segunda-feira, 13 de agosto de 2007


OITICICA ENCONTRA ITAJUBÁ
de Adriano de Sousa (RN)
[ in Blog de Adriano ]

O que é a poesia?
Não sei, e se soubesse não contava pra ninguém.
O que é o poema?
Tudo aquilo que você chama de poema.
Isso é uma citação?
Sim. Aqui não usamos argumentos; só citações.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2089
Rio, 13 de agosto de 2007



A EXCOMUNHÃO DAS IRIDOMYRMEX HUMILIS
por Luiz Antônio Simas (RJ)
[ in Histórias do Brasil ]

Leio, em alguns registros da história da província do Maranhão, que, em 1713, os religiosos de um convento em Piedade travaram dura batalha contra centenas de formigas. Os impertinentes insetos himenópteros estavam invadindo a despensa do convento para comer a farinha dos padres.
As ditas cujas, pelos relatos dos apavorados religiosos, pertenciam a espécie das iridomyrmex humilis, as famosas formigas-açucareiras, que se caracterizam pelo péssimo hábito de invadir casas em busca de qualquer tipo de alimento. Eram elas, sem dúvidas, que estavam atazanando o juízo dos homens de Deus.
Após infrutíferas tentativas de eliminar os insetos, os padres resolveram processar as formigas no Tribunal da Divina Providência, cuja sede no Maranhão era presidida pelo vigário-geral. As formigas foram julgadas e condenadas severamente. O tribunal estabeleceu que os religiosos deveriam demarcar uma área para que as formigas se locomovessem; se as vilãs da história ultrapassassem o espaço determinado, seriam submetidas ao ritual de excomunhão - a mais vil das condenações.
Os leitores que acham que essa memorável passagem do direito canônico nacional terminou aí, estão enganados. O tribunal determinou que a sentença fosse lida por um padre na boca do formigueiro. Tenho amigos advogados que, certamente, concordarão que o procedimento correto era mesmo o de comunicar a sentença a quem de direito.
Acontece que as formigas, tremendamente subversivas, não respeitaram a decisão das autoridades canônicas; as hereges continuaram invadindo a despensa do convento, sem demonstrar receio algum do risco de excomunhão a que estavam sujeitas.
Diante do comportamento ilegal das formigas, o tribunal determinou a excomunhão de todo o formigueiro do convento. A sentença foi lavrada e o rito de condenação sumariamente executado, com a presença do vigário-geral. As formigas excomungadas, com a pança cheia de farinha, devem estar, até hoje, enchendo a paciência do coisa ruim, nas profundas do reino do pé-de-bode.

UM BLOGUE PORRETA

Histórias do Brasil
, de Luiz Antônio Simas.
Humor & crítica em alta voltagem:
uma história nada convencional de nossos heróis,
canalhas, mártires, malandros, santos, sambistas etc.

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dentro de ti medita um
sol mediterrâneo
(Cláudia Roquette-Pinto,
tomatl
,
in Pedras de toque da poesia brasileira, de José Lino Grünewald, p.44)

domingo, 12 de agosto de 2007


A MARAVILHA DAS MARAVILHAS DO SERIDÓ:
SERRA DO MULUNGU,
[ Foto de Dercílio Morais, in Anna Jailma, com novo blogue ],
segundo os internautas que visitaram
a poeta e jornalista Suerda Medeiros,
e cujos votos foram para:
1. Serra do Mulungu, em São João do Sabugi (201 indicações);
2. Monte do Galo, em Carnaúba dos Dantas (85);
3. Açude Gargalheiras, em Acari (53);
4. Arco do Triunfo, em Caicó (46);
5. Cristo Rei, em Currais Novos (15);
6. Matriz de Nossa Senhora do Ó, em Serra Negra do Norte (12);
7. Matriz de Nossa Senhora da Guia, em Acari (7 indicações).
Parabéns a Suerda, pela iniciativa,
a Anna Jailma e João Quintino,
que fizeram campanha pela Serra de sua cidade,
a seus habitantes
e àqueles que participaram da pesquisa.
A Serra do Mulungu, de fato,
é um dos mais belos "monumentos naturais"
do Rio Grande do Norte,
em pleno sertão seridoense.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2088
Rio, 12 de agosto de 2007


Memória
OS DEZ MELHORES CONTOS
segundo o poeta e romancista
Nei Leandro de Castro
[ in Revista de Cultura Vozes, set./1978 ]

1. Olhos mortos de sono (Tchecov)
2. Meu tio o iauaretê (Guimarães Rosa)
3. Uns braços (Machado de Assis)
4. O aniversário da princesa infanta (Wilde)
5. Folhas vermelhas (Faulkner)
6. O último bom lugar (Hemingway)
7. Um dia ideal para os peixes-banana (Salinger)
8. O colar de brilhantes (Maupassant)
9. Infância de um chefe (Sartre)
10. A lição de canto (Mansfield)


FEIRA DE CITAÇÕES ESPORRENTAS

[] A História do Brasil não é a mesma no Paraguai. (Millor Fernandes)
[] Um homem sem endereço é um vagabundo; um homem com dois endereços é um libertino. (George Bernard Shaw)
[] Imoralidade é a moralidade daqueles que estão se divertindo mais do que nós. (H.L. Mencken)
[] (Covarde é) Alguém que, numa situação perigosa, pensa com as pernas. (Ambrose Bierce)
[] Sempre digo que o pior da bofetada é o som. Se fosse possível uma bofetada muda, não haveria ofensa, nem humilhação. (Nelson Rodrigues)

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sábado, 11 de agosto de 2007


Grandes momentos do cinema:
O bandido da luz vermelha (Rogério Sganzerla, 1968).
"Assim era O bandido da luz vermelha: Godard, Welles. Mais o rádio, as manchetes de jornais, a Boca do Lixo, o Brasil berrante e aberrante que se consubstanciava na nova metrópole, São Paulo. Em vez da política, obsessão glauberiana, o banditismo, a revolta inútil, desesperada contra uma vida que, sabe-se, não vai mudar". (Inácio Araújo, in Folha Ilustrada, 9/jan/2004).


