domingo, 3 de junho de 2007

DENTRO DE POUCAS
HORAS, no meio da tarde, estarei em Natal, sob as bênçãos do Potengi,
ao crepúsculo (vide foto
ao lado; não foi possível
identificar a sua autoria):
a Bienal do Livro me espera,
para uma homenagem ao poema/processo (próxima quinta, dia 7,
às 15h; antes, dia 6, a partir de 18h, lançarei Poemas inaugurais). Nos próximos dez dias, o Balaio Porreta será atualizado de forma irregular. Enquanto isso, há uma experiência gráfica de Falves Silva, dos anos 60, no blogue do Poema/Processo, que também reedita os pontos principais da Proposição inaugural do nosso movimento, em dez/1967.

sábado, 2 de junho de 2007

UM FILME PORRETA

Sullivan’s travels / Contrastes humanos (USA, 1941),
de Preston Sturges.
Título em Portugal: A quimera do riso.
Argumento: Preston Sturges.
Fotografia: John F. Seitz.
Música: Charles Bradshaw & Leo Shuken.
Elenco: Joel McCrea, Veronica Lake & outros.
[] “... Sturges mistura brilhantemente humor simples com um refinado e cortante comentário cultural, mais uma vez ... descrevendo a identidade social como uma proposta altamente instável, susceptível de transformações hiperbólicas por meios tão prosaicos como o disfarce, a confusão e o auto-engano” (Steven Jay Schneider, in 1001 filmes para ver antes de morrer, p.180).


BALAIO PORRETA 1986
nº 2032
Rio, 2 de junho de 2007


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
666 livros indispensáveis (18/111)

O calvário das secas, de Eloy de Souza. Natal: Imprensa Oficial, 1938, 212p. [Livro adquirido no sebo Luzes da Cidade, em Botafogo, Rio, com dedicatória do Autor para o “prezado collega João Duarte Filho com a minha amizade e admiração pela sua juventude victoriosa. Natal, 31-1-939”.] Um clássico da literatura sociológica potiguar: muitas das análises ainda são atuais, como, por exemplo, as que abordam O São Francisco e o Nordeste e, dentro da mesma perspectiva, O São Francisco derramado no Nordeste. Mas há outros capítulos igualmente significativos: As secas e a defesa nacional é um deles.

Ilíada, de Homero. Trad. Odorico Mendes. Rio de Janeiro / São Paulo / Porto Alegre: W.M. Jackson Inc., 1950, 444p. /Col. Clássicos Jackson/ [] Um clássico é um clássico é um clássico: a epopéia homérica em toda a sua plenitude histórico-literária. Não importa se Homero foi a soma, ou não, de vários poetas populares anônimos, resgatados pela genialidade de um ou mais ouvintes audazes. Importa é o que ficou para a história da arte poética: a obra que eternizou/sedimentou a lenda de uma guerra – a Guerra de Ílio, ou Tróia. Nada mais singular. Nada mais neblinante. Nada mais solar.

Odisséia, de Homero. Trad. Carlos Alberto Nunes. São Paulo, Melhoramentos, s/d [1960, provavelmente], 362p. [] Um clássico é um clássico é um clássico: a epopéia homérica em toda a suja plenitude filosófico-literária. Em se tratando de Homero, e de suas duas obras que ficaram na história da humanidade, a não ser que recorramos a originais helênicos, as traduções só podem ser vistas como recriações. O correto, assim, ou pelo menos o mais adequado, seria afirmamos: eis a Odisséia de Homero & Carlos Alberto Nunes. O mesmo, claro, vale para a edição da Ilíada.

Judas, o obscuro [1895], de Thomas Hardy. Trad. Octávio de Faria. Belo Horizonte: Itatiaia, 1962, 360p. [Livro adquirido em Natal em abril de 1964.] Um livro que marcou toda uma geração de jovens natalenses (não sabemos se também afetou, na mesma época, poetas e ficcionistas de outros Estados). Sua sensibilidade e sua tragédia, que nos tocaram diante da impotência política e da ansiedade intelectual pós-golpe militar de 64, não seriam por demais datadas? A obra-prima que nos pareceu então, com todo o seu pesado romantismo, resistiu ao tempo? Quando o releremos, pois?

As relações perigosas [1782], de Laclos. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1961, 346p. /Clássicos Garnier/ Coletânea de cartas entre os vários personagens, configurando, a partir daí, sua estrutura romanesca. “A libertinagem aparece nessa obra como um jogo de conquista. É a arte de seduzir sem deixar sem deixar envolver-se. O que vale são as artimanhas a se usar, dentro de princípios que determinam o código de honra dos libertinos, As relações perigosas limitam-se aos aspectos psicológicos da sedução, sem cuidar de qualquer pormenor erótico” (Bráulio Pedroso).

