quinta-feira, 6 de setembro de 2007


O sol deixa na queda
Um céu de panos roxos
O chão que imita pedra.

Manhã na alma.
A tarde arde
A noite acalma.
...
(Diógenes da Cunha Lima,
in Os pássaros da memória, 1994)

[ Foto de Carlos Carvalho, in Photo Net ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2114
Rio, 6 de setembro de 2007



ENTÃO TÁ
de Ademir Antonio Bacca (RS)
[in Germina Literatura ]

Que tua boca
Diga não
Mesmo que teus olhos
Digam sim.

Que teu corpo
Diga não
Mesmo quando tua boca
Disser sim.

Que teus olhos digam não
Quando tudo em ti
Disser sim.


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS (30c / 111)

Cien años de soledad [1967], de Gabriel García Márquez. [Madrid :] Real Academia Española ; Asociación de Academias de la Lengua Española, 2007, 610p. [] Edição comemorativa dos 40 anos da obra máxima de García Márquez, reconhecidamente uma das mais vibrantes de toda a América Latina. Com textos de Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa, entre outros, além de oportuno glossário. A edição brasileira, traduzida por Eliane Zagury, traz o selo d'O Globo.

Os frutos da terra [1917], de André Gide. Trad. Sérgio Milliet. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1982, 200p. [] Poeticamente: "Que a importância esteja em teu olhar, não na coisa olhada" (p.18). E mais: "Todo ser é capaz de nudez; toda emoção, de plenitude" (p.20); "O sábio é quem com tudo se espanta" (p.26); "Surdem da terra mais nascentes do que as sedes que temos de beber" (p.99). Completa a edição Os novos frutos, de 1935.

Prosa do observatório, texto & fotos de Julio Cortazar. Trad. Davi Arrigucci Júnior. São Paulo : Perspectiva, 1974, 82p. [] "Cortázar revém, reinventado, reinventando: sinuoso, elástico, irônico, erótico, revolucionário: enguias, estrelas, estrias nos açudes celestes em que a perseguição persiste com a proposição de um novo perscrutar: metáforico, metafísico, féerico, fálico, telescópico: abarcante desejo cósmico de abraçar num só ato tudo de uma vez" (DAJr.)

A poética de Maiakóvski, de Boris Schnaiderman. São Paulo : Perspectiva, 1971, 300p. [] Ensaios, ensaios: para uma arte revolucionária da civilização industrial. Maiakóvski, a tradição e a modernidade. A poesia, a prosa e o "texto" como experiência. Poética e vida, vida e poética. Seleção de artigos & documentos, entre os quais Como fazer versos, de 1926: "A poesia é uma forma de produção. Dificílima, complexíssima, porém produção" (p.201).

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Nossos desejos já atravessaram muitos mundos;
Nunca se fartaram.
E a natureza inteira se atormenta
Entre a sede de repouso e a sede de volúpia.
(André GIDE. Os frutos da terra, p.77)

quarta-feira, 5 de setembro de 2007


Serenidade. Azulência.
Foto de Regina Lopes
in Meu Porto


BALAIO PORRETA 1986
nº 2113
Rio, 5 de setembro de 2007



POEMA de
Miguel Cirilo
(São José do Seridó, RN)
[ in Os elementos do caos, 2ª ed. 2001 ]

o corpo branco no chão
não faz esforço.
a luz circula na intimidade.
a nudez é antiga,
o quarto também.
as palavras estão se arrumando
para um novo poema.
as coisas, postas em sossego
repousam de qualquer modo.
anônima é a presença da noite.
os chinelos esperam.
eles não sabem, mas esperam.
- pode alguém exigir mais para dormir?


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS (30b/ 111)

Corpo de baile, de João Guimarães Rosa. Capa de Poty. Rio de Janeiro : José Olympio, 1956, 2v., 822p. [Adquirido no sebo da Livraria São José, no Rio] Sete novelas, sete obras-primas. No primeiro volume (Os romances): Campo geral, A estória de Lélio e Lina, Dão-Lalalão (um texto absolutamente genial; talvez o melhor dentro da obra roseana, depois de GS:V), Buriti. No segundo volume (Os contos): Uma estória de amor, O recado do morro, "Cara-de-Bronze". Na segunda edição, em 1960, em um só volume (514p.), a ordem das novelas - nomeadas como poemas - é diferente.

A dama do cachorrinho e outros contos, de Tchekhov. Trad. Bóris Schnaiderman. São Paulo : Max Limonad, 1985. 358p. [] Execpcional seleção da produção contística do grande escritor russo - e autor teatral - Antón Tchechov (1860-1904). Há verdadeiras preciosidades literárias: Nos banhos, A morte do funcionário, Crime premeditado, Um dia no campo, Sonhos, Vanka, Gente supérflua, Na primavera, Angústia, Bilhete premiado, Olhos mortos de sono (para muitos, o seu melhor trabalho), Um caso clínico, Homem sem estojo, Queridinha, A dama do cachorinho. Ao todo, 37 contos.


UM BLOGUE PORRETA

Agreste, de Manoel Carlos Pinheiro.
Política, literatura e cultura, da nordestina à africana.
Blogue antiLula a partir de uma militância prestista.