BALAIO PORRETA 1986
nº 2087
Rio, 11 de agosto de 2007



ZINGU!, MAIS POLÊMICA DO QUE NUNCA

O mais novo número da revista Zingu! já se encontra nas bancas virtuais da blogosfera. Como sempre, ou mais do que nunca, bastante polêmica. Basta ver, neste sentido, o artigo de Eduardo Aguilar 'Porque não vi e não gostei de Baixio das bestas'. Mas a revista tem outros artigos de igual modo interessantes: o de Judson Ovídeo sobre 'Cassandra Rios: a rainha da literatura erótica', por exemplo. Ou o de Marcelo Carrard sobre 'Crianças assassinas' no cinema. Há mais colaborações: Filipe Chamy, Sérgio Andrade, Gabriel Carneiro, e por aí. É o caso de se afirmar: Zingu! é uma revista soda, como já dizia Fócrates.


POEMA
de Sandra Camurça
[ in O Refúgio ]

ele a chamava de puta... vagabunda...
e linda e santa e nua
ela gritava
e babava
no travesseiro sem dono


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
666 livros indispensáveis (27 / 111)

Dom Quixote de la Mancha [1: 1605; II. 1615], de Miguel de Cervantes. [] O Livro dos Livros: provavelmente, o maior monumento literário de todos os tempos. Não há como definir a sua importância estética e cultural para a história da humanidade. Muitos já o tentaram, poucos realmente se aproximaram de sua magnitude no vasto universo da literatura. Há aqueles que colecionam suas edições (quando podem, naturalmente), assim como outros colecionam canetas, aparelhos de rádio, discos e gibis antigos, e assim por diante. Modestamente, apontamos seis edições que merecem ser vistas ou lidas (e também, no 6º caso, ouvidas):

* Dom Quixote de la Mancha. Trad. Almir de Andrade e Milton Amado. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Intr. Brito Broca. Ils. Gustavo Doré. Rio de Janeiro : José Olympio, 1952, 5v., 1862p.

* El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, in Obras completas. Est., rec., pról. y notas Angel Valbuena y Prat. Madrid : M. Aguilar, 1943, p.,995-1511.

* El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha. Pref. A. Herrero Miguel. Barcelona : Ramon Sopena, 1976, 718p. /Biblioteca Hispania/

* Dom Quixote de la Mancha. Trad. e notas Miguel Serras Pereira. Ils. Salvador Dalí. Lisboa : Dom Quixote, 2005, 626p.

* Don Quijote de la Mancha. Ed. del IV Centenario. Present. Mario Vargas Llosa et all. Madrid : Real Academia Española ; Asociación de Academias dela Lengua Española, 2005, 1250p.

* Don Quijote de la Mancha - Romances y músicas [ livro (frag.), 263p + cd duplo, 154'27'' ] , por Jordi Savall / Hespèrion XXI ; La Capella Reial de Catalunya ( dramaturgia: Manuel Forcano ), 2005 [AVSA 9843 A+B ]


UM BLOGUE PORRETA

Mondo Paura, de Marcelo Carrard.
Cinema e vídeo. Arte, cultura e coisas outras.
Filmes bizarros. Análises inteligentes.

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Tens legendas pagãs nas carnes claras,
E eu tenho a alma dos faunos na pupila.
(Raul de LEONI, Nascemos um para o outro depois dessa argila...)
[ in Pedras de toque da poesia brasileira, de José Lino Grunewald, p.162 ]

sexta-feira, 10 de agosto de 2007


Fogueira, de Paulo Costa [ in 1000 imagens ]

"Colecionar fotografias é colecionar o mundo"
(Susan Sontag, in Ensaios sobre a fotografia ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2086
Rio, 10 de agosto de 2007


PÁSSAROS
de Adriano de Sousa (RN)
[in Blog de Adriano ]

Há os que aprenderam a cantar
(eles dizem)
com os pássaros

esquecidos de que os pássaros
cantam só em caso de
absoluta necessidade

e nunca aborrecem a vizinhança
com notas originais


OS 1000 FILMES ESSENCIAIS DA BRAVO! (Fim)

81. Os homens preferem as loiras (Hawks); 82. Um cão andaluz (Buñuel); 83. Los Angeles - Cidade proibida (Hanson); 84. Pixote - A lei do mais fraco (Babenco); 85. Ben-Hur (Wyler); 86. Fantasia (Produção Disney); 87. Sem destino (Hopper); 88. Dogville (Von Trier); 89. O império dos sentidos (Oshima); 90. Um convidado bem trapalhão (Edwards).

Não há muito o que dizer. Não sei vocês, mas, de minha parte, seria capaz de citar cinco ou seis, ou mesmo sete, filmes de Hawks mais significativos do que Os homens preferem as louras. Outra coisa: Hanson e Edwards podem ser citados; já, para a Bravo!, Bresson, Mizoguchi, Pasolini, Straub & Huillet, Tati, Vertov, Vigo e Wajda decerto não são grandes cineastas. Mesmo discordando radicalmente, respeitarei a opinião deles. Afinal de contas...

E para completar:
91. A lista de Schindler (Spielberg); 92. Guerra nas estrelas (Lucas); 93. O pântano (Martel); 94. Cabaré (Fosse); 95. Operação França (Friedkin); 96. King Kong (Cooper & Schoedsack); 97. As invasões bárbaras (Arcand); 98. Fargo (Coen); 99. MASH (Altman); 100. Lavoura arcaica (Luiz Fernando Carvalho).

