sábado, 14 de fevereiro de 2009

OS FILMES QUE MARCARAM ÉPOCA
NA CAICÓ DOS ANOS 50
Clique na imagem
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o trêiler de
Rashomon
(Akira Kurosawa, 1950)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2568
Rio, 14 de fevereiro de 2009

Exibido no cinema-poeira de "seu" Clóvis, o Pax, no primeiro semestre de 1956, Rashomon - estrelado por Toshiro Mifune, Machiko Kyo e Masayuki Mori - foi, muito provavelmente, o primeiro filme japonês lançado em Caicó. Foi também o filme que me despertou para o cinema como possibilidade artística; a partir dele, aos 13 anos, comecei a ler sobre os caminhos estéticos da sétima arte e a anotar, de início num simples caderno escolar, os filmes que eu via. Como, no primeiro momento, não entendi a sua história - que se passa no Japão do século XII, envolvendo um estupro e um assassinato, cujo fio narrativo se desenvolve através de quatro versões diferentes -, tomei, então, como resolução básica o estudo da história do cinema. E o fiz numa cidade que, na época, ainda não atingira 10 mil habitantes. Decerto, recorri ao reembolso postal para adquirir as "cartilhas introdutórias" de Carlos Ortiz (quem ainda se lembra dele?), assim como recorri às crônicas cinematográficas de Berilo Wanderley, publicadas na
Tribuna do Norte, de Natal.


ALGUNS DOS FILMES
QUE VI EM CAICÓ EM 1956
- Sem ordem preferencial -

Rashomon (Kurosawa, 1950)
Maclóvia (Fernández, 1948)
Os 5000 dedos do Dr. T (Rowland, 1953)
A fera de Forte Bravo (Sturges, 1953)
Esta noite é minha (Clair, 1952)
O gavião e a flecha (Tourneur, 1950)
O drama da linha branca (Zampa, 1950)
O implacável (Milestone, 1952)
Contra todas as bandeiras (Sherman, 1952)
O tirano de Toledo (Decoin, 1952)
O pirata sangrento (Siodmak, 1952)
Macau (Sternberg, 1952)

No mesmo ano vi em Campina Grande, PB,
nas férias de julho
(uns, no Babilônia; outros, no Capitólio):

Vidas amargas (Kazan, 1955)
Ladrão de casaca (Hitchcock, 1955)
Suplício de uma saudade (King, 1955)
A fonte dos desejos (Negulesco, 1954)
A favorita de Júpiter (Sidney, 1955)
O homem do terno cinzento (Johnson, 1956)
A princesa do Nilo (Jones, 1954)
A última vez que vi Paris (Brooks, 1954)


ESTRANHEZAS
Hercília Fernandes - Caicó, RN
[ in HF diante do Espelho ]

Poetas se apaixonam...
Nada há de estranho nisso!

Aconteceu com o Pessoa, a Flor Bela, o Vinícius...
- Que dirá, pobre mortal, consigo?!

Poetas se apaixonam...
A palavra desce quente garganta ao umbigo.

E a estranheza?
[cá entre nós...]
também faz parte do ofício!...


PERFÍDIA
Carlos Gurgel - Natal, RN
[ in On The É ]

ao que cansar de vôos
comumente como se faz com a vida
ao derredor de marrecos e sais

ao que dançar de shows
simplesmente como uma rua
na varanda dos teus sinais

ao que lançar meus olhos
em meio ao fogo do mundo
tão cansativo quanto o véu de um alce natimorto

ao que passar de mim
orelhas e fadiga
e o imerso infortúnio dos meus ascos.


Humor potiguar
LAUDOS MÉDICOS
Armando Negreiros
[ in Viva a Verve!, 2000 ]

Transcrição de dois laudos recebidos pelo Dr. Edésio Macário, no Hospital Walfredo Gurgel [nos anos 40 e 50, professor do GDS, em Caicó], na capital norte-riograndense:

1.
Um delegado do interior enviou um paciente para o HWG
com o seguinte laudo:
Indivíduo recebeu tiro no maciço da bunda e a bala saiu
pelo órgão cu
.

2.
Acidente de trabalho encaminhado pelo serviço de pessoal
de uma firma:
Servente sofreu traumatismo na bolsa escrotal.
Parte do corpo atingida:
ovo esquerdo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Alinhar ao centroImagem:
RetroAtelier,
numa leitura artnouveau

BALAIO PORRETA 1986
n° 2567
Rio, 13 de fevereiro de 2009

Algumas das idéias mais famosas do Velho Testamento são as da escolha de Deus, de sua promessa e da aliança: os cristãos, especialmente, enfatizam essas idéias porque levam em conta seu futuro Evangelho. Contudo, são noções que surgiram em épocas diferentes e adquiriram profundidade
em momentos diversos.

(Robin Lane FOX. Bíblia; verdade e ficção, 1991)


O LIVRO DOS LIVROS
(7b)

Texto estabelecido por
Moatidatotatýne, o Escriba

Assim caminha a humanidade
- Parte 2 -

Antes que o Senhor das Alturas se desse conta, Adri Adriannita e Marcellus Novello, com a ajuda dos amigos Romério, o Cabeludo Roqueiro, e Marina Morena Mercedes Lorenita, já se encontravam longe, no interior das Minas Gerais, no Vale do Jequitinhona. Alertado por seus jagungos mais fiéis, o Senhor das Alturas disse: "É melhor deixar os dois pra lá. Os danados podem até apelar para pessoas que sequer nasceram ainda, como um tal de Nietzsche e um sujeito que será conhecido por sua teoria da evolução, que, aliás, preciso combater logo, antes mesmo do seu nascedouro, para que não tenha seguidores subversivos. Depois verei o que fazer com o casal e seus dois amigos. A minha vingança será terrível".