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Quando a riqueza de poucos afronta a miséria de muitos, a insegurança é de todos. (Josué de CASTRO, citado por Manoel Carlos Pinheiro, em seu blogue.)

terça-feira, 4 de setembro de 2007


A RELIGIOSIDADE MÍSTICO-MEDIEVAL-SERIDOENSE
dos nossos dias encontra em Urbano Medeiros [foto], nascido em São João do Sabugi, sertão do Rio Grande do Norte, o seu representante mais criativo, mais inquieto, mais instigante no solo fértil da sonoridade brasileira, com seu saxofone dos deuses e das terras potiguares, hoje igualmente mineiras. (Urbano, adoentado, com problemas cardíacos, há alguns anos reside em Pará de Minas, com sua família; seus irmãos Totó e Ubaldo Medeiros, igualmente músicos da melhor qualidade, continuam no Rio Grande.) Ouso dizer, como ouvinte feliz, que ele é um dos poucos gênios vivos da nossa música, ao lado de um Naná Vasconcelos, de um Elomar, de um Paulinho da Viola, de um Tom Zé, de um Hermeto Pascoal, de mais dois ou três nomes de um país chamado Brasil. Ontem mesmo, fiquei horas e horas ouvindo Sopro bizantino, produção independente. Aliás, Urbano acaba de lançar um disco de choros, que ainda não ouvi. Mas, levando em conta a sua obra anterior, que inclui o antológico Da Palestina ao Seridó, em parceria com os irmãos, deve ser coisa rara, coisa preciosa. (Contatos: [37]3231-1332)

[ Foto de José Eustáquio Manso, in Olhares, em 28/4/2007 ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2112
Rio, 4 de setembro de 2007



CANTIGA PARA UM DIA AMUADO
de Mário Coivara (CE)
[ in Faca de Fogo ]

encontro, para teu ofício de fêmea, uma lasca de carinho.


DOIS POEMAS

de Adelaide de Julinho (MG)
[ in Germina Literatura ]

quase impossível

difícil convivência:
ele, superego,
eu, superégua

8 de macho

nasci pra isso:
ou fico por cima,
ou não saio debaixo


POESIA, BUSCA DA GEMA
de Afonso Henriques Neto (RJ)
[ in 50 poemas escolhidos pelo Autor, 2003 ]

poesia, busca da gema nos destroços,
música, bicho
naufragado no conhaque do sol

agora que sei ler a biópsia do desastre
quero você num maremoto de flores,
amanhecida, anoitecida, bêbada de flores


FEIRA DE CITAÇÕES ESPORRENTAS

[] O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.
(Albert CAMUS)
[] Coisas impossíveis, é melhor esquecê-las do que desejá-las.
(Luiz vaz de CAMÕES)
[] É melhor acender uma pequenina vela do que maldizer a escuridão. (CONFÚCIO)
[] Todos os grandes avanços da Ciência nasceram de uma nova audácia da imaginação. (DEWEY)
[] Triste não é mudar de idéia. Triste é não ter idéia para mudar. (Francis BACON)
[] Crê nos que buscam a verdade. Duvida dos que a encontraram. (André GIDE)

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... eu acho que todo fotógrafo [de cinema] tem que ter uma boa formação visual do que veio antes e do que veio depois. Porque a fotografia tem muito a ver com a gramática visual. (Mário CARNEIRO. Entrevista por Lauro Escorel, in ABCINE, cf. Textos)

segunda-feira, 3 de setembro de 2007


E o Criador disse: Faça-se a Luz!
E a Luz se fez Mulher.
(Na foto de Carlos Manuel Pereira, para 1000 Imagens)


BALAIO PORRETA 1986
nº 2111
Rio, 3 de setembro de 2007



SETEMBRO, O9, 20:30
de Márcia Maia (PE)
[ in Tábua de Marés, 9/9/2004 ]

céu claro, sem lua
e um silêncio
repleto de estrelas


CADERNO DE ANDARILHO
/ fragmentos /
de Manoel de Barros (MT)
[ in Concerto a céu aberto para solos de ave, 1991 ]

Sapo de noite arregala o olho pra desmedir a saudade.
*
Cheio de vogais pelas pernas vai o caranguejo soletrando-se.
*
Certas palavras delinqüem como qualquer farmacêutico.
*
Os girassóis têm dom de auroras.
*
Lugar onde lua entra morcego desprefere.
*
Quando as sombras avançam na estrada é preciso aldear.


DESENCONTRO
de Mary (RN)
[ in Versos DeLírios ]

eu invento falta de tempo
para escapar
dessa falta de química


Humor
MULHER SUSPEITA
por Armando Negreiros (RN)
[ in Viva a Verve!, 2000 ]

Conhecido político paraibano, Raimundo Asfora, era notório pelas farras desmanteladas que fazia. Certa feita, já de meio lastro a queimado, acompanhado por duas gazelas cuja profissão o vulgo, erradamente, chama de "mulher de vida fácil", tentou entrar no clube mais elitista de Campina Grande, segunda maior cidade da Paraíba. O porteiro, respeitosamente, posto que Raimundo era deputado, o advertiu:
- As acompanhantes não podem entrar.
- Qual o motivo?
- São mulheres suspeitas.
- Suspeitas? Essas duas? De maneira nenhuma! Essas duas são putas, as suspeitas estão aí dentro.


UM BLOGUE PORRETA

Cidade dos Reis
, de Mário Ivo Cavalcanti.
Natal, poesia e literatura.
Humor, gente, cinema, política & memórias.

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É lei da história literária: sempre que a vida coletiva se agita de novas ansiedades e inquietações, não é fácil resistir ao abalo, por mais que a delicadeza da sensibilidade a ele se furte. É pois natural que a arte saia da torre de marfim e procure intervir nos esforços de renovação. (Hernâni CIDADE. O conceito de poesia como expressão da cultura. Coimbra : Arménio Amado, 1957, p.275)

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Adeus,
MÁRIO CARNEIRO
(1930-2007)
- o cinema brasileiro está de luto.

domingo, 2 de setembro de 2007


A imagem e o crepúsculo.
Depois da tempestade.
Por Julio Segura [ in PhotoNet ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2110
Rio, 2 de setembro de 2007


POEMA de
Alexandre Lourenço
[ in Balaio 1215, 13/10/1999]

O amor impossível
não se intimida com os crepúsculos
de cimento azul.
Nem com as catedrais
grávidas de silêncios barrocos.
O amor impossível
constrói sua geometria do imprevisível.
E se basta em sua impossibilidade desenhada
pelo vôo noturno da gaivota de papel e melancia.