É isso aí. Pensando bem, em termos comparativos, não é uma lista melhor ou pior do que muitas outras que circulam por aí. É apenas uma lista que revela o atual pensamento crítico da revista de São Paulo - uma revista apreciada por muitos. Não é o meu caso. E também não é uma lista pior do que aquela produzida pela própria Bravo! sobre os 100 livros essenciais da literatura mundial. São listas interessantes, divertidas, curiosas. Mas não devem ser levadas muito a sério.


REVER OU NÃO REVER, EIS A QUESTÃO

Tenho boas lembranças de Sweet smell of success / A embriaguez do sucesso (Mackendrick, 1957), que vi em Natal em 1961. Com Burt Lancaster e Tony Curtis, música de Elmer Bernstein e uma ótima fotografia em preto & branco de James Wong Howe, aluguei o dvd - da Metro - para revê-lo. De cara, uma grande surpresa negativa: colorizaram o filme. Parei imediatamente: como rever um filme que foi adulterado? Claro, estou curioso - e muito: 46 anos depois, a minha curiosidade é natural. Afinal, foi o primeiro filme que me levou a escrever sobre cinema para um jornal (estudantil), ainda em 61. Gostaria de revê-lo para saber se envelheceu ou não, se continua forte em sua crítica a um certo tipo de jornalismo, se a interpretação de Burt Lancaster ainda é capaz de me emocionar. Mas estou em dúvida. Não se trata de purismo; trata-se de respeito à estética original de uma dada obra cinematográfica.


UM BLOGUE PORRETA

Mudança de Ventos, de Márcia Maia.
Literatura: minicontos que revelam toda a sensibilidade
e todo o sentido narrativo da autora pernambucana.

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O sonho é o domingo do pensamento. (Henri-Frédéric AMIEL, in Dualibi das citações, p.371)

quinta-feira, 9 de agosto de 2007



AS SETE MARAVILHAS DA PARAÍBA,
segundo o poeta Linaldo Guedes,
responsável pelo blogue Zumbi Escutando Blues:

1. Cachoeira do Roncador [vide foto], em Bananeiras
2. Farol de Cabo Branco, em João Pessoa
3. Vale dos Dinossauros, em Sousa
4. Pedra do Ingá, em Ingá
5. Lagoa do Parque Solon de Lucena, em João Pessoa
6. Praia de Tambaba, em Conde
7. Pôr do sol no Açude Grande de Cajazeiras


BALAIO PORRETA 1986
nº 2085
Rio, 9 de agosto de 2007


DIALÉTICA
de Antônio Mariano (PB)
[ in Poesia dos Brasis, em Antônio Miranda ]

Aquele homem
me aguarda na esquina
com uma faca

que irá repartir o pão.

Cortasse ele a esquina,
seria talvez o padeiro
resgatando a poesia
que me escapa das mãos.


OS 100 FILMES ESSENCIAIS DA BRAVO! (4)

Continuemos com a seleção da revista paulistana:
61. Nosferatu, o vampiro (Murnau); 62. O último tango em Paris (Bertolucci); 63. Ladrões de bicicleta (De Sica); 64. Asas do desejo (Wenders); 65. Pulp fiction (Tarantino); 66. Repulsa ao sexo (Polanski); 67. Crimes e pecados (Allen); 68. Uma rua chamada pecado (Kazan); 69. Butch Cassidy (Hill); 70. Os imperdoáveis.

Os admiradores mais entusiastas de Woody Allen dificilmente aceitarão esse segundo filme do diretor americano entre os 100 Mais, já que outros (Manhattan e A rosa púrpura do Cairo, por exemplo) poderiam representar melhor o seu universo. Os amantes do bangue-bangue também se surpreenderão negativamente com a presença de um Butch Cassidy e a ausência (lamentável?) de obras como My darling Clementine, No tempo das diligências, O homem que matou o facínora (todas de John Ford), Johhny Guitar (Ray), Matar ou morrer (Zinnemann), Winchester 73 (Mann), Consciências mortas (Wellman), Matei Jesse James (Fuller) ou Rio Vermelho e Rio Bravo (as duas de Howard Hawks). Para esses amantes - é o nosso caso -, qualquer uma das dez produções provavelmente supera, formal e tematicamente, o filme de George Roy Hill. Além do mais, voltamos à tecla, não há aparente justificação metodológica para a suposta ordem qualitativa dada à lista.

71. Patton - Rebelde ou herói (Schaffner); 72. Tudo sobre minha mãe (Almodóvar); 73. Um lugar ao sol (Stevens); 74. Um estranho no ninho (Forman); 75. Amor à flor da pele (Kar-wai); 76. Hiroshima, meu amor (Resnais); 77. Kaos (Taviani); 78. Brazil - o filme (Gilliam); 79. Quanto mais quente melhor (Wilder); 80. Cidade de Deus (Fernando Meirelles).

Patton entre os 100 Mais? E por que não um film noir em seu lugar? Ou o admirável Glória feita de sangue (Kubrick)? Cidade de Deus? Por que não uma chanchada da Atlântida? Ou os excelentes Porto das Caixas (Paulo César Saraceni), São Paulo S/A (Luiz Sérgio Person) ou A hora e vez de Augusto Matraga (Roberto Santos)? Claro, são as nossas opiniões. Igualmente discutíveis. Mas já que a Bravo! procurou fazer média com a crítica (e também, paradoxalmente, com um público até certo ponto mais popularesco), há uma pergunta que não não pode deixar de ser feita: como se esqueceram de Limite, o cultuado filme de Mário Peixoto? Outra coisa: por certo há filmes orientais muito mais significativos do que o de Kar-wai, além dos poucos citados (ao todo, menos de cinco).


