domingo, 14 de outubro de 2007


Lanterns,
de Dmitry Chebotarev
[ in Meu Porto ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2136
Rio, 14 de outubro de 2007


DOIS POEMAS
de Adelaide do Julinho (MG)
[ in Controversos ]

Aurora

de quatro
papaimamãe
chupeta
oh! que saudades que tenho
da minha infância querida

Esperando Godot

Pela última vez, filhinha: quem é o pai?
Não sei, mãe, tava escuro


GLOSSÁRIO SERIDOENSE: MAIS ALGUNS EXEMPLOS (2)
de Max Antonio Azevedo de Medeiros (RN)
[ in Palavreado cá de nós. Caicó, 2007 ]

Apiolado : Doido; Desmiolado.
Apocado : Acanhado; Envergonhado.
Apragatado : Achatado; Esmagado.
Aprochegado : Chegado; Aproximado; Amigo íntimo.
Arataca : [Armadilha para capturar pequenos animais]
Arengar : Brigar; Discutir.
Arenzê : Barulho; Zoada; Alarido.
Arisia : Conversa fiada; Mentira; Papo furado.
Aritica : Coisa nenhuma.
Arretado : Legal; Bacana; Bonito; Elegante.
Arromba-peito : [Cigarro de palha, feito com fumo forte]
Arroz-de-festa : [Indivíduo assíduo freqüentador de festas]
Arrudião : [No futebol, o drible da vaca]
Atochar : Fazer entrar de qualquer maneira; Apertar.
Atubibar : Perseguir; Aporrinhar; Importunar.
Azucrinar : Atananazar; Aborrecer; Aperrear.
Baixa-da-Égua : Lugar indeterminado.
Baixio : Terras de boa qualidade no sertão.
Bate-saco : O ato sexual; Cópula; Coito.
Beradeiro : Matuto; Simplório; Otário; Caipira.
Bife-do-oião : Ovo estrelado.
Bode : Confusão; Complicação [Indivíduo namorador]
Bololô ; Desordem; Briga; Confusão; Arruaça.
Brechar : Espiar; Olhar escondido; Olhar pelas brechas.
Bucho-furado : [Indivíduo que não guarda segredos]
Buchuda : Grávida.
Bunda-cagada : [Indivíduo insignificante, sem importância]
Buceta : Bacurinha; Bandeirinha; banguela; Barbuda; Beloncha; Buçanha; Cara-preta; Florzinha; Gaveta; Giribel; Gloriosa; Passarinha; Perseguida; Porta-jóia; Prexeca; Priquita; Priquito; Tabaca; Tabaco; Talhada; Tareco; Xana; Xaranha; Xereca; Xiba; Xibiu; Xota; Xoxota.

Três expressões porretas:

Bambolê de otário : Aliança de casamento.
Beleza de Creuza : Tudo bem; Tudo legal; Numa boa.
Besta de cagar rodando : Indivíduo inconveniente; Bobo; Babaca.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Interpretação do Brasil, de Gilberto Freyre. Int. & trad. Olívio Montenegro. Rio de Janeiro : José Olympio, 1947, 324p. [] Reunião das conferências pronunciadas na Universidade de Indiana, Estados Unidos, em 1944. Trata-se de um livro curioso, com a marca antropológica de GF. Algumas opiniões chamam a atenção. Por exemplo: José Lins do Rego é considerado uma espécie de Faulkner brasileiro (p. 293). Já Getúlio Vargas ora seria o Dr. Jekyll, ora seria Mr. Hide; ora seria jesuíta, ora seria índio (p.170). Enfim, embora pareça superficial em algumas passagens menos brilhantes, deve ser contextualizado levando em consideração o público-alvo: o norte-americano dos anos 40. Um público que, supostamente, já conhecia o cinema de Orson Welles, John Ford e Howard Hawks e, claro, a literatura de William Faulkner.

sábado, 13 de outubro de 2007


O Maracanã. O nascer do sol. O Fluminense.
A Folha Seca. A Mangueira. A Berinjela.
O Odeon. O Estação Botafogo. O Art-UFF.
O Catete. Vila Isabel. A Lapa.
O CCBB. O Paço Imperial. O MAM.
O Choro da Feira. O Bar Serafim. A Feira de São Cristóvão.
A Biblioteca Nacional. A Rua do Ouvidor. O Theatro Municipal.
O Rio de Janeiro. O Rio de Fevereiro. O Rio das Águas de Março.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2135
Rio, 13 de outubro de 2007


NATAL, NATAL
de Moacy Cirne

O que fizeram com o Grande Ponto?
Com o Grande Ponto o que fizeram?
Cadê o Alberto Maranhão dos velhos tempos?
Conseguiram desfigurá-lo, desfigurá-lo conseguiram.
O que fizeram com as mangueiras e as vacarias?
Em nome do progresso, o passado virou poeira e calor.
E se ontem tínhamos um Arpège com putas respeitosas,
hoje temos uma Ponta Negra com putas raparigosas.
E se ontem tínhamos um Rio Grande com Hawks e Hithcocks,
hoje temos cinemarks com pipocas e filmecos.
E se ontem tínhamos a Ponte de Igapó,
com sua beleza férrea e fluvial,
hoje temos uma ponte que amortece
a foz e a voz do Pontengi.
Contudo, apesar de tudo e do pós-tudo,
Natal resiste:
Com o Parque das Dunas.
E o Bosque dos Namorados.
Com a Capitania das Artes.
E a sempre nova Fortaleza dos Reis Magos.
Com seu povo, sua gente, seus poetas.
E a Poty Livros, a Feira do Alecrim, as manhãs de abril.
E resiste, doce e bravamente,
com o Sebo Vermelho e suas figuras mitológicas.