Assombrações do Recife Velho [1955], de Gilberto Freyre. Rio de Janeiro / Brasília: José Olympio / MEC, 1974, 156p. [] Para quem ama Recife, como nós amamos, este é um livro simplesmente saboroso, com “Algumas notas históricas e outras tantas folclóricas em torno do sobrenatural no passado recifense”. Alguns casos: Um lobisomem doutor, Uma rua inteira mal-assombrada (Avenida Malaquias; ainda terá esse nome?), O negro velho que andava em fogo vivo etc. Algumas casas: O sobrado da Estrela, O sobrado das três mortes, O sobrado do Pátio do Terço. Tem mais, claro.

Dinâmica do folclore, de Edison Carneiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965, 188p. [] Uma leitura sociológica e eventualmente antropológica das manifestações populares que alimentam a cultura dos excluídos da sociedade. “Entende-se por folclore um corpo orgânico de modos de sentir, pensar e agir peculiares às camadas populares das sociedades civilizadas” (Edison Carneiro). Há capítulos que merecem uma atenção maiôs especial: Antropologia e folclore, O folclore do cotidiano, Folclore – fenômeno cultural, O folguedo popular, Proteção para a música folclórica.

Movie poster, de Emily King. London: Octopus-Mitchell Beazley, 2004, 224p. [] Boas – e, às vezes, ótimas – reproduções de cartazes de vários filmes conhecidos e/ou famosos, quando possível com indicação de seus autores. Por exemplo: Casablanca, por Bill Gold (p.47); o pôster italiano de Cidadão Kane (Quarto potere) (p.49); Um corpo que cai, por Saul Bass (p.50); Amor, sublime amor, por Saul Bass (p.55); A grande ilusão, por Bernard Lancy (p.69); o pôster polonês de Os pássaros, por Bronislaw Zelek (p.86); A faca na água, por Jan Lenica, um dos mestres do cinema de animação polonês (p.91); o cartaz tcheco de Blow-up, por Milan Grygar (p.94); Taxi driver, por Guy Peellaert, quadrinhista belga (p.138). Para os cinéfilos, um álbum precioso.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

CINEMA RIO 2007

Recomendamos com entusiasmo:
Retrospectiva Eric Rohmer, no Laura Alvim/1
Uma mulher sob influência (Cassavetes, 1974), no Paço

Recomendamos:
A comédia do poder (Chabrol, 2006), no Odeon
Noite de estréia (Cassavetes, 1978), no Paissandu
Hércules 56 (Sílvio Da-Rin, 2007), no Estação/3
Baixio das bestas (Cláudio Assis, 2007), no Arteplex/5

Recomendamos com reservas:
Cartola - Música para os olhos (Ferreira & Lacerda, 2006), no Estação/1


BALAIO PORRETA 1986
nº 2031
Rio, 1 de junho de 2007



FÁLICOS
de Maria Maria
[ in Espartilho de Eme ]

Quero escrever
com meus dedos
a língua que falo.

Que falo!
Falo, pois toca
a língua

dos meus dedos.

Quero dar-te
um beijo de língua
com a ponta

dos meus dedos fálicos.


POEMAS/PROCESSO, ATROPELOS E PARADOXOS

O blogue Lambuja, da poeta carioca Regina Pouchain, começou a mil por hora, divulgando o poema/processo e outros atropelos (anti)literários, a tal ponto que já nos levou ao seguinte comentário, a partir do primeiro Pós-Editorial: "Não seria o pós-editorial, assim estabelecido, um corte filosófico-antropológico-mallarmaico, à base de vitaminas revigorantes (tais como as de manga manhosa, abacate atrevido, abacaxi doidão, goiaba escandalosa), nos atropelos do poema/processo? Se vivo fosse, Chico Doido de Caicó decerto exclamaria: 'Pra ser louco na frente de Regina Pouchain é preciso ter muito juízo'. Contudo todavia entretanto porém, nada como uma homenagem atrás de outra: nuvens vermelhas abrem-se impávidas para os egípcios da Noruega e os seridoenses de Nova Friburgo. 'Tudo vale a pena, se a alma não é pequena', segundo as palavras sábias de Ankito Oscarito Rocha Grande da Silva, nobre pensador do Cinema Novo brasileiro. É o caso, pois, de se dizer: um pós editorial é um mêta-editorial. Sem duplo sentido. Que o confesse Chiquinha Propileno Glicol, digníssima amante de Maiakóvski e Monteiro Lobato Pereira Nunes da Costa".


RÁPIDA ENTREVISTA COM O EDITOR DO BALAIO

Há outros poetas potiguares que merecerão figurar na Versão-em-progresso
a ser (re)publicada dentro de um ou dois meses?

Decerto. Maria Maria (Maria Gomes) e Lívio Oliveira, além de alguns
mais antigos, figuram entre eles. Aliás, acabo de acrescentar o nome de Volonté.

O poeta Alexei Bueno encontra-se em Natal. O que acha da poesia dele?

Menos ruim do que a de Bruno Tolotino. Tem seus méritos acadêmicos.

E o que tem a dizer de um poeta que manda alguém ou um movimento à merda etérea?