UM BLOGUE PORRETA

Museu de Tudo, de Theo G. Alves.
Sensibilidade nordestina com fortes características universais.
Literatura em alto estilo.

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[O] mar é triste como um cemitério.
(Augusto dos ANJOS. O mar)
[ in Pedras de toque da poesia brasileira, de José Lino Grunewald. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1996, p.96 ]

quarta-feira, 8 de agosto de 2007



Foto de Ilona Wellman [in PhotoNet ]

"Conhecer a beleza de uma coisa significa:
conhecê-la necessariamente de modo errado".
(NIETZSCHE, citado por Susan Sontag,
in Ensaios sobre a fotografia)


BALAIO PORRETA 1986
nº 2084
Rio, 8 de agosto de 2007


ONDE
de Zila Mamede (RN)
[ in Corpo a corpo, 1978 ]

Entre a ânsia
e a distância
onde me ocultar?

Entre o medo
e o multiapego
onde me atirar?

Entre a querência
e a clarausência
onde me morrer?

Entre a razão
e tal paixão
onde me cumprir?


OS 100 FILMES ESSENCIAIS DA BRAVO! (3)

41. Dr. Fantástico (Kubrick); 42. Roma, cidade aberta (Rossellini); 43. A doce vida (Fellini); 44. Chinatown (Polanski); 45. A felicidade não se compra (Capra); 46. E o vento levou (Fleming & outros); 47. Tempos modernos (Chaplin); 48. A um passo da eternidade (Zinnemann); 49. O sacrifício (Tarkóvski); 50. Laranja mecânica (Kubrick).

Se não fosse pelo filme de Fleming - que, de qualquer maneira, tem seus admiradores ferrenhos - ou pela surpresa que é a presença de From here to eternity - em função das muitas ausências de obras mais expressivas -, nada teríamos a comentar. A não ser, mais uma vez, as discutíveis colocações assinaladas: afinal, por que - por exemplo - o título de Capra ocupa o 45º lugar e Laranja mecânica aparece em 50º? Ou, ainda, será Chinatown (44º) realmente melhor do que O sacrifício (49º)? E por que ignoraram Andrei Rublev, do mesmo Tarkóvski?

51. A General (Keaton & Bruckman); 52. O homem-elefante (Lynch); 53. O mágico de Oz (Fleming); 54. Querelle (Fassbinder); 55. A primeira noite de um homem (Nichols); 56. Morte em Veneza (Visconti); 57. A última sessão de cinema (Bogdanovich); 58. Os bons companheiros (Scorsese); 59. Blade Runner - O caçador de andróides (Scott); 60. A malvada (Mankiewicz).

Embora gostemos de todos eles - sobretudo A General, Morte em Veneza e A malvada -, somente o filme de Keaton & Bruckman tem lugar garantido em nossos 100 Mais. Não, não pretendemos divulgá-los. Pelo menos, por enquanto. Mesmo porque estamos em permanente processo de revisão: a cada seis meses, em média, há mudanças em nossos preferidos.


UM BLOGUE PORRETA

Jean Scharlau.
Uma rápida olhada para o abismo:
política e cultura, política e literatura, política e antropologia.

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Gosto, não gosto: isso não tem a menor importância para ninguém; isso, aparentemente, não tem sentido. E, no entanto, tudo isso quer dizer: meu corpo não é igual ao seu. Assim, nessa espuma anárquica dos gostos e desgostos, espécie de picadinho distraído, desenha-se pouco a pouco a figura de um enigma corporal, atraindo cumplicidade ou irritação. Aqui começa a intimidação do corpo, que obriga o outro a me suportar liberalmente, a ficar silencioso e cortês diante de gozos ou recusas de que não partilha. (Roland Barthes por Roland Barthes. Trad. Leyla perrone-Moisés. São Paulo : Cultrix, 1977, p.126)

terça-feira, 7 de agosto de 2007


De quem será a foto que me aurora de sonhos e quereres?
E que me ilumina com suas cores e seus espantos?
Será de um leitor de Jorge Fernandes?
Ou de um leitor de Bachelard será?


BALAIO PORRETA 1986
nº 2083
Rio, 7 de agosto de 2007



MANHECENÇA
de Jorge Fernandes (RN)
[ in Livro de poemas, 1927 ]

O dia nasce grunhindo pelos bicos
Dos urumaraes...
Dos azulões... da asa branca...
Mama o leite quente que chia nas cuias espumando...
Os chocalhos repicam na alegria do choto das vacas...
As janelas das serras estão todas enfeitadas
De cipó florado...
E o coên! coên! do dia novo -
Vai subindo nas asas peneirantes dos caracarás...
Correndo os campos no mugido do gado...
No - mên! - fanhoso dos bezerros...
Nas carreiras das cotias... no zum-zum de asas dos besouros
Das abelhas... Nos pinotes dos cabritos...
Nos trotes fortes e luzidos dos potros...
E todo ensangüentado do vermelhão das barras
Leva o primeiro banho nos açudes
E é embrulhado na toalha quente do sol
E vai mudando a primeira passada pelos
Campos todo forrado de capim panasco...


OS 100 FILMES ESSENCIAIS DA BRAVO! (2)

Continuando:
21. Acossado (Godard); 22. Jules et Jim (Truffaut); 23. O conformista (Bertolucci); 24. Em busca do ouro (Chaplin); 25. Metrópolis (Lang); 26. O sétimo selo (Bergman); 27. A aventura (Antonioni); 28. Amarcord (Fellini); 29. Viridiana (Buñuel); 30. Noivo neurótico, noiva nervosa (Allen).