CINEMA RIO 2007

Os melhores filmes em cartaz, no meu retorno ao Rio, talvez sejam títulos lançados antes do Festival de Cinema: Medos privados em lugares públicos (Resnais) e Santiago (João Moreira Sales). Mas pretendo conferir alguns outros em exibição. Na medida do possível.


UMA RECOMENDAÇÃO LITERÁRIA

Ficção; histórias para o prazer da leitura, de Miguel Sanches Neto (org.). Belo Horizonte : Leitura, 2007528p. [] Primorosa seleção de vários dos contos nacionais que marcaram a revista Ficção - editada por Cícero Sandroni, Fausto Cunha e outros - nos anos 70 do século passado. Contos assinados por Ignácio de Loyola Brandão, Autran Dourado, Luiz Vilela, Moacyr Scliar, Caio Fernando Abreu, João Silvério Trevisan, Sérgio Sant'Anna, José J. Veiga, Salim Miguel, Edfla van Steen, Victor Giudice, João Gilberto Noll, Marina Colasanti, Nélida Piñon, Luiz Fernando Emediato E outros. E outros.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Como
era
mesmo
o
nome
daquela
rapariga
que me anoitecia de carnes e espantos?

[ Moacy Cirne, in Rio Vermelho, 1998 ]




BALAIO PORRETA 1986
nº 2134
Natal, 10 de outubro de 2007


GLOSSÁRIO SERIDOENSE: ALGUNS EXEMPLOS (1)
[ in Palavreado cá de nós. Caicó, 2007,
de Max Antonio Azevedo de Medeiros ]

Ababacado - Desatinado; Sem rumo; Bobo; Tolo.
Abalufado - Cheio de si; Metido.
Abancado - Sentado; Acomodado.
Abudegado - Afobado; Nervoso; Colérico.
Abuticado - Arregalado; Saliente.
Acatrozado - Diz-se do indivíduo sem iniciativa.
Acatruzar - Aborrecer; Apoquentar; Importunar.
Achuvalhada - Roupa levemente amarrotada, ou um pouco úmida.
Adoidaiado - Desatinado; Sem rumo; Bobo; Tolo.
Afolozado - Frouxo demais; Rasgado; Estragado; Roto.
Afrescaiar - Enfeitar; Adornar; Ornamentar.
Afuleimado - Briguento; Velentão; Inflamado.
Afulibar - Alisar; Ficar sem dinheiro; Perder até o saco da bufa.
Agarramento - Contato voluptuoso; Esfregação; Sarro.
Aguar - Irrigar; Regar; Molhar.
Aleruado - Doido; Besta; Idiota.
Aloprar - Agitar; Reagir com violência.
Aluado - Doido; Distraído; Amalucado; Bobo.
Amigado - Que vive maritalmente; Amancebado.
Amoquecar - Fraquejar; Acovardar-se; Fugir da luta.
Amunhecar - Cair; Fraquejar; Fugir da luta.
Amorrinhado - Deprimido; Enfraquecido; Alquebrado.
Ânus - Anel de couro; Anel de péia; Ás de copas; Bicho preto; Boca de ninho; Boga; Bosteiro; Bufante; Buzanfan; Copo de sola; Enrugadinho; Farinheiro; Fedegoso; Fiofó; Flozô; Foba; Fogareiro; Fogoió; Fonfom; Foroboscoite; Forobosquito; Franzido; Frezado; Frinfa; Frosquete; Fruta rara; Fuamba; Furiboca; Glorioso; Gobilha; Lata de doce; Quinca; Rodela; Roseira; Taioba; Zereguedé.


Algumas expressões:
A cobra vai fumar - A situação vai piorar.
A dar com pau - Em grande quantidade.
A merda virou boné - Deu tudo errado.
Acabar na peia - Levar uma surra.
Acabar no caritó - Ficar solteirona.
Acabar-se na mão - Masturbar-se.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

UM FLA-FLU É MAIS DO QUE UM FLA-FLU.
É um sonho, um Seridó, um Maracanã,
é uma estrela, uma galáxia, um big-bang.
É mais do que um jogo luminoso de futebol:
é um poema/processo de tempestades e auroras,
é magia, orgasmo, e um Rio que se maraviolácea.







BALAIO PORRETA 1986
nº 2133
Natal, 8 de outubro de 2007


No terceiro aniversário da morte do meu pai,
EIS ALGUNS NORDESTINOS PORRETAS QUE JÁ SE ENCANTARAM
Luís da Câmara Cascudo (RN), etnógrafo,
e Gilberto Freyre (PE), sociólogo ;
João Cabral (PE) e Manuel Bandeira (PE), poetas;
Graciliano Ramos (AL) e José Lins do Rego (PB), romancistas;
Luiz Gonzaga (PE) e Jackson do Pandeiro (PB), músicos;
Torquato Neto (PI) e Zila Mamede (RN), poetas;
Glauber Rocha (BA), cineasta, e Sivuca (PB), músico;
Capiba (PE), músico, e Joaquim de Sousândrade (MA), poeta;
Anayde Beiriz (PB), professora,
e Leandro Gomes de Barros (PB), poeta popular;
Sílvio Romero (SE) e Tobias Barreto (SE), críticos e ensaístas;
Capistrano de Abreu (CE), historiador, e Jorge de Lima (AL), poeta;
José Bezerra Gomes (RN), poeta, e Maria Bonita (BA), cangaceira.