Próprio de um poeta decadente. Um experimentário da linguagem,
quando quer mandar um poeta à merda, manda-o à merda concreta,
a mais repelente possível. Nada de frescuras etéreas, portanto.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

A grandeza de um clube de futebol não nasce da noite para o dia, não se constrói através de pequenas vitórias, de conquistas sem alma e sem dor. Há certas derrotas que são muito mais mitológicas do que alguns possíveis triunfos sem sal e sem amor. Por exemplo, a derrota do Flamengo para o Fluminense, no empate de 2 a 2, no famoso Fla-Flu da Lagoa, que deu o título ao tricolor. Tem mais: torce-se por este ou aquele clube por sua história, por eventuais grandes jogadores que fizeram parte dessa história, pela conquista de campeonatos memoráveis. Assim, no Rio, o Flamengo é grande pela Era Zico, pelo tricampeonato de 1953-54-55, pelos timaços dos anos 30, pela vitória em Tóquio, pelos títulos nacionais e por sua imensa torcida. E pelo Carioca que conquistou, ao empatar o Fla-Flu de 1963: o maior público interclubes de todos os tempos - mais de 180 mil espectadores no Maracanã. O Vasco é gigante pelo Expresso da Vitória (final dos anos 40), pelo supercampeonato de 1958 (provavelmente a mais emocionante disputa Carioca, até hoje) e por sua história proletária dos anos 20. E por Ademir, Romário e Roberto Dinamite. O Botafogo é glorioso pela Era Garrincha (que incluía Didi e Nilton Santos), pelo momento Gérson-Jairzinho, pela conquista de vários títulos Cariocas importantes (como o de 1948) e por sua supersticiosa torcida. Já o Fluminense é o Fluminense. O Fluminense de Castilho, Píndaro e Pinheiro. E de Telê Santana. O Fluminense campeão brasileiro em 1970 e 1984. O Fluminense que conquistou o Fla-Flu da Lagoa e os Fla-Flus de 1969, 1973, 1983, 1984 e 1995. O Fluminense da Era Rivelino. O Fluminense dos 30 campeonatos Cariocas. E muito mais. (Moacy Cirne)


BALAIO PORRETA 1986
nº 2030
Rio, 31 de maio de 2007


ALGUNS POETAS NORTE-RIO-GRANDENSES
Nossas admirações e nossas reticências no campo verbal
(Versão-em-progresso, a ser ampliada e/ou revisada,
em função de novas leituras e releituras
crítico-afetivo-libertinárias)


Nossas admirações

1º Grupo:
José Bezerra Gomes
Jorge Fernandes
Nei Leandro de Castro
Zila Mamede
Luís Carlos Guimarães

2º Grupo:
Sanderson Negreiros
Homero Homem
Marize Castro

3º Grupo:
Iracema Macedo
Carmen Vasconcelos

4º Grupo:
Diógenes da Cunha Lima
Miguel Cirilo
Myriam Coeli
Diva Cunha
Jeanne Araújo
Iara Maria Carvalho
Theo G. Alves
Newton Navarro
Gilberto Avelino
Adriano de Souza
João Lins Caldas
Jarbas Martins
Lisbeth Lima de Oliveira
Paulo de Tarso Correia de Melo

5º Grupo:

Auta de Souza
Henrique Castriciano
Jaime dos G. Wanderley
João Gualberto Aguiar
R. Leontino Filho

Wescley J. Gama
Nivaldete Ferreira
Márcio de Souza Dantas
Ana de Santana
Joselita Bezerra da Silva
Volonté
Eli Celso
Celso Boaventura
Moysés Sesyom

Nossas reticências

Othoniel Menezes
Ferreira Itajubá
Palmira Wanderley
Antoniel Campos
Luiz Rabelo
Deífilo Gurgel
Augusto Severo Neto
Alex Nascimento
Walflan de Queiroz
Dorian Gray
Esmeraldo Siqueira

Nossa reticência maior

Nísia Floresta
(se é que ela é uma autora potiguar...)

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Amigos, na minha crônica de ontem, apresentei o único torcedor ceguinho do mundo. É tricolor de não sei quantas encarnações. E não perde uma do Fluminense. Mete-se nas arquibancadas com a sua bengalinha branca. Torce, como ninguém, os noventa minutos. Discute impedimentos, acusa pênaltis não marcados, é mais opinante do que ninguém. (...) Por coincidência, sentei-me ao seu lado, no jogo Fluminense x Bonsucesso. E, quando o pó-de-arroz entrou em campo, o Ceguinho gritou: "Ademar está mais magro". Para a óptica generosa do seu amor, Ademar sempre estará mais magro. E quando acabou o jogo, o Ceguinho levantou-se. ... O Fluminense ganhara de 4 x 0. E a noite do Ceguinho encheu-se de estrelas. (Nelson RODRIGUES. O profeta tricolor. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 33-5)


BALAIO PORRETA 1986
nº 2029
Rio, 30 de maio de 2007


CITAÇÕES DE NELSON RODRIGUES

[] O Fluminense nasceu com a vocação da eternidade.
Tudo pode passar, só o tricolor não passará, jamais.