Adri Adriannita e Marcellus Novello, longe do Senhor das Alturas, muitos filhos tiveram: Metamorfraseando Coelho da Costa, Lugar Que Importa da Selva Silva Novaes, Pavitra do Ceará Ensolarado, Meyer Florido da Capital Paulista, Salineira da Boa Cachaça. E seus descendentes povoaram Tocantins, Goiás e Mato Grosso. Marina Morena Mercedes Lorenita adquiriu uma fazenda na Bahia, ao lado da propriedade do teólogo Dorival Kaynni, e, precursora do existencialismo franco-sartreano, casou-se com o poeta Luiz Vaz de Camonge, que veio de Portugália só para conhecê-la e desposá-la. Juntos, muitos filhos tiveram: Suave Coisa da Costa Pereira, Cosmunicando Mundo Novo, Lusitânia Fernanda Pessoa, Floresta Amazônica da Mata Atlântica. E seus descendentes povoaram o Pará e o Macapá, além de Santa Catarina e o Paraná. E assim foi. E assim aconteceu.

Romério, o Cabeludo Roqueiro, aliou-se a Sebastunes Tião e, associados, criaram a Frente de Libertação dos Vocábulos Enlouquecidos, das Matérias Brutas e das Antologias Mamalucas - que se tornaria a popular FLVEMBAM, responsável pela fundação de antiacademias de letras em São Paulo e Minas Gerais. Os dois conheceram belas mulheres e com elas se uniram. E Romério, o Cabeludo Roqueiro tinha um sonho: um dia ainda seria Sansão, o ator-poeta de Hollywood. E Sebastunes Tião um sonho tinha: um dia ainda seria um ex-poeta da antipropaganda. E o Senhor das Alturas, já cansado do peso da eternidade, só cubava aqueles quatro. Mas não tinha pressa.

E o Senhor das Alturas, para quem não existe o espaçotempo, sem se ater a questões de passado, presente ou futuro, arrematou: "Mais cedo ou mais tarde os quatro vão sofrer o diabo nas Minhas mãos de tirano. Vão ver só o que é bom pra tosse. Passarão por cada capilada (¹), que jamais esquecerão. Mas, aqui e agora, com ou sem passado, presente e futuro, minhas preocupações são outras. São com o desenvolvimento dessa estranha espécie animal que se diz racional. Por que, meu Eu, a criei? Por quê? Será que estava doido varrido quando O fiz?"

E o Senhor das Alturas, apesar de tudo, resolveu mais uma vez prestigiar o patriarca Zeferino Cabeção, já com 99 anos. E o Senhor das Alturas recomendou-lhe: "Fazei uma beberagem, à base de amendoim, catuaba, açaí, mel silvestre, cerveja preta, ovos de codorna, licor de chocolate e a tomai duas vezes ao dia, pela manhã e à noite, acompanhada de duas talagadas (²) de Samanaú, Rainha ou Topázio (ª). Se não tiveres uma puta dor de barriga, homem serás uma, duas, três, sete vezes. Dentro de 69 dias, na hora da viração (ªª), tomai aquela tua vizinha, de 25 anos, bonita e cheirosa, e a fazei tua mulher, pois".

Zeferino Cabeção tomou a mulher de nome Ceturina Perseguida Quiriquiquinha. E dela nasceram Zanrã Libertina, Madá Madiã, Jesboque do Pau Grande, Kung-Fu das Lutas Orientais, Dadá Corisco da Bunda Rasgada. E muitos foram seus descendentes. E seus descendentes foram muitos. Nenhum deles se parecia com o Patriarca. Mas tal fato era de menos importância. A hora dos Araújos, dos Medeiros, dos Azevedos, dos Macedos, dos Britos, dos Suassunas, dos Guimarães Costas não tardaria, só algumas centenas de anos, e outra seria a macheza dos homens. Enquanto isso, Zeferino Cabeção viveu 122 anos e expirou, morrendo numa feliz velhice. E foi reunir-se a seus antepassados, a começar por Severino e Raimunda. Assim caminhava a espécie humana.

Mas o Senhor das Alturas começou a se preocupar, pela humanidade e pela negação de Sua Eternidade Suprema. E o Senhor das Alturas disse: "Para provar que Eu sou Eu, uma Singularidade sem princípio, meio e fim, e que sou capaz de contrariar as próprias leis da história humana, enfrentarei, desafiando-os, os cinco homens que podem me superar em inteligência e sabedoria, um de cada vez, em momentos históricos diferentes para a humanidade. Será o primeiro corte epistemológico da história d'O Livro dos Livros. Assim O digo. Assim O faço. Assim O determino. Para o bem da humanidade, enfrentarei, aqui e agora, fora do tempo e do espaço, o futuro criador da teoria da evolução. Mais tarde, enfrentarei os outros quatro".

Próximo capítulo:
O encontro do Senhor das Alturas
com o Sr. Charles Darwin,
que antecede a história de Jacó e Raquel

Notas dos editores d'O Livro dos Livros:

(¹) Capilada : Aventura arriscada, perigosa
(²) Talagada : lapada de cana, dose de cana

Notas complementares:

(ª) Samanaú, Rainha e Topázio : marcas de cachaça -
a primeira, de Caicó (RN); a segunda, de Bananeiras (PB);
a terceira, de Três Rios de Minas (MG)
(ªª) Hora da Viração : Cinco horas da tarde

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009


Cartão postal dos anos 10 do séc. XX
via
Canta Piriquito Canta


BALAIO PORRETA 1986
n° 2566
Rio, 12 de fevereiro de 2009

Um homem é a grafia de um estrela.
(Ana PELUSO, in La Escena de la Memoria)


Almanaque / Memória
AUTO-RETRATO
DE GRACILIANO RAMOS, AOS 56 ANOS, EM 1948

Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas.
Casado duas vezes, tem sete filhos.
Altura 1,75.
Sapato n.º 41.
Colarinho n.º 39.
Prefere não andar.
Não gosta de vizinhos.
Detesta rádio, telefone e campainhas.
Tem horror às pessoas que falam alto.
Usa óculos. Meio calvo.
Não tem preferência por nenhuma comida.
Não gosta de frutas nem de doces.
Indiferente à música.
Sua leitura predileta: a Bíblia.
Escreveu "Caetés" com 34 anos de idade.
Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados.
Gosta de beber aguardente.
É ateu. Indiferente à Academia.
Odeia a burguesia. Adora crianças.
Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.
Gosta de palavrões escritos e falados.
Deseja a morte do capitalismo.
Escreveu seus livros pela manhã.
Fuma cigarros "Selma" (três maços por dia).
É inspetor de ensino, trabalha no "Correio do Manhã".
Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo.
Só tem cinco ternos de roupa, estragados.
Refaz seus romances várias vezes.
Esteve preso duas vezes.
É-Ihe indiferente estar preso ou solto.
Escreve à mão.
Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Lins do Rego e José Olympio.
Tem poucas dívidas.
Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas.
Espera morrer com 57 anos.


