tudo de uma vez" (DAJr.)

A poética de Maiakóvski, de Boris Schnaiderman. São Paulo : Perspectiva, 1971, 300p. [] Ensaios, ensaios: para uma arte revolucionária da civilização industrial. Maiakóvski, a tradição e a modernidade. A poesia, a prosa e o "texto" como experiência. Poética e vida, vida e poética. Seleção de artigos & documentos, entre os quais Como fazer versos, de 1926: "A poesia é uma forma de produção. Dificílima, complexíssima, porém produção" (p.201).

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Nossos desejos já atravessaram muitos mundos;
Nunca se fartaram.
E a natureza inteira se atormenta
Entre a sede de repouso e a sede de volúpia.
(André GIDE. Os frutos da terra, p.77)

quarta-feira, 5 de setembro de 2007


Serenidade. Azulência.
Foto de Regina Lopes
in Meu Porto


BALAIO PORRETA 1986
nº 2113
Rio, 5 de setembro de 2007



POEMA de
Miguel Cirilo
(São José do Seridó, RN)
[ in Os elementos do caos, 2ª ed. 2001 ]

o corpo branco no chão
não faz esforço.
a luz circula na intimidade.
a nudez é antiga,
o quarto também.
as palavras estão se arrumando
para um novo poema.
as coisas, postas em sossego
repousam de qualquer modo.
anônima é a presença da noite.
os chinelos esperam.
eles não sabem, mas esperam.
- pode alguém exigir mais para dormir?


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS (30b/ 111)

Corpo de baile, de João Guimarães Rosa. Capa de Poty. Rio de Janeiro : José Olympio, 1956, 2v., 822p. [Adquirido no sebo da Livraria São José, no Rio] Sete novelas, sete obras-primas. No primeiro volume (Os romances): Campo geral, A estória de Lélio e Lina, Dão-Lalalão (um texto absolutamente genial; talvez o melhor dentro da obra roseana, depois de GS:V), Buriti. No segundo volume (Os contos): Uma estória de amor, O recado do morro, "Cara-de-Bronze". Na segunda edição, em 1960, em um só volume (514p.), a ordem das novelas - nomeadas como poemas - é diferente.

A dama do cachorrinho e outros contos, de Tchekhov. Trad. Bóris Schnaiderman. São Paulo : Max Limonad, 1985. 358p. [] Execpcional seleção da produção contística do grande escritor russo - e autor teatral - Antón Tchechov (1860-1904). Há verdadeiras preciosidades literárias: Nos banhos, A morte do funcionário, Crime premeditado, Um dia no campo, Sonhos, Vanka, Gente supérflua, Na primavera, Angústia, Bilhete premiado, Olhos mortos de sono (para muitos, o seu melhor trabalho), Um caso clínico, Homem sem estojo, Queridinha, A dama do cachorinho. Ao todo, 37 contos.


UM BLOGUE PORRETA

Agreste, de Manoel Carlos Pinheiro.
Política, literatura e cultura, da nordestina à africana.
Blogue antiLula a partir de uma militância prestista.

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Quando a riqueza de poucos afronta a miséria de muitos, a insegurança é de todos. (Josué de CASTRO, citado por Manoel Carlos Pinheiro, em seu blogue.)

terça-feira, 4 de setembro de 2007


A RELIGIOSIDADE MÍSTICO-MEDIEVAL-SERIDOENSE
dos nossos dias encontra em Urbano Medeiros [foto], nascido em São João do Sabugi, sertão do Rio Grande do Norte, o seu representante mais criativo, mais inquieto, mais instigante no solo fértil da sonoridade brasileira, com seu saxofone dos deuses e das terras potiguares, hoje igualmente mineiras. (Urbano, adoentado, com problemas cardíacos, há alguns anos reside em Pará de Minas, com sua família; seus irmãos Totó e Ubaldo Medeiros, igualmente músicos da melhor qualidade, continuam no Rio Grande.) Ouso dizer, como ouvinte feliz, que ele é um dos poucos gênios vivos da nossa música, ao lado de um Naná Vasconcelos, de um Elomar, de um Paulinho da Viola, de um Tom Zé, de um Hermeto Pascoal, de mais dois ou três nomes de um país chamado Brasil. Ontem mesmo, fiquei horas e horas ouvindo Sopro bizantino, produção independente. Aliás, Urbano acaba de lançar um disco de choros, que ainda não ouvi. Mas, levando em conta a sua obra anterior, que inclui o antológico Da Palestina ao Seridó, em parceria com os irmãos, deve ser coisa rara, coisa preciosa. (Contatos: [37]3231-1332)

[ Foto de José Eustáquio Manso, in Olhares, em 28/4/2007 ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2112
Rio, 4 de setembro de 2007



CANTIGA PARA UM DIA AMUADO
de Mário Coivara (CE)
[ in Faca de Fogo ]

encontro, para teu ofício de fêmea, uma lasca de carinho.