POEMA de
Zé Limeira
[ Republicado in Balaio 1213, de 14/10/1999 ]

Quando D. Pedro II
Governava a Palestina
E Dona Leopoldina
Devia a Deus e ao mundo
O poeta Zé Raimundo
Começou a capar jumento.
Daí veio um pensamento:
Tudo aquilo era boato.
Oito noves fora quatro,
Diz o Velho Testamento.


MÁXIMAS E MÍNIMAS DE STANISLAW PONTE PRETA
[ in Máximas inéditas de Tia Zulmira, 1976 ]

[] Bebia muito sim e nunca teve ressaca. Tinha mesmo era maremoto.
[] Crer em Deus é fácil. Nos padres é que é difícil.
[] Quando um amigo morre leva um pouco da gente.
[] Quem assiste à programação noturna da televisão não é capaz de imaginar que a diurna é pior.
[] Há sujeitos tão inábeis que sua ausência preenche uma lacuna.


APELIDOS SERTANEJOS
[ in No tempo de Lampião, 1930, de Leonardo Mota ]

Barata descascada : Menino muito alvo
Cara de milagre : Sujeito muito feito
Carrapeta doida : Sujeito irrequieto
Prego dourado : Menino louro
Saca de lã : Mulher corpulenta
Tatu enfezado : Sujeito baixinho
Venta de ripulego : Que tem o nariz achatado


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS (30a / 111)

Trilhas no Grande Sertão, de M. Cavalcanti Proença. Rio de Janeiro : MEC, 1958, 104p. /Os Cadernos de Cultura, nº 114/ [] Provavelmente, o primeiro estudo sério sobre a obra maior de Guimarães Rosa, quando o Autor - com inegável competência crítica - analisa, por exemplo, 'Don Riobaldo do Urucuia, cavaleiro dos Campos Gerais' ou 'O plano mítico' do GS: V. Neblinuras, inaugurências, supersticionamentos: o sertão é o Sertão. Com sua luz, sua aridez, seus espantos, suas memórias. Com seus bichos. Com sua gente. Sempre. Sempre. A verdade é que, até hoje, "O embalo das frases de Grande Sertão: Veredas ainda persiste": um embalo de rede, doce, generoso e suave, que não quer acabar nunca. Nunca.

Panaroma do Finnegans Wake, de Augusto e Haroldo de Campos. São Paulo : Conselho Estadual de Cultura, 1962, 88p. [Há uma segunda edição, ampliada, pela Perspectiva, em 1971] Seleção de fragmentos da mais radical entre as mais radicais obras literárias do século XX, no campo da experimentalidade formal: "Ati mimlênios fim. Till thousendsthee. Lps. Lps. As chaves para. The keys to. Dadas! Given! A via a uma a una amém a mor além a riocorrente, depois de Eva e Adão, do desvio da praia à dobra da baía, A way a lone a last a loved a long the riverrun, past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend of bay, devolve-nos por um cômodo vicus de recirculação de volta a Howth Castle Ecercanias". Fimprincípio. Joycecampos. Princípiofim.

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Há vinte anos atrás, se me perguntassem o que valia mais, se o autor, se a idéia, eu responderia sem hesitar que o autor. Agora já não sei mais, vivo incerto. O homem é coisa sublime, porém se as idéias prevalecessem sobre os homens, já de muito que a paz teria pousado sobre a terra. E ando saudoso da paz. (Mário de ANDRADE, A elegia de abril [1941], in Aspectos da literatura brasileira. São Paulo : Martins, s/d, p.195)

sábado, 1 de setembro de 2007


Brief encounter / Desencanto (David Lean, 1945).
Um dos filmes mais sensíveis e delicados da história do cinema, em seu doce e suave romantismo, apesar de todo o amargor de suas premissas conteudísticas. A trama de um comovente amor destinado ao fracasso e à acomodação. Mas é preciso entendê-lo no contexto de uma situação que, em sendo aparentemente provinciana, com os valores da classe média inglesa dos anos 40 do século passado, aponta para os mistérios de encontros e desencontros que não se resolvem ao nível dos sentimentos. Há o encanto dos primeiros olhares e gestos. E há um certo desencanto, no final. Com roteiro de Noel Coward, fotografia de Norman Krasker e interpretação de Celia Johnson, Trevor Howard e Stanley Holloway nos principais papéis. Comentário musical de Rachmaninov.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2109
Rio, 31 de agosto de 2007



Memória 1967
OS MELHORES FILMES DO CINEMA
segundo o crítico paulista
Carlos Motta
[ in Filme Cultura, nº 7, out.-nov. 1967 ]

1. O Anjo Azul (Sternberg, 1930); 2. Êxtase (Machaty, 1933); 3. M, o vampiro de Dusseldorf (Lang, 1931); 4. Juventude (Bergman, 1950); 5. Morangos silvestres (Bergman, 1957); 6. O morro dos ventos uivantes (Wyler, 1939); 7. Cidadão Kane (Welles, 1941); 8. Um rosto na noite (Visconti, 1957); 9. Madre Joana dos Anjos (Kawalerowicz, 1961); 10. Sede de paixões (Bergman, 1949); 11. 30 anos esta noite (Malle, 1963); 12. O grito (Antonioni, 1957); 13. Vida privada (Malle,1962); 14. Um corpo que cai (Hitchcock, 1958); 15. A marca da maldade (Welles,1958); 16. Dois destinos (Zurlini, 1962); 17. Rocco e seus irmãos (Visconti, 1960); 18. Rainha Cristina (Mamoulian, 1933); 19. Arma fatídica (Sugawa, 1960); 20. Broto para o verão (Molinaro, 1960).
Nota do Balaio: Há um dossiê Carlos Motta na Zingu!, revista eletrônica bastante competente, por mais polêmica que seja.


