sábado, 17 de janeiro de 2009


Clique na imagem
para verouvir
o trêiler de
Quanto mais quente melhor
(Billy Wilder, 1959),
com Marilyn Monroe,
Tony Curtis e Jack Lemmon.
Em tempo:
a cópia disponibilizada pelo Youtube
não é das melhores.
Mas a cópia distribuída pela Cinemateca Abril
é muito pior: transformaram a bela fotografia
de Charles Lang em algo lamentável,
ora muito escura, ora beirando o sépia.
Enfm, uma cópia à altura da merdice
que é a revista Veja: pura escrotidão.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2539
Rio, 17 de janeiro de 2009

Finalmente a chamada "grande imprensa" descobriu o poeta mineiro Sebastião Nunes. Neste sentido, veja-se o Prosa & Verso, d'O Globo, de hoje: 'Verve iconoclasta' é o título da matéria. Já nos anos 70 destacávamos a sua importância no cenário da (contra)literatura nacional. E em janeiro de 1989 o Balaio apontava a sua Antologia mamaluca como o principal livro de 1988. [A título de curiosidade: Tião Nunes, em 1993, foi um dos signatários do manifesto de lançamento da candidatura de Chico Doido de Caicó à Academia Brasileira de Letras.]


ERÓTICA BATALHA
Sebastião Nunes
[ in Antologia mamaluca, 1988 ]

Tua latejante buceta palpitante.
Meu amargo cacete perfilado.
Ovos batem continência à beira do saco.
Como um guerreiro de merda
o cu recua ante a dura ofensiva.
Grandes e pequenos lábios
batem palmas e riem.
Meu cacete é a bandeira nacional.
A guerra é santa e eu avanço.


POEMA de
CHICO DOIDO DE CAICÓ
[ in Balaio, n° 290, de 15/05/1991 ]

Eu vi uma pentelheira
No corpo daquela dona
Que quase caí pra trás
Era pentelho de ruma
Que não acabava mais
Era uma mata profunda
Que começava no imbigo
E terminava na bunda.
Pra descobrir o priquito
Por detrás daquela mata
Fiz um esforço tão grande
O coração quase me mata
Os pentelhos da mulher
Era uma mata de cipó
Tudo muito emaranhado
Cheio de trança e de nó.
Me fiz de bom caçador
Na frente do cipoal
E rompi aquela mata
Com a força do meu pau.


O CÂNTICO DOS CÂNTICOS
de Salomão
[ in Bíblia Sagrada. Vozes, 1982 ]
Trad. Luís Stadelmann

/fragmento/

Ele:
Como és formosa e encantadora,
ó delicioso amor!
Teu talhe assemelha-se a uma palmeira,
e teus seios a cachos.
Eu disse: "Hei de trepar pela palmeira
e agarrar-me às suas frondes".
Teus seios sejam como racemos na cepa!
Teu hálito tenha a fragrância das macieiras!
Seja tua boca como vinho generoso,
a fluir suavemente, sob minhas carícias,
deslizando pelos lábios dos adormecidos!

Ela:
Eu sou do meu amado,
e ele arde em desejos por mim.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009


Nu reclinado (1917):
Amadeo Modigliani
[1884-1920]


BALAIO PORRETA 1986
n° 2538
Rio, 16 de janeiro de 2009

Suas melhores páginas nos esmagam. Ele punha
em versos difíceis uma prosa magnifíca.

(Maurice BARRÈS, sobre Baudelaire,
in Passagens, de Walter Benjamin)


POEMA de
CHICO DOIDO DE CAICÓ

Incrível Fantástico Extraordinário
Já champrei caicoenses e espanholas
Natalenses, mineiras e cearenses
Gaúchas, argelinas e até uma americana
Mas nunca champrei uma pernambucana


INSTRUÇÕES E CONSELHOS PARA A JOVEM NOIVA
Sra. Ruth Smythers
[ Esposa do reverendo L. D. Smythers,
pastor da Igreja Metodista Arcadiana da Congregação Leste,
de Nova York ]

Trad. Walter Cardoso Franco

Texto impresso e distribuído em 1894,
parcialmente divulgado pelo Balaio, nº 232, de 8/8/1990,
a partir de sua publicação na revista gaúcha Dundum

Nota:
Por ser um um texto relativamente longo
para os padrões do Balaio,

resolvemos destacar em vermelho
as partes que nos parecem mais interessantes.


Para a jovem e sensível moça que alcançou o privilégio de crescer e chegar ao casamento, devemos dizer que este dia é, ironicamente, o mais feliz e também o mais aterrorizante de sua vida. Do lado positivo, há o casamento propriamente dito, no qual a noiva é o centro das atenções de uma cerimônia bonita e comovente, cerimônia esta que simboliza o seu triunfo em lhe assegurar um homem que lhe proverá todas as suas necessidades pelo resto de sua vida natural. Do lado negativo, está a noite de núpcias, durante a qual a noiva deve “pagar para ver”, vulgarmente falando, ao se defrontar, pela primeira vez, com a terrível experiência do sexo.

Nesse ponto, cara leitora, deixe-me revelar uma verdade chocante. Algumas jovens, na realidade, aguardam a noite de núpcias com um misto de curiosidade e prazer! Cuidado com tal atitude! Um marido egoísta e sensual pode facilmente tirar vantagem de tal noiva. Nunca se esqueça de uma regra capital, para qualquer casamento: dê pouco, raramente, e sempre de má vontade: do contrário, o que tem tudo para ser um casamento feliz pode transformar-se numa orgia dos sentidos.

Por outro lado, o temor da noiva não deve ser extremo, porquanto o sexo, que, na melhor das hipóteses, é algo bastante doloroso, deve ser cultivado, e o tem sido pela mulher desde o início dos tempos, e é recompensado pela união monogâmica e pelos filhos. A maioria dos homens, se não lhes for negado, desejam fazer sexo quase todos os dias. A noiva sábia deverá permitir um máximo de duas rápidas relações sexuais por semana durante os primeiros meses do casamento. À medida que o tempo passar, ela deve envidar esforços para reduzir tal frequência. Doenças simuladas, insônia e dores de cabeça são os melhores aliados de uma esposa quanto a isso.

A maioria dos homens são por natureza pervertidos, e se a eles for concedida a menor chance, prontamente passarão a solicitar uma ampla variedade de práticas sexuais das mais repugnantes. Tais práticas incluem realizar o ato normal em posições aberrantes, praticar sexo oral no corpo da mulher, oferecendo os seus próprios e obscenos corpos para também serem usados com a boca da mulher.

Argumentos, apoquentações, repreensões e questionamentos também são muito eficazes, se usados tarde da noite, cerca de uma hora antes de o marido normalmente começar sua sedução.

As esposas inteligentes devem estar sempre alerta e cientes de novas e melhores maneiras de negar e desencorajar as aproximações amorosas de seus maridos. Uma boa esposa deve reduzir as relações sexuais ao mínimo. O ideal é uma só por semana ao fim do primeiro ano de casamento e uma por mês ao fim do quinto ano.