Só duas ou três questões: a. Por que só um filme de Godard - e também só um de Antonioni -, enquanto temos dois de Woody Allen, que, por sinal, é menos importante do que Buster Keaton (com apenas um filme, no 51º lugar) ou Jacques Tati (sem nenhum título)? b. Por que se privilegiou Metrópolis e não M, o vampiro de Dusseldorf, que talvez seja a verdadeira obra-prima de Fritz Lang?

Mais 10 filmes: 31. O nascimento de uma nação (Griffth); 32. Apocalypse now (Coppola); 33. Era uma vez no oeste (Leone); 34. Assim caminha a humanidade (Stevens); 35. Psicose (Hitchcock); 36. A paixão de Joana d'Arc (Dreyer); 37. Touro indomável (Scorsese); 38. Olímpia (Riefenstahl); 39. Relíquia macabra (Huston); 40. Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha).

Como os editores da Bravo! determinaram a colocação - em 31º lugar - do filme de Griffith (de 1915), que nos parece, hoje, uma obra de importância mais museológica do que propriamente estética? Como concluíram que Relíquia macabra é essencial e O tesouro de Sierra Madre, igualmente de Huston, não? Por que Dreyer, um dos monumentos da linguagem cinematográfica
(assim como Ford, Renoir, Godard, Antonioni e poucos outros), só comparece com um título? Os editores se justificam afirmando que se basearam em outras listas, com um toque próprio, e que visaram "oferecer uma bússola para o leitor se orientar". Pode ser... Que o fizesse então por ordem cronológica ou por ordem alfabética. Haveria lacunas - segundo algumas leituras, inclusive a nossa -, mas seriam lacunas compreensíveis, já que a Bravo! há muito deixou de ser uma revista culturalmente mais exigente.

[ Continua amanhã ]


UM BLOGUE PORRETA

Poesia Sim, de Lau Siqueira.
Poesia & Informações.
Arte & Experimentações.

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Um homem só está verdadeiramente vivo quando a sua alegria está em querer bem a outros. (GOETHE. Máximas e reflexões, p.137)

segunda-feira, 6 de agosto de 2007


O sonho. A distância.
O sol. A água. A cor, as cores.
A mulher. O reflexo.
A foto. Niko Guido. PhotoNet.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2082
Rio, 6 de agosto de 2007



A POESIA POPULAR DE ZÉ LIMEIRA (PB)

Zé Limeira quando canta
Estremece o Cariri,
As estrela trinca os dentes,
Leão chupa abacaxi,
Com trinta dias depois
Estoura a guerra civi!

Jesus nasceu em Belém,
Conseguiu sair dali,
Passou por Tamataí,
Por Guarabira também,
Nessa viagem de trem
Foi parar no Entroncamento,
Não encontrou aposento
Dormiu na casa do Cabo,
Jantou cuscus com quiabo,
Diz o Novo Testamento.

Um dia o Rei Salomão
Dormiu de noite e de dia,
Convidou Napoleão
Pra cantar pilogamia,
Viva a Princesa Isabé
Que já morou em Sumé
No tempo da Monarquia.

[ in Zé Limeira, poeta do absurdo,
de Orlando Tejo ]


OS 100 FILMES ESSENCIAIS DA BRAVO!

Estamos cansados de repetir: toda e qualquer lista de melhores (filmes, discos, livros etc.), em não sendo definitiva, reflete situações e contextos culturais que devem ser relativizados. Mesmo assim às vezes nos surpreendemos com certas opiniões/colocações. É o que veremos com os filmes selecionados pela paulistana Bravo!, agrupando-os de dez em dez, para melhor comentá-los.

Os dez primeiros: 1. Cidadão Kane (Welles); 2. O poderoso Chefão (Coppola); 3. Sindicato de ladrões (Kazan); 4. Um corpo que cai (Hitchcock); 5. Casablanca (Curtiz); 6. Oito e meio (Fellini); 7. Lawrence da Arábia (Lean); 8. A regra do jogo (Renoir); 9. O encouraçado Potemkin (Eisenstein); 10. Rastros de ódio (Ford).

Se o filme de Welles é figurinha fácil nas pesquisas envolvendo críticos e cineastas - sempre em primeiro -, e se O poderoso Chefão, Vertigo, Oito e meio, A regra do jogo, Potemkin e The searchers são obras-primas indiscutíveis, não há como entender a supervalorização de Sindicato de ladrões (Kazan tem filmes melhores, em nossa opinião), Lawrence da Arábia (o belíssimo Desencanto foi ignorado) e Casablanca, cuja qualidade é mais mitológico-emocional do que estético-cinematográfica. Registre-se ainda que não há mais nenhum filme de Welles, Renoir ou Ford entre os 100 Mais. Qual o critério adotado para a escolha final? E o que dizer das ausências de Bresson, Pasolini, Cassavetes, Ray, Tati, Rivette, Vertov e Mizoguchi, além de Straub & Huillet? E de Nelson Pereira dos Santos, entre os brasileiros? Aliás, em se tratando de cineastas nacionais, os únicos contemplados foram Hector Babenco, Luiz Fernando Carvalho, Fernando Meirelles e Glauber Rocha (com apenas um filme: Deus e o diabo na terra do sol).

Os dez seguintes são: 11. Cantando na chuva (Kelly & Donen); 12. Crepúsculo dos deuses (Wilder); 13. Persona (Bergman); 14. O mensageiro do diabo (Laughton); 15. 2001: uma odisséia no espaço (Kubrick); 16. Os sete samurais (Kurosawa); 17. O leopardo (Visconti); 18. Taxi driver (Scorsese); 19. Era uma vez em Tóquio (Ozu); 20. Fitzcarraldo (Herzog).