OS EQUÍVOCOS DE RUBEM FONSECA

O ficcionista Rubem Fonseca é um escritor dos mais criativos. Tenho o maior apreço por sua literatura. Contudo, o seu artigo Cinema e literatura, editado ontem pelo ótimo saite Substantivo Plural, originalmente publicado no Portal Literal, é um horror em termos críticos. Primário, equivocado, preconceituoso e rasteiro nas informações básicas, condena o cinema por ser supostamente uma "arte híbrida" (ignorando toda a intertextualidade semiótica da linguagem cinematográfica, devidamente estudada desde os anos 50) em detrimento de uma "arte completa", no caso, a ópera. Sua argumentação chega a ser ridícula, para não dizer irritante.

E mais: em comparação com o discurso literário, o cinema, cujos grandes clássicos seriam "datados", não resistiria ao tempo. Mozart e Dom Quixote são eternos (concordo!); os filmes do passado, não! Todos eles nada mais dizem, a não ser para cinéfilos (decerto, neuróticos) que ainda veriam novidades em seus recursos estilísticos e dramáticos. Só um desqualificado em se tratando da história das formas cinematográficas teria esse raciocínio. Dentro de sua lógica, a (boa) literatura implica polissemia e participação criativa por parte do consumidor; o cinema, não. Decididamenmte, o sr. Rubem Fonseca não conhece os grandes filmes do cinema. Nunca viu 2001, Marienbad, A aventura, entre muitos outros marcados justamente pela ambiguidade polissêmica. Tem mais: o Sr. Fonseca vale-se de exemplos igualmente ridículos para afirmar, com outras palavras, que um bom livro será sempre superior a qualquer adaptação cinematográfica. Comete aqui o mesmo erro de outros literatos (ilustres ou não), quando se perdem em leituras comparativas equivocadas.

Tomemos o exemplo clássico de O processo, livro e filme. Quando de seu lançamento, em 1962, foi acusado de ser um filme supostamente ruim por não ser kafkiano. Ora, a obra de Kafka - para o genial Orson Welles - serviu de matriz temática; jamais poderia ser, no caso dele (ou de qualquer outro grande nome do cinema), uma simples matriz de origem estética. Kafka é intimista, contido, singular em sua angustialidade; Welles é dionisíaco, neobarroco, exuberante. A única leitura comparativa plausível, no caso, seria relacionar o filme: a) com outros filmes do próprio Welles; b) com a produção cinematográfica da época; c) com o pensamento estético-informacional vigente. E a partir daí poder-se-ia discutir, inclusive, a relação do cinema com a literatura. Afinal, O processo de Kafka é uma obra-prima da literatura, assim como O processo de Welles é uma obra-prima do cinema. São discursos diferentes, linguagens diferentes, com seus códigos específicos. Teria sido mais honesto, por parte do sr. Fonseca, se ele simplesmente admitisse que não gosta de cinema, a não ser como diversão descartável. De minha parte, se me fosse dada a seguinte e terrível questão: "Em se tratando de arte seqüencial, escolha dez obras para uma temporada de anos e anos numa ilha deserta", eu escolheria, então, quatro livros, quatro filmes e dois álbuns de quadrinhos. E tentaria negociar com os meus juízes mais dois álbuns de HQs.


UM BLOGUE PORRETA

Os Intocáveis, de Gabriel Carneiro
De cinéfilo para cinéfilos:
o bom cinema em pauta, seja o clássico, seja o brasileiro.

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... ainda conservo das minhas aventuras literárias, aquela audácia de poder errar ... (Mário de ANDRADE, A elegia de abril [1941], in Aspectos da literatura brasileira. São Paulo : Martins, s/d, p.185)

sexta-feira, 31 de agosto de 2007


Mulher. Praia. Horizonte.
A natureza.
E a foto de Victor Melo.
[ in 1000 Imagens]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2108
Rio, 31 de agosto de 2007



POEMA de
Ricardo Silvestrin
[ in Germina ]

palavra não é coisa
que se diga
quem toma a palavra
pela coisa
diz palavra com palavra
mas não diz coisa com coisa
a palavra pode ser pesada
a coisa, leve
e vice-versa não é coisa alguma
a palavra coisa
não é a coisa palavra
palavra e coisa
jamais serão a mesma coisa


RETRATO ANTIGO
de Bosco Sobreira
[ in Politicamente Incorreto ]

O retrato me olha
ou me julga?

Não importa

Tenho o olhar complacente
do felino que me sonha


POEMA de
Benno Assmann
[ in Noites Insones ]

sei que sei
tudo que sei
e sei que não sei
tudo que não sei
e que ainda posso
vir a saber
e sei que não sei
tudo que não sei
e jamais saberei

e portanto
sei tudo
que há para saber


CINEMA 2007

Nos últimos 15 dias, pela primeira vez em muitos e muitos anos, com duas únicas exceções, só temos visto e/ou revisto filmes em casa. Considerando as nossas principais cotações (*** excelente; ** ótimo; * especialmente bom), destacamos os seguintes: A aventura *** (Antonioni, 1960); Eclipse *** (Antonioni, 1962); O olhar de Michelangelo *** (Antonioni, 2004, curta); A princesa Yang Kwei Fei *** (Mizoguchi, 1955); Carta para Jane *** (Godard & Gorin, 1972); A mocidade de Lincoln *** (Ford, 1939); Era uma vez no oeste *** (Leone, 1968); O raio verde *** (Rohmer, 1986); Operários, camponeses ** (Straub & Huillet, 2001); Vícios privados, virtudes públicas ** (Jancsò, 1976); Por um punhado de dólares ** (Leone, 1964); Por alguns dólares a mais ** (Leone, 1965). As exceções: Medos privados em lugares públicos ** (Resnais, 2006) e Conceição * (vários autores, 2007).