ALGUNS NORDESTINISMOS PORRETAS
[] Tomando a bença a cachorro e chamando gato de meu tio
= Quando a pessoa está muito embriagada.
[] Um roçado de xibiu
= Um bocado de mulheres no mesmo ambiente.
[] Comer na frente que nem enxada
= Diz-se do casal que mantém relações sexuais antes do casamento.
[] Quebra-cu
= Ônibus desconfortável.
[] Vá prantar galinha enquanto os pintos não nascem
= Vá pra puta que o pariu.
[] Afoimosiou
= Ficou linda.
[] Puetera
= Poetisa.
[ in Nem Kombi, nem Ford, nem sai de Sinca (2005),
de Myriam Gurgel Maia ]

sábado, 6 de outubro de 2007

FICAREI MAIS ALGUNS DIAS EM NATAL.
Nada de especial. Nada de muito importante. A rigor, esta tem sido uma viagem atípica. Pouco apareci no Sebo Vermelho. Mal estive na Capitania das Artes. Revi poucos amigos. Não pude me programar para visitar Caicó, São João do Sabugi e São José do Seridó. E o Balaio continuará sendo editado de forma precária, temporariamente.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2132
Natal, 6 de outubro de 2007


POESIA DO RIO GRANDE NORTE

Surpresa
de José Bezerra Gomes

Vi
minha
casa

Olhei-a
olhando

Olhei
olhando
para mim

Cena de alcova
de Nei Leandro de Castro

Não representamos
para platéia
nossas cenas
docemente obscenas.
Quando você esfinge finge
eu não finjo.
Quando eu mito minto
você não mente.
E terna mente.

Cárcere
de Marize Castro

É imensa esta dor e não me mata
Os fragmentos da morte estão mais próximos.
Os horrores da vida mais sórdidos
e só tua ausência reinventada
faz-se âncora

e me acalma.

[ Poemas publicados in: Poesia circular, de Aluízio Mathias, coord. ]


Dois ou três comentários sem pretensão crítica

1. Considero José Bezerra Gomes, Jorge Fernandes, Nei Leandro e Zila Mamede os maiores poetas do Estado.
2. Praticamente no mesmo patamar criativo, no campo da poesia verbal, aponto os nomes de Luís Carlos Guimarães, Sanderson Negreiros, Marize Castro e Iracema Macedo, além de Homero Homem, Miguel Cirilo, Adriano de Souza, Gilberto Avelino, Carmen Vasconcelos, Myriam Coeli e Diva Cunha. Decerto, é possível assinalar mais uma dezena (um pouco mais, talvez) de poetas bons/ótimos, incluindo alguns novos, de Lívio de Oliveira a Jeanne Araújo.
3. Há, claro, os poetas experimentais, marcados - ou não - pelo poema/processo: Falves Silva, Jota Medeiros, Dailor Varela, Anchieta Fernandes, Avelino de Araújo, Bianor Paulino, Franklin Capistrano, Bosco Lopes.

Em tempo:
Não levo em conta a poesia de Nísia Floresta: 1) por não considerá-la uma escritora potiguar, embora nascida na antiga Papary; 2) por ser uma poetisa medíocre.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

É VERDADE, É VERDADE. COMPREENDER O BRASIL
passa pelas interpretações de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e Josué de Castro, Antonio Candido e Celso Furtado, Raymundo Faoro e Florestan Fernandes, Milton Santos e Darcy Ribeiro, Abdias Nascimento e Guerreiro Ramos. Mas passa também pela grandeza multicultural de Luís da Câmara Cascudo. Contudo, a Biblioteca EntreLivros: Retratos do Brasil (nas bancas) preferiu sair pela tangente de forma lamentável. Ao excluí-lo do "corpo canônico" na consolidação de uma possível Biblioteca Brasiliana Básica, os editores, em discutível autocrítica, anotaram: "É claro que o leitor mais especializado notará ausências - como deixar de fora Câmara Cascudo, por exemplo? -, as quais pretendemos solucionar numa próxima edição". Numa próxima edição? Francamente! Retratos do Brasil, uma leitura complementar? Uma edição sobre o folclore brasileiro? A obra de Cascudo não se esgota no campo folclórco. Vai além. Muito além. Ousarei dizer: uma Biblioteca Brasiliana Básica - mesmo que a formássemos, por exemplo, com livros de apenas 10 autores - não poderá ignorar o nome cristalino do potiguar Luís da Câmara Cascudo.