Ao redor do décimo ano de casamento, muitas mulheres já completaram a sua prole e atingiram o objetivo final de terminar todo e qualquer contato com seus maridos. Nessa época, ela deve fazer do seu amor pelos filhos e das pressões sociais elementos eficazes que mantenham o marido em casa.

Como já mencionamos anteriormente, a mulher, além de se manter alerta quanto a ter o mínimo de relações sexuais possíveis, deve também prestar muito atenção em limitar a espécie e a qualidade das relações sexuais. (..)

A mulher inteligente terá por objetivo nunca deixar que o marido a veja despida, nem que este se apresente despido. Praticar sexo, quando este não puder ser evitado, só em total escuridão. Muitas mulheres acham muito útil usar uma pesada e grossa camisola de algodão e providenciar pijamas para o marido, e não tirá-lo durante o ato sexual. Assim, um mínimo de corpo ficará exposto.

Uma vez que a noiva tenha colocado a sua camisola e apagado todas as luzes, ela deve deitar-se quieta e placidamente ao longo da cama e esperar pelo noivo. Não deve fazer qualquer ruído que possa, na escuridão, orientá-lo em sua direção; caso contrário, ele poderá interpretar isso como um sinal de encorajamento. Ela deve deixá-lo andar às apalpadelas no escuro. Existe sempre a esperança de que ele venha a tropeçar e sofrer alguma lesão, que, por mais leve que seja, possa vir a ser usada como desculpa para negar qualquer contato sexual. Quando ele a encontrar, ela deve permanecer tão imóvel quanto possível. Qualquer movimento de sua parte pode ser interpretado como excitação sexual. Se ele tentar beijá-la nos lábios, ela deve virar ligeiramente a cabeça de modo que o beijo alcance inocentemente as suas bochechas. Se ele tentar beijar-lhe as mãos, ela deve mantê-las com os punhos fechados. Se ele levantar a sua camisola e tentar beijá-la em qualquer outra parte do corpo, ela deve, imediatamente, puxar para baixo a sua camisola, pular da cama e anunciar que a mãe natureza a chama ao banheiro. Isso, geralmente, amortecerá o desejo dele de beijá-la em territórios proibidos.

Se o marido tentar seduzi-la com conversas lascivas, a esposa inteligente repentinamente lembrar-se-á de perguntar-lhe alguma coisa trivial e não sexual. Uma vez obtida a resposta ela deve prosseguir a conversação, não importando quão frívola ela possa parecer na ocasião. (...)

Ela deverá permanecer absolutamente calada ou falar sobre seus afazeres domésticos, enquanto ele realiza as manobras que o ato sexual requer. Sobretudo, ela nunca deverá emitir grunhidos ou gemidos durante a realização do ato sexual. Tão logo o marido complete o ato sexual, a mulher inteligente deverá começar a aborrecê-lo com conversas sobre tarefas que ela quer que ele realize no dia seguinte.

Muitos homens obtêm a maior parte de sua satisfação após a pacífica exaustão que se segue ao ato. Sendo assim, a mulher inteligente deve assegurar-se de que ele não tenha paz nesse período, pois, do contrário, ele logo se achará tentado a querer um pouco mais. A mulher inteligente deve se apegar ferrenhamente para que, sem descanso, atinja o seu principal objetivo de primeiro limitar e mais tarde anular completamente o desejo sexual dos seus maridos.

Nota1:
Para ver o texto no original (em inglês), na íntegra, clique aqui.
Nota2:
Quando de sua publicação no Balaio, o texto da Sra. Smythers - uma peça de humor involuntário - recebeu o título de Crônica da moral escrota. Não, não estávamos antecipando a escrotidão atual da revista Veja e daqueles que, na própria Abril, fizeram a horrorosa telecinagem de Quanto mais quente melhor. Nem tampouco estávamos prevendo a ridícula seleção do melhor da música erudita feita pela revista Bravo!, outra merdice atualmente patrocinada pela mesma Abril.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009


Rio de Janeiro

Foto
de
Ana de Toledo


BALAIO PORRETA 1986
n° 2537
Rio, 15 de janeiro de 2008

Foi apenas depois do fracassado levante comunista de 1935 que o Governo de Vargas conseguiu o completo controle sobre os sindicatos. Aquela data passou à História como o momento trágico em que a classe operária brasileira, na defensiva desde as primeiras horas da ascensão de Vargas ao Governo, perde completamente sua independência sindical. Dezenas de sindicalistas são presos ou mortos. ... Finalmente, com o golpe de 1937 [que daria origem ao Estado Novo] consolidava-se definitivamente a subordinação dos sindicatos ao
Ministério do Trabalho.

(Moacy CIRNE. A crise do sindicalismo livre,
in Estudos Políticos, n° 1, Rio, jan-fev. 1982)


A POESIA DE UM JOVEM PALESTINO ANÔNIMO
DECLAMADA NUMA CINZENTA MANHÃ DE 1936
POUCAS HORAS ANTES DE MORRER ENFORCADO
[ in Poesia palestina de combate ]

Ó noite
Deixa que o prisioneiro termine seus lamentos...
Não creias que é o medo que provoca as lágrimas
se choro é por minha pátria
e pelas crianças que deixei em casa
Quem lhes dará pão depois de mim?
se, antes de mim, meus dois irmãos
foram também
enforcados...


XLIX
Romério Rômulo
[ in Sociedade dos Poetas Vivos, 2, org, Blocos, 1992 ]

Se de repente te olho
Na transversal do meu sonho
Bebo delírios aos montes
De 4 em 4 te ponho.
Vejo curvas, horizontes
E a mente crespa desfolha
Poemas e bacanais.


SOU UM GRITO DE LIBERDADE
Anônimo
[ in Poesia palestina de combate ]

Não importa o que tiram de mim.
Eles não podem tirar a minha identidade,
ou a minha dignidade.
Sou um palestino.