CINCO POEMAS/REFLEXÕES
de MÁRIO QUINTANA

[ in Caderno H, 1973 ]

Parábola?

Os espelhos partidos têm muito mais luas.

Mas seja lá como for

Decifrar palavras cruzadas é uma forma tranquila de desespero.

Dos livros

Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores.

Da alma

Uma alma sem mistério nem seria alma... Da mesma forma que um Deus compreensível
não seria Deus.

Um epitáfio para Catulo da Paixão Cearense

Catulo não morreu: luarizou-se.


Humor em Campina Grande
MULHERES SUSPEITAS
Armando Negreiros
[ in Viva a Verve!, 2000 ]

Conhecido político paraibano, Raimundo Asfora, era notório pelas farras desmanteladas que fazia. Certa feita, já de meio lastro a queimado, acompanhado por duas gazelas cuja profissão o vulgo, erradamente, chama de "mulher de vida fácil", tentou entrar no clube mais elitista de Campina Grande, segunda maior cidade da Paraíba. O porteiro, respeitosamente, posto que Raimundo era deputado, o advertiu:

- As acompanhantes não podem entrar.
- Qual o motivo?
- São suspeitas.
- Suspeitas? Essas duas? De maneira nenhuma!
Essas duas são putas, as suspeitas estão aí dentro!


CUMAÉQUIÉMESMO?

Um leitor/internauta - com fértil imaginação - sapecou no Google: "champrar dicionário". Claro que o Balaio figurou nos primeiros lugares entre as 58 opções possíveis. Mas a questão é outra - e o nosso Balaio decerto não teria como respondê-la: como é que se fode um dicionário, ou seja, como é que se come sexualmente um livro - e não um livro qualquer, é bom acrescentar, mas um livro com informações filológicas, linguísticas, semânticas etc. e tal, a partir de verbetes catalogados geralmente por ordem alfabética. Afinal champrar, pelo menos no Rio Grande do Norte, e ao que parece na Paraíba também, tem um sentido bíblico-erótico-sexual bastante preciso. A não ser que o leitor tenha pensado no tema em termos puramente metafóricos... Ou, então, que seja um insatisfeito à procura de novas práticas sexuais.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009


Cartão postal dos anos 10 do século passado
via
Canta Piriquito Canta


BALAIO PORRETA 1986
n° 2565
Rio, 11 de fevereiro de 2009

Os otimistas escrevem mal.
(Paul VALÉRY. Pensamentos maus)


ARADO
Zila Mamede
[ in Arado, 1959 ]

Arado cultivadeira
rompe veios, morde chão
Ai uns olhos afiados
rasgando meu coração.

Arado dentes enxadas
lavancando capoeiras
Mil prometimentos, juras
faladas, reverdadeiras?

Arado ara picoteira
sega relha amanhamento,
me desata desse amor
ternura torturamento.


POEMA
Martha Galrão
[ in Maria Muadiê,
via Cosmunicando ]

Fevereiro ferve
me dá febre
Me come feito homem.

Fevereiro arrepia
os bicos dos meus seios
Abocanha meus sonhos.

Fevereiro tem fome
não tem piedade
Me consome

Fevereiro, me deixa.


VÔO
Adelaide Amorim
[ in Inscrições, em 22/09/2008 ]

abri a janela
e o pequeno silêncio
voou
diluído em luz

Nota do Balaio:
Por enquanto, preferimos
"vôo" a "voo".


Humor potiguar
MÊRDA
Armando Negreiros
[ in Viva a verve!, 2000 ]

Participando de um encontro no Anhembi, em São Paulo, [o advogado mossoroense Raimundo Vicente Borba] ouviu pelo serviço de som a chamada:
- "Os senhores participantes do Grupo Um, dirijam-se, por favor, ao salão Ê".
Borba, estranhando a pronúncia, indagou de uma recepcionista paulista:
- O salão Ê que o locutor falou deve ser o É,
não é mesmo?
- Não, senhor, é Ê mesmo. Aqui só falamos Ê, nós não falamos É.

Borba não perdeu tempo:
- É uma pena. Assim vocês não podem mandar ningém à merda e mandando à mêrda não tem graça nenhuma...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009


Imagem:
Retroatelier


BALAIO PORRETA 1986
n° 2564
Rio, 10 de fevereiro de 2009

A realidade total é o mundo.
(Ludwig WITTGENSTEIN. Tractatus logico-philosophicus, 1922)


SHLEPT
Mercedes Lorenzo
[ Republicado in Metamorfraseando ]

a língua bifurcada da serpente
prova dois gostos?
o que acontece
se eu lamber teu gesto?
gosto do susto
de pensar palavras salivas
incisivas in.surgentes
carnívoras
isso vai me inflorescendo
o resto



SEGREDO
Mariana Botelho
[ in Suave Coisa ]

o silêncio dorme sobre a palavra
que morre na boca


GIZ
Marcelo Novaes
[ in O Lugar que Importa ]

Cega, só por dentro.
Ecos. De canhões,
arremedos. Ruflar
de tambores.

[Vento em dose
cavalar: doze a
doze].

A fala roça alguma dor
que se ignora. Nem sai.
Ninguém sabe o nome
do noivo que se fora.

Ficara só. A cara posta
entre arbustos. Singela
estátua onde pousa o pó.
Professora: giz de lousa.
Tristeza e asma.

Na deserta e solteira
condição de órfã - por
uma vida inteira -, aos
olhos da multidão - in
fecta e ávida -, segue
caminhando como
lesma.