BALAIO PORRETA 1986
nº 2131
Natal, 3 de outubro de 2007


MIRAGEM
de Paulo Jorge Dumaresq (RN)

Sertão
Ser tao grande ócio
Do Seridó ao umbigo
Tal qual jazigo sonhado
Por macambiras e bichos-preguiça

Entre Caicó e o infinito
É tudo tão tamanha sina
Que alucina o errante argonauta

Da rasa caatinga
Brotam messiânicas esperanças
Sob um céu púrpura de lirismo

Sertão
Ser tao de grande vereda
Onde convivem humanas catervas
E rebanhos nutridos de indigência
Na vã esperança de escaparem ao abate.


MARCONI LEAL x FAUSTO WOLFF

Pois é, meus caros amigos, minhas doces amigas: o blogueiro Marconi Leal foi plagiado pelo conhecido jornalista Fausto Wolff, que pisou na bola no caso em questão. Vejam como tudo aconteceu visitando o ótimo blogue do Marconi.


DE VOLTA AO RIO
A partir da próxima segunda, o Balaio voltará a ser editado no Rio. Diariamente, como antes. Nossas visitas aos blogues amigos também voltarão a ser feitas com a freqüência habitual.


UM SÍTIO PORRETA

Substantivo Plural, de Tácito Costa.
Literatura, cinema, poesia. E música.
Artigos e entrevistas. Dicas culturais.
Crônicas e leituras múltiplas de
Nelson Patriota, Carmen Vasconcelos e Carlos de Souza.


UMA CITAÇÃO ESPORRENTA

A maior lição de vida é a de que, às vezes, até os tolos têm razão. (Winston CHURCHILL)

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

O POETA E CRONISTA BERILO WANDERLEY,
nos anos 50, ao escrever suas crônicas sobre cinema para a Tribuna do Norte, de Natal, costumava brindar os leitores com duas cotações: uma, a partir de sua particular compreensão crítica do filme analisado; a segunda, considerando a possível reação do público. A rigor, era interessante o seu sistema de dupla avaliação. O problema maior é que, na maioria das vezes, o chamado "grande público" não estava (como ainda não está, em linhas gerais) minimamente informado sobre os meandros da linguagem cinematográfica. As coincidências (um filme ótimo para o público e para sua leitura crítica) eram poucas: alguns filmes de Hitchcock, Fellini, Ford, Minnelli, certos musicais da Metro - e assim por diante. Por que nos lembramos de Berilo, exatamente agora? Por causa do filme O homem que desafiou o diabo (baseado em As pelejas de Ojuara). As primeiras críticas no sul do país (O Globo, Época) são arrasadoras. Até uma segunda leitura - e pretendemos vê-lo mais uma vez - a nossa opinião não sofreu nenhum abalo: apesar de Marcos Palmeira, Flávia Alessandra, do final "turístico", da passagem malresolvida de Araújo para Ojuara, o filme consegue se sustentar como um bom espetáculo, padrão cinema-pipoca. Retomando o espírito do cronista BW, com um pequeno acréscimo, com as cotações supostamente variando entre 0 (péssimo) e 5 (excelente), assim o avaliamos: Para o público potiguar, 4; para o público do Sul-Matavilha, 3; para a crítica, 1,5. Ou seja, vale a pena ser conferido, já que a média 2,83 não é nada desprezível. E a crítica, qualquer crítica, não tem o direito de ser elitista. Hoje, por exemplo, se amamos os filmes de Antonioni, Bresson, Dreyer, Mizoguchi, Godard, Visconti, Bergman, Buñuel, Pasolini, Rossellini, Keaton, Kubrick, Murnau, Welles, Straub & Huillet, Hawks, Sergio Leone, Glauber Rocha e outros, vemos com simpatia as chanchadas com Oscarito e Grande Otelo, muitos dos filmes da Vera Cruz, o cinema da Boca do Lixo, alguns melodramas americanos dos 40 e 50. Por outro lado, o cinemão de Hollywood, à base de efeitos visuais e pirotécnicos, não nos interessa.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2130
Natal, 28 de setembro de 2007


POESIA POPULAR
de Luiz Xavier
[ in Versos sacânicos, 2003 ]

Mote:
Tomei cachaça no céu,
lá no hotel de Jesus

Glosa:
Levando um litro de mel
dessa abelha italiana
com muita santa bacana
tomei cachaça no céu.
Aprontei, fiz escarcéu,
dancei com defuntos nus
quebrando a famosa cruz,
os anjos bateram palmas.
Sonhei mais cantando as almas
lá no hotel de Jesus.


RETRATOS DO BRASIL

A Biblioteca EntreLivros, dedicada ao tema Retratos do Brasil, à venda nas bancas (ou cigarreiras, como se dizia em Natal, antigamente, quando, aqui, bebíamos garapinhadas nas sorveterias e caldo-de-cana acompanhado de pão doce, nas esquinas e mercados da cidade), apresenta uma lacuna indesculpável. Sim, numa primeira folheada, não vimos a menor referência a Luís da Câmara Cascudo. É possível que exista uma ou outra citação, acidentalmente. É pouco, muito pouco, para a grandeza de Cascudo. Voltaremos ao assunto, depois de lida com a devida atenção.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