RECOMENDAMOS

O sítio eletrônico da Fundação Astrojildo Pereira,
quase sempre com artigos interessantes.
Entre os mais recentes textos editados figuram:
Barack Obama e o Brasil, por Zulu Araújo;
Discurso de posse de Euclides da Cunha na ABL;
Viva e seja mais devagar, por Maria Cristina Britto.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009


Veneza

Foto:
Zelda Zabrinsky


BALAIO PORRETA 1986
n° 2536
Rio, 14 de janeiro de 2009

O adultério é a democracia aplicada ao amor.
(H.L MENCKEN, in O livro dos insultos, org. Ruy Castro)


DIARIM DE MARIA BUNITA
(12)
Divulgação:
Menina Arretada do Seridó

Meu diarim quirido,
Num fique cum raiva de mim pruque num tô lhe dando muita atenção, viu, é qui nóis tamo andando muito pur esse mundão de Meu Deus e Padim Ciço, procurando arguma ocupação pros homi e inquanto isso eu tombem mi divirto, diarim, qui às veiz essa vida de cangacêra tumbem cansa. As veiz eu quiria ter meu ranchim pru drumi cum meu Virgulino, nem qui fosse um ranchim de paia na bêra de um açude, fazer tapioca cum café, essas coisa qui toda muié sonha im tê. Mais sei qui vou sintí farta de batê côxa nos forró da vida, de dá uns tiro im cabra safado qui se mete a besta cum eu, essas coisas. Na Fazenda Pinga Fogo nóis foi dançar um forrozim cum a cabroêra toda, pruque os cabras pricisam se divertir um pouquim, ai diarim, o dono da fazenda se meteu a besta cum eu e pidiu licença a Virgulino prumode dançar cum eu. Ele num gostô muito não, mais deixô assim mermo e ficô cum os zói o tempo todo im riba deu. O dono da casa me disse nas minhas oiças que eu era linda, corajosa, o xodó dos sonhos dele, se dismanchô todo im ilogio pra cima deu e eu fiquei mais dismanchada ainda, é qui num risisto a uma cunversa de pé de ureia, a um bate-côxa aprumado. Mais aí o Capitão me puxô pelo braço, deu uns tiro pra cima e acabô cum o forró. Tem cabra inté oje correno cum medo. Sabe, diarim, meu Capitão é qui é homi indo e vortando. Nem no Beco da Lama e nem na tá de Mossoró tem homi qui nem ele... Duvi-d-o-dó qui tenha... Macheza cuma aquela nem aqui nem nos cafundós do giricó.


BAINHA ABERTA
Astrid Cabral
[ in Carne viva, org. Olga Savary ]

Crava em meu corpo essa espada crua.
Quero o ardor e o êxtase da luta
em que me rendo voluntária e nua.
Meu temor é a paz pós-união:
desenlace derrota solidão.


MATUTO NO RIO
Gerdo Bezerra de Faria
[ in 50 anos de causos, 2004 ]

Todo nordestino sabe que quem sai de sua terrinha natal, vai sofrer um bocado em outras paragens. [...] Quando um nordestino resolve se aventurar à nova vida da cidade grande é, sem sombra de dúvida, um desafio corajoso e de altíssimo risco. Além do medo do desconhecido, os familares e amigos não poupam o pobre coitado de conselhos, os mais variados e assombrosos possíveis, e se o aventureiro vai para o "sul maravilha" [leia-se: Rio e São Paulo], a coisa complica muito mais ainda:

- Cuidado com os assaltos!
- Num saia de casa à noite, e de dia só saia acompanhado.
- Não ande com muito dinheiro que vão tomar todinho.
- Deixe relógio e cordão de ouro em casa.
- Cuidado, que lá os caras estupram homens, mulheres e crianças!
- Se for assaltado, não reaja, senão lhe matam.
- Se for assaltado, entregue tudo.
- Cuidado com as balas perdidas!

Esses são os conselhos mais comuns, e foram esses mesmos que José Augusto Dias escutou quando resolveu deixar sua bela Caicó para ir tentar a vida no Rio de Janeiro. [...]

Lá chegou Zé Augusto no Rio de Janeiro, com a cabeça de nordestino e a cara de matuto a lhe denunciar. Mal saiu da rodoviária em busca de uma parada de ônibus que o levasse ao seu destino, em um lugar meio deserto, topou com outro destino. Um malandro se aproximou e pronto, encostou a boca de um 38 nas costas de Zé Augusto e, com aquela voz baixa e rouca, ordenou:

- Pau de arara, passe tudo o que tem aí.

Zé Augusto, paralisado pelo medo, mal se moveu para tirar a carteira e, com o pouco dinheiro que levava, entregou-a ao assaltante. Este deu uma rápida conferida e perguntou:

- Num tem mais mais nada não?
- Não senhor. - Respondeu com voz trêmula Zé Augusto.

O assaltante, ainda pressionando o revólver nas costas do assaltado e, achando pouco o que tinha conseguido, falou:

- Então passe o "redondo" pra cá.

Zé Augusto, além de paralisado e trêmulo, começou a ficar amarelo, branco, verde, cinza, azul, de todas as cores, e os conselhos dados em Caicó passavam pela sua cabeça como um filme, principalmente aqueles que diziam: - Lá os caras estupram até homem; Dê tudo que eles pedirem, se não eles lhe matam; Nunca reaja a um assaltante senão você morre. Mesmo assim, ainda conseguiu perguntar, rezando para ver se tinha entendido errado:

- O que foi o que o senhor pediu?
- O "redondo", otário, passe logo o "redondo" pra cá, paraíba, senão eu te empacoto. - Repetiu o assaltante, pressionando o revólver com força nas costas do caicoense.

Zé Augusto, vendo que nada adiantava [entre o pavor e a vergonha], foi desabotoando o cinturão e arriando as calças. Quando sua calça já estava na altura das coxas, o assaltante pressionou o revólver com toda força e falou, irritado e definitivo, para o grande alívio de Zé Augusto:

- Deixa de onda, paraíba, eu quero é o relógio!

terça-feira, 13 de janeiro de 2009


Foto
de
Re Melitieh Jozwik

in
Poema/Processo


BALAIO PORRETA 1986
n° 2535
Rio, 13 de janeiro de 2009


Israel diz que está lutando em Gaza por nós, pelos ideais ocidentais, pela nossa segurança, pelos nossos padrões ocidentais. Então também somos criminosos, cúmplices da selvageria que desabou sobre Gaza.
(Robert FISK, in The Independent,
reproduzido em Substantivo Plural)


PARAÍSO
Mariana
[ in Suave Coisa ]

aqui temos todas
as horas do
dia

prata escorre dos
lajedos
depois da
chuva

lágrimas engrossam o
canto dos pássaros o
uivo dos
cães

estar só é
dádiva

Nota:
O poema refere-se à cidade de Padre Paraíso,
hoje com uma população estimada em 20 mil habitantes,
no Vale do Jequitinhonha, MG


POEMA
Rita Marucia

levo a caneta no pescoço
escrevo nas mãos, no rosto

este corpo mal armado


TUA BOCA/ABISMO
Margarida Finkel
[ in Carne viva, 1984 ]

tua boca/abismo
caminho de todas as quedas
de onde,
fragmentada estrela viva
precipito-me em chamas
por teu corpo iluminado

teu corpo, em cujos mares
navego
e me encontro e me perco
em meio às tuas águas de ressaca


POEMA OBLÍQUO
Marcelo Novaes
[ in O Lugar que Importa, 2007 ]

Oblíqua é a chicotada
de vento, e a saudade
que se inclina como
filamento de
lamparina, a
esmaecer
esmaecer.

Oblíquo é o voo da linha
sem peso, e o choro que
se espreme como uma nota triste,
sem pemissão para aliviar-se.