OS DEZ LIVROS MAIS GENIAIS
para
Wellington Guimarães
[ in Os Aloprados ]

Otelo (Shakespeare)
O cão sem plumas
(João Cabral)
O banquete (Platão)
Ana Karenina (Tolstoy)
Grande sertão: veredas (Guimarães Rosa)
Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)
Crime e castigo (Dostoievski)
Os irmãos Karamazov (Dostoievski)
Hamlet (Shakespeare)
As flores do mal (Baudelaire)


Humor potiguar
BIS
Armando Negreiros
[ in Viva a verve, 2000 ]

Ivanildo [Correia de Paiva, o popular Deus da boemia natalense] não podia fazer feio nos estudos, filho que era do Professor Saturnino, conhecido e respeitado professor de português que ensinou a mais de uma geração. Mas, para seu azar, estudando em Recife, foi reprovado e não sabia o que dizer ao pai. Espirituoso, passou o seguinte telegrama:

Professores entusiasmados meus exames pediram bis.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009


A arte de
Gustave Doré,
que, como poucos,
soube captar o mundo
das acontecências bíblicas


BALAIO PORRETA 1986
n° 2563
Rio, 9 de fevereiro de 2009


A Bíblia não foi escrita de uma só vez. Levou muito tempo, mais de mil anos. Começou em torno do ano 1250 antes de Cristo, e o ponto final só foi colocado cem anos depois do nascimento de Jesus. Aliás, é muito difícil saber quando foi que começaram a escrever a Bíblia. Pois, antes de ser escrita, a Bíblia foi narrada e contada nas rodas de conversa e nas celebrações do povo. E antes de ser narrada e contada, ela foi vivida por muitas gerações num esforço teimoso e fiel de colocar Deus na vida e organizar a vida de acordo com a justiça. // No começo, o povo não fazia muita distinção entre contar e escrever. O importante era expressar e transmitir aos outros a nova consciência comunitária, nascida neles a partir do contato com Deus. ... A Bíblia saiu da memória do povo. Nasceu
da preocupação de não esquecer o passado.

(Frei Ludovico GARMUS. Introdução geral à Bíblia Sagrada, 1983)


O LIVRO DOS LIVROS
(7a)

Texto estabelecido por
Moatidatotatýne, o Escriba,
com supervisão teológica de
Emmannuel Tigre Cabral

Assim caminha a humanidade
- Parte 1 -

O mundo continuava para os vivos. Zeferino Cabeção - que, à distância, vira a destruição de Axé Musiqueta e Gonorreia - resolveu partir para o Ceará, para os lados de Nova Russas. Em lá chegando, xeleléu (¹) como sempre, mais uma vez deixou que sua mulher se passasse por irmã, para que ela fosse usada, e muito bem usada, pelo 'majó' Chicó Theodorico. E assim aconteceu. E de tanto ser usada pelo 'majó', a mulher abandonou Zeferino Cabeção. E assim foi. Desiludido com a vida, Zeferino Cabeção passou a amarrar o gato (²) quase diariamente.

E o Senhor das Alturas, acatruzado (³) com as presepadas de Zeferino Cabeção, sentenciou para seus jagunços: "Phoda-se a humanidade, como dirá o filósofo Fócrates, dentro de alguns séculos". Mas a humanidade caminhava. Caminhava a humanidade. O próprio Zeferino Cabeção encontrou uma nova mulher, a jovem Adri Adriannita, a morena mais desejada de todo o Ceará, que em dúvidas ficou, questionando-se: "Valerá a pena? Será que tudo vale a pena se a alma não é pequena?" (ª)

E o Senhor das Alturas, já esquecido de sua chateação com os humanos, apareceu em sonho para Adri Adriannita e lhes disse: "Ficai com Zeferino Cabeção e lhe dai um filho, que se chamará Chico Doido Vulgo Isaque Doidão. A humanidade precisa se expandir". E Adri Adriannita, ao acordar, olhando para os céus, respondeu-lhe: "Tá pensando o quê, oh Velho das Alturas? Que sou uma mulherzinha qualquer? E se eu gostar de outro, hem?" E uma voz, da noite para o dia (ªª), trovejou em sua cabeça: "Mais respeito Comigo, visse? Façai o que te ordeno e serás feliz".

Mesmo assim, Adri Adriannita relutava. E se Zeferino Cabeção não fosse um bom homem? E se não fosse carinhoso nas artes do amor no embalo de uma boa rede? E se fosse um patriarca fuleiro? Mas seus parentes concordaram com o Senhor das Alturas, abençoaram-na e disseram: "Tu, irmã nossa, multiplica-te aos milhares e os teus descendentes conquistem as cidades inimigas". E assim foi. E assim aconteceu.

E assim aconteceu. E assim foi. E da união dos dois nasceu Chico Doido Vulgo Isaque Doidão, o maior raparigueiro entre todos os rapariguentos (ªªª) do Ceará e adjacências, autor de quadrinhas fesceninas que anos e anos depois seriam copiadas pelo Rei Salomão Ão Ão. E Chico Doido Vulgo Isaque Doidão conheceu Rebeca de Jericoacoara, e por ela se apaixonou, aquietando-se em sua venturanças raparigais. E os dois se uniram.

E os dois, unidos, consolaram Zeferino Cabeção, quando o velho patriarca foi abandonado por Adri Adriannita, que se apaixonou pelo jovem poeta Marcellus Novello. Assim caminhava a humanidade. Assim caminha a humanidade. E muitos se perguntavam: "E agora, o que acontecerá com Adri Adriannita e Marcellus Novello? Será que o Senhor das Alturas vai se indignar com os dois?"

(Continua)

Notas dos editores d'O livro dos Livros:

(¹) Xeleléu : Bajulador, Baba-ovo, Lambe-cu
(²) Amarrar o gato : Embriagar-se
(³) Acatruzar : Aborrecer, Importunar

Notas complementares:

(ª) Indagação antecipatória dos versos de um poeta português do séc. XX da Era Comum.
(ªª) Da noite para o dia : De repente.
(ªªª) Raparigueiro entre os rapariguentos : Mulherengo entre os mulherengos.

domingo, 8 de fevereiro de 2009


Imagem:
Retroatelier


BALAIO PORRETA 1986
n° 2562
Rio, 8 de fevereiro de 2009

Não desejarei a mulher do próximo nem a do remoto.
Como sabes, jamais tive paciência de esperar na fila.
(José Paulo PAES, in Promissória ao bom Deus. Socráticas, 2001 ]


PECADOS INTERIORANOS
4º - Ira
Paulo de Tarso Correia de Melo (RN)
[ in Rio dos homens, 2002 ]

Ah, minha filha,
eu sou assim:
quando tenho raiva de uma pessoa,

tenho raiva da pessoa,
da menina da pessoa
e da boneca da menina da pessoa.