EM NATAL, A FUNDAÇÃO CULTURAL CAPITANIA DAS ARTES
e a Fundação José Augusto são as instituições que melhor mobilizam o patrimônio e o acervo artístico e literário da cidade e, por extensão (no caso da segunda), do próprio Estado. Ou, pelo menos, assim deveria ser. De uma forma ou de outra, seja com chuvas e trovoadas, seja com mangas e mangabas. Em se tratando da Capitania das Artes, com o apoio decisivo do Prefeito da capital, assim tem sido. E da melhor maneira possível. Infelizmente, ao que parece indicar, com o apoio politiqueiro do governo estadual, a Fundação José Augusto, segundo todas as evidências, perdeu-se por completo. Ou quase. O próprio PT/Partido dos Trabalhadores, que assumiu a sua presidência, não está sabendo contornar os problemas que a atingem, paralisando, em grande escala, suas políticas públicas de agenciamento e atuação culturais. É duro dizer, mas o PT e a FJA estão sendo dominados pela incompetência e pela burrocracia. O que fizeram com a Preá, por exemplo? Com o Teatro Alberto Maranhão (subordinado à FJA, não?)? Com as edições de livros significativos? Com o incentivo a manifestações de raiz popular? Com as casas de cultura do interior? Em alguns casos, nada; em outros, quase nada.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2129
Natal, 26 de setembro de 2007


A LÍNGUA DOS POETAS
de Antônio Mariano
[ in Guarda-chuvas esquecidos. João pessoa, 2005 ]

Língua era lâ-
mina
aconchegante,
e explosiva,
conforme a boca.

Maleabilíssima
a língua do poeta:
tátil às vezes,
tática sempre.


FEIRA DE CITAÇÕES ESPORRENTAS
A arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade.
(Pablo PICASSO)
Uma simples linha pintada com o pincel pode levar à Liberdade e à Felicidade.
(Joan MIRÒ)
Fecho meus olhos para ver.
(Paul GAUGUIN)
Onde reina o amor, o impossível pode ser alcançado.
(Provérbio Indiano)
Certas mulherem amam tanto seu marido que, para não gastá-lo, usam o de suas amigas.
(Alexandre DUMAS Fº)
Você não pode confiar em seus olhos quando sua imaginação está fora de foco.
(Mark TWAIN)

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

TODOS SABEM DA MINHA ADMIRAÇÃO
por As pelejas de Ojuara, de Nei Leandro de Castro, um dos grandes romances picarescos da literatura brasileira. E, de igual modo, da minha admiração pelas realizações teatrais de Moacyr Góes, no Rio de Janeiro. Por isso mesmo, quanto a mim, havia uma certa expectativa pela adaptação cinematográfica da obra, que recebeu o título cordelístico de O homem que desafiou o diabo. Um bom título, diga-se de passagem. O clima humorístico-nordestino do livro está presente no filme, sem dúvida. Há boas cenas, há bons momentos. Ao contrário de Marcos Palmeira (bom como Zé Araújo, ruim como Ojuara) e de Flávia Alessandra (uma Mãe de Pantanha tenebrosa em sua inexpressividade), o elenco destaca-se: Hélder Vasconcelos (como o Cão Miúdo), Leon Góes (como o corcunda), Tarcísio Gurgel (como o barbeiro de Jardim dos Caiacós), Juliana Porteous (como a jovem trapezista), entre outros, estão muito bem. Mas, de qualquer maneira, ao se marcar pelo cinemão-pipoca do seu produtor Barretão, o filme apresenta dois ou três problemas estéticos complicados, em última instância, para dizer o mínimo. Aliás, o crítico e jornalista Alex de Souza, em No Minuto (cf. Colunas: Bazar - Engolindo o mundo com cachaça) apreendeu a sua essência: bom como espetáculo, ruim como obra-de-arte. Decerto, é possível rediscutir / problematizar essa dicotomia bom/ruim no espaço mesmo de seus objetivos cinematográficos, devidamente "costurados" com uma boa dose de eficiência cinetelevisiva. Uma última observação: por mais que o governo estadual tenha exigido, não há como justificar aquele "final" depois do final - cartões postais de Natal que nada acrescentam à estrutura romanesca do filme.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2128
Natal, 24 de setembro de 2007


EXIGÊNCIA
de Lisbeth Lima
[ in Felice. Natal, 2004 ]

Quero um colo que me cale;
que me fale enquanto calo.

POLITICAMENTE CORRETA
de Sandra Camurça
[ in O Refúgio ]
minha poesia é do tipo reciclável
recicla-me
ou te devoro
LUNAÇÃO
de Acantha
apaguei minha lua
nova.
estou cheia.
REBULIÇO
de Renato Caldas
[ in Fulô do mato,
republicado em Versos sacânicos. Natal, 2003 ]
Menina me arresponda
Sem se ri e sem chorá:
Pruque você se remexe
Quando vê homem passá?
Fica toda balançando,
Remexendo, remexendo...
Pensa, talvez, qui nós, véio,
Nem tem ôio e nem tá vendo?
Mas, si eu fosse turidade,
Si eu tivesse argum valô,
Eu botava na cadeia
Esse teu remexedô...
E, adespois dele tá preso,
Num logar, bem amarrado,
Eu pedia: - Minha nêga,
Remexe pru Delegado...