Obíquo é o fantasma errante
a carregar um fiapo de luz,
no lugar do coração.

[][][]

RECOMENDAMOS ESPECIALMENTE

O manifesto de Gandhi, datado de 1938,
sobre a questão judaico-palestina:

"Não tenho dúvidas de que os judeus estão indo pelo caminho errado. A Palestina, na concepção bíblica, não é um tratado geográfico. Ela está em seus corações. Mas se eles devem olhar a Palestina pela geografia como sua pátria-mãe, está errado aceitá-la sob a sombra do belicismo britânico. Um ato religioso não pode acontecer com a ajuda da baioneta ou da bomba. Eles poderiam estabelecer-se na Palestina somente pela boa vontade dos palestinos. Eles deveriam procurar convencer o coração palestino. O mesmo Deus que rege o coração árabe, rege o coração judeu. Só assim eles teriam a opinião mundial favorável às suas aspirações religiosas. Há centenas de caminhos para uma solução com os árabes, se descartarem a ajuda da baioneta britânica.

Como está acontecendo, os judeus são responsáveis e cúmplices com outros países, em arruinar um povo que não fez nada de errado com eles.

Eu não estou defendendo as reações dos palestinos. Eu desejaria que tivessem escolhido o caminho da não-violência a resistir ao que eles, corretamente, consideraram como invasão de seu país por estrangeiros. Porém, de acordo com os cânones aceitos de certo e errado, nada pode ser dito contra a resistência árabe face aos esmagadores acontecimentos."

(Clique aqui para ler na íntegra o Manifesto de Gandhi,
reproduzido no blogue de Milton Ribeiro
)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009


Poema
de
Civone Medeiros
a partir de
Hélio Oiticica
in
Escrituras Sangradas


BALAIO PORRETA 1986
nº 2534
Rio, 12 de de janeiro de 2009


Mostre-me um puritano e eu lhe mostrarei um filho da puta.
(H.L MENCKEN, in O livro dos insultos, org. Ruy Castro)


O LIVRO DOS LIVROS
(Parte 2)
Texto estabelecido a partir de manuscritos
que se encontram nas bibliotecas de
Cairo, Londres, Paris, Petrópolis, Caruaru e Caicó

O primeiro assassinato

Expulsos do Jardim do Seridó, Tonho e Mané das Cacimbas, filhos de Severino e Raimunda, igualmente expulsos, conheceram uma jovem e bela mulher, vinda de Guarabira, na Paraíba. E os dois por ela se apaixonaram. E quiseram conhecê-la biblicamente. Mas Expedita - a mulher em questão - só queria chumbregar com um deles. E os dois irmãos se estranharam.

Tonho disse então a Mané das Cacimbas: "Vamos para Boqueirão, em Parelhas. Quero que você veja um jogo do Centenário; essa terra ainda será a terra do futebol". Mas quando se aproximavam do açude, Tonho agrediu o irmão e o matou com uma pexeirada. O Senhor das Alturas, desconfiado, perguntou a Tonho: "Onde está teu irmão Mané das Cacimbas?" E ele respondeu: "Não sei. Acaso sou o pastorador de meu irmão?" "O que fizeste? - perguntou o Senhor das Alturas. - Ouço da terra a voz do sangue de teu irmão, clamando por vingança. Terá sido por causa de Expedita, aquela sirigaita, que você o matou?"

E o Senhor das Alturas condenou-o a passar 6 anos, 6 meses e 6 dias perambulando pelo sertão com os cabras de Lampião, fugindo dos macaco da capital e das onças pintadas da região. Tonho disse ao Senhor das Alturas: "O castigo é grande demais para suportá-lo. Não poderei simplesmente ir para mais longe, para os cafundós da Bahia, oh meu Rei?" O Senhor das Alturas gostou da ideia e disse: "Tudo bem. Quem sabe, um dia você acaba estrelando um filme de Glauber Rocha". Afastando-se da presença do Senhor das Alturas, Tonho foi morar em Vitória da Conquista, e lá conheceu Capitulina, casada com Joaquim Casmurraldo. Tonho e Capitulina se gostaram e fugiram para o interior de Pernambuco.

A humanidade se amplia

O Senhor das Alturas ficou indignado, mas preferiu não interferir ao ver que ela deu à luz a Pedro dos Papagaios. Tonho veio a construir uma cidade e lhe deu o nome de Petrolina, em homenagem a seu filho. Pedro dos Papagaios foi o pai de Mirador, Mirador de Abimael, Abimael de Matutosalém e Matutosalém de Riobaldo.

Riobaldo casou com quatro mulheres; uma se chamava Diadorinha, a segunda Estrela da Manhã, a terceira Iracema, a quarta Dualiba. O nome do irmão de Riobaldo era João Rosa, antepassado de todos os tocadores de rabeca e sanfona. Dualiba teve três filhos: Vaca Véia, artífice de todos os instrumentos de bronze e ferro; Bala Choca, forrozeiro e cantador de feira; e Ojuara, criador da literatura de sacanagem. Diadorinha e Estrela da Manhã abandonaram Riobaldo e preferiram se amigar, como se macho e fêmea fossem.

Severino, que deixara Raimunda, champrou muitas vezes a sua segunda mulher, por Esmeraldina conhecida. Ela deu à luz um filho, a quem chamou Sertão do Cariri. Severino já tinha 69 anos quando o gerou. E viveu mais 24 anos e gerou filhos e filhas, que se deliciavam com a chamegação entre si e com os vizinhos e vizinhas.

Sertão do Cariri tinha 33 anos quando gerou Jorge Fernando. Viveu mais 87 anos e gerou filhos e filhas, que foram povoar a Paraíba, o Ceará, o Piauí e Mossoró. Morreu ao ser atacado e devorado por uma onça pintada das mais brabas.

Jorge Fernando gerou José Bezerrão. Tinha 27 anos, então. Viveu mais 53 anos e gerou filhos e filhas, entre os quais Zé Areia Preta, Zilah Medina, Luís Carlos do Curral Novo, Miriam Celeste, Miguel Ciríaco, Sanderson Fabulário, Menandro Casto, Sandra Sandrix, Paulo de Bartola, Jarbas Angicos, Jenildo dos Pampas, Milton Costa, Alta Solta e Americana Marize de Macedo. Todos se amigaram com homens e mulheres da Paraíba e Pernambuco, e geraram muitos filhos e filhas, que viviam em paz e harmonia, na maior felicidade, no mais doce dos chumbregamentos. Os próprios animais, selvagens e não-selvagens, viviam para procriar.

E o Senhor das Alturas, indiferente, além de chateado com aquela eternidade sem princípio e sem fim, só cubava. E o Senhor das Alturas disse: "Meu espírito, já deu para perceber, não ficará para sempre no Homem, porque ele é apenas carne. E o homem não viverá mais do que 120 anos". Dito isso, foi jogar baralho com seu amigo Luisinho Ciferino.