UM BLOGUE PORRETA

Poesia na Veia, de Fernanda Passos.
Prosas. Experimentações. Poesias.
Incompletudes. Buscas. Eroticidades.

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É muito fácil confundir fundamentalismo com paixão. Posso muito bem parecer apaixonado quando defendo a evolução diante do criacionismo fundamentalista, mas isso não acontece por causa do meu próprio fundamentalismo rival. Acontece porque as evidências da evolução são fortíssimas e fico apaixonadamente perturbado com o fato de meu oponente não conseguir enxergar isso - ou, o mais comum, recusar-se até a pensar nisso, porque contradiz seu livro sagrado. (Richard DAWKINS. Deus, um delírio. São Paulo : Companhia das Letras, 2007, p.363)

quinta-feira, 30 de agosto de 2007


Aqui a natureza se faz bela e azul,
azul como num poema de Carlos Pena Filho.

AS SETE MARAVILHAS DE OLINDA
por
Sandra Camurça

1. Alto da Sé
2. Convento de São Francisco
3. Mosteiro de São Bento
4. Mercado da Ribeira
5. Mercado Eufrásio Barbosa
6. Sobrados Mouriscos I e II
7. Museu de Arte Sacra


BALAIO PORRETA 1986
nº 2107
Rio, 30 de agosto de 2007


DISCOS QUE ME EMOCIONAM (2 / 120)

100 anos de frevo, produzido por Carlos Fernando, com o Maestro Spok e a Orquestra Sinfônica do Recife [Biscoito Fino BF 648 (2007)]. Todos sabem de minha paixão pelo frevo, como ouvinte, já que, dançar pra valer, só danço mesmo o tango canadense. Mas vamos ao que interessa. Na verdade, são dois cds. O primeiro é instrumental, incluindo alguns clássicos da "fervura pernambucana": Frevo da meia-noite, de Carnera, com arranjo de Clóvis Pereira. Outros grandes clássicos selecionados são: Último dia, de Levino Ferreira, com arranjo do Maestro Spok; Duda no frevo, de Senô, com arranjo de Clóvis Pereira; Gostosão, de Nelson Ferreira, com arranjo de Edson Rodrigues. O segundo cd, cantado de forma rasgada, inclui Micróbio do frevo, de Gilberto Gil, na voz de Genival Macedo; Frevo nº 1, de Antônio Maria, na voz de Maria Betânia; Valores do passado, de Edgar Moraes, com Maria Rita; De chapéu-de-sol aberto, de Capiba, com Vanessa da Mata; Tempo folião, de Carlos Fernando & Geraldo Azevedo, com Geraldo Azevedo; Madeira que cupim não rói, de Capiba, com Claudionor Germano; Evocação nº 1, de Nelson Ferreira, na interpretação de Antônio Nóbrega. E ainda há, no primeiro cd, uma Fantasia carnavalesca, baseada no Vassourinhas, de Matias da Rocha e Joana Batista. Enfim, um disco que já nasceu antológico.


OLINDA
/ Fragmento /
de Carlos Pena Filho (PE)
[ in Livro geral, 1959 ]

...
Olinda é só para os olhos,
não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro.
Diz somente: é lá que eu vejo.

Tem verdágua e não se sabe,
a não ser quando se sai.;
Não porque antes se visse,
mas porque não se vê mais.

As claras paisagens dormem
no olhar, quando em existência.
Diluídas, evaporadas,
Só se reúnem na ausência.

Limpeza tal só imagino
que possa haver nas vivendas
das aves, nas áreas altas,
muito além do além das lendas.
...


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS (29c / 111)

Olinda; 2º guia prático, histórico e sentimental de cidade brasileira [1939], de Gilberto Freyre. Il. M. Bandeira. Rio de Janeiro : José Olympio, 1960, 166p. [Livro adquirido em sebo, no Rio] Longe de ser um guia turístico tradicional, é um guia afetivo e amoroso. Longe de ser um guia didático, é um guia lírico. E se tem valor documental (em termos de uma possível história olindense), maior é o seu valor literário, ao se voltar para o mar e os ventos, as praias e os conventos, a água do rio e a gente simples dos lugares pobres, a luz do sol e o luar, os passarinhos e os papagaios, os doces e as velhas sepulturas da heróica e lendária cidade pernambucana, com suas "Mulheres de encarnado apanhando gravetos" e seus "Homens pescando pelos mangues" (p.9). Há momentos de pura poesia, de puro encantamento: Os livros, As árvores e os jardins, Olinda nas cartas jesuíticas, Convento de São Francisco, Mosteiro de São Bento, Olinda heróica, História ecológica de Olinda, Casas velhas, Entre Olinda e o Recife. E mais. Ou mais. Como quase tudo de Gilberto Freyre, um livro saboroso.

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Olinda é uma cidade influenciada pelo mar. Ela se entrega aos ventos do mar: não se esconde deles como grande parte do Recife. Entrega-se aos ventos do Norte e do Sul. É verdade que são ventos sempre amigos. Nunca se encrespam em ventos de tornado. Nos seus dias mais zangados, que são em agosto, escancaram portas, quebram vidros, aperreiam as donas de casa. Mas é só. (Gilberto FREYRE. Olinda, p.22)

quarta-feira, 29 de agosto de 2007


Iniciei a viagem
Às duas da madrugada
Tomei o carro da brisa
Passei pela alvorada
Junto do quebrar da barra
Eu vi a aurora abismada

Manoel Camilo dos Santos:
Viagem a São Saruê (PB, 1954)

[ Foto de Hilton Pozza, in 1000 Imagens ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2106
Rio, 29 de agosto de 2007



METADE PÁSSARO
de Murilo Mendes (MG)
[ in O visionário, 1933 ]

A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com um assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas ao rio,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.