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

POESIAPOEMVPOESIA

POEME-SE!
(J. Cardias, Rio, anos 80)

Versão 2007

poeme-se de vermelhância
poeme-se de azuluminosidade
poeme-se de ventania
poeme-se de trovoada
poeme-se de natalpotengi
poeme-se de sertãocaicó
poeme-se de garapinhada
poeme-se de poesia
e, de poema em poema,
poeme-se de amorpaixão
mangamangaba e cinepax
gonzagão e bachelardência

[ in Poemas inaugurais. Natal, 2007 ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2127
Natal, 21 de setembro de 2007


OS MELHORES FILMES DOS ANOS 50
segundo os integrantes da
Liga dos Blogues Cinematográficos

1. Crepúsculo dos deuses (Wilder, 1950)
2. Vertigo / Um corpo que cai (Hitchcock, 1958)
3. Cantando na chuva (Kelly & Donen, 1952)
4. Janela indiscreta (Hitchcocck, 1954)
5. A marca da maldade (Welles, 1958)
6. The searchers / Rastros de ódio (Ford, 1956)
7. Rio Bravo / Onde começa o inferno (Hawks, 1959)
8. Les 400 coups / Os incompreendidos (Truffaut, 1959)
9. Hiroshima, meu amor (Resnais, 1959)
10. Morangos silvestres (Bergman, 1957)
11. A palavra (Dreyer, 1955)
12. Quanto mais quente melhor (Wilder, 1959)
13. Glória feita de sangue (Kubrick, 1957)
14. No silêncio da noite (Ray, 1950)
15. O sétimo selo (Bergman, 1956)
16. Noites de Cabíria (Fellini, 1957)
17. Pickpocket (Bresson, 1959)
18. Intriga internacional (Hitchcock, 1959)
19. Os esquecidos (Buñuel, 1950)
20. Rashomon (Kurosawa, 1950)

Uma seleção de alto nível, sem dúvida,
com várias das maiores obras-primas do cinema.
Já os meus 20 Mais dos anos 50 privilegiam:
1. Hiroshima, meu amor (Resnais); 2. Contos da lua vaga (Mizoguchi);
3. A palavra (Dreyer); 4. Pickpocket (Bresson);
5. A princesa Yang Kwei Fei (Mizoguchi); 6. A marca da maldade (Welles).
E mais, entre outros:
Rastros de ódio (Ford); O grito (Antonioni);
Morangos silvestres (Bergman); Johnny Guitar (Ray);
Um condenado à morte escapou (Bresson);
Diário de um pároco de aldeia (Bresson);
O salão de música (S. Ray); As férias do Sr. Hulot (Tati).


UMA RECOMENDAÇÃO BOROGODOSA

Paulo Bruscky - Arte, arquivo e utopia, de Cristina Freire.
Recife: Companhia Editora de Pernambuco [apoio], 2007, 272p.
Levantamento crítico e iconográfico do mais conhecido dos poetas e artistas experimentais da Pernambucália/Recifernália de todos os amores, pecados, sonhos e frevolências gráficas. Um livro-álbum da melhor qualidade estético-editorial: Paulo Bruscky em sua dimensão humana e de artista multimídia. Reproduções e mais reproduções. Poemas e mais poemas. Brusckys e mais Brusckys. E um viva para o inquieto artista e para os inquietos Jomard Muniz de Britto, Celso Marconi, Ivan Maurício, Daniel Santiago, José Cláudio, Alceu Valença e Sandra Camurça.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

ONTEM À NOITE, no Teatro de Cultura Popular da Fundação José Augusto, em Natal, vivemos um momento mágico: o lançamento do cd Meu machado cortador, do excelente artista pernambucano Cacau Arcoverde, de longas vivências natalenses. Realizado pela Estrela Produções, com patrocínio do Banco do Nordeste e apoio do Projeto Nação Potiguar, o cd investe de forma a mais criadora possível no coco de ganzá, no coco de roda, no coco de zambê e no samba de coco. Ou seja, uma verdadeira maravilha em termos culturais. Para completar, o lançamento em si a todos encantou, seja pela vivacidade do espetáculo, seja pela presença mítica em cena de alguns mestres do coco, como, por exemplo, o Mestre Bacalhau com os figurantes (mais de 20: crianças, jovens, adultos, velhos, homens e mulheres) do Coco de Roda de Canguaretama. Voltando ao cd, eis algumas de suas faixas mais expressivas: Chegou o maracajá (coco de ganzá), Mamãe eu vou tomar banho (samba de coco das Irmãs Lopes), Pinto pelado (coco de ganzá), Roseira (coco de roda), Cangote cheiroso (coco de roda), Navios de guerra (coco de zambê). E mais: Menina da boca de ouro, Cajueiro abalou, Na sombra do dendezeiro, Berro estradeiro/Recordações. E outras. Registre-se, ainda, que desde os tempos de Chico Antônio, o coco é uma das manifestações populares mais importantes do Rio Grande do Norte. Cacau Arcoverde, cidadão nordestino, músico dos melhores, sabe disso. Emeio para contato: cocosideral@hotmail.com


BALAIO PORRETA 1986
nº 2126
Natal, 19 de setembro de 2007


HAIKAIS de
Livío Oliveira
[ in Pena mínima. Natal, 2007 ]

Tempo
Pertenço à época
de uma tensão freqüente
feita à mão das horas.

Lugar
Poema onde vivo
todo espanto melífluo
que faz o meu canto.

Sono
Acordo, não durmo.
Pássaro improvisando
um jazz no meu sono.