[] Meu sentimento clubístico é anterior ao sexo,
anterior à memória.


[] A morte não exime ninguém
dos seus deveres clubísticos.


[] Um time pode jogar descalço, jogar de pé no chão.
Só não pode jogar sem alma.


[] Assim é o ser humano: na hora do palpite errado,
não lhe ocorre uma vaga dúvida metafísica.


[] O vídeo-tape, por ser burro,
não tem a imaginação do olho humano.


[] O que nós procuramos no futebol é o sofrimento.
As partidas que ficam, que se tornam históricas,
são as que mais doem na carne, na alma.

[ Citações extraídas do livro O profeta tricolor ]

terça-feira, 29 de maio de 2007

Da série
HOMENAGEM AOS 40 ANOS DO POEMA/PROCESSO
por
REGINA POUCHAIN
(Rio de Janeiro)

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Há tremenda vitalidade em Joyce, mas muito pouco movimento. À semelhança de Proust, é mais sinfônico do que narrativo. Sua ficção apresenta progressões e desenvolvimentos próprios, mas estes são mais musicais que dramáticos. ... Mais do que qualquer outra obra de ficção,com exceção talvez da Comédie Humaine [de Balzac], Ulysses cria a ilusão de um organismo social vivo. (Edmund Wilson. O Castelo de Axel [1931]. São Paulo: Cultrix, 1967, 1948-49)


BALAIO PORRETA 1986
nº 2028
Rio, 28 de maio de 2007



O DIARIM DE MARIA BUNITA - X

Quirido diarim,
Apois num é qui os minino de Mossoró tão cum a muléstia! Ô bando
de minino arretado,
num é à tôa qui é tudo papangu! Num sei não,
acho qui vou passar o São João lá
praquelas banda, arrastar um
forrozim junto cum a cabroêra toda purque ouvi dizer qui
lá em
Mossoró os cabra são tudo cheim de presepada, bom de arrasta-pé
e de tomá uma
goropada boa, dessas qui dêxa a gente cum vontade
de aprontar... Adispois, quem sabe,
se der tempo, eu dô uma
passadinha pelo Siridó qui ninguém é de ferro, tomá um banho

de açude e comer tapioca cum pirão de farinha seca e caldo de mocotó,
pra ver se
levanta a moral dos minino do bando, inclusive de Virgulino,
qui ele tá
precisano, tá sim, diarim... Mais milhó mermo vai ser arrastá
pé e asa
cum os Papangu de lá, eita bando de minino invocado e
presepento... Se avexem
não qui tô chegano...


CONCENTRAÇÃO

Depois de 4 horas e 20 minutos, sábado passado, na fila
que se iniciava na Escadaria dos
Apeninos, passando por
toda a extensão da Álvaro Chaves, até as bilheterias da
Pinheiro Machado, adquiri
o ingresso para o jogo no Maraca,
na próxima quarta, entre o FLUMINENSE e o Figueirense.

Já estou devidamente
concentrado; desde ontem só leio
Nelson Rodrigues. E os cadernos esportivos.

sábado, 26 de maio de 2007

A MULHER VERDE
invadiu o meu espaço.
Não sei o seu nome.
Não sei a sua origem.
Não sei quem a fotografou.
Não sei quem a enviou.
Não sei se amou alguém.
Ou se foi amada.
Não sei se viajou
para a Lua
ou para São Saruê.

Se gosta de Elomar e Pixinguinha.
Se gosta de poesia e arribaçã.
Se já esteve em Caicó.
Ou em Jardim do Seridó.
Só sei que é azul.
Azul e violeta.
Azul e crepúsculo.
Sempre azul e outubro.
Azul, como em Carlos Pena Filho.
Azul, como no poema que não escrevi.
Azul, como no filme que não filmei.
Azul, como no livro que não sonhei.
((( Moacy Cirne [2004-2007] )))

ALMANAQUE

Raimundo Nonato, em Figuras e tradições do Nordeste (1958, p.18), em carta para o natalense Veríssimo de Melo, relaciona alguns remédios caseiros que merecem ser lembrados, seja por simples curiosidade, seja porque são frutos da mais pura sabedoria popular, como, por exemplo:
[]
Chá de lagartixa, para dor de garganta;
[]
Banha de urubu, para erisipela;
[]
Água de chocalho, para menino aprender a falar;
[]
Mistura de vinagre, cachaça e goma, para dor de barriga;
[]
Garapa de açúcar preto, para estancar o sangue;
[]
Pó de caroço de pião, para dor de cabeça;
[]
Café com pimenta malagueta, contra gripe;
[]
Chá de grilo, para menino ficar falador.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2027

Rio, 26 de maio de 2007


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
666 livros indispensáveis (17/666)