UM POEMA CANTADO NA NOITE: IV
Tanussi Cardoso (RJ)
[ in Exercício do olhar, 2006 ]

é no osso das nuvens
no ar das flautas doces
na noite que nada espera
que o poema desespera


OFÍCIO
Antônio Morais de Carvalho (PB)
[ in Jogo de sentidos, 1986 ]

Não quero o poema-perfeito:
O fastio dos Deuses,
A bondade do Diabo,
O Verbo,
A Bomba!

Não quero o poema-perfeito:
Eu sei que o ultrapasso
Ao tocar o seu mistério.

Não quero o poema-perfeito,
O último-poema:
A poesia
É meu ofício cotidiano.


MANCHETES QUE ABALARAM O MUNDO
Max Nunes (RJ)
[ in Uma pulga na camisola, 1996 ]

Tarado come maçã e ataca donzela no Paraíso.

Desfalcada a seleção da Grécia.
Acertaram o calcanhar de Aquiles.

Ainda não foram encontrados os restos mortais
do chinês que inventou a pólvora.

Navegador português sem radar descobre o Brasil.

Luís XV ganha o primeiro lugar
na categoria luxo do Baile de Sodoma.


Cinema
TÍTULOS DE FILMES NO BRASIL E EM PORTUGAL

Título original: To have and have not (Hawks, 1944)
No Brasil: Uma aventura na Martinica
Em Portugal: Ter e não ter

Original: Double indemnity (Wilder, 1944)
No Brasil: Pacto de sangue
Em Portugal: Pagos a dobrar

Original: Spellbound (Hitchcock, 1945)
No Brasil: Quando fala o coração
Em Portugal: A casa encantada

Original: Les enfants du paradis (Carné, 1945)
No Brasil: O boulevard do crime
Em Portugal: Os rapazes da geral

Original: It's a wonderful life (Capra, 1946)
No Brasil: A felicidade não se compra
Em Portugal: Do céu caiu uma estrela

Título original: The asphalt jungle (Huston, 1950)
No Brasil: O segredo das jóias
Em Portugal: Quando a cidade dorme

sábado, 7 de fevereiro de 2009

OS FILMES QUE MARCARAM ÉPOCA
NA CAICÓ DOS ANOS 50

Clique na imagem
para verouvir
uma das cenas mais famosas
do cinema americano dos anos 50:
Burt Lancaster e Deborah Kerr
em
A um passo da eternidade
(Zinnemann, 1953)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2561
Rio, 7 de fevereiro de 2009


Exibido no segundo semestre de 1958, no Cinema Pax, A um passo da eternidade mobilizou os caicoenses de forma bastante peculiar: de um lado, por sua temática centrada na guerra; do outro, por sua vertente emotivo-amorosa. A presença de americanos em nossa cidade, residindo num sobrado da Praça Dr. José Augusto, contribuía para as nossas simpatias para a causa dos aliados durante a segunda guerra mundial. O filme parecia - e talvez ainda pareça - refletir com sensibilidade um momento histórico bastante preciso. Para completar, Burt Lancaster sempre figurou na preferência dos cinéfilos de Caicó. Não se pode esquecer, ainda, que 1958 foi um ano de seca terrível em todo o sertão nordestino e o cinema, assim, com sua magia encantatória, cumpria um papel social dos mais expressivos. Afinal, para muitos de nós, a triste visão de rios e açudes sem água, com a terra esturricada pela longa estiagem, não podia sufocar toda uma cidade, por mais que ela, a seca, destruísse a vida de uma parcela considerável da população. O Pax de 'seu' Clóvis não deixava de ser um oásis perdido no meio de tudo aquilo. Éramos alienados e não sabíamos. De qualquer modo, a arte - a que, naquele momento, se expressava no cinema - era uma inesperada peça de resistência emocional.


CINEMA 2009

Vistos em casa:

[R] A aventura *** (Antonioni, 1960)
[R] A marca da maldade *** (Welles, 1958)
[R] Cidadão Kane *** (Welles, 1941)
A mãe e a puta *** (Eustache, 1973)
Antígona *** (Straub & Huillet, 1991)
O diabo, provavelmente *** (Bresson, 1977)
[R] Rio Bravo *** (Hawks, 1959)
[R] Quanto mais quente melhor *** (Wilder, 1959)
[R] O dinheiro ** (Bresson, 1983)
[R] Amarcord ** (Fellini, 1973)
O violino ** (Quevedo, 2005)
Carta de um jovem suicida * (Marcelo Ikeda, 2008), vídeo
Êxodo * (Marcelo Ikeda, 2008), vídeo

Cotações:
*** Excelente
** Ótimo
* Especialmente bom
° Bom/Interessante
[R] Revisão


OS DEZ FILMES QUE O POETA LÍVIO OLIVEIRA (RN)
LEVARIA PARA UMA ILHA DESERTA
[ in Noticiando, de Cefas Carvalho ]

1. A doce vida (Fellini)
2. O poderoso Chefão (Coppola)
3. Sem destino (Hopper)
4. O último tango em Paris (Bertolucci)
5. Amarcord (Fellini)
6. Gritos e sussurros (Bergman)
7. A bela da tarde (Buñuel)
8. Eu sei que vou te amar (Arnaldo Jabor)
9. 2001: uma odisséia no espaço (Kubrick)
10. Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha)


POEMA FINAL
Moacy Cirne
[ in Continua na próxima, 1994 ]

o homem só,
velho e cansado,
olha para a frente
e nada vê.
olha para os lados
e nada vê.

entre
o espanto dos sucidas
e
o silêncio dos desamados

o homem cansado,
velho e só,
olha para o poema
e nada vê.

será
que os sinos
dobrarão por ele?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A destruição de Sodoma e Gomorra,
na visão dos ateus,
segundo
Gustave Doré
(1832-1883).
Na verdade,
a destruição de Axé Musiqueta e Gonorreia,
segundo os textos da história consagrada
pelos verdadeiros crentes.