Haikais sobre um Corpo de Mulher

III - Lábios

Tateio-te a boca,
albergue de língua acesa,
moldura molhada.

VIII - Púbis

Chegada doída,
suspiros de cansaço único,
exílio fálico.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007


Natal que te quero Natal:
eis-me de volta, para mais uma pequena temporada
em terras potiguares.
Aqui, em foto de autoria não-identificada,
aparecem em primeiro plano as dunas e lagoas de Genipabu;
em seguida, a Redinha e a barra do Rio Potengi;
depois, os edifícios de Natal e, por último, à esquerda,
o Morro do Careca, em Ponta Negra.

Em tempo: voltarei a editar imagens depois do dia 8 de outubro.
Enquanto isso, a edição do
Balaio dar-se-á de forma irregular,
e não mais diariamente, como tem sido nos últimos tempos.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2125
Rio, 17 de setembro de 2007


FOME
de Jeanne Araújo
(Acari/Ceará-Mirim, RN)

Colaram-se em mim
uma fome antiga de palavras
e uma sede assoberbada de cantigas.
O meu desejo seria par de asas
coladas aos meus pés
e um carro de boi cantante
selado à minha língua.
Porque de pó e terra escura
é a minha estrada
e eu tenho pressa de descobrir
o que há por trás
da tessitura.


Memória 1978
OS DEZ CONTOS MAIS IMPORTANTES
DA LITERATURA MUNDIAL
segundo
Tarcísio Gurgel
(Natal/Mossoró, RN)
[ in Revista Vozes, setembro de 1978 ]

Missa do Galo (Machado de Assis)
Auto-estrada do sul (Cortázar)
Os funerais da Mamãe Grande (Márquez)
Episódio do inimigo (Borges)
A terceira margem do rio (Guimarães Rosa)
Kaschtanka (Tchecov)
Escaramuça contra Sartoris (Faulkner)
O piano (Aníbal Machado)
Torotumbo (Astúrias)
A morte de D.J. em Paris (Roberto Drummond)


UM OLHAR CANGAÇO
de Moacy Cirne
(Rio/Seridó, RJ/RN)
[ in Qualquer tudo, 1993 ]

um certo cansaço
um lambelambe sem memória
um velho cinema pax
um cão sem plumas
um potengi ao crepusculecer
um maraca maracanã
um poema sem poesia
um xerenhennhenhé de mulher
um quase tudo nenhum
e
50
sonhos adormenguecidos


UM BLOGUE PORRETA

Blog de Adriano, de Adriano de Sousa.
Poesia. Memórias. Poesia.
Cestas básicas de livros.
Escrita/Sensibilidade.

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O tempo aqui [Acari, RN] anda velhaco. Quinta feira, me disseram, passou uma chuva minguada, correndo as goteiras. (Paulo BEZERRA. Cartas dos sertões do Seridó. Natal, 2000, p.47)

domingo, 16 de setembro de 2007


Ouro sobre Azul
Foto de
Paulo Medeiros
[ in Olhares ]


BALAIO INCOMUN 1986
nº 2124
Rio, 16 de setembro de 2007



PRIMEIRO MANDAMENTO
de Paulo de Tarso Correia de Melo (RN)
[ in Rio dos Homens, 2002 ]

Coronel Chiquinho não chegava
a desejar mal ao próximo.
Apenas perguntava:

Com tanta cascavel desocupada
por aí, como é que gente ruim
no mundo não se acaba?


Memória 1980
OS MAIS IMPORTANTES FILMES BRASILEIROS
segundo Sérgio Augusto, jornalista cultural
[ in Revista Vozes, agosto 1980 ]

Fragmentos da vida (José Medina)
Ganga bruta (Humberto Mauro)
Nem Sansão, nem Dalila (Carlos Manga)
Rio, 40 graus (Nelson Pereira dos Santos)
O grande momento (Roberto Santos)
Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos)
Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha)
São Paulo S/A (Luís Sérgio Person)
A falecida (Leon Hirszman)
Terra em transe (Glauber Rocha)
O bandido da luz vermelha (Rogério Sganzerla)
Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade)


DISCOS QUE ME EMOCIONAM (4 / 120)

Kind of blue, de Miles Davis [Columbia CK 40579 (grav. 1959) ]. Jazz que te quero jazz: um disco-essência / um disco-sentimento / um disco-encantalamento / um disco-magia. Há pelo menos duas faixas deslumbrantes: All blues e Flamenco sketches. Acompanham Davis - em seu melhor momento - nada mais nada menos do que os músicos John Coltrane, Cannonball Adderley, Bill Evans, Wynton Kelly (numa faixa), Paul Chambers e Jimmy Cobb. Ou seja, a nata da nata. Um clássico irresistível do jazz modal. Entre meus 20 ou 22 discos preferidos, da música medieval a Luiz Gonzaga, Kind of blue é presença certa.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS

Poesia pois é Poesia, de Décio Pignatari. São Paulo : Duas Cidades, 1977, 192p. [] Toda a produção do poeta paulista (que acaba de completar 80 anos, como me lembrou em boa hora o amigo e professor Alceste Pinheiro), do verso à poesia concreta, de 1950 a 1975. Um dos mais inventivos escritores brasileiros do século XX, autor de algumas jóias literárias do experimentalismo tupiniquim. É o caso dos antológicos terra, beba coca cola, LIFE, OrganismO, Cr$isto é a solução, entre outros poemas emblemáticos: poemas que investem semioticamente numa alta voltagem estética. Acrescente-se, a título de informação (para os menos avisados): ao lado de Wlademir Dias Pino e poucos outros, Pignatari foi um dos fundadores da poesia concreta em 1956. Nos anos 60 tornar-se-ia um verdadeiro "guerrilheiro da luta literária"