UM BLOGUE PORRETA

Isso é Bossa Nova, de Sandra Leite.
Leitura amorosa das artes: pintura e escultura.
Eventualmente, da música (Chico Buarque e outros).
Uma escrita da felicidade vivencial.

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Quero que a mágoa se amoite
longe do nosso viver
e os sonhos belos da noite
não morram no amanhecer.
(José Lucas de BARROS, 2007,
Serra Negra do Norte, RN)

terça-feira, 28 de agosto de 2007


Fortaleza, Fortaleza:
uma das mais belas capitais do país

AS SETE MARAVILHAS DE FORTALEZA
segundo
Bosco Sobreira

1. Theatro José de Alencar
2. Praia de Iracema
3. Padaria Espiritual (O Boteco)
4. Bairro do Benfica
5. Jacarecanga
6. Praça da Estação
7. Passeio Público


BALAIO PORRETA 1986
nº 2105
Rio, 28 de agosto de 2007



Memória 1997
A POESIA E O POEMA BRASILEIROS:
DOZE LIVROS FUNDAMENTAIS
na opinião
de Luís Carlos Guimarães (RN)
[ in Balaio Incomun, nº 999, de 3/9/1997 ]

Estrela da vida inteira (Manuel Bandeira)
Reunião (Carlos Drummond de Andrade)
Obras completas (Murilo Mendes)
Obras completas (João Cabral de Melo Neto)
Poesias (Dante Milano
Poesias (Mário Quintana)
Invenção de Orfeu (Jorge de Lima)
Navegos (Zila Mamede)
Poesias (Myriam Coeli)
Poesias (Gregório de Matos)
Poesias (Vicente de Carvalho)
Ausência viva & Terra imóvel (Octávio Mora)


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
(29b / 111)

Alfabismo literário, de Cássio Loredano. Rio de Janeiro : Capivara, 2002, 262p. [] Com um estilo gráfico primoroso, "Olhar espantado de quem não se surpreende" (Millôr Fernandes), o vascaíno Loredano é um mestre irretocável da caricatura tupiniquim. Entre Trimano e Picasso, mas com luz própria em sua gloriosa fúria criativa, o estudioso e divulgador da obra do gigante J. Carlos apresenta, aqui, um álbum de esmerado e fino grafismo, voltado para o mundo da literatura. Daí as caricaturas, ora pulsantes, ora estilizadas, ora "deformadas", entre muitas outras, de Lima Barreto e Clarice Lispector, de Garcia Lorca e Bertolt Brecht, de Osman Lins e José Lins do Rêgo, de Ernest Hemingway e Leon Tolstoi. A epígrafe de Nelson Rodrigues é perfeita para o universo gráfico de Loredano: "Só vejo beleza na pessoa humana. Acho que qualquer um de nós é mil vezes mais interessante do que a Via Láctea".

Blues, de Robert Crumb. São Paulo : Conrad, 104p. [] Os comix de Crumb, com seu grafismo grotesco anticonvencional, são essenciais para um estudo mais acurado da contracultura americana. Não por acaso, ele se tornou um ícone dos quadrinhos independentes produzidos nos Estados Unidos, criador de personagens hoje antológicos (Mr. Natural, Fritz the Cat e outros) Em música, sua paixão pelo blues é notória. Este álbum reúne HQs (e capas de discos) que expressam essa paixão, particularmente por figuras lendárias - ou desconhecidas - da música norte-americana das primeiras décadas do século passado. Há também uma história radical em termos de experimentalismo gráfico: Quadrinhos be bop cubistas (p.73-80), uma releitura singularmente criativa da arte contemporânea, onde são evidentes as homenagens a Picassso e outros grandes criadores. Enfim, um álbum com alta voltagem estético-informacional.


UMA RECOMENDAÇÂO BOROGODOSA

Peso na balança, de Wilson Moreira [Atração ATR 31239].
Originalmente lançado em 1986, contém sambas dentro da melhor tradição da música produzida no Rio de Janeiro, fevereiro e março: Portela e seus encantos, Canteiro de obra, Quero você, Incompreensão, Vivo bem com ela, Deixa clarear, Forró do Cafundó, Peso na balança. Enfim, um grande disco, com a participação de Rafael Rabello (violão de 7 cordas), Henrique Cazes (violão tenor), Paulo Sérgio Santos (clarineta), Velha Guarda da Portela (coro na faixa 2), Beto Cazes (pandeiro, reco-reco, tamborim, frigideira, triângulo, caixa de fósforos) e outros. Enfim, só gente de primeiríssima qualidade. O lançamento festivo do cd, com roda-de-samba e o escambau, deu-se no sábado à tarde, na Folha Seca, em plena Rua do Ouvidor, para alegria e emoção do aniversariante (rubro-negro) Rodrigo Ferrari, um dos sócios-proprietários da livraria.

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A Arte verdadeira tem a capacidade de nos deixar nervosos. (Susan SONTAG. Contra a interpretação. Porto Alegre : L&PM Editores, 1987, p.16)

segunda-feira, 27 de agosto de 2007


A mulher. O olhar. A poesia.
E a foto de Carlos Manuel Pereira
[ in 1000 Imagens ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2104
Rio, 27 de agosto de 2007


RECOMEÇO
de Moacy Cirne
[ in Qualquer tudo, 1993 ]