DOIS POEMAS

de Adelaide de Julinho (MG)
[ in Germina Literatura ]

quase impossível

difícil convivência:
ele, superego,
eu, superégua

8 de macho

nasci pra isso:
ou fico por cima,
ou não saio debaixo


POESIA, BUSCA DA GEMA
de Afonso Henriques Neto (RJ)
[ in 50 poemas escolhidos pelo Autor, 2003 ]

poesia, busca da gema nos destroços,
música, bicho
naufragado no conhaque do sol

agora que sei ler a biópsia do desastre
quero você num maremoto de flores,
amanhecida, anoitecida, bêbada de flores


FEIRA DE CITAÇÕES ESPORRENTAS

[] O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.
(Albert CAMUS)
[] Coisas impossíveis, é melhor esquecê-las do que desejá-las.
(Luiz vaz de CAMÕES)
[] É melhor acender uma pequenina vela do que maldizer a escuridão. (CONFÚCIO)
[] Todos os grandes avanços da Ciência nasceram de uma nova audácia da imaginação. (DEWEY)
[] Triste não é mudar de idéia. Triste é não ter idéia para mudar. (Francis BACON)
[] Crê nos que buscam a verdade. Duvida dos que a encontraram. (André GIDE)

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... eu acho que todo fotógrafo [de cinema] tem que ter uma boa formação visual do que veio antes e do que veio depois. Porque a fotografia tem muito a ver com a gramática visual. (Mário CARNEIRO. Entrevista por Lauro Escorel, in ABCINE, cf. Textos)

segunda-feira, 3 de setembro de 2007


E o Criador disse: Faça-se a Luz!
E a Luz se fez Mulher.
(Na foto de Carlos Manuel Pereira, para 1000 Imagens)


BALAIO PORRETA 1986
nº 2111
Rio, 3 de setembro de 2007



SETEMBRO, O9, 20:30
de Márcia Maia (PE)
[ in Tábua de Marés, 9/9/2004 ]

céu claro, sem lua
e um silêncio
repleto de estrelas


CADERNO DE ANDARILHO
/ fragmentos /
de Manoel de Barros (MT)
[ in Concerto a céu aberto para solos de ave, 1991 ]

Sapo de noite arregala o olho pra desmedir a saudade.
*
Cheio de vogais pelas pernas vai o caranguejo soletrando-se.
*
Certas palavras delinqüem como qualquer farmacêutico.
*
Os girassóis têm dom de auroras.
*
Lugar onde lua entra morcego desprefere.
*
Quando as sombras avançam na estrada é preciso aldear.


DESENCONTRO
de Mary (RN)
[ in Versos DeLírios ]

eu invento falta de tempo
para escapar
dessa falta de química


Humor
MULHER SUSPEITA
por Armando Negreiros (RN)
[ in Viva a Verve!, 2000 ]

Conhecido político paraibano, Raimundo Asfora, era notório pelas farras desmanteladas que fazia. Certa feita, já de meio lastro a queimado, acompanhado por duas gazelas cuja profissão o vulgo, erradamente, chama de "mulher de vida fácil", tentou entrar no clube mais elitista de Campina Grande, segunda maior cidade da Paraíba. O porteiro, respeitosamente, posto que Raimundo era deputado, o advertiu:
- As acompanhantes não podem entrar.
- Qual o motivo?
- São mulheres suspeitas.
- Suspeitas? Essas duas? De maneira nenhuma! Essas duas são putas, as suspeitas estão aí dentro.


UM BLOGUE PORRETA

Cidade dos Reis
, de Mário Ivo Cavalcanti.
Natal, poesia e literatura.
Humor, gente, cinema, política & memórias.

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É lei da história literária: sempre que a vida coletiva se agita de novas ansiedades e inquietações, não é fácil resistir ao abalo, por mais que a delicadeza da sensibilidade a ele se furte. É pois natural que a arte saia da torre de marfim e procure intervir nos esforços de renovação. (Hernâni CIDADE. O conceito de poesia como expressão da cultura. Coimbra : Arménio Amado, 1957, p.275)

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Adeus,
MÁRIO CARNEIRO
(1930-2007)
- o cinema brasileiro está de luto.

domingo, 2 de setembro de 2007


A imagem e o crepúsculo.
Depois da tempestade.
Por Julio Segura [ in PhotoNet ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2110
Rio, 2 de setembro de 2007


POEMA de
Alexandre Lourenço
[ in Balaio 1215, 13/10/1999]

O amor impossível
não se intimida com os crepúsculos
de cimento azul.
Nem com as catedrais
grávidas de silêncios barrocos.
O amor impossível
constrói sua geometria do imprevisível.
E se basta em sua impossibilidade desenhada
pelo vôo noturno da gaivota de papel e melancia.