Os anos se sucederam e o Senhor das Alturas, então induzido pelos fanáticos da Igreja Universal do Reino do Diabo, passou a ver pecado onde pecado não existia, passou a ver maldade onde maldade não existia. E o Senhor das Alturas viu o quanto tinha crescido os contatos carnais entre os seres da terra, sequidores que eram dos primeiros habitantes que tinham lido, ainda em Jardim do Seridó, os livros de sua inestimável Biblioteca de Babel.

E o Senhor das Alturas ficou puto da vida. E o Senhor das Alturas se fez vingativo. E o Senhor das Alturas se fez cruel. E o Senhor das Alturas se fez terrível.

Continua
Próximo capítulo:
O dilúvio e a jangada gigante do Mestre Cascudinho

domingo, 11 de janeiro de 2009


Gaza, Palestina:
Imagem distribuída
pelo
Movimento Revolucionário Internacional


BALAIO PORRETA 1986
n° 2533
Rio, 11 de janeiro de 2008

Nessa inominável guerra do Oriete Médio, em que cada lado se acha dono da razão, a principal vítima, depois das crianças, é a sensatez. Qualquer que seja o vitorioso, não haverá vitória ali, a não ser da barbárie.
(Zuenir VENTURA, in O Globo, Rio, 10/01/09)


BILHETE
Mariana
[ in Suave Coisa ]

meu corpo ancorou
na ausência

adeus


POEMA
Moacy Cirne
[ in Rio Vermelho. Natal, 1998 ]

Como
era
mesmo
o
nome
daquela
rapariga
que me anoitecia de carnes e espantos?


GAZA
Adair Carvalhais Júnior
[ in Ventos Desencontrados ]

crianças
escolas
mísseis

homens
bomba

silêncio
gritos

horror
eterno

(espécie em extinção)

[][][]

No Balaio de amanhã:
O LIVRO DOS LIVROS
(Parte 2)

sábado, 10 de janeiro de 2009


Clique na imagem
de Kim Novak
para verouvir
o trêiler de
Vertigo / Um corpo que cai
(Alfred Hitchcock, 1958),
uma das obras-primas
do cinema americano dos anos 50


BALAIO PORRETA 1986
n° 2532
Rio, 10 de janeiro de 2009

A cada nova guerra, seja aqui, seja no Oriente Médio, a humanidade fica menor. Fica mais desqualificada exatamente como "humanidade".


ALFREDO OU MANFREDO
por Gerdo Bezerra de Faria
[ in 50 anos de causos, 2004 ]

Nota do Balaio:
O fato narrado por Gerdo Bezerra, a seguir, tem como principal protagonista o radialista esportivo natalense Hélio Câmara, americano "doente".

Um certo dia estava o América jogando [no Machadão, em Natal] contra um time do Pará, acho que era o Paysandu, não lembro bem, quando algum repórter de pista chamou o comandante da jornada com uma informação. Hélio Câmara abriu espaço para ele e travaram o seguinte diálogo:

- Fala quem chamou.
- Vai mudar o Paysandu, sai Ribamar e entra Alfredo.
- Sai Ribamar e entra quem?
- Alfredo!
- Alfredo ou Manfredo?
- Alfredo, com A. Alfredo.

E aí Hélio Câmara, na empolgação da transmissão, que eu nem sei dizer se o América estava ganhando ou empatando, só sei que não estava perdendo, sai com essa comparação que me fez dá uma risada tão grande, bem embaixo do placar, já que eu me encaminhava para a saída, que os poucos torcedores que se encontravam lá pensaram que eu era maluco. Vejam a preciosidade:

- Vai entrar Alfredo, Alfredo Hitchcock, o homem da psicanálise.


APOCALIPSE
Linaldo Guedes
[ in Zumbi Escutando Blues ]

os ganchos
já estão
me levando

os anjos louvam: é hora de dormir.


POEMA de
CHICO DOIDO DE CAICÓ

Nunca comi Maria Antonieta Pons
Nunca comi Terezinha Morango
Nunca comi Elizabeth Taylor
Nunca comi Martha Rocha
Nunca comi Kim Novak
Mais comi todas as raparigas do Cai Pedaço


DIARIM DE MARIA BUNITA
(11)
Divulgação:
Menina Arretada do Seridó

Meu quirido diarim.
Faiz umas duas sumana qui não converso com ocê, mais é qui andei mitida por esse mundão de meu Deus e do Padim Ciço, cum meu amô de verdade, Virgulino, e cum meu desamô de mintira, o Diabo Lôro, cuma ocê já sabe. Sumana passada, um sabo chei de quintura, teve um bate-coxa na fazenda Pind'água e dancei a noite todinha cum o Capitão, qui ele num é ômi de dexá qualqué um encostá a mão im neu não. Adepois, cuma era dia de Santotóim eu fiz umas adivinhação pru mode ver se tem mais arguém no meu distino, pruque eu sô uma muié precavida, sô sim, ômi é oje, num é aminhã. Mais o que vi foi muito iscarcéu, muito fogo, uma craridade só, fiquei cum medo, mais num falei nada pro Capitão, ele num credita nessa crendice não, era inté capaz de brigar cum eu. Tarde da noite, quando nóis vortemo, durmi agarradinha cum Virgulino na baladêra, adepois disso, meu medo passô, viu diarim, mais inda tô acafifada, inda tô sim. Vige meu Padim Ciço! Mais dimais num sô de carregá água em balaio não, sô mais é de chamá nos carretéis.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009


Foto
de
Leszek Kowalski


BALAIO PORRETA 1986
n° 2531
Rio, 9 de janeiro de 2009

poema,
arquitetura de coisas esquecidas.
(Mario Cezar, in Coivara)


EM NOITE DE BRUXAS
Márcia Maia
[ in Tábua de Marés, em 1/10/2003 ]

sou faca
de aço, cristal ou prata
navalha de fogo
sou morte, sou grito
sou gozo

em noite de bruxas
sou apenas eu

(e isso me encanta e basta)


CAICOENSE BRABA
por Gerdo Bezerra de Faria
[ in 50 anos de causos, 2004 ]

Uma prima [de Jader Teixeira Dantas] encontrou o marido bebendo com um amigo no famoso bar de Ferreirinha, em Caicó, no Rio Grande do Norte, logo cedo, num sábado, quando estava voltando da feira. Como ele não tinha dito nada a ela sobre sua programação naquele dia, e como ela achou muito cedo para que o mesmo já estivesse bebendo, perguntou:

- Nego, você vai almoçar em casa?

Partindo de uma caicoense, e isso quem afirma sou eu, essa pergunta serve muito mais para saber o que deveria fazer para o almoço do que para exigir sua presença na hora de almoçar. Isso não é próprio das mulheres caicoenses.

- Vou. - Respondeu secamente.