BALAIO PORRETA 1986
n° 2560
Rio, 6 de fevereiro de 2009

Não há um estilo bíblico, um ponto de vista bíblico ou uma mensagem bíblica:
há estilos, pontos de vista, mensagens.
( John B. GABEL & Charles B. WHEELER.
A Bíblia como literatura, 1990)


O LIVRO DOS LIVROS
(6b)
Texto estabelecido por
Moatidatotatýne, o Escriba

A destruição
de Axé Musiqueta e Gonorreia
- Parte 2 -

E o Senhor das Alturas, espantado, não entendia a reação das duas filhas de Pão-de-Ló, que não queriam ser violentadas pela plebe ignara. Mais espantado ficou ainda quando as duas, já fora de casa, se meteram na confusão lutando capoeira, sob as bênçãos de Mestre Bimba e os olhares atentos de Besouro Mangangá e Mestre Pestinha. E o Senhor das Alturas disse: "Vige Maria!, que mulheres mais atrevidas, são capazes de enfrentar qualquer carrumbamba"(¹).

Os dois jagunços também entraram na briga e no final, entre mortos e feridos, todos se salvaram, embora Pão-de-Ló, de tanto levar porrada, tivesse ficado praticamente cego. Mas os ânimos serenaram. Mas os ânimos diminuíram de intensidade. E um dos jagunços disse para Pão-de-Ló, já dentro de casa: "Não se preocupei, vamos ajudá-lo, a você e a sua família. Não somos de mijar para trás (²)". E assim foi. E assim aconteceu.

Quando rompeu a aurora abismada, como nos versos de um poeta de cordel paraibano, os jagungos insistiram com Pão-de-Ló, dizendo: "Ram'bora, toma tua mulher e as duas filhas, visse!, para não pereceres também tu por causa das sujeiras da cidade". E assim aconteceu. E assim foi. E quando se encontraram bem longe da cidade objetos voadores até então desconhecidos despejaram suas bolas de fogo sobre todos. E, em poucos minutos, total foi o esgalifamento (³) de Axé Musiqueta e Gonorreia. Só que Pão-de-Queijo, a mulher de Pão-de-Ló, cansada das pernas, não podendo acompanhá-los com a devida ligeireza, foi atingida por uma das muitas bolas de fogo. De tão destruída, ficou parecendo mais um monte de sal, a pobre coitada.

Pão-de-Ló, quase cego, ainda com medo da fúria dos céus, após orientação dos dois jagunços, foi morar nas montanhas com as duas filhas. Semanas se passaram. Passaram-se semanas. E a mais velha disse à mais nova: "Nosso pai já está velho e não há aqui homens com quem nos possamos amigar, como faz todo mundo. Vamos embebedar o pai com vinho e dormir com ele, para ter filhos dele". Embebedaram o pai naquela noite e a mais velha foi dormir com ele sem que ele nada percebesse, nem quando ela se deitou ao seu lado nem quando depois se levantou.

No dia seguinte a mais velha disse à mais nova: "Ontem dormi com o pai. Vamos embebedá-lo também esta noite e tu vais dormir com ele para gerar descendência de nosso pai". Também naquela noite embebedaram o pai e a mais jovem dormiu com ele, que nada percebeu. Assim as duas filhas de Pão-de-Ló conceberam de seu pai. A mais velha deu à luz um filho a quem chamou de Manuel Joaquim das Pradarias, que é o antepassado dos atuais manuelinos. Também a mais nova deu à luz um filho a quem chamou de Joaquim Manuel das Padarias, que é o antepassado dos atuais padeiros.

E o Senhor das Alturas a tudo via. E o Senhor das Alturas disse: "Fazer o quê? Durante muito tempo, gostando ou não gostando, assim caminhará a humanidade, como se fora um filme do futuro, estrelado por atores famosos, que ainda vão nascer".

Próximo capítulo:
Assim caminha a humanidade

Notas dos Editores:
(¹) Carrumbamba : Enrascada; aperto; apuro.
(²) Mijar para trás : Faltar com a palavra dada.
(³) Esgalifamento : Destruição; devastação.

Notas complementares:
(a) Mestre Bimba, Besouro Mangangá e Mestre Pestinha:
famosos mestres da capoeira.
(b) Poeta de cordel paraibano:
possível referência a Manoel Camilo dos Santos.
(c) Ram'bora: corruptela de 'Vamos embora'.
(d) Assim caminha a humanidade:
possível referência a um filme de 1956 da Era Comum estrelado por
James Dean, Elizabeth Taylor e Rock Hudson.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009


Foto
de
Kenvin Pinardy


BALAIO PORRETA 1986
n° 2559
Rio, 5 de fevereiro de 2009

Entre a dúvida e a certeza,
procuro outras tangentes.
(Adriana Monteiro de Barros, in Pianos invisíveis, 2008)


PRONTO, FALEI
Julia Duarte
[ in J : D ]

Seus cabelos
abrem portas
e batem pernas

Se apresentam
e representam
um sonho vencido

Do alto
ela me convida
para um passeio

Na sua carne
Deito de olhos
abertos

Descubro
o que ela guarda
embaixo da roupa

Sua pele
segue minha língua
Sem atalhos

Fico horas e horas
sentindo seu corpo
igual ao meu

A água na cabeceira
me faz ter certeza
que ainda sou eu

Por mais um dia.


ALQUIMIA
Hercília Fernandes
[ in HF Diante do Espelho, em 16/12/2007 ]

Dei-te rosas.
Dei-te ventos em procissão.
Dei-te a primavera:
A lâmpada, louca, cega;
Vela de contemplação.

Dei-te o mar.
Dei-te beija-amores.
Dei-te estrelas na tarde.
Dei-te riso, siso, fabuladores...

Dei-te especiarias:
ouro, prata, cristal, pedrarias.
Dei-te cada flor-metal em romaria.
E meu pranto quieto, inquieto,
transmutado em alquimia:

- Deitando-me!...


O INTRUSO
Vivi Fernandes de Lima
[ in Chalé da Vivi ]

O intruso encontra comigo no bar
Beija minha mão, pede mais um
Puxa a cadeira, pede mais um
Come um bolinho, pede mais um
Paga a conta quando vem mais um.
O intruso me deixa em casa
Abre minha porta como se fosse dele
Abre minhas pernas como se fossem dele
O intruso vai embora tarde
Pede desculpas e deixa elogios.
Diz que qualquer dia volta
pra gente tomar mais um.
Mal sabe que amanhã mudo de endereço,
de cidade e de nome.
Mais um.