Sei do sonho:
procuro tua sombra na
penumbra
da memória líquida
e nada encontro.
A lua não é vermelha
não é violeta
não é verdecoisa
mas
os loucos da madrugada
anunciam as primeiras águas da manhã.
Sei do sonho?
Tua sombra pagã
é um corpo que me foge
das mãos cansadas de espantos
e abismos.
A árvore sonolenta
anoitece os meus delírios.
Não te vejo na claridade
do silêncio.
O sol é um pássaro ferido
na solidão
de meus gestos de meus gritos
e a hora cruviana
é uma graviola
grávida
de aromas e carnes
pronta para ser saboreada.
Sei.
Não foi um sonho.
Como encontrar,
então,
na arquitetura fluvial
de meus quereres
as linhas
e as curvas
de teu corpo barrento-canela?
Ah, não! Ah, sim!
Existe
um
grande sertão
nas veredas da minha paixão.
E eu sei do sonho.
Procuro tua sombra líquida
e nada encontro.
A lua não é verdeluã
mas
tua sombra pagã
anoitece os meus delírios.
Como encontrar,
sol e solidão,
a arquitetura colonial
de teu corpo fluvial?
Como encontrar,
no silêncio de meus gritos,
tua sombra teus aromas tuas carnes?
Sim,
não.
Tua memória vermelha
é uma sombra grávida
de morenezas e reentrâncias
azuis.
Docemente azuis.
Barrentas e azuis.

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Esta nação é mesmo linda. Quem poderia imaginar que por aqui nascesse um movimento chamado "Cansei"? Principalmente, porque os que se dizem cansados, acredito, jamais cansaram do que quer que seja. ... Quem nunca se cansa é o povo brasileiro, mesmo tendo de enfrentar fila do INSS, falta de leito em hospital, falta de comida na mesa, de creches para seus filhos e muito mais. Tudo isso geralmente por culpa dos que hoje se dizem cansados. (SÓCRATES. Cansei!, in CartaCapital, São Paulo, 29 de agosto de 2007, p.56)

domingo, 26 de agosto de 2007


JERICOACOARA
é mais do que um lugar.

É UMA PRECE ENTARDECENDO.

hoje
descobri
meus
olhos.

Mário Coivara,
in Faca de Fogo

( Foto de Alex Uchoa, in PbaseCom ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2103
Rio, 26 de agosto de 2007


MÁSCARA
de Nel Meirelles
[ in Fala Poética ]

respiro entre
o fio frio da faca
e o sabor
de lembranças
guardadas em sacos
plásticos

fujo e volto
volto e fujo
e finjo que
sou feliz

[] Penúltimo poema de Nel Meirelles,
antes de sua morte,
postado em 29/8/2006,
ao som de Mesmo sozinho, de Nando Reis []


LASCÍVIA
de Acantha
[ in La Vie Bohème ]

Me entrego -
boca, língua e gestos -
enquanto liquefazes
a noite em mim.


FEIRA DE CITAÇÕES ESPORRENTAS

* A verdadeira grã-fina tem a aridez de três desertos.
(Nelson Rodrigues)
* A juventude é uma conquista da maturidade.
(Jean Cocteau)
* A Bíblia é uma lição de como não escrever
bons roteiros para o cinema.
(Raymond Chandler)
* Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos.
(Porfírio Diaz)
* Somos todos uns farsantes: sobrevivemos aos problemas.
(E.N. Cioran)
* Definir é matar; sugerir é criar.
(Stephane Mallarmé)
* Criar é viver duas vezes.
(Albert Camus)
* A castidade é a mais antinatural de todas as perversões sexuais.
(Aldous Huxley)

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Dentro de mim
morrem seis touros de uma só vez.
(Suzana VARGAS, Olé, in Caderno de outuno, 1998, p.47)

sábado, 25 de agosto de 2007


Grandes momentos do cinema:
Sunrise / Aurora (F.W. Murnau, 1927).
Com magistral fotografia de Karl Struss e Charles Rosher, interpretado por Janet Gaynor, George O'Brien e Margaret Livingston, trata-se de um melodrama sensível e arrebatador (para os padrões românticos da época). A história de um triângulo amoroso que termina em tragédia. Para muitos, o maior filme da história do cinema mudo. E um dos maiores filmes de todos os tempos.


BALAIO PORRETA 1986
nº 2102
Rio, 25 de agosto de 2007



POEMA de
Cristina Bastos
[ in Decerto o deserto, 1992 ]

Carrego um mar
No corpo

Um porto
No peito.

Quando a viagem instiga
Meus olhos fecham o mundo
E sonham.


Cinema
O MELHOR DOS ANOS 50
segundo Moacy Cirne
[ para a Liga dos Blogues Cinematográficos ]

1. Hiroshima, meu amor (Resnais, 1959)
2. Contos da lua vaga (Mizoguchi, 1953)
3. A palavra (Dreyer, 1955)
4. Pickpocket (Bresson, 1959)
5. A princesa Yang Kwei Fei (Mizoguchi, 1955)
6. A marca da maldade (Welles, 1958)
7. Rastros de ódio (Ford, 1956)
8. Um condenado à morte escapou (Bresson, 1956)
9. Morangos silvestres (Bergman, 1957)
10. O grito (Antonioni, 1957)
11. Rio Bravo (Hawks, 1959)
12. Acossado (Godard, 1959)
[ para a Liga, um filme de 1960 ]
13. Diário de um padre de aldeia (Bresson, 1950)
14. As férias do Sr. Hulot (Tati, 1953)
15. Johnny Guitar (Ray, 1954)
16. Cantando na chuva (Kelly & Donen, 1952)
17. O salão de música (S. Ray, 1958)
18. A carruagem de ouro (Renoir, 1952)
19. Cinzas e diamantes (Wajda, 1958)
20. Crepúsculo dos deuses (Wilder, 1950)
21. Era uma vez em Tóquio (Ozu, 1953); 22. Senso (Visconti, 1954); 23. Janela indiscreta (Hitchcock, 1954); 24. Othello (Welles, 1952); 25. Vertigo (Hitchcock, 1958); 26. Os amantes crucificados (Mizoguchi, 1954); 27. Rashomon (Kurosawa, 1950); 28. Glória feita de sangue (Kubrick, 1957); 29. Viver (Kurosawa, 1952); 30. Quanto mais quente melhor (Wilder, 1959); 31. Meu tio (Tati, 1958); 32. Shadows (Cassavetes, 1959); 33. Velhas lendas tchecas (Trnka, 1953, animação); 34. Noite e neblina (Resnais, 1955, curta).