Ela deve ter preparado um bom almoço, como também é próprio nas mulheres caicoenses. Esperou o marido até cansar e ele não apareceu. Então guardou o almoço para o jantar, sem nenhum grilo, mas ele também não apareceu. Como já o conhecia muito bem, sabia que se não fosse lá, ele só viria quando estivesse completamente embriagado, e resolveu voltar ao bar do Ferreirinha. Quando chegou, encontrou o marido bebendo no mesmo local, com o mesmo amigo e já não perguntou mais, foi quase exigindo, com a cara fechada e um péssimo humor:

- Nego, você não vai pra casa não?

O amigo, que deve ter se sentido culpado pelo fato do companheiro não ter ido ainda para casa, e como conhecia a mulher do outro, foi quem tentou rapidamente justificar a sua demora:

- Prima, não fique preocupada não, desde de manhã que ele está comigo, e não tenha medo que assim que a gente terminar uma conversa aqui, ele vai direto pra casa, eu garanto. Pode ficar tranquila que daqui ele não vai para outro canto de maneira nenhuma.

A mulher pensou um pouco naquele bom argumento e, para justificar a exigência de levar o marido para casa imediatamente, não pensou duas vezes e nem ligou para a presença de ninguém para soltar a língua:

- Meu amigo, eu não estou preocupada se ele vai sair daqui para outro lugar não, se vai ficar o resto da noite com você, se não quis almoçar, jantar, ou outra coisa qualquer, eu só estou preocupada é que ele beba demais e fique muito bêbado.

- E que qui tem, quando ele chegar em casa você bota ele pra dormir. - Aconselhou o amigo.

- Você acha fácil porque não é você quem vai se deitar com ele, pois se ele chegar muito bêbado em casa... não vai querer comer o seu cu não, viu, ele vai querer comer é o meu!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009


Clique na imagem
para verouvir
Maysa
interpretando
Meu mundo caiu
para a TV japonesa em 1959

(Foto de 1966: autoria não-identificada)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2530
Rio, 8 de janeiro de 2009


Outra intérprete importante da época [da bossa nova] foi a MAYSA de Ouça e Meu mundo caiu, mais adiante a primeira a gravar O barquinho, acompanhada do embrionário TAMBA TRIO.
(Tárik de SOUZA, in Brasil musical, 1988)


PREDESTINAÇÃO
Ascenso Ferreira
[ in Xenhenhém, 1951 ]

- Entra pra dentro, Chiquinha!
Entra pra dentro, Chiquinha!
No caminho que você vai
você acaba prostituta!

E ela:
- Deus te ouça, minha mãe...
Deus te ouça...


Memória 2005
13 x 1
com o jornalista AILTON MEDEIROS
[ in Preá, n° 11, Natal, março/abril 2005 ]

Romancista: Gabriel García Márquez
Poeta: Zila Mamede
Livro: Deserto dos tártaros
Filme: Sexo, mentiras e videoteipe
Diretor/cinema: Spike Lee
Ator/atriz: Juliette Binoche
Pintor: Joan Miró
Cantor/cantora: Cazuza
Compositor: Chico Buarque
Música: Todo amor que houver nessa vida
Peça teatral: Vestido de noiva
Intelectual: João Wilson de Mello
Personalidade cultural do RN: Nei Leandro de Castro


Exclusivo para o Balaio
O LIVRO DOS LIVROS (1)
Texto estabelecido por
Fausto Simak da Cunha Azevedo
& Zamagna Borges de Azevedo Bouzon,
com revisão teológica de
Mateus Skrzypczak de Macedo

A origem de tudo

No princípio o Senhor das Alturas criou Caicó e as cidades vizinhas. O rio Seridó estava seco e as trevas cobriam o açude Itans e todo o mundo.

O Senhor das Alturas disse: "Faça-se uma luz da gota serena". E a luz da gota serena se fez. O Senhor das Alturas viu que a luz era boa e Caicó e o mundo se iluminaram, com seus dias e suas noites.

O Senhor das Alturas disse: "Faça-se um firmamento, e se façam a Serra de Mulungu, o açude Gargalheiras, o Poço da Moça, o Poço da Bonita, o Poço de Santana, o sítio Caatinga Grande e a minha Biblioteca de Babel". E assim se fizeram.

E o Senhor das Alturas disse: "Façam-se o sol, a lua, os planetas, a Serra do Doutor, a Serra da Borborema, Natal, Olinda, Martins, Galinhos, Macaíba, Angicos, Santana do Matos, Catolé do Rocha, Recife, Rio de Janeiro, Niterói, São Paulo, Porto Alegre, Ouro Preto, Paris, Lisboa, Luanda e o Fla-Flu". E assim se fez.

E o Senhor das Alturas fez brotar do sertão e das outras terras toda espécie de animais e de árvores com seus frutos atraentes e saborosos: mangas e mangabas, cajus e cajás, pinhas e maçãs, carambolas e maracujás. E o Senhor das Alturas fez mais: criou a canjica, a pamonha, a tapioca, o doce de leite e o pé-de-moleque. E àquele lugar em particular, nas veredas do grande sertão, o Senhor das Alturas deu o nome de Jardim do Seridó. E o Senhor das Alturas gostou do que fez. E o Senhor das Alturas gostou do que por Ele foi criado.

A origem da humanidade

O Senhor das Alturas, sentindo-se depois entediado, formou o Homem da gala da terra e deu-lhe o nome de Severino. E o Senhor das Alturas vendo que o Homem sentia-se solitário e deprimido resolveu criar uma companheira para ele. E do vento das 5 horas da tarde criou a Mulher e deu-lhe o nome de Raimunda. Ambos estavam nus, o homem e a mulher, mas não se envergonhavam.

E o Senhor das Alturas disse: "Vocês tudo podem, só não podem conhecer como funcionam as leis físicas, matemáticas, filosóficas, literárias e biológicas do Universo; ignorem, pois, a minha Biblioteca". Dito isso, foi descansar, depois de almoçar carne-de-sol com macaxeira, feijão de corda, arroz de leite e manteiga do sertão, com direito a três lapadas da cachaça Samanaú.

Severino e Raimunda, vendo que o Senhor das Alturas fora descansar longe dos dois, na Serra de São Bernardo, resolveram, em noite de luar às margens do rio Seridó, se aprofundar em seus contatos físicos, ao som da flauta de Carlos Zens. E viram que era bom. E viram que um e outro podiam se encaixar várias e várias vezes. E viram que era ótimo. E quiseram mais: quiseram conhecer como funcionavam as leis do Universo.

E o Senhor das Alturas, depois de uma soneca que durou mais de 13 anos, não gostou do que viu: Severino, Raimunda e seus dois filhos discutiam as teorias e contrateorias de Platão, Aristóteles, santo Agostinho, Ibn Khaldun, Spinoza, Kant, Marx, Nietzsche, Freud, Einstein, Sartre, Foucault e Chico Doido de Caicó. E outras coisas discutiam. E outras coisas faziam.