Aqui, há duas surpresas maiores: O mensageiro do diabo (de qualquer maneira, um filme muito bom, mas não excepcional) e Herzog, que tem obras mais significativas. Mas é preciso salientar: nossa opinião também passa por um subjetivismo crítico a ser visto com certo cuidado. Nossos parâmetros estéticos não são - nem pretendem ser - necessariamente melhores do que outros por ventura adotados. Não por acaso hoje procuramos nos basear numa leitura "crítico-afetivo-libertinária", com as mais diversas implicações sociais e culturais. No fundo, trata-se de uma leitura entre a emoção e a razão. Com o necessário equilíbrio crítico? Talvez sim, talvez não.

[ Continua amanhã ]


UM BLOGUE PORRETA

Ponto Gê, de Beth Almeida.
Poesia, decididamente poesia:
poesia visceral, poesia contida.
Sempre poesia.

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Se tivéssemos de estudar todas as leis não teríamos tempo para as transgredir. (GOETHE. Máximas e reflexões. Lisboa : Guimarães Editores, 1987, p.60)


domingo, 5 de agosto de 2007


Sensibilidade e cores poéticas
na foto de Patrick di Fruscia
[ in PhotoNet ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2081
Rio, 5 de agosto de 2007


FISSURA
de Márcia Maia (PE)
[ in Tábua de Marés ]

rosário de cores não ditas

desmemórias colhidas
nas tardes feitas silêncio
e distância


LEMBRANÇAS
de Nel Meirelles (PE/RJ)
[ in Fala Poética, 11/7/2006 ]

Há gosto de eternidade
em poemas e canções
que empilho sobre
árvores-bailarinas-de-vendavais

Nota do Balaio:
Nel Meirelles faleceu em 2006.
Sua última postagem data do dia 7 de outubro.
Seu blogue não foi desativado.
Para a blogosfera - e para seus amigos -, ele continua vivo.


OS 100 FILMES ESSENCIAIS DA BRAVO!

Nas bancas, um número especial da revista Bravo!, de São Paulo, com os 100 filmes essenciais da história do cinema. Em nossa edição de amanhã, analisaremos a lista proposta pelos editores da publicação paulistana, que reconhecem que se pode "questionar a hierarquia do conjunto dos nossos 100 e até apontar algumas injustiças. Tais efeitos colaterais fazem parte de qualquer escolha, trabalho que sempre implica pontos de vista subjetivos".


UM BLOGUE PORRETA

Zumbi Escutando Blues, de Linaldo Guedes.
Literatura e cultura paraibana.
Poesia e o amor por João Pessoa.
A nordestinidade de todos nós.

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Acho que o Cansei obedece a interesses de quem hoje faz oposição [ao governo federal]. Se um movimento dito da sociedade civil não assume o seu caráter oposicionista, fica claro que há conotações outras. Digo claramente que são conotações golpistas. Do meu ponto de vista, trata-se de um movimento das elites paulistanas. Há neles personalidades e entidades que não têm um currículo muito apreciável em termos de defesa da democracia. (Wadith DASMOUS / Presidente da OAB-RJ/, in CartaCapital, nº 456, 8/8/2007, p.19)

sábado, 4 de agosto de 2007


Grandes momentos do cinema:
L'Avventura / A aventura (Michelangelo Antonioni, 1960)
Um novo olhar, uma nova luz, um novo sentido diante da falência dos sentimentos nos tempos modernos, a partir de vivências centradas no mundo da burguesia. Há, em A aventura, uma luz interior que brilha com a intensidade de mil auroras faiscantes no espaço cenográfico de nossos devaneios mais arrebatadores. Não é um filme sobre o desaparecimento de uma jovem mulher - que jamais será encontrada -, é um filme sobre o tédio, a angústia, a solidão e as inquietações do ser humano enquanto totalidade existencial. Pensemos nas muitas semelhanças e diferenças entre Sartre e Camus, semelhanças e diferenças atravessadas por Cesare Pavese: eis aqui, nesta fronteira ontológica entre o absurdo, o vazio e a náusea, o seu lugar. O lugar de A aventura, mas também o lugar de A noite, Eclipse e O deserto vermelho.
Com Monica Vitti, fascinante.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2080
Rio, 4 de agosto de 2007


vestida assim, de goiaba, todos os pássaros
[resolveram pousar nela...

e lá ficaram pregados, prisioneiros do seu cheiro adocicado!

Foto e poema: Lisbeth Lima (RN)
[ in Flor de Craibeira ]


QUESTÃO
de Isabella Benício (RJ)
[ in Brumas ]

: o que dizer a meus seios
quando eles notarem
a ausência definitiva
das tuas mãos?


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
666 livros indispensáveis (26b / 111)

A política dos autores, de André Bazin e outros. Lisboa : Assírio & Alvim, 1976, 392p. /Livros de Cinema 1/ [] Excepcional coletânea de entrevistas publicadas no Cahiers du Cinéma. Com Jean Renoir, por Jacques Rivette e François Truffaut; Roberto Rossellini (duas entrevistas, a segunda por Fereydoun Hoveyda e Eric Rohmer); Fritz Lang, por Jean Domarchi e Jacques Rivette. E mais: entrevistas com Howard Hawks (por Jacques Becker, Rivette e Truffaut), Alfred Hitchcock (duas), Luis Buñuel, Orson Welles, Carl Th. Dreyer, Robert Bresson (por Michel Delahaye e Jean-Luc Godard), Michelangelo Antonioni (por Godard). Ou seja, um livro absolutamente indispensável. Sobretudo para os cinéfilos.