POEMA de
Zé Limeira
[ Republicado in Balaio 1213, de 14/10/1999 ]

Quando D. Pedro II
Governava a Palestina
E Dona Leopoldina
Devia a Deus e ao mundo
O poeta Zé Raimundo
Começou a capar jumento.
Daí veio um pensamento:
Tudo aquilo era boato.
Oito noves fora quatro,
Diz o Velho Testamento.


MÁXIMAS E MÍNIMAS DE STANISLAW PONTE PRETA
[ in Máximas inéditas de Tia Zulmira, 1976 ]

[] Bebia muito sim e nunca teve ressaca. Tinha mesmo era maremoto.
[] Crer em Deus é fácil. Nos padres é que é difícil.
[] Quando um amigo morre leva um pouco da gente.
[] Quem assiste à programação noturna da televisão não é capaz de imaginar que a diurna é pior.
[] Há sujeitos tão inábeis que sua ausência preenche uma lacuna.


APELIDOS SERTANEJOS
[ in No tempo de Lampião, 1930, de Leonardo Mota ]

Barata descascada : Menino muito alvo
Cara de milagre : Sujeito muito feito
Carrapeta doida : Sujeito irrequieto
Prego dourado : Menino louro
Saca de lã : Mulher corpulenta
Tatu enfezado : Sujeito baixinho
Venta de ripulego : Que tem o nariz achatado


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS (30a / 111)

Trilhas no Grande Sertão, de M. Cavalcanti Proença. Rio de Janeiro : MEC, 1958, 104p. /Os Cadernos de Cultura, nº 114/ [] Provavelmente, o primeiro estudo sério sobre a obra maior de Guimarães Rosa, quando o Autor - com inegável competência crítica - analisa, por exemplo, 'Don Riobaldo do Urucuia, cavaleiro dos Campos Gerais' ou 'O plano mítico' do GS: V. Neblinuras, inaugurências, supersticionamentos: o sertão é o Sertão. Com sua luz, sua aridez, seus espantos, suas memórias. Com seus bichos. Com sua gente. Sempre. Sempre. A verdade é que, até hoje, "O embalo das frases de Grande Sertão: Veredas ainda persiste": um embalo de rede, doce, generoso e suave, que não quer acabar nunca. Nunca.

Panaroma do Finnegans Wake, de Augusto e Haroldo de Campos. São Paulo : Conselho Estadual de Cultura, 1962, 88p. [Há uma segunda edição, ampliada, pela Perspectiva, em 1971] Seleção de fragmentos da mais radical entre as mais radicais obras literárias do século XX, no campo da experimentalidade formal: "Ati mimlênios fim. Till thousendsthee. Lps. Lps. As chaves para. The keys to. Dadas! Given! A via a uma a una amém a mor além a riocorrente, depois de Eva e Adão, do desvio da praia à dobra da baía, A way a lone a last a loved a long the riverrun, past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend of bay, devolve-nos por um cômodo vicus de recirculação de volta a Howth Castle Ecercanias". Fimprincípio. Joycecampos. Princípiofim.

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Há vinte anos atrás, se me perguntassem o que valia mais, se o autor, se a idéia, eu responderia sem hesitar que o autor. Agora já não sei mais, vivo incerto. O homem é coisa sublime, porém se as idéias prevalecessem sobre os homens, já de muito que a paz teria pousado sobre a terra. E ando saudoso da paz. (Mário de ANDRADE, A elegia de abril [1941], in Aspectos da literatura brasileira. São Paulo : Martins, s/d, p.195)

sábado, 1 de setembro de 2007


Brief encounter / Desencanto (David Lean, 1945).
Um dos filmes mais sensíveis e delicados da história do cinema, em seu doce e suave romantismo, apesar de todo o amargor de suas premissas conteudísticas. A trama de um comovente amor destinado ao fracasso e à acomodação. Mas é preciso entendê-lo no contexto de uma situação que, em sendo aparentemente provinciana, com os valores da classe média inglesa dos anos 40 do século passado, aponta para os mistérios de encontros e desencontros que não se resolvem ao nível dos sentimentos. Há o encanto dos primeiros olhares e gestos. E há um certo desencanto, no final. Com roteiro de Noel Coward, fotografia de Norman Krasker e interpretação de Celia Johnson, Trevor Howard e Stanley Holloway nos principais papéis. Comentário musical de Rachmaninov.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2109
Rio, 31 de agosto de 2007



Memória 1967
OS MELHORES FILMES DO CINEMA
segundo o crítico paulista
Carlos Motta
[ in Filme Cultura, nº 7, out.-nov. 1967 ]