( Publicado originalmente no blogue No Front do Rio, de Cesar Tartaglia )


AVISO SUICIDA
Celso da Silveira
[ in Tempo de rir, 1984 ]

O locutor da Rádio Rural de Caicó, Nailson, lá pelo ano de 1976,
num programa de utilidade pública:

- Atenção Dantinha, sua mãe avisa que se suicidou,
mas não chegou a morrer.

Outra da Rádio Rural de Caicó

De Edmilson Silva, correspondente da emissora em Açu
[na região central do Estado]:

- Hoje, na Praça do Rosário, nesta cidade, foi encontrado
o cadáver de um homem morto.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009


A beleza da mulher de São José do Seridó:
a poeta e blogueira
Eliene Dantas
entre duas amigas


BALAIO PORRETA 1986
n° 2558
Rio, 4 de fevereiro de 2009


Ao homem exclusivamente masculino falta a graça necessária para dar forma objetiva aos seus sonhos mais sublimes e secretos; e a mulher exclusivamente feminina torna-se uma criatura cínica demais para ter o poder de sonhar.
(H.L. MENCKEN, Mulheres, 1918, in O livro dos insultos, 1988)


OLHOS COMO MEL
Marcelo Novaes
[ in O Lugar que Importa ]

Você não sabia que esses olhos
eram meus, eram claros, eram mel.
Nem que a voz soava violoncelo,
próximo ao Natal.

E que eu deixaria seu corpo doído
por uma semana, na única noite de cio
passada no chão.

Você não sabia que, no meu quarto,
a luz tremeluzia. E que meu respirar
comportava tal silêncio: desses que só
pode dar água corrente, o sol nascente,
uma manhã no Chile.

Você não sabia que cabia no existir
tal densidade: bem maior que o tônus
muscular colado aos ossos. Por você
tudo apalpado. E nem conhecia o amor
que era canto e língua procurando cada
canto e tudo que os outros haviam deixado
intacto. Amar amor gentil, antes e depois do
ato.

Você não sabia o outro nome, pelo qual
te chamaria, com insistência, a certa altura:
nome lindo de se colocar aqui agora. Aquele
que um dia - intuo muito bem porque -, você
enterrara. Mas eu te sei nome e sobrenome,
também lá e então, e desde sempre. E saberei
cem jeitos diferentes de te chamar, Adrianna.

SEM RESSALVAS
Adrianna Coelho
[ in Metamorfraseando ]

para Marcelo Novaes

eu não sabia que meu cabelo era agreste
e que refletiríamos em nossas íris

um ao outro – sobre o carpete –

e as cores dos crepúsculos

e das auroras...


nem sabia que poderia ter por horas

essa dança de águas nos olhos,

e esse sorriso na memória dos músculos

que me douraram a pele em nossa trança

de salivas e de silêncios...


e que me tornaria

ao mesmo tempo leve e densa,
com você profundamente dentro,

(em presença e ausência)

inteiro, unânime e múltiplo.


(diálogo com o poema Olhos como mel, de Marcelo Novaes)


terça-feira, 3 de fevereiro de 2009


Mulher mucabal,
angolana
Pintura
de
Albanno Neves e Sousa
(1921-1995)


BALAIO PORRETA 1986
n° 2557
Rio, 3 de fevereiro de 2009


Aos que admitem a morte de homens como John Ford, só a estes se deve dizer que homens assim não morrem e, portanto, Ford nem precisa ressuscitar. A sua personalidade estava sempre límpida na obra inigualável e luminosa
- que permanecerá.

(Antonio Moniz VIANNA, in
Correio da Manhã, 10/9/1973,
republicado em
Um filme por dia, org. Ruy Castro, 2004)


A MORTE DE UM CRÍTICO

Aos 84 anos faleceu, no Rio, o crítico de cinema Antonio Moniz Vianna, que se destacou na imprensa carioca sobretudo nos anos 60. Por ser extremamente conservador em suas preferências estético-cinematográficas, preferíamos outros nomes. Como, por exemplo, José Lino Grunewald (para nós, até hoje, o melhor de todos eles.) Mas sempre o respeitamos. A sua admiração por John Ford chegava a ser emocionante. O que não deixa(va) de ser mais um motivo para respeitá-lo.


DOMINGO DE MANHÃ
Suzana Vargas
[ in Sombras chinesas ]

Uma borboleta morta
voa
pelas páginas do caderno.


POEMA
Rubens da Cunha
[ in Casa de Paragens, em 29/07/2008 ]

a ilusão assovia
- aço sobre a carne -

gritolâmina
descascando
- lento e preciso -

o que é preciso
ser descascado


NA MESMA MOEDA
Líria Porto
[ in Tanto Mar ]

minhas dúvidas
nascem com esta certeza
: nunca é para sempre


UMA DADA MORTE, 22 ANOS DEPOIS

Ontem completou 22 anos de uma morte que me abalou profundamente. Não uma morte qualquer: a morte de um homem que eu não conhecia pessoalmente, mas que fazia parte de meus sonhos de infância, e que era responsável direto, ao lado de outras pessoas queridas, por uma das minhas maiores paixões, sempre e sempre. Ontem completou 22 anos de uma morte trágica: o suicídio de Carlos Castilho, goleiro do Fluminense de 1948 a 1965. (Segundo pesquisa realizada entre jornalistas pelo GloboEsporte, Castilho foi o maior goleiro da história do campeonato carioca, de 1906 até hoje.)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A arte digital de
Fátima Queiroz


BALAIO PORRETA 1986
n° 2556
Rio, 2 de fevereiro de 2009


A questão da origem da Bíblia é, em parte, histórica, ou seja, de quando cada um de seus livros foi escrito e de quando a coletânea passou a ser reconhecida como a única Escritura. Essas questões são difíceis de responder, porque nenhum livro da Bíblia traz a data em que foi escrito e poucos trazem o nome de seus autores, quanto mais um nome que seja autêntico. Precisamos inferir datas, autores e contextos a partir dos próprios textos, muitos dos quais, nas escrituras hebraicas, ainda foram ampliados e atualizados por outros
muito tempo depois.