UM BLOGUE PORRETA

O Anjo Exterminador, de Júnior.
O cinema a partir de reflexões críticas apuradas.
Análises de filmes de forma criteriosa,
levando em consideração as dúvidas existenciais do próprio Autor.

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O desejo se exprime pela carícia, como o pensamento pela linguagem. (Jean-Paul SARTRE. O ser e o nada. Paris : Gallimard, 1943, p.459, cf. Dicionário filosófico de citações, p.38)

sexta-feira, 3 de agosto de 2007


Há na foto digitalizada de Ilona Wellmann [ in PhotoNet ]
algo que transcende o imponderável das sombras e
cores douradas pelo tempo e pelo espaço:
algo que nos remete à Poesia da Criação.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2079
Rio, 3 de agosto de 2007


DO POEMA
de Jarbas Martins (RN)
[ in Contracanto. Natal, 1979 ]

O poema é o hábil gesto
que envergonha a mão.
Vestígio do incesto,
tesão.

É o canto imaginário
ou tubo de explosão,
emissor do contrário:
Não.

Mistério sem história
e iniciação
retido na memória
de um grão.

Armadilha, aresta,
redoma e desvão,
- o poema é o que resta.
Temporão.


O GRITO
de Moacy Cirne (RN/RJ)

vejo o eclipse:
desertos vermelhos da memória

sinto a noite:
aventuras azulacácias da história

além das nuvens,
sou um passageiro sem ouro e sem glória

e há uma pedra de sísifo no caminho das seridolências


HOMENAGEM A ANTONIONI

Clique aqui para ver a homenagem do blogue do Poema/Processo
ao cineasta Michelangelo Antonioni.


UM BLOGUE PORRETA

Improvisações, de Milton Ribeiro.
A escrita inteligente voltada para a literatura,
a música (erudita, sobretudo), o cinema e,
aos sábados, para belas mulheres.

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Parece-me que no fato artístico existe sempre, antes de qualquer outra coisa, uma escolha. Essa escolha que o autor faz é, como dizia Camus, a revolta do artista contra o real. Assim, todas as vezes que começo a filmar um determinado ambiente real, determinadas seqüências em cenários naturais, faço o possível por chegar ao lugar escolhido para filmar naquilo que se poderia chamar um estado de "virgindade". Porque me parece que é do choque entre o ambiente e o meu particular estado de espírito que nascem os melhores frutos. Não gosto de pensar nem de estudar uma cena na noite anterior às filmagens, ou no dia anterior. Gosto de ficar sozinho no local onde irei filmar, começar a sentir o ambiente vazio de personagens, de pessoas. ... Trata-se apenas de inventar - porque é uma fase de invenção - a seqüência, adaptando-a precisamente às características do ambiente. (Michelangelo ANTONIONI, A doença dos sentimentos /Colóquio no Centro Sperimentale di Cinematografia, em Roma, em 16 de março de 1961/, in Cadernos de Cinema: Antonioni, de vários autores. Lisboa: Dom Quixote, 1968, p.89).

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

PROBLEMAS TÉCNICOS têm afetado o nosso Balaio. Esperamos resolvê-los em dois ou três dias. Mas a homenagem a Antonioni, que seria imediata, ficou para hoje, e de forma incompleta, já que estamos editando o blogue diretamente de uma videolocadora, aqui em Laranjeiras. O que dizer? 24 horas depois da morte de Bergman, desapareceu mais um gênio do cinema. Confesso: fiquei bastante deprimido com o encantamento dos dois. Mas a vida continua. Assim como continua o cinema.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2078
Rio, 1 de agosto de 2007

ANTONIONI, COM EMOÇÃO
"Finda a sessão (de L'Avventura [1960], em 3 de outubro de 1962), achava-me em puro estado de alumbramento e perplexidade. Sozinho, comecei a caminhar pelas ruas centrais de Recife, naquele nervoso domingo de outubro. Não me perguntem se caminhei durante 30 minutos ou três horas. Só sei que eu caminhava e caminhava e caminhava. E caminhava, sem nada ver, sem nada ouvir. Para mim, o cinema nunca mais seria o mesmo. E a minha relação com o próprio mundo passava a ser sentida de maneira diferente.
Um ano depois, eu voltava a Recife para ver A noite, no São Luiz. Agora, éramos quatro amigos vendo pela primeira vez o novo filme de Antonioni: Jomard Muniz de Britto, Celso Marconi, Marcius Frederico e eu. Depois da sessão, em silêncio nos dirigimos para as margens do Capibaribe. Então, um de nós teria tentado o suicídio. Segundo Celso Marconi, Marcius Frederico começou a gritar, a gritar, para em seguida tentar o salto para a morte. Por sua vez, Jomard garante que eu comecei a correr em direção ao rio, com claros intuitos suicidas, sendo a custo agarrado pelos três. Já Marcius Frederico sustenta que a tentativa ficou por conta de Jomard, desafiando a morte com gestos tresloucados. Quanto a mim, confesso a minha dúvida: quem tentou o suicídio naquela sombria tarde/noite recifense? Lembro-me vagamente de Celso Marconi, diante do rio, a sussurrar: 'Quero morrer! Quero morrer! A vida não tem sentido...'.
Este era o clima do nosso mundo, apesar das lutas sociais.
Este era o nosso mundo, mesmo com as lutas políticas.
Mundo esse que me fez viajar durante nove horas, em pé, num ônibus, exclusivamente para ver, mais uma vez no Recife, a magia encantatória de Eclipse. Que, mesmo já conhecendo o filme, me fez ficar três sessões consecutivas no Trianon (ou terá sido no Art-Palácio?), ou seja, durante sete horas e meia, para rever a sua grandeza estética.
Este era o clima do nosso mundo.
Este era o nosso mundo.
Contudo, embora considerasse Natal a capital do tédio, sobretudo aos domingos, de uma coisa em tinha consciência: se algum dia em fizesse algum filme, não o faria como Antonioni. O meu modelo, decerto, seria uma síntese dos cinemas de Glauber Rocha, Godard e Eisenstein [eu ainda não conhecia Vertov e mal conhecia Buñuel e Rossellini]. Afinal, o meu mundo começava e terminava no Brasil, começava e terminava na América Latina. E eu não desconhecia a poesia popular, não desconhecia o cangaço, não desconhecia o sertão, não desconhecia o sentido das revoltas sociais.
Depois, vieram os anos de chumbo. Ficou a nossa esperança no socialismo. Ficou a nossa esperança nas grandes paixões. Ficou o cinema de Godard (e Glauber Rocha). Ficou o cinema de Welles (e Nelson Pereira dos Santos). Ficou o cinema de Visconti (e Resnais, Pasolini, Renoir, Bergman, Luiz Rosemberg Filho, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirzsman, Rogério Sganzerla, André Tonacci, Arthur Omar, Vladimir Carvalho).
E ficou o cinema de Michelangelo Antonioni".
[ in Moacy CIRNE. Cinema, cinema. Natal : Sebo Vermelho, 2003, p.83-85. ]