E o Senhor das Alturas disse: "Quem domina o conhecimento, domina a essência das coisas. Só eu poderia fazê-lo". E o Senhor das Alturas, raivoso, expulsou-os do Jardim do Seridó, para cultivarem o solo seco do sertão. E o Senhor das Alturas disse: "A partir de hoje não poderão mais consultar a minha Biblioteca de Babel". E o Senhor das Alturas colocou diante do Jardim os seus coronéis do interior, para que o mesmo não fosse invadido pelos sem-terra e sem-moradia, representados por Severino, Raimunda e os dois filhos.

(Continua na próxima semana)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009


Capa da edição brasileira
(por Jonathan Yamakami) de

CHE -
Os últimos dias de um herói,
quadrinhos argentinos de
Héctor Oesterheld
& Alberto e Enrique Breccia
(lançamento da Conrad, de São Paulo)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2529
Rio, 7 de janeiro de 2009


"Demos um sumiço nele [o roteirista Héctor Oesterheld], por ter feito a mais bela história do Che que já foi escrita".
(De um militar argentino para o escritor italiano
Alberto Ongaro, citado por Rogério de Campos)


UMA OBRA-PRIMA DAS HQs
EDITADA NO BRASIL
PELA PRIMEIRA VEZ

Arte. Política. Quadrinhos. Historietas. Humanismo. Socialismo. Guerrilha. América latrina? América Latina! América ladina... Uma obra-prima: sobre Che. Che Guevara. Ernesto Che Guevara. O homem. O revolucionário. O mito. E há o grafismo renovador. O claro-escuro definido. O preto no branco. O branco no preto. A iluminação crua. A narrativa modelar. A decupagem precisa. A fluência-textura gráfica e temática. O final antológico. A rigor, 78 páginas antológicas: luminosas, iluminadas - verdadeiras iluminagens. O traço de Alberto Breccia influenciaria Hugo Pratt, influenciaria Frank Miller. Quem mais? Quem mais? A considerar outras obras de sua autoria igualmente importantes. A considerar, também, o desenho de Enrique Breccia, seu filho. E o texto de Héctor Oesterheld, que foi assassinado pela didatura militar argentina em 1977 (assim como praticamente o foi toda a sua família), por ter ousado, em 1968 - ano da primeira edição da HQ em pauta -, louvar a vida de um líder cubano. Che - Os últimos dias de um herói. Contra toda e qualquer ditadura. Sim, a ditadura. Seja no Brasil. Seja no Uruguai. Seja no Chile. Seja na Argentina. Seja em outros países. "Primeiro matamos os subversivos, depois seus colaboradores e então os que continuam indiferentes, até, finalmente, matamos os tímidos", dizia o general Ibérico Saint Jean exatamente em 1977 (cf. a ótima Nota da edição brasileira, assinada por Rogério de Campos). Mas o mito Che resistiu ao tempo. Como resiste a hq Che. Não só um dos grandes lançamentos editoriais de 2008/2009. Desde 68, uma obra para ficar. Como ficou O encouraçado Potemkin, de Eisenstein. Como ficou a poesia de Vladimir Maiakóvski.


ESPELHO
Bosco Sobreira
[ in A Pedra e a Fala ]

Estrangeiro de mim
já não me reconheço o rosto
que o espelho
(esse serviçal do Tempo)
me devolve
agora
sem nenhum pudor

Serão minhas
estas cicatrizes
que de tão antigas
ainda sangram
dor?


SIMPLES ASSIM
Pavitra
[ in Metamorfraseando ]

ao adorável poeta

eu queria uma palavra
apenas uma

e meus olhos te mostrariam
dois sóis

(um em cada pupila)

por trás do inevitável arco-íris
eu te darei um sorriso

só isso
e já me clareava o dia


POEMA
Mary Morena
[ in Versos deLírios ]

dentro de mim
minas
todos os meus esconderijos
e um desejo de ser garimpada


QUATRO POEMAS de
Chico Doido de Caicó
[ in Balaio, n° 288, maio de 1991 ]

No Cais Sodré
Eu conheci um menino paneleiro
Que comia muito chocolate
E derramava lágrimas de açúcar e sal
Por marujos do Brasil e de Portugal.
[][][]
O algodão doce de Mamede
Alegrava a criançada
O algodão doce de Rosalva
Alegrava a rapaziada.
[][][]
Marujo era um cara legal
Morreu pobre e botafoguense
Sem nunca ter experimentado melhoral.
[][][]
Uma tristeza do tamanho de quê?
Do tamanho do silêncio no campo do Maracanã
Que eu cheguei a ouvir de Natal
Em mil novecentos e 50.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009


Crepusculecer no Potengi, em Natal

Foto:
Sandra Porteous


BALAIO PORRETA 1986
n° 2528
Rio, 6 de janeiro de 2009

Até quando o governo de Israel alimentará um provável anti-semitismo daqueles que desejam a paz em escala mundial? Até quando o governo de Israel continuará a sua escalada terrorista contra os palestinos? Até quando? Até quando? Mas é preciso esclarecer, antes de tudo: a cultura judaica, por sua grandeza, por sua história, não merece ser tutelada politica e ideologicamente por um governo como o de Israel. Nem por qualquer outro governo.


O POTENGI
Nei Leandro de Castro
[ in Autobiografia, 2008 ]

Esse rio é uma loucura,
esse rio é um assombro,
já fiz amor no seu leito
com água pelos meus ombros,
(...)
Esse rio é tão bonito
que perdoo sua loucura.
Ele afoga o por-do-sol
e corre à minha procura.


DO AMOR E OUTRAS QUIMERAS
Sheyla Azevedo
[ in Bicho Esquisito ]

Os poetas que eu amei me deixaram gosto de palavra na boca e um coração em formato de baú, onde eu guardo principalmente lembranças de versos inacabados.

Os poetas que eu amei me deixaram sandálias de pedra e rastros de outras Marias, Joanas e fulanas que eu nunca poderia ter sido.

Os poetas que eu amei deixaram frases tempestuosas, que causaram enxurradas, relâmpagos e trovões no meu céu de agosto, que tem gosto de sálvia e alecrim.

Os poetas que eu amei quando descobriram meus olhos tristes e minhas mãos mancas, deram risada do meu jardim pisoteado pelos meus gatos e pelas joaninhas que se escondem por entre as folhas.

Os poetas que eu amei deixaram gosto de relva nos meus cabelos e meia dúzia de canções na vitrola (que eu não ouço mais).

Os poetas que eu amei nunca se deixaram fotografar à luz do dia. Mas se entregaram às metáforas das minhas pontes e às linhas dos meus desejos (sempre no cenário da lua).

Os poetas que eu amei me deixaram gestos lascivos como: passar os dedos por entre os cabelos; caminhar sentindo a areia tocando os pés; ouvir som de flauta e atravessar sorrisos com gargalhadas.

Os poetas que eu amei me deixaram, no mínimo, três imperfeições. Com as quais invento sonhos, desenho caminhos e ergo muros.