Figuras e tradições do Nordeste, de Raimundo Nonato. Rio de Janeiro: irmãos Pongetti, 1958, 170p. [] Em capítulos quase sempre deliciosos, o mossoroense Raimundo Nonato refaz em tom memorialístico, qual jornalista do sertão, um mosaico de histórias, reais ou não, que fazem o homem do interior nordestino. Jagunços, professores, crônicas literárias, homens que falavam com espíritos, personagens da arte dramática em Mossoró – vasto é o painel das histórias contidas no livro. Algumas delas são hilárias, como a do cearense dono de caminhão que, “matuto habituado àquelas tramóias das estradas”, desconfiado que só a mulesta e cuidadoso extremado com o seu dinheiro, ao se hospedar em pensões pouco recomendáveis, costumava guardá-lo na própria roupa do corpo, ao dormir, envolvendo-se em lençóis e mais lençóis. Deu-se que, em certa ocasião, encontrando-se na cidade de Russas, devidamente hospedado, aconteceu o pior com o nosso amigo estradeiro:

“Madrugada alta, a pensão estava em polvorosa.

O barulho acordara todo o mundo.

O homem do dinheiro, apesar de toda a sua precaução, fora roubado, durante o sono. O ratoneiro bancou o sujeito educado. Deixou ao pobre diabo um cartão de visita, cujos termos valem uma peça:

-- Não o levo, também, porque não gosto de macho...”. (p.31-32)

A ave, de Wlademir Dias Pino. Cuiabá: Igrejinha, 1956. [Edição que pertence ao acervo do Poema/Processo.] A ave voa dentro de sua cor: codificação do espaço; codificação das cores -- semiotização do poema visual. É preciso lembrar: não se trata de um "vôo" figurativo, mas de um "vôo" que é grafia em estado bruto, em estado puro. Mais do que um poema-livro, um livro-poema -- antes das facilidades computacionais: o suporte material do objeto-poema, aqui, não é um mero suporte físico. Basta ver seus elementos composicionais: a textura do papel, a transparência de algumas folhas, as perfurações, os cortes, tudo faz parte da construção do livro-poema, com suas indicações gráficas, com suas indicações significacionais. Pois é, pois sim: entre os fundadores da poesia concreta, trata-se do nome mais importante, mais explosivo, em sua vertente semiótico-espacional. O fato é que, em 1967, A ave serviu de base para os estudos gráficos, metagráficos, semióticos e antiliterários que prepararam o terreno cultural para o lançamento em Natal e no Rio de Janeiro (com repercussões imediatas em Minas Gerais) do poema/processo, que explorava os conceitos de matriz e série, projeto e versão, especificidade do material e contra-estilo, procurando, com engenho e arte, espantar pela radicalidade, apostando na relação arte/política/história. Enquanto faziam o poema/processo, seus poetas, artistas e produtores se colocavam claramente contra a ditadura militar que dominava o país. No apogeu do movimento (1968/69), muitos foram os poetas que questionaram a poesia acadêmica, a arte museológica e, em inúmeras ocasiões, a política dos quartéis e dos coronéis.

Cadernos de João, de Aníbal M. Machado. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957, 245p. [] Um livro singular dentro do panorama literário brasileiro, englobando, revistos e ampliados, os textos que compõem o ABC das catástrofes -- Topografia da insônia (1951) e Poemas em prosa (1955). Nascido em Sabará, MG, em 1894, e falecido no Rio, em 1964, o autor mineiro-carioca destacou-se como excelente contista desde Vila Feliz (1944). Segundo o crítico e ensaísta M. Cavalcanti Proença, "A narrativa de Aníbal Machado se desenvolve em terreno fronteiriço, ora pisando chão de realidade, ora pairando nas nuvens do imaginário, entre sonho e vigília, entre espírito e matéria, verdade e mentira, relatório e ficção". Aqui, mais do que nunca, através de pequenos relatos, aforismas inesperados, projetos de contos, substantivações de cunho surrealista, poemas em prosa, minidramas teatrais, o autor de João Ternura (1965) constrói um painel de emoções literárias à altura de qualquer biblioteca de bom gosto. Há textos que podem inspirar aberturas ontológicas para a utopia, como O transitório definitivo (p.40-43), quando se busca -- na maior tranqüilidade -- uma imaginária Santa Maria, castelo de passarinhos. Há textos que beiram a especulação filosófica e social: "Ninguém pode abrir sozinho o seu túnel pessoal para a claridade do dia, sem o risco de morrer sob os entulhos" (p.34). Há textos minúsculos que são esboços de teoria literária voltada para o campo da poesia: "Retira do teu poema as estridências do grito, se queres que ele tenha mais alcance e ressonância" (p. 78). Há poemas que são herdeiros do surrealismo, como a Última carta de Pero Vaz (p.106-08), realçando os bichos que roem o código das águas e a moça que foge dentro de um violão, e mais outras preciosidades, entre as quais "Prateleiras de luz se derramando no céu" e "Um rio morrendo de cansaço/ E navios de sombra/ A navegarem pela floresta". Sobretudo, não nos esqueçamos de suas Iniciativas (p.243-44), sempre delirantes, além de docemente líricas: "Faça o que lhe digo. Solte primeiro uma borboleta.// Se não amanhecer depressa, solte outras de cores diferentes.// De vez em quando, faça partir um barco. Veja aonde vai. Se for difícil, suprima o mar e lance uma planície.// Mande um esboço de rochedo, o resto de uma floresta.// (...) Atire um planisfério. Um zodíaco. Uma fachada de igreja. E os livros fundamentais.// Sirva-se do vento, se achar difícil.// (...) Mande uma manhã de sol, na íntegra.// Faça subir a caixa de música, com o barulho dos canaviais e o apito da locomotiva.// Veja se consegue o mapa dos caminhos”.