segunda-feira, 30 de julho de 2007


Grandes momentos do cinema [Extra]:
Persona (Ingmar Bergman, 1966).
"Puro iluminamento: o mais colorido filme preto-e-branco da história do cinema, em minha opinião. Imagens, luzes e sombras: a mais perfeita harmonia. Sensibilidade, delicadeza e apuro formal: o cinema que procura se fazer cinema, como se estivéssemos saboreando o manjar dos deuses. Ao meu ver, um dos quatro melhores filmes de toda a história dos discursos cinematográficos" (Moacy Cirne: Luzes, sombras e magias, 2005, p.113). Com Bibi Andersson e Liv Ullmann. Fotografia (excepcional) de Sven Nykvist.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2077
Rio, 30 de julho de 2007



INGMAR BERGMAN (1918-2007)

Autor de pelo menos cinco obras-primas (O sétimo selo, 1956; Morangos silvestres, 1957; O silêncio, 1962; Persona, 1966; Gritos e sussurros, 1973) e de vários outros grandes filmes (Noites de circo, 1953; Sorrisos de uma noite de amor, 1955; O rosto, 1959; A paixão de Ana, 1970; O ovo da serpente, 1979; Fanny e Alexander, 1982), faleceu Ingmar Bergman, o cineasta sueco por excelência. Muito já se escreveu sobre a sua obra. Muito ainda se escreverá. Sobre O sétimo selo, por exemplo, a poeta norte-rio-grandense Carmen Vasconcelos escreveu: "Eis um filme para despertar. Despertar medos, pavores. É um rememorar, um vir à tona de símbolos esquecidos. Para onde foi nosso atavismo, nosso inconsciente coletivo? Para os símbolos, que são caminhos até o conhecimento. Não respostas à angústia primordial, pois elas não existem, mas caminhos ao conhecimento possível.// O sétimo selo é também um despertar do melhor de nós, ele convoca a nossa imaginação, nossa fantasia, aquilo que está dentro de nós e não nos deixa perecer na secura social das repetições" (in Clarões na tela, org. Marcos Silva e Bené Chaves, 2006, p.193). Todos nós choramos a sua morte. Quando o vi pela primeira vez (Sorrisos de uma noite de amor, em janeiro de 1960, em São Paulo, no cinema Olido), senti que estava diante de um gênio do cinema. Decerto, já ouvira falar dele, sobretudo através do cineasta paulistano Walter Hugo Khoury, que, então, considerava Juventude (1950) um dos maiores filmes que já vira.

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Em O silêncio, Sven Nykvist e eu decidimos ser absolutamente tudo menos castos. Este filme tem uma lascívia cinematográfica que ainda hoje me dá prazer. Foi muito divertido realizá-lo. (Ingmar BERGMAN. Imagens. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p.112)

domingo, 29 de julho de 2007


Luz mágica, luz encantatória, luz envolvente.
Luz para sonhar e sonhar.
Foto de Marc Adamus
[in PhotoNet ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2076
Rio, 29 de julho de 2007



TELEVISÃO TELEVISÃO
por JAAB (Portugal)
[ in
Treze pragas do século XX. Rio, 1976 ]

|| Após a embriaguez do sucesso, a ressaca do ostracismo.

|| É bom saber o que está por trás da televisão. Nem sempre é a parede.

|| Televisão é um veículo que engarrafa o trânsito das idéias.

|| O pior cego é aquele que quer ver televisão.

|| Televisão: nem contra nem a favor, muito pelo clic.

|| Por que a televisão é a cores se a vida é a preto e branco?


POESIA
de José Lucas de Barros (RN)
[ in Caminhada. Natal, 1958]

Mote:
Não posso vencer a morte,
mas irei de má vontade.

Glosa:
Mesmo que eu pareça forte
como touro premiado,
serei um dia enterrado,
não posso vencer a morte;
do Rio Grande do Norte
levarei muita saudade...
Promessas de eternidade
me fazem crer noutra luz.
Eu sei que é pra ver Jesus,
mas irei de má vontade.


UM BLOGUE PORRETA

O Incrível Exército Blogoleone
.
Apesar do nome, não é um blogue humorístico.
Mesmo assim: "Blogo, blogo, blogo! Leone, Leone, Leone!"
Um blogue-colagem feito por inúmeros blogueiros independentes
contra a fúria da mídia golpista.

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O humanismo não é nossa religião; é nossa razão de viver. (Otto Maria CARPEAUX. A cinza do purgatório)