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
(29a / 111)

Cinema, arte e ideologia, por A. Roma Torres (sel. & int.). Porto : Afrontamento, 1975, 274p. [] Ótima seleção de textos e entrevistas. Entre os primeiros, artigos de Amengual, Bazin, Metz, Tavernier, Comolli e outros. Entrevistas com Bresson, Rouch, Rossellini, Glauber Rocha, Solanas, Straub ("Com um filme é preciso surpreender as pessoas, surpreendê-las no sentido em que não vejam as coisas com óculos", p.175; "Não é com palavras poéticas que se faz poesia", p.176; "Se um filme não serve para abrir os olhos e os ouvidos das pessoas, para que serve?", p.183). Uma leitura do mundo à esquerda. Como, acredito, convém. Desde que não seja uma leitura sectária ou sem fundamentação crítica, acrescente-se.

As maravilhas do cinema, de Georges Sadoul. Lisboa : Publicações Europa-América, s/d, 296p. [Livro adquirido em São Paulo, em dezembro de 1959] Reconheço: o seu valor, hoje, em minha biblioteca, é puramente afetivo. Trata-se de uma introdução, bastante datada, dos principais procedimentos técnicos que fazem o cinema e a sua indústria, do tipo Os mistérios dos estúdios e Como se prepara e se termina um filme. Mas há dois capítulos bastante curiosos, analisados hoje: O cinema do futuro e Panorama do cinema mundial contemporâneo. Leia-se, aqui: "No Brasil, onde a frequência dos cinemas está em plena expansão, Hollywood ocupou muito tempo 80% a 90% dos programas e velou ciosamente pelo seu monopólio, porque este país era o seu terceiro cliente mundial. ... No Brasil, como na Argentina, basta uma centelha para que a arte do filme tenha amanhã um desenvolvimento notável" (p.241-42).


UM BLOGUE PORRETA

Filmes do Chico, de Chico Fireman.
A compreensão do cinema através de análises objetivas.
Informações variadas sobre diretores e filmes.

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O Mestre disse: "Merece ser um professor o homem que descobre o novo ao refrescar na sua mente aquilo que ele já conhece". (CONFÚCIO. Os analectos. Trad. Caroline Chang e D.C. Lau. Porto Alegre : L&PM, 2006, p.70)

sexta-feira, 24 de agosto de 2007


Um delírio de águas, nuvens e cores
em Emrah Icten
[ in Photo Net ]


BALAIO PORRETA 1986
nº 2101
Rio, 24 de agosto de 2007



POEMA de
Simone Oliveira
[ in Letras e Tempestades ]

PERGUNTO ONTEM,
DURMO DEPOIS,
E ACORDO SEMPRE ANTES!!!


O CHÃO DE MIM
de Maria Maria
[ in Espartilho de Eme ]

O chão de mim
é pluma e cetim.

É noite em plena tarde,
é febre que arde.

É farol sem direção,
é luz na imensidão.

O chão de mim
é linguagem sem imagem

à margem
da ilusão.


Memória 1997
A POESIA E O POEMA BRASILEIROS:
DEZ LIVROS FUNDAMENTAIS
segundo Moacy Cirne
[ in Balaio Incomun, nº 987, 14 de julho de 1997 ]

1. A ave & Solida (Wlademir Dias Pino); 2. Cantaria barroca (Affonso Ávila); 3. Antologia mamaluca (Sebastião Nunes); 4. Poemics (Alvaro de Sá); 5. O cão sem plumas (João Cabral); 6. O visionário (Murilo Mendes); 7. Poesias reunidas O. Andrade (Oswald de Andrade); 8. Invenção de Orfeu (Jorge de Lima); 9. Viva vaia (Augusto de Campos); 10. Libertinagem (Manuel Bandeira).


A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS
(28c / 111)

Discurso da difamação do poeta, de Affonso Ávila. São Paulo : Summus Editorial, 1978, 112p. [Exemplar com dedicatória: "Ao Moacy Cirne, com a velha estima e o abraço amigo de Affonso Avila, BH 9-5-1978]. No mesmo ano, no mês de setembro, eu afirmava: "São poucos os artistas, escritores e poetas que, no Brasil, assumem o papel social que interessa àqueles que acreditam em nosso futuro - o papel de produtores culturais. Affonso Ávila é um deles. ... Enquanto isso, entendamos a relação discurso artístico/discurso político sem passar pelo crivo do realismo socialista, tão castrador quanto qualquer estética burguesa. Os poemas de Affonso Ávila abrem-se para a mais crítica das leituras produtivas" (Revista Vozes, set/78, republicado in A biblioteca de Caicó. Rio : José Olympio, 1983, p.34). Na Revista Vozes de maio de 1973, já chamara a atenção para o seu Código Nacional de Trânsito. Ou seja, a minha admiração pelo poeta e conceituado estudioso da arte barroca mineira é antiga. O presente volume contém, na íntegra, o citado Código Nacional (1972) e mais o excelente Cantaria barroca (1975), cuja edição original - sob a supervisão gráfica de Sebastião Nunes - é um verdadeiro primor como livro-objeto, e Discurso da difamação do poeta (1976), além de vários poemas de Código de Minas (1969).
[Veja, no Substantivo Plural, editado por Tácito Costa, alguns poemas de Affonso Ávila.]

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Há um pouco de sangue
Nos poemas
Que ainda não escrevi.
(Euclides AMARAL,
in Desmaio Públiko, nº 35, Nova Iguaçu, RJ, agosto 1993)