Viagem a Tulum, de Federico Fellini & Milo Manara. Rio de Janeiro: Globo, 1992, 84p. [] Uma das mais belas e delirantes histórias-em-quadrinhos da segunda metade do século passado, a partir de um argumento para filme (nunca realizado) e que seria adaptado com brilhantismo invulgar por Manara, o desenhista de algumas obras-primas das HQs, como a genial Sonhar, talvez. Na verdade, Fellini, que dirigiu Os boas vidas, Noites de Cabíria, A doce vida, Oito e meio, Amarcord e outros filmes de sucesso, sempre foi um entusiasta dos quadrinhos. Como Alain Resnais. Como Jean-Luc Godard. Neste caso, para início de conversa publicou através de folhetim (em 1986) uma história que pretendia transformar em cinema; como não o fez, já que cinematograficamente irrealizável, ou quase, permitiu que Manara a adaptasse com bastante liberdade para a linguagem dos quadrinhos, participando, inclusive, da elaboração do roteiro em alguns momentos da feitura dessa autêntica novela gráfica. O resultado final é admirável: em clima felliniano, entre a magia e o deslumbramento gráfico-seqüencial, os dois personagens principais (um senhor e uma jovem) visitam uma lendária Cinecittà, à procura do próprio Fellini, e nela encontram algumas figuras de suas obras, vivenciadas por Giulitetta Masina, Anita Ekberg, além, claro, Marcello Mastroianni. A rigor, a jovem não sabe se está vivendo uma aventura real ou se está dentro de um filme aparentemente sem o menor sentido. O fato é que, levada pelo chapéu do cineasta, se deixa afogar num lago artificial que contém mais elementos oníricos, numa viagem dionisíaca que seria sem lógica, para muitos e muitos. Aliás, é dentro do lago, marcado pelo simbolismo, que, num imenso avião, a jovem encontra Mastroianni, e mais uma vez Fellini. Quando o jumbo decola, com Mastroianni em seu interior, a história "decola". E um filme vai ser feito (por Mastroianni/Snaporaz como o diretor), com seus mistérios, suas fantasias, seus devaneios, suas impossibilidades, seus mitos quadrinhográficos, seus múltiplos caminhos que levam ao México e à sua cultura milenar. São muitas as referências e homenagens metalingüísticas em Viagem a Tulum, como, por exemplo, a Moebius (autor de outra instigante obra-prima dos quadrinhos: Arzach, visualmente excitante). Sem dúvida, navegamos em plena história por um beco sem saída temático, explicitado por aqueles que pensam o filme/quadrinho, como se o próprio cinema de Fellini, depois de anos, apontasse para algo indefinível, para algo indecifrável. No final, tudo parece ter sido um sonho, mas não se trata de um fim, e sim de um começo, ou recomeço, quando um novo e enorme avião aparece, do fundo do lago, voando para um inalcançável sistema de raízes criadoras além da imaginação visionária: uma imaginação que se desenha na película, mas também no papel. Algumas páginas são puro Manara redimensionando Fellini; outras, são puro Fellini sob a ótica gráfico-delirante de Manara, igualmente conhecido por seus quadrinhos eróticos de grande beleza visual. De certo modo, Viagem a Tulum é o último grande filme de Fellini, sendo, ao mesmo tempo, uma das grandes HQs de Milo Manara.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

CINEMA RIO 2007

Recomendamos com entusiasmo:
Uma mulher sob influência (Cassavetes, 1974), no Estação Laura Alvim

Recomendamos:
Noite de estréia (Cassavetes, 1978), no Estação Botafogo/1
Corações e mentes (Davis, 1974), no Arte UFF
Hércules 56 (Sílvio Da-Rin, 2007), no Estação Botafogo/3
Baixio das bestas (Cláudio Assis, 2007), no Arteplex/5

Recomendamos com reservas:
Cartola - Música para os olhos (Lírio Ferreira & Hilton Lacerda, 2006), no Estação Botafogo/3


BALAIO PORRETA1986
nº 2026
Rio, 25 de maio de 2007



ESTRANHOS SEMELHANTES / ESTRANHOS ENCONTROS

Começou ontem no Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos (Auditório do SENAC/RJ: Rua Pompeu Loureiro, 45, Copacabana) o seminário sobre Segregações. Eis um bom momento e um bom espaço para se questionar, para se discutir, para se problematizar. Uma boa hora, enfim, para se misturar a torcida do Flamengo com a torcida do Vasco, rapadura com uísque, Ipanema com as favelas da Maré, Natal com Mossoró, Currais Novos com a Cidade do Caicó, Lampião com Padim Ciço, Luiz Gonzaga com Johann Sebastian Bach. E chiclete com banana, como já dizia o cineasta Federico Fellini, vulgo Jackson do Pandeiro.