31 poetas, 214 poemas; do Rig-Veda e Safo a Apollinaire, de Décio Pignatari (org., trad. & notas). São Paulo : Companhia das Letras, 1996, 132p, [] Transcriações poéticas de alto nível, aproximando a concisão oriental com a precisão ocidental, incluindo Safo, Catulo, Horácio, Juvenal, poetas da dinastia Tang, trovadores dos séculos XII-XIV, Burns, Byron, Heine, Leopardi, Rimbaud, Apollinaire. E mais. Com biografemas e comentários. Enfim, uma bela coletânea. Décio Pignatari, que nasceu no dia 20 de agosto de 1927, em se tratando de poesia e semiótica literária, é um dos nossos grandes nomes. Indubitavelmente. Assim sendo: "Que venha a noite e soe a hora/ Os dias se vão não vou embora" (Apollinaire, p.110-111).


Fragmentos de DON JUAN
de George Gordon Byron (1788-1824)
[ in 31 poetas, 214 poemas, trad. Décio Pignatari ]

III, 88
Palavra é coisa. Uma gota de tinta,
Caindo como orvalho numa idéia,
...

IV, 00
Afilhado da Fama, à procura da essência,
No tempo e língua, o poeta proclama:
A vida é a menor parte da existência

XIII, 6
Ódio é prazer comprido, vida e meia:
Ama-se às pressas, com vagar se odeia.

[][][]

sábado, 15 de setembro de 2007


Grandes momentos do cinema:
Hiroshima meu amor (Alain Resnais, 1959).
Eu já li tudo sobre Hiroshima. Tudo. Tudo. Não, não. Você não leu nada sobre a interpretação de Emannuelle Riva. Sobre a história de Marguerite Duras. Mas eu já vi Hiroshima mais de 10 vezes. Mais de 20 vezes. Mais de 30 vezes. Não, você não viu Hiroshima. Não viu a fotografia de Vierny & Michio. Não ouviu a música de Delerue & Fusco. Não sentiu a montagem de Colpi e dos outros. Eu vi Hiroshima, sim, vi em Natal, no Rex. Vi no Rio, na Cinemateca, várias vezes, várias vezes. Só não o vi em Caicó. Só não o vi em Jardim do Seridó, em São José do Seridó. Mas eu vi, eu vi: seu canto de amor e morte. O soldado alemão. O sangue do soldado alemão. Eu vi. Resnais, Godard, Antonioni. Eu vi tudo. Não, você não viu. Não viu Hiroshima. Não viu Nevers. Eu vi. Eu vi. Eu vi o horror da guerra. Vi a esperança da paz. Vi as pessoas protestando contra a bomba atômica. Eu vi. Eu vi. Senti a memória, vivi o passado. Depois, eu vi Marienbad. Eu vi. Eu sou Hiroshima, você é Nevers. Nevers em Hiroshima.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2123
Rio, 15 de setembro de 2007


Cinema
O MELHOR DO CURTA
(segundo Moacy Cirne)

1. Neve e neblina (Resnais, 1955)
2. O olhar de Michelangelo (Antonioni, 2004)
3. Um cão andaluz (Buñuel, 1928)
4. La jetée (Marker, 1963)
5. Uma semana (Keaton, 1920)
6. Terra sem pão (Buñuel, 1932)
7. O sangue das bestas (Franju, 1948)
8. Dois homens e um armário (Polanski, 1958)
9. Blábláblá (André Tonacci, 1968)
10. Arraial do Cabo (Mário Carneiro & Paulo César Saraceni, 1959)
11. Aruanda (Linduarte Noronha, 1959)
12. Entr'acte (Clair, 1924)
13. Fireworks (Anger, 1947)
14. 79 primaveras (Alvarez, 1969)
15. Film (Schneider, 1965)
16. The high sign (Keaton & Cline, 1921)
17. Di (Glauber Rocha, 1976)
18. A study in choreography for camera (Daren, 1945)
19. Gente del Pò (Antonioni, 1943-47)
20. Toda a memória do mundo (Resnais, 1956)


POEMA de
Antonio Carlos de Brito (Cacaso)
[ in Grupo escolar, 1974 ]

Desperto mais uma vez
de meu penúltimo sonho:
o mapa-múndi viaja
entre suspiros de amor.

Uma gaivota bissexta desova a tarde.


AUTO-FLAGELO
de Suzana Vargas
[in Caderno de outuno, 2ª ed., 1998 ]

Na mesa:
o pão, o leite, a manteiga
e o
Nescafé
insolúvel dos meus dias.


UM BLOGUE PORRETA

Cine Art
, de Ronald Perrone.
Críticas objetivas e claras.
Um olhar especial para o cinema brasileiro.

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Uma criança vê o que um adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que de tão visto ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher. Isso exige às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos.// É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença. (Otto Lara RESENDE. Vista cansada)