(Robin Lane FOX. A Bíblia; verdade e ficção, 1991)


O LIVRO DOS LIVROS
(6a)
Texto estabelecido por
Moatidatotatýne, o Escriba

Zeferino Cabeção
e a destruição de Axé Musiqueta e Gonorreia
- Parte 1 -

E o Senhor das Alturas não gostou do que viu em Axé Musiqueta e Gonorreia. E o Senhor das Alturas resolveu visitar Zeferino Cabeção, revelando-lhe que estava disposto a acabar com as duas cidades. Zeferino Cabeção d'Ele aproximou-se e falou: "Vais realmente exterminar o justo com o ímpio? Se houvesse 69 justos nas cidades os exterminaria? Não perdoarias o lugar por causa dos 69 justos que ali vivem? O Juiz de toda a terra não faria justiça? Afinal, se muitos fornicam a qualquer momento, alguns são apenas libertários". O Senhor das Alturas respondeu: "Se eu encontrasse em Axé Musiqueta, ou em Gonorreia, 69 justos, perdoaria por causa deles as duas cidades".

Zeferino Cabeção prosseguiu e disse: "Sou bem atrevido em falar a meu Senhor das Alturas, eu que sou pó, poeira, pedra, pedregulho e palmeirense, e se houvesse 33, ou 24 apenas, perdoarias Axé Musiqueta, perdoarias Gonorreia? Não Te irrites, por favor". E Ele respondeu: "Pelos 33, ou 24 apenas, não as destruiria, nem uma, nem outra. Mas se nas duas não há sequer dez justos?" O Senhor das Alturas partiu e Zeferino Cabeção, inturido, voltou para os seus familiares, mais acabrunhado do que nunca.

Mais tarde, dois jagunços enviados pelo Senhor das Alturas chegaram a Axé Musiqueta, já que Gonorreia era um caso perdido, e lá procuraram pelas únicas pessoas que o Senhor das Alturas julgava decentes. E assim foi que os dois jagunços, depois de uma rápida volta pelos butecos e cabarés do lugarejo que mais parecia uma vila espanhola do século XX da Era Comum, dirigiram-se à casa de Pão-de-Ló. E a Pão-de-Ló anunciaram: "Esta cidade será bombardeada e completamente destruída pelos que vêm de muito longe, já que seus habitantes são pecadores, republicanos, libertários e não gostam do generalíssimo Senhor das Alturas". E mais disse: "Convém que o senhor, sua mulher e suas duas filhas aqui não fiquem. Vocês são pessoas justas e honestas".

E continuaram: "Na cidade, muitos nos viram e ficaram desconfiados e algum dedo-duro espalhou por aí o motivo de nossa viagem. Com isso, a multidão que se encontra lá fora quer nos fuder". E a multidão se impacientava. E a multidão se agitava. E a multidão cercou a casa de Pão-de-Ló, aos berrros. "Onde estão os homens que vieram à tua casa esta noite", gritava um. "Traze-os cá até nós para os conhecermos", berrava outro. "Quem são eles? De onde vieram? O que desejam de nós?", exaltavam-se todos.

E continuavam, furiosos: "Serão do Beco da Lama, na Cidade dos Reis? Da Maciel Pinheiro, em Campina Grande? Do Ponto Cem Réis, em Parahyba? Da Avenida Guararapes, em Recife? Da Praça da Liberdade, em Queicuó, por ventura? Se conhecem o cantador Zé Limeira, o amigo do jornalista paraibano Orlando Bodocongó, e o sanfoneiro Luiz Gonzaga, apreciador do forró pé-de-serra, certamente são boa gente. Caso contrário, não passam de uns cabras safados e merecem umas boas lamboradas, ou coisas piores".

Pão-de-Ló saiu-lhes à porta, fechou-as atrás de si e lhes disse: "Por favor, meus irmãos, não façais semelhante maldade. Vede, tenho duas filhas formosas, que ainda não conhecem homem. São virgens, acreditem. Vou trazê-las para fora. Podeis fazer com elas o que bem entenderdes, inclusive enrabá-las, mas nada façais a estes jagunços, pois são meus hóspedes". Armou-se então o maior cu-de-burro. As próprias filhas, dentro da casa, ao ouvirem as palavras do pai, protestaram com veemência: "O quê? De jeito nenhum! Ah, se as feministas já existissem... Ah, se Patrícia Galvão e Leila Diniz já tivessem nascido... Esse papo de dizer que defender a integridade de hóspedes é um dever consagrado pela tradição e pelas sagradas escrituras não passa de machismo vulgar. Sem o nosso consentimento, não seremos enrabadas por ninguém, ouviram? Por ninguém!"

( Continua )

Nota dos editores d'O Livro dos Livros

Inturido : aquele que não sabe o que dizer ou responder
Lamborada : chicotada; porrada

Cu-de-burro : confusão

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Van Gogh revisitado:
uma leitura digital a partir
das diretrizes básicas do poema/processo
por
Moacy Cirne


BALAIO PORRETA 1986
n° 2555
Rio, 1 de fevereiro de 2009

Vá tomar no blogger
seu filho da net.
(Fabiana Wazowski, in Aqui Jazz)


PRONTA
Vivi Fernandes de Lima
[ in Chalé da Vivi ]

Dessa vez, não chorei
O desprezo desceu
pela garganta
até meu ventre vazio.

Dessa vez, não te esperei
Preferi a dor seca,
o corpo esguio,
o riso vadio, o frio.

Valeu a pena ficar inteira
Foi bonita a cena
do meu descaso
Teu ego caído
me faz muito bem
Meu olhar distraído
atraiu outro bem

Dessa vez,
virei o jogo
virei a cara
pronta pra outra
pronta pra outro
bem melhor que você.
POEMA
Carlos Pena Filho (PE)
[ in Livro geral, 1959 ]

Senhora de muito espanto,
vestindo coisas longínquas
e alguns farrapos de sono,

eu vim para te dizer
que inutilmente contemplo
na planície de teus olhos
o incêndio do meu orgulho.

Senhora de muito espanto,
sentada além do crepúsculo
e perfeitamente alheia
a realejos e manhãs.

Eu vim, para te mostrar
que se inaugurou um abismo
vertical e indefinido
que vai do meu lábio arguto
ao chumbo do teu vestido.

Senhora de muito espanto
e alguns farrapos de sono,
onde o céu é coisa gasta
que ao meu gesto se confunde.

Um dia perdi teu corpo
nas cores do mapa-mundi.