A programação de hoje é a seguinte:

09:ooh - Existem ainda sexualidades segregadas?,
com Fernada Eugenio, Márcia Arán, Regina Neri e mediação de Igor Juliano de Pauala.

11:00h - Estranhos semelhantes,
com Isabel Fortes, Maria Eunice dos Santos, Moacy Cirne e mediação de Nelma Cabral.

14:00h - Alteridades,
com Fábio Lacombe, Fátima Gonçalves Cavalcanti, Conceição Evaristo e mediação de Elizabeth Ramos Donnici.

16:00h - Juventudes segregadas,
com Regina Novaes, Nega Gizza, Maria Theresa da Costa Barros e mediação de César Ibrahim.

18:30h - Exibição do documentário Nenhum motivo explica a guerra, de Cacá Diegues e Rafael Dragaud. Debate com integrantes do grupo AfroReggae e mediação de Suzana Neves.

Amanhã tem mais.


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ENQUANTO ISSO, em homenagem aos poetas seridoenses do Rio Grande do Norte, eis um olhar mágico de HUGO MACEDO sobre a cidade de Acari:


quinta-feira, 24 de maio de 2007

A especialização -- técnica, científica, administrativa, militar, educacional, financeira, médica -- transformou-se na mistagogia prestigiosa da sociedade tecnocrática. Sua principal função, nas mãos das elites dominantes, consiste em mistificar o espírito popular através de ilusões de onipotência e onisciência -- de maneira muito semelhante àquela em que os faraós e os sacerdotes do antigo Egito utilizavam o monopólio do calendário para obter a docilidade temerosa de súditos ignorantes. A filosofia, como disse certa vez o obstinado Wittgenstein, constitui o esforço por evitar que sejamos mistificados pela linguagem. Entretanto, em grande parte sob a influência de lógica e técnicos, e com o suposto propósito de exorcizar nosso pensamento, produzimos o jargão cientificista que atualmente domina o linguajar oficial e as ciências sociais. ... O vocabulário e a metodologia dissimulam os pressupostos éticos fundamentais ou transcrevem-nos habilmente numa retórica despersonalizada que proporciona um verniz de necessidade militar ou política. (Theodore ROSZAK. A contracultura [1969]. Petrópolis: Vozes, 1972, p.148-49)


BALAIO PORRETA 1986
nº 2025
Rio, 24 de maio de 2007



FATALIDADE
de Márcia Maia
[ in Mudança de Ventos ]

Maré cheia, moça e lua, sós e nuas, noite alta, se afogaram


POEMAS
de Mariza Lourenço

COMESTÍVEL

entre os seios
coração-chantilly
e língua.

GATAS

I

a gata no cio saiu de casa pra miar no telhado vizinho.
(gata no cio tem telhado de vidro)

II

o pássaro afoito foi parar entre as patas (traseiras) da gata.
a gata ansiosa engoliu o pássaro afoito
: com pena e tudo.

PASSARINHADA

pássaro canta
eu perco a vergonha
pinto pia
eu fico em chamas

ÚMIDA

nua e linda
em tuas mãos
sou líquida


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Depois de um poema comestível, de um outro para ser bebido, eis, agora, através do poema/processo, em homenagem aos seus 40 anos, um poema para ser lambido. Veja aqui.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Memória / Repeteco

Infame e preconceituosa é a frase que circula pela internet: "O presidente não será reeleito por aqueles que lêem os jornais, mas pelos que limpam a bunda com eles". Se querem criticar Lula (e ele, de fato, merece várias restrições), que o façam politicamente, mas não de forma rasteira, desesperada e raivosa. Trata-se, a rigor, de uma colocação pornográfica, apelativa, de conteúdo ultraconservador, contra pessoas que, equivocadamente ou não, acreditam que Lula, apesar de tudo, ainda é o melhor. Ou o menos ruim, se preferirem. (Moacy Cirne, in Balaio 1832, Natal, 3/08/06)


BALAIO INCOMUN 1832
Desde 1986
Natal, 31 de agosto de 2006

Contatos: balaio86@oi.com.br


UMA HISTÓRIA CAICOENSE
in 50 anos de causos,
de GERDO BEZERRA DE FARIA (Natal, 2004)

O Dr. Aladim, grande personalidade do séc. XIX, em Caicó (RN), era o mais tranqüilo e paciente dos homens em toda a região do Seridó, conhecido por sua calma e sua inteligência. A história a seguir está relatada, com inegável graça, no livro de Gerdo Bezerra de Faria (p. 169-70), considerando que a maioria dos rios nordestinos, inclusive o sagrado Seridó, somente no inverno "botam" água, muitas vezes de barreira a barreira:

"Numa certa vez, um visitante, querendo testar Dr. Aladim ao máximo que podia, aproveitou uma boa conversa e foi perguntando:

- Faz muito tempo que o senhor mora aqui?
- Desde que comprei esse sítio, em 1840.
- (...)
- O senhor já viu muita enchente desse rio Seridó, não viu Dr. Aladim?
- De todo tamanho que o senhor imaginar.
- Dr. Aladim, esse rio bota água pra lá ou pra cá?