CORREIO SENTIMENTAL
lusitano:
humor involuntário

Cf. Viva la Revolución,
em 2007

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009


Imagem:
Leon Rodrigues
via
Pulsar Poético


BALAIO PORRETA 1986
n° 2527
Rio, 5 de janeiro de 2009


Existe a beleza de um crepúsculo. Ou de uma aurora. Ou do sorriso da pessoa amada. Ou dos verdes mares que nos encantam. Ou, então, de um poema que nos emociona. Ou, ainda, de um gol no último minuto de jogo do nosso time. Mas, infelizmente, existe a dor da guerra. A dor de uma invasão territorial injusta e criminosa. A dor da miséria. A dor da fome. A dor provocada pela esperteza ideológica dos abutres da Humanidade. O que nos resta? A poesia, o humor, a esperança. Ou a beleza de um crepúsculo.


POEMA de
ZÉ LIMEIRA
segundo Orlando Tejo

O velho Thomé de Souza,
Governador da Bahia,
Casou-se e no mesmo dia
Passou a pica na esposa.
Ele fez que nem raposa:
Comeu na frente e atrás.
Chegou na beira do cais,
Onde o navio trefega
Comeu o Padre Nobréga,
Os tempos não voltam mais.


OS PRIMEIROS POEMAS de
CHICO DOIDO DE CAICÓ (1922-1991)
PUBLICADOS NO BALAIO
[ in n° 263, de 11 de março de 1991 ]

Sangria sangrando sangrar
O Itans é o nosso mar
Sangrando sangrar sangria
O Itans é a nossa alegria
Sangrar sangria sangrando
O Itans é o nosso chão sagrado.
[][][]
Alguns gostam de fi-o-fó
Outros de suco de mangaba.
Eu, mais modesto,
Gosto mesmo é de uma
Xiranha em noite de luar.
[][][]
Meu compadre
Minha comadre
O Rio Seridó hoje tá uma beleeeeeeeza.
[][][]
- Compadrim meu,
Existe coisa melhor do que farinha com rapadura?
- Existe, hômi!: mulher nova, borogodosa e cheia de quentura.


POEMA
Sandra Camurça
[ in O Refúgio ]

Permita-me, moço
beijar seu membro
com a ternura e a castidade
de um anjo torto
Permita-me ungi-lo
com o mel de minha língua
louca, selvagem
e vulgar
Permita-me ainda
abismá-lo
sofregamente chupá-lo
e enfim saber do gozo
em seu vinho
comovida como o diabo

DIARIM DE MARIA BUNITA
(10)
Divulgação:
Menina Arretada do Seridó

Quirido diarim,
Apois num é qui os minino de Mossoró tão cum a mulésta!
Foi o que me contaro, viu meu diarim? Ô bando
de minino arretado, num é à tôa qui é tudo papangu! Num sei não,
acho qui vou passá o São João lá praquelas banda, arrastá um
forrozim junto cum a cabroêra toda pruque ouvi dizê qui lá em
Mossoró os cabra são tudo cheim de presepada, bom de arrasta-pé
e de tomá uma goropada boa, dessas qui dêxa a gente cum vontade
de aprontá... Adispois, quem sabe, se dé tempo, eu dô uma
passadinha pelo Siridó qui ninguém é de ferro, tomá um banho

de açude e comer tapioca cum pirão de farinha seca e caldo de mocotó,
pra vê se levanta a moral dos minino do bando, inclusive de Virgulino,
qui ele tá precisano, tá sim, diarim... Mais milhó mermo vai ser arrastá
pé e asa cum os Papangu de lá, eita bando de minino invocado e
presepento... Se avexem
não qui tô chegano...
Poisé, meu diarim, macaxêra mocotó:
quando chegá a hora, o Capitão vai arrasá cum aquela cidade
e eu vô aproveitá, ora se vô. Eta São João bom da peste
a gente vai tê, cum pau-de-fumaça na mão e forrozim no pé.

domingo, 4 de janeiro de 2009


A beleza da imagem
(Fonte: Reuters)
não esconde a sua crueza:
um tanque israelense
a caminho da Faixa de Gaza.
Lamentavelmente.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2526
Rio, 4 de janeiro de 2009


Eis como estão as coisas em Israel: opor-se à paz é sempre atitude legítima e patriótica; opor-se à guerra é traição, atitude antipatriótica e atitude que deve ser combatida.
(Gideon LEVY, jornalista israelense, in Carta Maior)


TRAMA
Dyrce Araújo
[ in Pecado imortal, 1985 ]

No côncavo
Das mãos
A teia que te prende:
Temo que fujas
Pelo fio do pensamento.


POEMA
Gastão de Holanda
[ in Cor-purificação, 1979 ]

mordes o membro
com a delicadeza
dos gatos
quando transportam
pelo pescoço
os frágeis filhotes


POEMA
Mário Ivo Cavalcanti
[ in Cidade dos Reis ]

Então, Senhora
Por que o espanto?
Se Deus desata lágrimas,
também eu posso quebrar-te o encanto.

Pois, Senhora
Vira assim de lado
Se é certo que o mal há de imperar
que próspero seja teu pranto.

Por fim, Senhora
não é a mim a quem deves agradecer
ou refutar –
É ao Tempo, à Poeira e ao Desencanto.


DIARIM DE MARIA BUNITA
(9)
Divulgação:
Menina Arretada do Seridó

Quirido diarim,
apois num é qui Dadá, aquela que pensa qui dá mais num dá,
acomeçou a disconfiá de minha pessoa. Só purque o Diabo Lôro,
qui é dela mais tumbém é meu, as veiz chamega um pouquim com eu.
Só tenho um medo: e se ela arresolvê contá pro Capitão?
Cuma é qui fica? Ai, ai, num quero nem pensá
na desgracêra qui vai sê.
Tumbém esse fi d'uma égua só veve ispiando minhas coxa
quando eu tô de cóca, anda atrais d'eu qui nem sombra,
num arreda pé, ô danadim,
arguma reza essa alma tava quereno, né não diarim...
Eu num tenho culpa desse cabra entrá nos meu sonho,
mermo quando drumo nos braços do meu amô verdadêro,
o capitão Virgulino.
Ela num dêxe de bestêra não, apronto uma cum ela
qui Virgulino corre cum ela em treis tempo daqui.
Vai ficá sem o bando e sem o Curisco, qui é pra deixá de sê besta...
Arre diacho, me alembrei di uma coisa bem coisinha:
quando eu aparecê no Beco da lama, si aparecê,
tenho qui tomá a purinha com parede de caju.
Assim ninguem vai querê brincá com o meu fi-o-fó,
apois basta ficá quage beba para a minha pessoa
sê mais valente do que o meu Capitão.
E si num tivé uma boa parede, posso ficar bebinha,
bebinha pra valê, cuma o tinhoso gosta.
Cuma em Olinda, ora si num foi,
quando pintaro e bordaro cumigo.