1. O Anjo Azul (Sternberg, 1930); 2. Êxtase (Machaty, 1933); 3. M, o vampiro de Dusseldorf (Lang, 1931); 4. Juventude (Bergman, 1950); 5. Morangos silvestres (Bergman, 1957); 6. O morro dos ventos uivantes (Wyler, 1939); 7. Cidadão Kane (Welles, 1941); 8. Um rosto na noite (Visconti, 1957); 9. Madre Joana dos Anjos (Kawalerowicz, 1961); 10. Sede de paixões (Bergman, 1949); 11. 30 anos esta noite (Malle, 1963); 12. O grito (Antonioni, 1957); 13. Vida privada (Malle,1962); 14. Um corpo que cai (Hitchcock, 1958); 15. A marca da maldade (Welles,1958); 16. Dois destinos (Zurlini, 1962); 17. Rocco e seus irmãos (Visconti, 1960); 18. Rainha Cristina (Mamoulian, 1933); 19. Arma fatídica (Sugawa, 1960); 20. Broto para o verão (Molinaro, 1960).
Nota do Balaio: Há um dossiê Carlos Motta na Zingu!, revista eletrônica bastante competente, por mais polêmica que seja.


OS EQUÍVOCOS DE RUBEM FONSECA

O ficcionista Rubem Fonseca é um escritor dos mais criativos. Tenho o maior apreço por sua literatura. Contudo, o seu artigo Cinema e literatura, editado ontem pelo ótimo saite Substantivo Plural, originalmente publicado no Portal Literal, é um horror em termos críticos. Primário, equivocado, preconceituoso e rasteiro nas informações básicas, condena o cinema por ser supostamente uma "arte híbrida" (ignorando toda a intertextualidade semiótica da linguagem cinematográfica, devidamente estudada desde os anos 50) em detrimento de uma "arte completa", no caso, a ópera. Sua argumentação chega a ser ridícula, para não dizer irritante.

E mais: em comparação com o discurso literário, o cinema, cujos grandes clássicos seriam "datados", não resistiria ao tempo. Mozart e Dom Quixote são eternos (concordo!); os filmes do passado, não! Todos eles nada mais dizem, a não ser para cinéfilos (decerto, neuróticos) que ainda veriam novidades em seus recursos estilísticos e dramáticos. Só um desqualificado em se tratando da história das formas cinematográficas teria esse raciocínio. Dentro de sua lógica, a (boa) literatura implica polissemia e participação criativa por parte do consumidor; o cinema, não. Decididamenmte, o sr. Rubem Fonseca não conhece os grandes filmes do cinema. Nunca viu 2001, Marienbad, A aventura, entre muitos outros marcados justamente pela ambiguidade polissêmica. Tem mais: o Sr. Fonseca vale-se de exemplos igualmente ridículos para afirmar, com outras palavras, que um bom livro será sempre superior a qualquer adaptação cinematográfica. Comete aqui o mesmo erro de outros literatos (ilustres ou não), quando se perdem em leituras comparativas equivocadas.

Tomemos o exemplo clássico de O processo, livro e filme. Quando de seu lançamento, em 1962, foi acusado de ser um filme supostamente ruim por não ser kafkiano. Ora, a obra de Kafka - para o genial Orson Welles - serviu de matriz temática; jamais poderia ser, no caso dele (ou de qualquer outro grande nome do cinema), uma simples matriz de origem estética. Kafka é intimista, contido, singular em sua angustialidade; Welles é dionisíaco, neobarroco, exuberante. A única leitura comparativa plausível, no caso, seria relacionar o filme: a) com outros filmes do próprio Welles; b) com a produção cinematográfica da época; c) com o pensamento estético-informacional vigente. E a partir daí poder-se-ia discutir, inclusive, a relação do cinema com a literatura. Afinal, O processo de Kafka é uma obra-prima da literatura, assim como O processo de Welles é uma obra-prima do cinema. São discursos diferentes, linguagens diferentes, com seus códigos específicos. Teria sido mais honesto, por parte do sr. Fonseca, se ele simplesmente admitisse que não gosta de cinema, a não ser como diversão descartável. De minha parte, se me fosse dada a seguinte e terrível questão: "Em se tratando de arte seqüencial, escolha dez obras para uma temporada de anos e anos numa ilha deserta", eu escolheria, então, quatro livros, quatro filmes e dois álbuns de quadrinhos. E tentaria negociar com os meus juízes mais dois álbuns de HQs.


UM BLOGUE PORRETA

Os Intocáveis, de Gabriel Carneiro
De cinéfilo para cinéfilos:
o bom cinema em pauta, seja o clássico, seja o brasileiro.

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... ainda conservo das minhas aventuras literárias, aquela audácia de poder errar ... (Mário de ANDRADE, A elegia de abril [1941], in Aspectos da literatura brasileira. São Paulo : Martins, s/d, p.185)