O visitante provocador, perguntou apontando primeiro para o nascente e depois para o poente. Dr. Aladim, na tranqüilidade de sempre, respondeu como se a pergunta fosse normal e sem nenhuma provocação.

- Esse rio bota água dali do nascente em busca do poente, desce aqui de cabeça abaixo, vai bater no rio Piranhas, que vai dar no rio Açu, e esse vai bater no meio do mar.

O provocador pensou, 'é agora que eu pego esse velho', e mandou o desafio.
- Pois Dr. Aladim, me disseram que esse rio o ano passado botou uma cheia pra lá.

Disse apontando para o nascente. Dr. Aladim parecia adivinhar que aquele besta iria fazer aquela pergunta, pois na mesma hora, quase sem pensar, olhou para ele e já foi dizendo:

- Ô meu bichinho, você sabe quantos anos esse rio tem? Esse rio está muito velho, deve está caducando, bota cheia pra lá, bota cheia pra cá, bota cheia pra lá, bota cheia pra cá, bota cheia pra lá, bota cheia pra cá, deve ser isso".


FEIRA DE CITAÇÕES ESPORRENTAS

[] Só conheço um afrodisíaco -- a mulher. (Millôr Fernandes)
[] O Ministério da Saúde adverte: conservadorismo e puritanismo provocam câncer. (Balaio 985)
[] O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa. (Hölderlin)
[] A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana. (Barão de Itararé)
[] O sonho é o pensamento em férias. (Murilo Mendes)
[] Seja um viciado em amor. Não há nenhuma contra-indicação do Ministério da Saúde. (Dailor Varela)
[] Deus é Soda. Já dizia Fócrates. (Boêmio da Lapa, no Rio)
[] O gol é o orgasmo do futebol (Anônimo, em pleno Maraca, no Rio)
[] Prefiro o paraíso pelo clima, e o inferno pela companhia. (Marx Twain)
[] Deus é o único ser que, para reinar, não precisa sequer existir. (Charles Baudelaire)
[] O caminho dos excessos leva ao palácio da sabedoria. (William Blake)

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Clique aqui para ver a homenagem da poeta Regina Pouchain, do Rio, aos 40 anos do POEMA/PROCESSO.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Não tenha dúvida: a mídia é a maior responsável pela patética e jeca vassalagem a celebridades que, a partir da década de 1990, virou um flagelo mundial. (Sérgio AUGUSTO. As penas do ofício. Rio de Janeiro: Agir, 2006, p.36)

A televisão é uma máquina de fazer doidos. (Sérgio PORTO, anos 60)

A televisão é uma máquina de fazer idiotas. (BALAIO, anos 90)


BALAIO PORRETA 1986
nº 2024
Rio, 22 de maio de 2007

# Poema/Processo [] Poesia Concreta #


TRÊS POEMAS
de MARCO JUSTO (RJ)

Me lambe amor.
Me lambe inteiro
em tua boca:
até não restar
nada mais
que um Homem.

***

É uma devassa
tua palavra quando queima
em minha língua.

***

Todos os
silêncios
são gatos.

[ in Opus. Rio: Leviatã, 1993 ]

segunda-feira, 21 de maio de 2007

VAGANTE
de Acantha
[ in La Vie Bohème ]

os sonhos
(in) possíveis
não me deixam adormecer


BALAIO PORRETA 1986
nº 2023
Rio, 21 de maio de 2007
# Poema/Processo [] Poesia Concreta #


PRESSA
de Sandra Camurça
[ in O Refúgio ]

palavra abreviada
brasa que se apaga
na lenha


O DIARIM DE MARIA BUNITA - IX

Quirido diarim,
apois num é qui Dadá, aquela que pensa qui dá mais num dá, acomeçou a disconfiá de minha pessoa. Só purque o Diabo Lôro, qui é dela mais tumbém é meu, as veiz chamega um pouquim com eu. Só tenho um medo: e se ela arresolvê contá pro Capitão? Cuma é qui fica? Ai, ai, num quero nem pensá na desgracêra qui vai sê. Tumbém esse fi d'uma égua só veve ispiando minhas coxa quando eu tô de cóca, anda atrais d'eu qui nem sombra, num arreda pé, arguma reza essa alma tava quereno, né não diarim... Eu num tenho culpa desse cabra entrá nos meu sonho, mermo quando drumo nos braços do meu amô verdadêro, o capitão Virgulino. Ela num dêxe de bestêra não, apronto uma cum ela qui Virgulino corre cum ela em treis tempo daqui. Vai ficar sem o bando e sem o Curisco, qui é pra dexar de ser besta...